sexta-feira, 19 de fevereiro de 2016

Sapato Surtado

Plantei minha medicação
No meu All Star preto, de cano largo,
E um pé de remédios, vários,
Subiu em direção ao céu
Plantação medicinal
Pra todos os receituários
Tinha flor de fluoxetina
E folhas de quetiapina
Pra um chazinho antidepressivo
Tinha anticonvulsivo
Sem choque, só de raiz
E para o equilíbrio do humor
Subia, tão serelepe
Um caulezinho de lítio...
Meu sapato surtado
Se eu deixar vai ser apreendido
No raiar da madrugada
Como droga não-legalizada...

terça-feira, 9 de fevereiro de 2016

Eco

Grito
Reverbero
Enunciando repetidas verdades
Inutilmente
Aos ouvidos surdos
E às consciências pesadas
Então, exausto... mudo.
Pois, de que vale ser sincero
Diante de tantos descrentes
E de outros tantos cínicos?
Sou não mais que o eco
Daqueles que falam sozinhos
O que a vil turba à força cala
O que queda natimorto
Na minha débil fala.

domingo, 7 de fevereiro de 2016

Nada Além Do Melhor

Celso comemorava o primeiro mês do seu caso com Cristina. Mais um entre os diversos que já tivera, para afugentar a monotonia do casamento. A nova secretária mostrara mesmo a que viera: o exauria noite após noite, nas reuniões privadas de fim de expediente. E ele a compensava, com dinheiro e influência. Mas de uma coisa ele não poderia ser acusado: de ser um marido relapso. Cobria a esposa Eliane de mimos e atenções. Caprichados e caros. Além de encobrirem suas ausências, os presentes mostravam sua dedicação para com ela, sua vontade de que ela não tivesse nada além do melhor. Tinha o cuidado de escolher, além das flores e das joias, até mesmo os mensageiros que levariam as mesmas à afortunada presenteada. Entre os vários rapazes da agência escolheu o mais bonito, alinhado e educado para fazer todas as entregas que havia planejado para a semana. Uma a cada dia. Tudo deveria sair com a mais absoluta perfeição. Mesmo tendo chegado após a meia-noite, com a desculpa de uma reunião de emergência com a área técnica, Eliane o esperava radiante com as Rosas do Cairo e a gargantilha de diamantes que foram entregues à tarde. E nem ligou quando ele alegou uma indisposição e vontade de deitar. Preparou-lhe um drinque e fez sua cama. E assim seguia o baile. A esposa, surpreendida diariamente com especialidades e luxos, ouros, pedras e flores raras, era cada vez mais receptiva, mais amorosa. Sempre esperando o cansado marido com um banho pronto ou um jantar a luz de velas para retribuir suas atenções diárias. Celso contava tudo como certo. Ao final do mês, visto que já enjoara um pouco de sua aventura com Cristina, faria uma viagem pela Europa com Eliane. Foi quando chegou em casa numa sexta-feira qualquer e não encontrou ninguém, nem o guarda-roupas de sua cônjuge, nem seus documentos ou passaporte. Sobre a penteadeira somente um pequeno envelope com um breve bilhete: “Fui brindada outra vez com mais um dos seus óbvios casos. No entanto aconteceu algo diferente, logo que seus habituais presentes começaram a chegar: conheci o Diogo, o entregador. Um jovem fascinante por quem me apaixonei. Para comemorar a descoberta de um amor de verdade em minha vida, comprei duas passagens pra Paris, juntei minhas joias e rapei nossa conta no exterior. Fica bem Celso, não te desejo nada além do melhor...”.

quarta-feira, 3 de fevereiro de 2016

Paleopoema

Num momento
Escrevo
Reescrevo
Revisito
Redescubro
A arte da palavra
Cada vez mais pedra talhada
Antes esforço, desgaste
Que talento e perícia
É a pré-história do verso
Devolver vida e vulto
Ao arqueológico sentimento.

terça-feira, 2 de fevereiro de 2016

Tons de Outono

Aqui é verão, mas sobre os amores chovem eternos outonos. Sobraram as folhas secas, com sua coloração amarelo-cinzenta como as de um quadro de um enlouquecido pintor impressionista. Todos se foram, só sobraram as solidões, que se sucedem dia a dia.