domingo, 23 de outubro de 2016

Uma infância em preto-e-branco

Na última sexta-feira, dia 14 de outubro, a mídia noticiou o falecimento de Orival Pessini, aos 72 anos, criador e interprete do personagem Fofão, o boneco bochechudo que fez parte do programa infantil “Balão Mágico”, no início da década de 80. Junto com um grupo de alegres crianças (Simony, Tob, Mike e Jairzinho) , Fofão animava as manhãs, contando histórias sobre seu planeta distante, a Fofolândia, e fazendo muitas piadas. Não teve jeito, a minha memória recuou para as atrações que embalaram minha infância, ainda que em preto-e-branco.

Minha mãe tinha muitas dificuldades e só conseguia adquirir televisores de segunda mão. Nas décadas de 70 e 80 os aparelhos em cores eram muito mais caros. Lembro bem quando chegou a televisão da década de 70, lá por 1977, quando eu tinha uns quatro anos. Sim. Era em preto-e-branco, usada, e precisava durar anos, pois a possibilidade de adquirir uma nova era remota. Era um sábado. Entre os primeiros comerciais de programas que assisti em 14 polegadas estavam os “Banana Split” e “Os Flintstones”, que passavam no domingo. Mas minha atração predileta nesses tempos era mesmo o “Sitio do Pica-pau Amarelo”, que ia ao ar de segunda a sexta, por volta das 17 horas. Foi a melhor adaptação das histórias de Monteiro Lobato em forma de seriado, considerando-se todas as outras que vieram depois. Na época, meus desenhos prediletos eram “Looney Tunes” (A Turma do Perna Longa) e os inúmeros sucessos da “Hanna-Barbera”, como Scoobye-Doo, Formiga Atômica e Lula Lelé. Essa televisão funcionou até mais ou menos 1984. Quando estragava, não tinha jeito. Era esperar até surgir uma oferta de algo barato ou a doação por parte de algum amigo. Conformar-se com os gibis e livros da biblioteca da escola, com o rádio que também era velho e chiava. Nesse meio tempo assisti ao Balão Mágico e a desenhos da saudosa Rede Manchete (entre os quais o inesquecível “D’artagnan e os Três Mosqueteiros) na casa de uma vizinha, que tinha um filho pequeno também.

A televisão da década de oitenta chegou através de um presente da chefe da minha mãe, lá por 1985. Tinha 20 polegadas, essa, uma imagem bonita. Consegui acompanhar a fase final do Balão Mágico (já sem o Fofão), o herói japonês Spectremen e a encantadora série americana “O Elo Perdido”. Foi nessa época que a chave dos programas infantis “virou” com a chegada da Xuxa na Globo. Ao invés de crianças e bonecos, Xuxa e suas Paquitas eram louras insinuantes, com botas estilosas e pernas de fora, com danças e músicas sensualizadas, destilando malícia num ambiente infantil. Para um menino de uns dez anos, que já tinha ouvido falar da reputação da “Rainha dos Baixinhos” (com seu emblemático filme erótico), foi uma espécie de choque, uma ilusão que se quebrou. Os desenhos exibidos como “Smurfs”, “Os Caça-fantasmas”, entre outros, ainda eram interessantes, apesar do mal-estar.

Um dia a infância chegou ao fim. Em 1995, já trabalhando, comprei a primeira televisão em cores, novinha. Agora, em tempos de computadores, internet e torrents, tenho baixados muitos dos desenhos e programas que assisti quando pequeno. Meu filho mesmo já assistiu a muitas dessas preciosidades, aliás não dando muita bola pra elas. Dos desenhos contemporâneos que vemos juntos, só os Simpsons e o Bob Esponja são consenso. Hoje tenho dois televisores, o computador e o celular, todos em cores. E eu ainda sinto saudades do Fofão.

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