domingo, 23 de outubro de 2016

Vou-me embora pra Patópolis

Comentava ontem com meu amigo Marcelo a minha alegria por ter adquirido e estar lendo o primeiro volume de “O Pato Donald de Carl Barks: Perdidos nos Andes”. Ele traz histórias clássicas dos patos, em capa dura e papel especial, com colorização semelhante a original, cerca de 200 páginas, um primor. Serão publicados vários volumes desta coleção. A Editora Abril tem lançado uma leva de encadernados a partir de 2015, dos quais consegui adquirir quase todos, como "A Saga do Tio Patinhas", "Pato Donald 80 anos", "Contos de Natal", "Um brasileiro chamado Zé Carioca", entre outros.

Minha leitura dos gibis da Disney começou antes mesmo de eu saber ler. A mãe me trazia vários, e ela e a minha tia liam para mim. Lembro de num Natal eu ter ganhado um caminhãozinho e um Almanaque Disney. Achei o máximo, um monte de histórias. Já alfabetizado, comecei a colecionar as revistas (o que faço até hoje), sendo a minha predileta o “Disney Especial”, uma coletânea temática com histórias de diversos personagens em mais de 200 páginas de quadrinhos. Destaque para as aventuras do Tio Patinhas e sobrinhos, sempre às voltas com algum tesouro ou enfrentando os Irmãos Metralha e as do Mickey e Pateta em surpreendentes investigações contra o Mancha Negra ou o Bafo. Na década de 80, todas as sextas, ia com minha mãe à Tabacaria Recreio (no Bairro Menino Deus) e comprava todos(!) os títulos Disney disponíveis da semana. Lembro que eu e o Marcelo competíamos pra ver quem tinha a maior coleção...

Coisa que eu vim saber muito tempo depois, apesar das histórias todas serem assinadas por Walt Disney, seus verdadeiros autores eram desenhistas e roteiristas diversos, que trabalhavam para ele em vários estúdios. Um desses autores me chamava muito a atenção desde cedo, pelo traço perfeito, histórias com argumentos cativantes e geniais, com locações em lugares históricos ou exóticos. Descobri que ele se chamava Carl Barks. As publicações brasileiras não eram creditadas a ele (Walt Disney aparecia como autor), o que só passou a ser feito, se não me engano, lá pela década de 90. Mas todo o fã, desde pequeno, sabia identificar o traço de Barks como algo único. O cartunista americano roteirizou e desenhou as melhores tramas dos patos de todos os tempos, aperfeiçoando personagens originários de animações como o Pato Donald, conferindo-lhe humanidade, criando-lhe uma família e um universo, centrados na fictícia cidade chamada Patópolis. A grande maioria dessas histórias foram concebidas nas décadas de 40 e 60 (mais precisamente, de 1942 a 1966), com Barks trabalhando em casa sob demandas e enviando seus trabalhos por correspondência. Do seu talento genial surgiram, além do reinventado Donald, Tio Patinhas, Primo Gastão, Margarida, Professor Pardal, Vovó Donalda, os Escoteiros-Mirins, entre tantos.

Esses personagens são a melhor lembrança da minha infância, que em muitas outras áreas foi sofrida e difícil, me acompanhando até hoje nas leituras de colecionador. É incrível como, em momentos em que estou triste ou desesperançado, a leitura e releitura desses quadrinhos clássicos produz em mim um novo ânimo, como se eu me transportasse a um local longe de conflitos e problemas. Uma felicidade pura e autêntica, um pote de ouro no fim do arco-íris. Não tem tempo ruim, então. Vou-me embora pra Patópolis, lá sou amigo dos patos...

Uma infância em preto-e-branco

Na última sexta-feira, dia 14 de outubro, a mídia noticiou o falecimento de Orival Pessini, aos 72 anos, criador e interprete do personagem Fofão, o boneco bochechudo que fez parte do programa infantil “Balão Mágico”, no início da década de 80. Junto com um grupo de alegres crianças (Simony, Tob, Mike e Jairzinho) , Fofão animava as manhãs, contando histórias sobre seu planeta distante, a Fofolândia, e fazendo muitas piadas. Não teve jeito, a minha memória recuou para as atrações que embalaram minha infância, ainda que em preto-e-branco.

Minha mãe tinha muitas dificuldades e só conseguia adquirir televisores de segunda mão. Nas décadas de 70 e 80 os aparelhos em cores eram muito mais caros. Lembro bem quando chegou a televisão da década de 70, lá por 1977, quando eu tinha uns quatro anos. Sim. Era em preto-e-branco, usada, e precisava durar anos, pois a possibilidade de adquirir uma nova era remota. Era um sábado. Entre os primeiros comerciais de programas que assisti em 14 polegadas estavam os “Banana Split” e “Os Flintstones”, que passavam no domingo. Mas minha atração predileta nesses tempos era mesmo o “Sitio do Pica-pau Amarelo”, que ia ao ar de segunda a sexta, por volta das 17 horas. Foi a melhor adaptação das histórias de Monteiro Lobato em forma de seriado, considerando-se todas as outras que vieram depois. Na época, meus desenhos prediletos eram “Looney Tunes” (A Turma do Perna Longa) e os inúmeros sucessos da “Hanna-Barbera”, como Scoobye-Doo, Formiga Atômica e Lula Lelé. Essa televisão funcionou até mais ou menos 1984. Quando estragava, não tinha jeito. Era esperar até surgir uma oferta de algo barato ou a doação por parte de algum amigo. Conformar-se com os gibis e livros da biblioteca da escola, com o rádio que também era velho e chiava. Nesse meio tempo assisti ao Balão Mágico e a desenhos da saudosa Rede Manchete (entre os quais o inesquecível “D’artagnan e os Três Mosqueteiros) na casa de uma vizinha, que tinha um filho pequeno também.

A televisão da década de oitenta chegou através de um presente da chefe da minha mãe, lá por 1985. Tinha 20 polegadas, essa, uma imagem bonita. Consegui acompanhar a fase final do Balão Mágico (já sem o Fofão), o herói japonês Spectremen e a encantadora série americana “O Elo Perdido”. Foi nessa época que a chave dos programas infantis “virou” com a chegada da Xuxa na Globo. Ao invés de crianças e bonecos, Xuxa e suas Paquitas eram louras insinuantes, com botas estilosas e pernas de fora, com danças e músicas sensualizadas, destilando malícia num ambiente infantil. Para um menino de uns dez anos, que já tinha ouvido falar da reputação da “Rainha dos Baixinhos” (com seu emblemático filme erótico), foi uma espécie de choque, uma ilusão que se quebrou. Os desenhos exibidos como “Smurfs”, “Os Caça-fantasmas”, entre outros, ainda eram interessantes, apesar do mal-estar.

Um dia a infância chegou ao fim. Em 1995, já trabalhando, comprei a primeira televisão em cores, novinha. Agora, em tempos de computadores, internet e torrents, tenho baixados muitos dos desenhos e programas que assisti quando pequeno. Meu filho mesmo já assistiu a muitas dessas preciosidades, aliás não dando muita bola pra elas. Dos desenhos contemporâneos que vemos juntos, só os Simpsons e o Bob Esponja são consenso. Hoje tenho dois televisores, o computador e o celular, todos em cores. E eu ainda sinto saudades do Fofão.

domingo, 4 de setembro de 2016

Ensaio

Será que o sono é um ensaio pra morte?
Será por isso que durmo
Que vago em sonhos sem sentido
Será que há sonhos
Há sentido na morte?
Enquanto espero a hora derradeira
Mergulho em oníricas vivências
Toda a minha vida confusa condensada
No lixo do inconsciente, qual pântano movediço
Será que o sono é um ensaio pra morte?
Por isso há certa decepção ao acordar
Vontade de seguir perambulando qual andarilho das estrelas
Deixar de lado todas as lancinantes dores
Adentrar na nova realidade do nada...
Mas, se há sonhos?
Há de certa forma uma realidade acompanhada...
Durmo. Ensaio a tua hora. Não sei quanto demoras.
É tarde agora. Hora de dormir, e de ensaiar tua peça limítrofe
Entre o que é breve. E o que é eterno...

quinta-feira, 28 de julho de 2016

Um quase agosto

Fins de tarde gelados
Se sucedem, implacavelmente.
Ao menos o é céu limpo
Como um corte seco, cicatrizado sobre a pele.
Pensamentos conflituosos, emoções em desalinho,
Tantas direções a tomar
E o tempo que falta, meu Deus,
O tempo que falta, agora, é tão pouco...
Já é quase agosto
E hoje, propositalmente,
Eu me recuso a rimar.

sexta-feira, 15 de julho de 2016

Estrelinha

Brilha entre nuvens minha estrela triste
Brilha no frio, na desolação que insiste.
Brilha sozinha, tão solitária incide
Tão pobrezinha, diante do esplendor da lua
Quem sabe terá, quiça um dia,
Outra estrelinha pra acompanhar a sua...

quarta-feira, 13 de julho de 2016

A preço de custo

Se me vires por aí, nalguma esquina
Vendido a preço muito barato
Não te espantes!
Busco o sustento e a dignidade,
Que a vida não me ofereceu
E por uns poucos réis
Durante pouco tempo,
Tu podes me chamar de teu
E lavar o chão com minha vaidade!
Mas não vais levar o que tenho
De mais meu... minha liberdade...

Achados & Perdidos

Todos os amores idos
Podem ser encontrados
Numa imensa sessão
De achados e perdidos
Irremediavelmente perdidos...

terça-feira, 12 de julho de 2016

Fragmento

A barba por fazer indica descaso. Desistência. As poucas e tantas coisas boas que guardo comigo já não causam interesse, já não tem sentido. A dor é soberana e corta todas as sensações. Paradoxalmente eu perco até a fome, último reduto dos meus prazeres. Resta cada vez mais nada, e o relógio caminha inexorável para o nada, para o fim. O fim que dissolve as coisas, que promete não restar mais nada, sobretudo essa sensação de fracasso rotundo que me acompanha desde os primeiros dias. A dor é a chave para a libertação dessa aprisionante rotina. Girar a chave é livrar-se dela.

sábado, 9 de julho de 2016

O Abraço

Chegou a hora
Quando te deparas com o negro manto...
Ela esteve a tua espreita durante tantos anos
E agora, que todos os caminhos convergem em sua direção,
Já não tens mais escolha
Sobra uma sensação de desapego forçado
Das coisas e, sobretudo, das pessoas que amas
Amor... Não foste feito pra todos.
Nessa viagem da vida eu sempre fui um náufrago...
Agora, o que vai ser o tempo a seguir até o fatídico ato?
Uma triste e angustiante espera?
Nada mais me restou...
Por outras mão, ao mundo vim
Por minhas mãos, ao Inferno vou
Mas a eternidade no Hades não há de ser pior
Que esse viver incompleto
Que a vida, avara, sempre me dispensou
Eu hei de ser poeira levada
Nos ventos de Porto Alegre
Eu hei de ser uma estrela fugidia
Nas noites em que meu filho lembrar de nós
Eu hei de ser nesse abraço, ó Morte, um pouco da minha voz
E vou cantar ao teu ouvido
Uma última e alegre canção, que levo comigo.

terça-feira, 28 de junho de 2016

Julho de 2011

Queria falar de coisas tristes,
Mas tais me emudecem.
Queria lembrar o meu passado,
Mas tudo me esquece.
Queria esquecer quem sou,
Mas o relógio me lembra
Que já é hora de encarar
O espelho...
O espelho está quebrado
E verte sangue dos seus cacos.
Do caleidoscópio
Que resulta em minha imagem,
Há uma morte para cada ângulo.
Já não me deixo mais;
Antes, me fustigo.
Há mais que esperar da miséria
Que a falsa ilusão de um abrigo.

De passagem

O poema é como briza de chuva; quando passar, deixá-lo ir, com suas dores e cheiro de terra molhada...

quinta-feira, 23 de junho de 2016

Angústia

O relógio está parado
Encaras o passado
E ele é mais luminoso
Que o teu futuro
Ou pálido presente
Perdestes por ai a sorte
Restou no teu caminho a Morte
E, ainda que não saibas em qual curva,
Ela lá está.
Nas curvas das tuas veias
Nas vielas da tua mente
A Morte é certa
Não mente.

segunda-feira, 20 de junho de 2016

Começou o inverno...

Começou o inverno
Sem grandes novidades;
Minha vida foi sempre geada
Sempre frio, silêncio, madrugada
Sempre chuva ao cair da tarde
Sempre o gelo a castigar o corpo
Sempre os caminhos, de alegrias, mortos
Sempre os amigos ausentes,
Uma presente espera
Não há de ser nada, enfim
Um dia há de chegar o fim:
A primavera.

quinta-feira, 16 de junho de 2016

Fábulas

Agora, quando todos os amores
São, quando muito, saudades
E o grande muro cerca, soberbo
Quaisquer sentimentos possíveis
Mas não mais factíveis...
Eu, diante disso, prefiro então,
Ao invés de amar
Crer nas fábulas distantes
Que consolam o coração
Quiça, como triste canção,
E não se consumam
Nem viram desilusão.

domingo, 22 de maio de 2016

Não-Química

Eu fui precipitado contigo
Não rolou nenhuma reação
Não precisas usar desse humor ácido
Esses desencontros são básicos, afinal...

Travessia

Estou fazendo um inventário dos meus passos
Tentando entender como cheguei até aqui
Parti de tantos lugares...
Hoje me quedo sozinho
Não contemplo um novo porto em frente
Talvez por azar, talvez por miopia
E não adianta mais olhar para trás
Não há abraços para que voltar...

sexta-feira, 20 de maio de 2016

Dia Cinzento

Dia cinzento
Tristeza se avizinha
A alma é um lamento
Até a solidão é sozinha
Dia tão lento,
Nem as horas passam
Se arrastam pensamentos
E os sentimentos devassam
Dia difícil, tão fraco me sinto
Queria pelo menos
Um rasgo de sol, um riso de criança
Algum motivo pra lembrar
De uma distante esperança...

quarta-feira, 18 de maio de 2016

Depois do temporal...

Nada mais era normal
Depois do temporal
Havia que reconstruir a casa
De fundações abaladas
Havia que remendar as asas
Sobras de Ícaro, rasgadas
E encontrar os ases, do baralho perdido...
Havia que silenciar o bramido
Daquele pranto incontido
Diante de tanta ilusão, perdida
Havia um resto a que chamar de vida
Havia uma vida maior que esse resto
E um caminhar, ainda que titubiante,
Em direção a um outro lugar
Um outro lugar melhor do que dantes.

segunda-feira, 16 de maio de 2016

Houdini

Mergulhado em água, da cabeça aos pés
Camisa-de-força e correntes, com muitos cadeados
Essa é a vida, uma caixa mortal com poucas possibilidades
De fuga. Fujas, enquanto puderes... Mas para onde?
Aproveita bem teus sessenta segundos de ar
Bola uma escapatória, enquanto a platéia te assiste, e delira!
Afinal, és o espetáculo! E os que te olham, te dizem,
Do alto de sua sanidade:
"Essa caixa é uma ilusão"
"As correntes foram forjadas por tua mente"
"Se te faz mal, sai daí e vai dar uma volta no parque"
Uma volta? O cachorro louco só corre atrás do próprio rabo
Não está habituado mais a passeios. Nem eu.
Deixa estar, que inda me liberto desse circo sem pão,
Onde fizeram meu viver...

segunda-feira, 9 de maio de 2016

Dores sem rima, sem métrica

Hoje me quedo só...
Com minha Porto de fim de tarde
Alegre? Talvez um dia, mas hoje triste
Um pouco sombria, um tanto deserta...
Minha alma vazia, mergulhada em dores
Alguns desamores e tantos outros prantos
Que mais é essa vida senão um engano?
Afinal, a única derradeira certeza é seu ponto final.
Me leva, Porto Alegre, porque não vivi ainda
Nas tuas tantas ruas
Sequer um dia feliz.

quinta-feira, 5 de maio de 2016

Extremos

Um dia, por sorte,
Ou quiçá Deus, ou o Destino?
Se encontraram...
Ele era do Sul
Ela era do Norte
No mais, assim,
Eram afins:
As mesmas dores
As mesmas cores
Os mesmos sons
E um tom
De um sotaque
Elegante
Que o encantou
Num instante...
Se vai faltar rima
Em algum momento?
Não há de ser nada!
Sobra sentimento
E o coração que viaja, criança,
Pondo de lado a distância...

terça-feira, 3 de maio de 2016

Pretérito Futuro

Triste quando as perspectivas
Perdem sempre
Para as retrospectivas
Irremediavelmente perdidas...

sexta-feira, 1 de abril de 2016

Estado de Espírito

Evidentemente eu estou apaixonado. Só me falta o objeto.

segunda-feira, 21 de março de 2016

Romantismo Pragmático

A minha preocupação mais imediata
É que o meu coração pare...

domingo, 20 de março de 2016

Dados Viciados

Estou jogado em minha vida
Tal qual em mesa de apostas
Entre Deus e o Diabo
Dos ideais e riquezas
Que trago,
Poucos me valem
Nesse instante lúdico
Entre o Céu e o Inferno
O tormento é a ficha
Preciosa
Ansiada com extrema cobiça
Por meus indiferentes adversários
Sou eu tão somente um peão
Cujos dados Viciados
Estão nas mãos
Cruéis
Da Loucura e da Razão.

A Linha

Qual o limite
Entre o normal
E a insanidade?
Quanto me falta
Para cruzar a linha?
Eu, que há tempos a tenho
Limítrofe...
Fronteira do meu território
Não sei onde piso, Em quais terras...
Se as invadir
Certo,
Deve haver guerra.
Onde serei o Estado Ou o rebelde?
Passei minha vida às portas
Desse reino obscuro
Hoje, com a vista cansada,
Quase acostumada
Ao escuro,
Será quiça natural o dia,
Quando chegar o eclipse
Da consciência
Em que me veja nobre
Como um rei Na indigência...
Débil sanidade...
Sutil demência...
Agora eu percebo
Que cá estou
Do "lado de lá" da linha
Há tanto,
Que nem percebi a Loucura
Desvairada dama,
Que, por seus caminhos,
Me guiou
Envolto em seu manto...

quinta-feira, 10 de março de 2016

Amor Platônico

Nunca se acaba o amor
Que nunca começou...

Voando Baixo

Não sei quanto tempo mais me resta até o fim do combustível. Vou pilotando meu velho avião alemão, da Segunda Guerra, voando baixo para ser indetectável aos radares, fuselagem corroída, mantendo-me no ar a despeito do escárnio dos deuses... Os inimigos estão lá em baixo, junto com os outros, e não se pode discernir deles quem é quem. Todos me odeiam, não sei se em resposta ao meu ódio recíproco ou por simplesmente exercerem a “natureza humana”, competitiva, destrutiva, torpe e egoísta. Um dramaturgo francês declarou certa feita que “o inferno são os outros”. É uma profunda verdade. Sempre experimentei o inferno nos falsos amigos ou nos inimigos declarados. Nunca passei por um lugar sem deixar para trás meia dúzia de desafetos, no mínimo. Do que dizem de mim, sobram insultos e calúnias. Só conduzo meu avião rumo à terra nenhuma, pela simples e imperiosa necessidade de voar. Ainda assim, gostaria de mais tempo, apenas um pouco mais. O instinto de sobrevivência, independentemente do cenário, reafirma-se a despeito de tudo. Quando eu cair só restará o ferro retorcido, que será coberto por plantas, que serão cobertas pelo nada. Seria esse o significado da vida? Voar, seria apenas um sonho? De Ícaro...

terça-feira, 8 de março de 2016

Edward Mãos-de-Lítio

Ando um tanto timburtoniano
Quase, eu diria,
Parkinsoniano...
Minhas mãos-de-lítio
Tremem tanto
Que sacodem até
Essa pena
Com que escrevo...
Pena?
Não tenha pena, amigo!
Com isso convivo,
Coexisto
Visando equilibrar
Meu humor... ou humores?
Mau-humor... ou apenas dores...
Mas como livrar-me
Desses tremores
E da tristeza
Se desequilibro
Tudo o que toco?
Copo, prato, talher
Criança, homem, mulher
Tudo à minha volta treme
Nessa viagem bipolar
E perene...
Como fosse eu
O epicentro
De um terremoto
Descontrole remoto...
Sério, dispenso a Escala Richter.
A mim, me basta
Uma litemia Sérica*
Será o máximo
Descobrir, novamente,
Que não cheguei ao nível
Total Do metal No meu sangue.
Somente ao cúmulo
Dos tremores,
Mantendo-se, ainda assim,
O desvario
Dos humores... Dores... Lamentos...
Lamento.
Tremendo, nesse momento,
Dou adeus a tudo
Nesta vida
Que não foi feito para mim:
Amores, alegrias,
Conquistas, fantasias,
Risadas, botequins...
Tremendo, deixo espatifar-se
O copo (Minhas mãos-de-lítio a dançar...)
De sicuta.
Enfim,
Espero ter conseguido beber
O suficiente,
Para que chegue logo o fim...
Enquanto o espero Tremendo.

Lirismo Bipolar

Hoje, vou cantar
Maravilhas
Ou lamentar
Misérias?
Se nem eu sei!
Olho na biruta
Porque, o que represento,
Vem ao sabor
Do vento...

terça-feira, 1 de março de 2016

Fantasmas

São nossas culpas
E arrependimentos
A arrastarem-nos por ai
Correntes pesadas
A repetir eternamente em ais
O nosso último suspiro
É a saudade do que deixamos
Antes de saber o quão precioso
Era aquilo que estávamos perdendo.

sexta-feira, 19 de fevereiro de 2016

Sapato Surtado

Plantei minha medicação
No meu All Star preto, de cano largo,
E um pé de remédios, vários,
Subiu em direção ao céu
Plantação medicinal
Pra todos os receituários
Tinha flor de fluoxetina
E folhas de quetiapina
Pra um chazinho antidepressivo
Tinha anticonvulsivo
Sem choque, só de raiz
E para o equilíbrio do humor
Subia, tão serelepe
Um caulezinho de lítio...
Meu sapato surtado
Se eu deixar vai ser apreendido
No raiar da madrugada
Como droga não-legalizada...

terça-feira, 9 de fevereiro de 2016

Eco

Grito
Reverbero
Enunciando repetidas verdades
Inutilmente
Aos ouvidos surdos
E às consciências pesadas
Então, exausto... mudo.
Pois, de que vale ser sincero
Diante de tantos descrentes
E de outros tantos cínicos?
Sou não mais que o eco
Daqueles que falam sozinhos
O que a vil turba à força cala
O que queda natimorto
Na minha débil fala.

domingo, 7 de fevereiro de 2016

Nada Além Do Melhor

Celso comemorava o primeiro mês do seu caso com Cristina. Mais um entre os diversos que já tivera, para afugentar a monotonia do casamento. A nova secretária mostrara mesmo a que viera: o exauria noite após noite, nas reuniões privadas de fim de expediente. E ele a compensava, com dinheiro e influência. Mas de uma coisa ele não poderia ser acusado: de ser um marido relapso. Cobria a esposa Eliane de mimos e atenções. Caprichados e caros. Além de encobrirem suas ausências, os presentes mostravam sua dedicação para com ela, sua vontade de que ela não tivesse nada além do melhor. Tinha o cuidado de escolher, além das flores e das joias, até mesmo os mensageiros que levariam as mesmas à afortunada presenteada. Entre os vários rapazes da agência escolheu o mais bonito, alinhado e educado para fazer todas as entregas que havia planejado para a semana. Uma a cada dia. Tudo deveria sair com a mais absoluta perfeição. Mesmo tendo chegado após a meia-noite, com a desculpa de uma reunião de emergência com a área técnica, Eliane o esperava radiante com as Rosas do Cairo e a gargantilha de diamantes que foram entregues à tarde. E nem ligou quando ele alegou uma indisposição e vontade de deitar. Preparou-lhe um drinque e fez sua cama. E assim seguia o baile. A esposa, surpreendida diariamente com especialidades e luxos, ouros, pedras e flores raras, era cada vez mais receptiva, mais amorosa. Sempre esperando o cansado marido com um banho pronto ou um jantar a luz de velas para retribuir suas atenções diárias. Celso contava tudo como certo. Ao final do mês, visto que já enjoara um pouco de sua aventura com Cristina, faria uma viagem pela Europa com Eliane. Foi quando chegou em casa numa sexta-feira qualquer e não encontrou ninguém, nem o guarda-roupas de sua cônjuge, nem seus documentos ou passaporte. Sobre a penteadeira somente um pequeno envelope com um breve bilhete: “Fui brindada outra vez com mais um dos seus óbvios casos. No entanto aconteceu algo diferente, logo que seus habituais presentes começaram a chegar: conheci o Diogo, o entregador. Um jovem fascinante por quem me apaixonei. Para comemorar a descoberta de um amor de verdade em minha vida, comprei duas passagens pra Paris, juntei minhas joias e rapei nossa conta no exterior. Fica bem Celso, não te desejo nada além do melhor...”.

quarta-feira, 3 de fevereiro de 2016

Paleopoema

Num momento
Escrevo
Reescrevo
Revisito
Redescubro
A arte da palavra
Cada vez mais pedra talhada
Antes esforço, desgaste
Que talento e perícia
É a pré-história do verso
Devolver vida e vulto
Ao arqueológico sentimento.

terça-feira, 2 de fevereiro de 2016

Tons de Outono

Aqui é verão, mas sobre os amores chovem eternos outonos. Sobraram as folhas secas, com sua coloração amarelo-cinzenta como as de um quadro de um enlouquecido pintor impressionista. Todos se foram, só sobraram as solidões, que se sucedem dia a dia.

sábado, 23 de janeiro de 2016

O Queijo

A última safra tinha sido o ponto final de uma vida inteira dedicada à terra. Dona Eulália, Seu Bento e o filho Zeca tinham agora que encarar o rumo da cidade em busca de serviço. Qualquer serviço. A praga devorara o milho até não restar nada. Dava a impressão até que, em seu voraz apetite, a praga devorara a si mesma inclusive, numa violenta autofagia. Os poucos pertences da família, em trouxas, já estavam arrumados para a partida na primeira hora da manhã. Pegariam o caminho com o carroceiro que levava as verduras à Santana. Deram três contos por cabeça por um transporte lento e judiado.
Aquela janta seria a derradeira em casa, com os parcos recursos que sobraram da família. Dona Eulália chegou do mercado com dois pacotes, o habitual de farinha e outro que causou estranheza a Seu Bento: grosso, bem embalado em papel branco, amarrado com uma cordinha. Zeca também parou pra olhar, curioso do que seria. Dona Eulália se adiantou:
- Trouxe a farinha pro mingau salgado. E mais uma coisa. Como é nossa última refeição aqui, trouxe um queijo. O dinheiro que sobrou deu pra um pedaço modesto, mas é do melhor. Dá uma fatia grande pra cada um.
Nisso ela foi desnudando o pacote, abrindo com delicadeza a cordinha, retirando lentamente o papel. O cheiro do queijo chegou ao olfato dos três, encontrando a fome que traziam consigo, uma fome que não era de ontem somente, era de toda uma vida desvalida e aliviada tão somente no mínimo. Foi então, sem mais, que o demônio da cobiça e da discórdia se instalou entre os três. Cobiçaram aquele queijo, não uma lasca apenas, mas a sua totalidade. Naquela hora, eles quiseram o queijo com o desejo mais egoísta que se pode desejar. Eles desejaram com raiva e beligerância em seu íntimo. Fez-se porém silêncio em suas intenções; um não sabia da ameaça que o outro representava por uma porção a mais daquele manjar, que parecia ser a última fatia digna de uma vida que acabava no campo para virar algo diferente, algo pior do que já fora.
Quietos, faziam planos para terem o prazer de usufruir sozinhos do deleite do queijo. Naquele momento, não importavam consequências, o que viria a seguir. Importava apenas se apropriar sozinho do manjar, saciar o desejo ardente, tão somente. O resto era o resto.
Dona Eulália se achegou ao velho fogão a lenha para preparar o mingau salgado. Zeca pensava numa forma de pegar o queijo e sair dali correndo. Seu Bento procurava a arma pra ameaçar o filho e a esposa enquanto comeria sozinho o pomo da discórdia.
- Vamos sentar pra comer – disse Dona Eulália, servindo a porção de mingau de cada um. Os dois homens comiam lentamente, calculando o momento certo de agir para apossarem-se do queijo. Foi quando uma sensação estranha, de mal-estar, tomou conta deles: num instante estavam caídos no chão, convulsionando entre a vida e a morte. – Aquele veneno de rato viera a calhar – pensou Dona Eulália. E sentou-se diante do queijo com um ar tranquilo, apreciando aquela dádiva com todos os sentidos, lentamente. Uma refeição nobre como nunca tivera em toda sua vida. Depois tomaria também sua porção de mingau.