quinta-feira, 16 de outubro de 2014

O Rato

Na madrugada de hoje acabaria com tudo. A queda até o fundo do poço, nos últimos meses, fora vertiginosa; e pasmem, quando chegou lá, descobriu que o fundo do poço tinha um porão. O diagnóstico da doença degenerativa fora o estopim de tantas desgraças: a perda do excelente emprego de publicitário, o despejo do apartamento de cobertura, o abandono por Helena. Muito forte pra mim, ela disse, não vou aguentar essa barra. Restou o auxílio-doença do governo, um salário mínimo. Um quartinho em uma pensão imunda na Voluntários da Pátria. Uma requisição para receber de graça os remédios que precisava tomar para desfrutar de mais uns poucos anos de vida. Nem sempre chegavam a tempo ou completos. E ele, todas as noites, marcando com sua presença a assinatura da ruína, um deboche do destino por suas tantas desvalias. O rato. A pensão fervilhava dia e noite, enquanto prostitutas e travestis guiavam seus clientes pela íngreme e podre escada de madeira até os seus quartos de fornicação imunda. Mas sempre havia uma hora, no meio da madrugada, em que as coisas ficavam quietas, mudas. Era nesse momento que ele irrompia do buraco na parede em busca de alimento. Ele tinha o tamanho de um pequeno gato, o pelo cinzento e asqueroso, uma longa cauda e dois olhos vermelhos e assustadores. A pouca comida que era guardada na cômoda, ao lado da cama, era seu alvo. Talvez também o sangue e os olhos do habitante daquele pequeno e sujo espaço, quem sabe. Para alguém que tinha ficado com tão pouco, de uma vida que agora parecia ter sido vivida em outra encarnação, guardar as sobras de alimentos e sua integridade física eram questões de honra. Estava sempre acordado para afugentar o indesejado visitante, mas noite após noite ele voltava. Precisava resolver isso de uma vez por todas. Estava tudo planejado para essa madrugada, portanto. Comprara a ratoeira, grande para os padrões normais, e o queijo. Não um queijo comum. Um pedaço especial, de aroma e sabor únicos, que pegara a preço de ouro no Mercado Público. Pouco antes do horário habitual do bicho surgir, armou a armadilha. Pegou o queijo. Não resistiu e comeu uma porção apenas. Não precisaria de todo para atrair sua vítima. Era muito bom... Comeu mais um pedaço então, maior que o primeiro. A sensação era única, inexprimível... Era como estar desfrutando de um prazer que sentia antes de tudo aquilo ocorrer em sua vida. Antes do começo do fim. Uma sensação de calma e contentamento foi tomando conta de seu corpo. Sem dar-se por conta, adormeceu. O choque da haste da ratoeira golpeando seu tórax o fez despertar. Tudo era gigante em sua volta, ele diminuto e imobilizado na armadilha que havia trazido para o quarto. Ouviu o som de algo grande se movendo, uma respiração rescindindo à podridão. Nos intermináveis momentos seguintes, podia ver os olhos malignos e vermelhos do rato, cada vez que o bicho abaixava a cabeça para roer mais uma parte do seu corpo...