domingo, 23 de outubro de 2016

Vou-me embora pra Patópolis

Comentava ontem com meu amigo Marcelo a minha alegria por ter adquirido e estar lendo o primeiro volume de “O Pato Donald de Carl Barks: Perdidos nos Andes”. Ele traz histórias clássicas dos patos, em capa dura e papel especial, com colorização semelhante a original, cerca de 200 páginas, um primor. Serão publicados vários volumes desta coleção. A Editora Abril tem lançado uma leva de encadernados a partir de 2015, dos quais consegui adquirir quase todos, como "A Saga do Tio Patinhas", "Pato Donald 80 anos", "Contos de Natal", "Um brasileiro chamado Zé Carioca", entre outros.

Minha leitura dos gibis da Disney começou antes mesmo de eu saber ler. A mãe me trazia vários, e ela e a minha tia liam para mim. Lembro de num Natal eu ter ganhado um caminhãozinho e um Almanaque Disney. Achei o máximo, um monte de histórias. Já alfabetizado, comecei a colecionar as revistas (o que faço até hoje), sendo a minha predileta o “Disney Especial”, uma coletânea temática com histórias de diversos personagens em mais de 200 páginas de quadrinhos. Destaque para as aventuras do Tio Patinhas e sobrinhos, sempre às voltas com algum tesouro ou enfrentando os Irmãos Metralha e as do Mickey e Pateta em surpreendentes investigações contra o Mancha Negra ou o Bafo. Na década de 80, todas as sextas, ia com minha mãe à Tabacaria Recreio (no Bairro Menino Deus) e comprava todos(!) os títulos Disney disponíveis da semana. Lembro que eu e o Marcelo competíamos pra ver quem tinha a maior coleção...

Coisa que eu vim saber muito tempo depois, apesar das histórias todas serem assinadas por Walt Disney, seus verdadeiros autores eram desenhistas e roteiristas diversos, que trabalhavam para ele em vários estúdios. Um desses autores me chamava muito a atenção desde cedo, pelo traço perfeito, histórias com argumentos cativantes e geniais, com locações em lugares históricos ou exóticos. Descobri que ele se chamava Carl Barks. As publicações brasileiras não eram creditadas a ele (Walt Disney aparecia como autor), o que só passou a ser feito, se não me engano, lá pela década de 90. Mas todo o fã, desde pequeno, sabia identificar o traço de Barks como algo único. O cartunista americano roteirizou e desenhou as melhores tramas dos patos de todos os tempos, aperfeiçoando personagens originários de animações como o Pato Donald, conferindo-lhe humanidade, criando-lhe uma família e um universo, centrados na fictícia cidade chamada Patópolis. A grande maioria dessas histórias foram concebidas nas décadas de 40 e 60 (mais precisamente, de 1942 a 1966), com Barks trabalhando em casa sob demandas e enviando seus trabalhos por correspondência. Do seu talento genial surgiram, além do reinventado Donald, Tio Patinhas, Primo Gastão, Margarida, Professor Pardal, Vovó Donalda, os Escoteiros-Mirins, entre tantos.

Esses personagens são a melhor lembrança da minha infância, que em muitas outras áreas foi sofrida e difícil, me acompanhando até hoje nas leituras de colecionador. É incrível como, em momentos em que estou triste ou desesperançado, a leitura e releitura desses quadrinhos clássicos produz em mim um novo ânimo, como se eu me transportasse a um local longe de conflitos e problemas. Uma felicidade pura e autêntica, um pote de ouro no fim do arco-íris. Não tem tempo ruim, então. Vou-me embora pra Patópolis, lá sou amigo dos patos...

Uma infância em preto-e-branco

Na última sexta-feira, dia 14 de outubro, a mídia noticiou o falecimento de Orival Pessini, aos 72 anos, criador e interprete do personagem Fofão, o boneco bochechudo que fez parte do programa infantil “Balão Mágico”, no início da década de 80. Junto com um grupo de alegres crianças (Simony, Tob, Mike e Jairzinho) , Fofão animava as manhãs, contando histórias sobre seu planeta distante, a Fofolândia, e fazendo muitas piadas. Não teve jeito, a minha memória recuou para as atrações que embalaram minha infância, ainda que em preto-e-branco.

Minha mãe tinha muitas dificuldades e só conseguia adquirir televisores de segunda mão. Nas décadas de 70 e 80 os aparelhos em cores eram muito mais caros. Lembro bem quando chegou a televisão da década de 70, lá por 1977, quando eu tinha uns quatro anos. Sim. Era em preto-e-branco, usada, e precisava durar anos, pois a possibilidade de adquirir uma nova era remota. Era um sábado. Entre os primeiros comerciais de programas que assisti em 14 polegadas estavam os “Banana Split” e “Os Flintstones”, que passavam no domingo. Mas minha atração predileta nesses tempos era mesmo o “Sitio do Pica-pau Amarelo”, que ia ao ar de segunda a sexta, por volta das 17 horas. Foi a melhor adaptação das histórias de Monteiro Lobato em forma de seriado, considerando-se todas as outras que vieram depois. Na época, meus desenhos prediletos eram “Looney Tunes” (A Turma do Perna Longa) e os inúmeros sucessos da “Hanna-Barbera”, como Scoobye-Doo, Formiga Atômica e Lula Lelé. Essa televisão funcionou até mais ou menos 1984. Quando estragava, não tinha jeito. Era esperar até surgir uma oferta de algo barato ou a doação por parte de algum amigo. Conformar-se com os gibis e livros da biblioteca da escola, com o rádio que também era velho e chiava. Nesse meio tempo assisti ao Balão Mágico e a desenhos da saudosa Rede Manchete (entre os quais o inesquecível “D’artagnan e os Três Mosqueteiros) na casa de uma vizinha, que tinha um filho pequeno também.

A televisão da década de oitenta chegou através de um presente da chefe da minha mãe, lá por 1985. Tinha 20 polegadas, essa, uma imagem bonita. Consegui acompanhar a fase final do Balão Mágico (já sem o Fofão), o herói japonês Spectremen e a encantadora série americana “O Elo Perdido”. Foi nessa época que a chave dos programas infantis “virou” com a chegada da Xuxa na Globo. Ao invés de crianças e bonecos, Xuxa e suas Paquitas eram louras insinuantes, com botas estilosas e pernas de fora, com danças e músicas sensualizadas, destilando malícia num ambiente infantil. Para um menino de uns dez anos, que já tinha ouvido falar da reputação da “Rainha dos Baixinhos” (com seu emblemático filme erótico), foi uma espécie de choque, uma ilusão que se quebrou. Os desenhos exibidos como “Smurfs”, “Os Caça-fantasmas”, entre outros, ainda eram interessantes, apesar do mal-estar.

Um dia a infância chegou ao fim. Em 1995, já trabalhando, comprei a primeira televisão em cores, novinha. Agora, em tempos de computadores, internet e torrents, tenho baixados muitos dos desenhos e programas que assisti quando pequeno. Meu filho mesmo já assistiu a muitas dessas preciosidades, aliás não dando muita bola pra elas. Dos desenhos contemporâneos que vemos juntos, só os Simpsons e o Bob Esponja são consenso. Hoje tenho dois televisores, o computador e o celular, todos em cores. E eu ainda sinto saudades do Fofão.