segunda-feira, 28 de abril de 2014

Exílio

Dá pra ver a vida passando daqui...
Dá pra ouvir a conversa alegre dos amigos distantes
Dá pra ver as cores e as horas desse dia, como de dentro de uma redoma.
Desse inventário de perdas, dá pra auferir algum ganho,
Talvez?
Ganho não, ledo engano.
É como estar longe da pátria e das pessoas que te importam
Longe de ti mesmo...
Como brincar alucinadamente num carrossel dos horrores
Onde, a cada volta, as coisas vão ficando piores
Se é que ainda podem piorar?
Não digas isso, tolo!
Pois o Destino é irônico
E irremediavelmente sádico.

terça-feira, 22 de abril de 2014

Do amor e outras utopias

Hoje faz um ano que te conheci. Uma história de amor de breve duração, mas que teve todos os seus elementos cênicos mais comuns: o fascínio do início, o envolvimento, o arrebatamento e a inevitável queda. A visão de uma natureza divina no início e a decepção de uma reles natureza humana ao final. Sim, tudo acaba humanamente, de um modo traiçoeiro, egoísta e torpe. Sempre. Escrevo isso para te contar. Contar que desisti definitivamente do amor, desse dissimulado amor. De agora em diante, se for para perseguir utopias, dedicarei meu tempo a outros temas... Caçar unicórnios, redescobrir a Atlântida ou o Eldorado. Implantar o socialismo em algum pequeno país da América Latina. Se for para cultivar ilusões, cultivarei essas que desde o início já sei imaginárias, onde somente eu esteja embrenhado e não haja oportunidade de uma punhalada pelas costas. Porque eu nunca mais darei as costas, nunca mais fecharei os olhos. De agora em diante, somente utopias que já se saibam utopias e, principalmente, que não machuquem com seu brilho ilusório e suas pontas cortantes.

quarta-feira, 16 de abril de 2014

Rima ruim


Já me cantei
Bipolar
Mostrei o meu
Eu obscuro
Falei tanto, tanto,
Do escuro...
Entoei mil odes
À Morte
Escapei do Hospício
Por sorte.
Sorte?
Ou o "vício-da-quase-morte"?
Como pode?
É que o patológico
Só tem em comum
Com o lógico
A rima...
Ainda, assim,
Rima ruim.

sexta-feira, 11 de abril de 2014

Sobras

A despensa está cada vez mais vazia / Os recursos se esgotam inexoravelmente, / De um modo fatalista... / O tempo mantém a espada sobre minha cabeça / E ri, de vez em quando... / Os meus sentimentos mesmo / Já estão por um fio / Escrevo com o que sobrou, / O que me sobrou: / Um pouco de fé, uma pequena esperança / Um quase-sorriso que morreu antes de nascer... / Meu estoque de recursos interiores / Clamando provisões, com urgência / Diante dessa falta absoluta de tudo. / E o Destino, a olhar a cena impassível / Computando os vivos, os mortos e os caídos / Como se fossemos meras e frias estatísticas... / Agora tudo são sobras, restos apenas / E não se tem certeza para onde esse barco / De velas rotas e esfarrapadas / Ruma em mais este repetitivo crepúsculo / De mais um dia sem começo nem fim / Com sua bússola quebrada / E esqueletos sob o convés.

Oração do Bipolar


Senhor,
Eu pedi equilíbrio
E me destes carbolitium
Eu pedi ânimo
E me enviastes fluoxetina
Eu pedi paciência
E recebi um anti-psicótico
Eu pedi calma
E me viciei em rivotril!
Eu pedi alguém para me ouvir
E encontrei um psiquiatra
(por 50 minutos semanais)
Eu pedi para nunca estar só
Realmente, esses efeitos colaterais
Estão sempre comigo...
Eu pedi uma motivação
Para seguir adiante
E recebi a imensa conta para pagar
Todas as "dádivas" acima...
Mestre,
Como é bom ter tão pouco a pedir
E tanto a enlouquecer...

quinta-feira, 10 de abril de 2014

Poema da Solidão

Quando é que tu te sabes realmente só? / Quando ouves o eco do teu próprio silêncio...

Reflexões de um andarilho

Como tua noite termina / Se teu dia sequer começou? / Segue madrugada adentro, / Neblina fina, / Lua que mal ilumina / Indo pra lugar nenhum... / Andando? Não. / Andarilhando.

quinta-feira, 3 de abril de 2014

Prisão Perpétua

O sábado sempre foi meu dia predileto / Depois do cansaço da semana / Aquele descanso merecido, afinal... / Agora é sempre domingo. / Domingos seguidos uns dos outros... / Não há descanso, não há mérito, / Há somente uma inércia culpada / A consciência das grades e / Dos pensamentos limitadores / Não há dia de visita nesse cárcere / Não há sequer um recorte no concreto / Que permita um vislumbre do sol. / Que pena... / Minha existência é não mais que / Uma pena / De prisão perpétua / E a esperança, a última que morre, / Simplesmente / É aquela que vai ali acorrentada ao desespero / O primeiro a chegar quando a alma perde as forças. / Vou fechar novamente os olhos / Por que amanhã será de novo domingo / E pelo resto dos meus dias / Para todo o sempre.