segunda-feira, 18 de maio de 2015

Cascas

Já tive tantos sonhos...
Tantos projetos, planos
Que foram descartados
Um após o outro
Ao longo do caminho
Como cascas,
Secas e douradas...
Mas sempre havia um próximo, não?
E agora chego
A essa encruzilhada
Da vida e do tempo
E eis que não há mais
O que deixar
Caído por aí
A não ser meu próprio corpo
Testemunho mudo
De um final sem perspectivas.

sexta-feira, 15 de maio de 2015

Os anjos

Canseira, gente
Desse viver doido
Das fábricas, dos homens,
Sua fuligem
Me deixa dormir ali,
Naquela nuvem
Em meio às risadas
Celestes
Daqueles anjos, em revoada...
Me deixa dormir...
Só dormir
O meu derradeiro sono
E não sentir mais nada.

segunda-feira, 11 de maio de 2015

O monte

O pastor viveu anos na planície, cobiçando alçar-se ao alto monte que dominada a vista de sua antiga vila. Ali, entre suas ovelhas, as flores e a delicada vegetação, cobiçava as imensas alturas, a aspereza do toque das rochas eternas, os espinhos que ali estariam presentes, naquele distante e inalcançável cenário. Um dia, superando todos os medos e receios da escalada, colocou-se em marcha com apenas alguns mantimentos. Seguiu por dias a fio, e sucederam-se as chuvas, o forte vento e o frio inclemente. Enfim, chegou. Finalmente, do topo, avistou o horizonte abaixo e sua imensa visão, desfrutando do silêncio da montanha e do toque dorido dos cactus em seus pés. Foi quando sentiu, de repente. Levou tantos anos sonhando com aquela travessia, com aquela chegada, para isso? Chegar então ao inóspito, para saber-se assim enganado e desejar simplesmente o amor suave das delicadas rosas, lá de baixo, onde estivera por toda sua vida... Agora era tarde demais, afinal. Já estava no alto. Muito alto.

domingo, 10 de maio de 2015

Letra sem música

Tudo igual no meu
Porto Alegre.
Como sempre, pouco alegre.
As coisas boas? Poucas...
E as novas pessoas, que venho a buscar
Com tanto afinco?
Parecem tão velhas, tão somente
Sempre as mesmas...
Fantasmas, num presente.
Ensaios, descrentes, num futuro...
Só mais e mais me convenço
Que a minha solidão é o que eu mais
Afago, mereço
Para o bem ou para o mal...
Penso... Teço.
E o tempo que passa
Me envelhece e refina,
Como a um encorpado e sangrante vinho
Num escuro fundo de um antigo
Barril de carvalho
Talvez algum dia
Quem sabe?
Eu ainda valha a pena
Ser bebido...

domingo, 3 de maio de 2015

Balada de um amor amordaçado

Tenho uma verdade que quer gritar
Mas que, covarde, se cala
E fica, e se atormenta,
Nas masmorras do meu peito,
Nas noites em claro do meu leito
Em todas as conversas em que, acuado,
Sinto em dizer o seu contrário...
Em todos os amores silenciados
Tenho uma vontade que quer gritar
Mas que covarde, se cala
E já se faz tarde, mas talvez chegue o tempo
Em que, qual fissura nuclear, ela exploda
Desintegrando todas as suas incertezas
E o seu grito extremo se faça silêncio
E que, corajosa, se liberte
E varra milhões de quilômetros
Com seu jeito certo
Pois, do amor, não há vetor
Nem inverso.