sexta-feira, 30 de outubro de 2015

Obituário

Todos os dias, quando se olhava no espelho, não via mais o rosto do menino. Seu rosto. A geografia da face avançava incoercível para inúmeros acidentes de desfiguração e envelhecimento. Ele também não sorria, não mais. A angústia e as mágoas eram uma constante, o motivo até esquecera. Havia eram motivos para não sorrir. Aquele cara ingênuo e afetuoso, que procurava sempre o melhor dos outros, já não estava mais lá. Apenas nas páginas do obituário. E quem ficou em seu lugar se asseguraria de que continuasse morrendo, dia após dia.

quinta-feira, 22 de outubro de 2015

Poesia sem nome

Num tempo em que a minha poesia
Virou um voltar-se pra dentro
Eu e apenas eu
Largados numa tarde fria...
Era evitar o encontro
Sem amores e outros monstros
Para ter a certeza De que a solidão
- Ainda que árida -
Era ao final serenidade
Já o final?
Num tempo em que, na verdade,
A restante realidade, meu único ar,
Era tudo em que eu deixei de acreditar.