segunda-feira, 16 de novembro de 2015

Trilha Sonora

Eu nunca tive a "nossa música". Ou melhor, se a tive, quando o inevitável fim chegou (ele sempre chega) me reapropriei dela, exorcizando sentimentos e lembranças. Hoje ainda as tenho, todas as músicas; elas são solitariamente só minhas.

sexta-feira, 30 de outubro de 2015

Obituário

Todos os dias, quando se olhava no espelho, não via mais o rosto do menino. Seu rosto. A geografia da face avançava incoercível para inúmeros acidentes de desfiguração e envelhecimento. Ele também não sorria, não mais. A angústia e as mágoas eram uma constante, o motivo até esquecera. Havia eram motivos para não sorrir. Aquele cara ingênuo e afetuoso, que procurava sempre o melhor dos outros, já não estava mais lá. Apenas nas páginas do obituário. E quem ficou em seu lugar se asseguraria de que continuasse morrendo, dia após dia.

quinta-feira, 22 de outubro de 2015

Poesia sem nome

Num tempo em que a minha poesia
Virou um voltar-se pra dentro
Eu e apenas eu
Largados numa tarde fria...
Era evitar o encontro
Sem amores e outros monstros
Para ter a certeza De que a solidão
- Ainda que árida -
Era ao final serenidade
Já o final?
Num tempo em que, na verdade,
A restante realidade, meu único ar,
Era tudo em que eu deixei de acreditar.

quinta-feira, 10 de setembro de 2015

No Corredor Da Morte - I

No corredor da morte, o preso pensava que agora faltava pouco. Estava paradoxalmente tranquilo e resoluto. Não temia, antes ansiava pelo final. O que o incomodava era essa estranha sensação de vazio, de não querer nada, de não apegar-se. Pelo menos já sabia qual seria sua última refeição, a ser pedida ao carcereiro na véspera. Mas até lá, faltando ainda uma semana até a execução de sua sentença, que faria ele para preencher o tempo? O que estivera sempre disponível ao seu alcance? Livros, música, filmes? O "jogo da forca"? Não, a essa altura sem piadas de mau-gosto...

terça-feira, 8 de setembro de 2015

Meu por...

Meu Porto, não muito alegre,
Vontade de me pôr
Com teu sol
E acordar somente
Num outro dia...

quarta-feira, 2 de setembro de 2015

Castelo

A solidão é um imenso castelo...
Com todas as suas pedras milenares
Todas as suas salas imensas, vazias,
Todo o seu mobiliário secular,
As armaduras, as armas, as tapeçarias
As correntes espessas, ah, as correntes!
Que os fantasmas, displicentes, arrastam
Pelos infindáveis corredores, à luz do luar...
As correntes que eu arrasto.
Toda essa construção, de mim mesmo,
É plena, sobretudo, de tudo aquilo o que me falta:
De amigos, companheiros e de amores
Da luta, do trabalho e do passar dos dias
De noites cheias e tardes vadias
Uma falta que tudo preenche.
Mas a alguém, ainda posso chamar?
Sim? Venhas, não tenhas medo
Desse tão assombroso espetáculo!
Nesse drama, mais que arquitetônico, humano
Ainda resta uma sala com um fogo aceso
E algumas histórias, com algo de aconchegante,
Pra contar... Venhas logo, todavia
Antes que eu me aclimate à essa paisagem
E seja ao final, tão somente espessa,
A poeira dos séculos...

domingo, 16 de agosto de 2015

Poema ao menino

Que alegria e risos quando tu chegas
E passas comigo as horas, sem vê-las passar
E tudo é magia, aventura e encantamento
Triste quando te vais, e os dias e as horas
Volto a contar, a lamentar tuas demoras
E esse tempo, entre tuas chegadas e partidas
Que devo preencher, ainda que mais não saiba
Com o que me resta dos restos da vida.

sexta-feira, 7 de agosto de 2015

Ponto final

Eu hoje queria muito escrever
Sobram os motivos
Faltam as palavras
Sobram os mutismos
E os sentimentos em conflito
Que o interior agitam
Aqui fora, mortos
Antes de frase qualquer
Derrotadamente aplicam
O ponto final.

segunda-feira, 18 de maio de 2015

Cascas

Já tive tantos sonhos...
Tantos projetos, planos
Que foram descartados
Um após o outro
Ao longo do caminho
Como cascas,
Secas e douradas...
Mas sempre havia um próximo, não?
E agora chego
A essa encruzilhada
Da vida e do tempo
E eis que não há mais
O que deixar
Caído por aí
A não ser meu próprio corpo
Testemunho mudo
De um final sem perspectivas.

sexta-feira, 15 de maio de 2015

Os anjos

Canseira, gente
Desse viver doido
Das fábricas, dos homens,
Sua fuligem
Me deixa dormir ali,
Naquela nuvem
Em meio às risadas
Celestes
Daqueles anjos, em revoada...
Me deixa dormir...
Só dormir
O meu derradeiro sono
E não sentir mais nada.

segunda-feira, 11 de maio de 2015

O monte

O pastor viveu anos na planície, cobiçando alçar-se ao alto monte que dominada a vista de sua antiga vila. Ali, entre suas ovelhas, as flores e a delicada vegetação, cobiçava as imensas alturas, a aspereza do toque das rochas eternas, os espinhos que ali estariam presentes, naquele distante e inalcançável cenário. Um dia, superando todos os medos e receios da escalada, colocou-se em marcha com apenas alguns mantimentos. Seguiu por dias a fio, e sucederam-se as chuvas, o forte vento e o frio inclemente. Enfim, chegou. Finalmente, do topo, avistou o horizonte abaixo e sua imensa visão, desfrutando do silêncio da montanha e do toque dorido dos cactus em seus pés. Foi quando sentiu, de repente. Levou tantos anos sonhando com aquela travessia, com aquela chegada, para isso? Chegar então ao inóspito, para saber-se assim enganado e desejar simplesmente o amor suave das delicadas rosas, lá de baixo, onde estivera por toda sua vida... Agora era tarde demais, afinal. Já estava no alto. Muito alto.

domingo, 10 de maio de 2015

Letra sem música

Tudo igual no meu
Porto Alegre.
Como sempre, pouco alegre.
As coisas boas? Poucas...
E as novas pessoas, que venho a buscar
Com tanto afinco?
Parecem tão velhas, tão somente
Sempre as mesmas...
Fantasmas, num presente.
Ensaios, descrentes, num futuro...
Só mais e mais me convenço
Que a minha solidão é o que eu mais
Afago, mereço
Para o bem ou para o mal...
Penso... Teço.
E o tempo que passa
Me envelhece e refina,
Como a um encorpado e sangrante vinho
Num escuro fundo de um antigo
Barril de carvalho
Talvez algum dia
Quem sabe?
Eu ainda valha a pena
Ser bebido...

domingo, 3 de maio de 2015

Balada de um amor amordaçado

Tenho uma verdade que quer gritar
Mas que, covarde, se cala
E fica, e se atormenta,
Nas masmorras do meu peito,
Nas noites em claro do meu leito
Em todas as conversas em que, acuado,
Sinto em dizer o seu contrário...
Em todos os amores silenciados
Tenho uma vontade que quer gritar
Mas que covarde, se cala
E já se faz tarde, mas talvez chegue o tempo
Em que, qual fissura nuclear, ela exploda
Desintegrando todas as suas incertezas
E o seu grito extremo se faça silêncio
E que, corajosa, se liberte
E varra milhões de quilômetros
Com seu jeito certo
Pois, do amor, não há vetor
Nem inverso.

sexta-feira, 27 de março de 2015

Procura

Procuro um poema
Na aridez dos dias que sucedem a si mesmos
Procuro a esmo
Um significado que hoje é passado
Num futuro perdido que não faz sentido.

quarta-feira, 4 de fevereiro de 2015

The Boxer

Estou encarando minha última luta. O rosto que mostro para o mundo é um rosto macerado por inúmeros murros e quedas. Tenho visto o ringue mais do chão, em meio à poças de sangue, do que cara-a-cara com o adversário. Todo meu corpo dói, mas dói infinitamente menos do que minha alma. A Dama de Negro apostou em minha última derrota, e correm por aí boatos de que a banca está quebrada. Eu encaro as luzes e a multidão. Sinto que ainda estou vivo quando uma pesada luva esmaga meu olho esquerdo e vejo tudo em vermelho, sob o sangue que verte abundante. Apesar de todo aquele circo, estou só. Estarei só na minha última tentativa de erguer a cabeça.