quinta-feira, 6 de março de 2014

Tudo está assim, por hora...

As horas rápidas passam, / Passam céleres os dias / Tanto a fazer! / Lá fora, porém, / Não se passa nada... / Se tanto faz / O farol tem a lanterna apagada. / Sucedem-se a noite / E a madrugada / E as letras que formam páginas / As páginas que formam livros / Iluminam-me, cativo, / As penas de que me livro / Pelas trevas do saber ter combatido, / Sem pena, / Com uma ideia e um bico de pena... / E assim está minha vida / Por hora... / O esperar, o aprender, o escrever / (Não necessariamente nesse mesmo suceder) / A busca de um sentido, quem sabe, / Uma trégua / Nesse viver aguerrido? / Se não creio, também não duvido. / Apenas escrevo isso / Para não duvidar que eu existo, / Para não capitular e admitir que desisto...

terça-feira, 4 de março de 2014

A Reforma

Faltava apenas um ano para o ano 1000. As pessoas estavam apreensivas sobre o que viria: o fim do mundo? O Apocalipse? Águas ou fogo? O temor era geral e os Senhores viam seus ganhos nas vilas diminuir. Foi quando o Senhor da Vila de Ginzburg decidiu chamar o Sábio para que o ajudasse. Há trinta anos aquele homem estava recolhido em sua morada fortificada, desde que voltara das guerras contra os infiéis, estudando as ciências ocultas e o milagre da transmutação do vil metal em ouro. Adquirira muita sabedoria nesse período. Essa sabedoria, aplicada ao quotidiano dos aldeões de Guinzburg, era o que interessava ao Senhor. Atendendo ao chamado, o Sábio largou seus livros e seu laboratório e foi ter com o povo. Ensinou os agricultores sobre as fases da lua e as conjunções planetárias. De repente, esses produziam verduras, legumes e frutos em maior quantidade e em tamanhos nunca antes vistos. Aos ferreiros ensinou as corretas práticas com os metais e a temperatura do fogo. Surgiam espadas e escudos mais fortes e mais brilhantes, em abundancia. Aos trabalhadores das guildas e ao povo em geral versou sobre a correta arte de guardar e estocar os bens. O Senhor impressionou-se: naquele Inverno, recolheu mais impostos do que em toda a história da vila e, ainda assim, o povo de Guinzburg era o mais rico da região. Foi quando o Burgomestre procurou o Cardeal. Ele era Burgomestre desde quando o seu pai, o Burgomestre anterior, partira para a morada celeste, e isso fora há muito, muito tempo. Falou sobre a chegada do milênio e sobre o Anticristo. Toda aquela “prosperidade” não seria um truque do Diabo para perder as almas dos aldeões? Ademais, quem era aquele homem para ensinarem-lhes novas formas de fazer as coisas? Seus pais, seus avós e bisavós e os que vieram antes deles já faziam o que faziam do seu jeito! Era assim e deveria continuar sendo. A mudança, afinal, era obra do Diabo. O Sábio acompanhou, atônito, a chegada de todo o povo reunido em sua busca. Do seu lugar na pira de toras, viu o rosto resignado e triste do Senhor em meio ao seu povo, sem nada poder fazer. Antes do fogo roubar-lhe a consciência, pensou em como é difícil transmutar o coração do homem em algo melhor, muito mais que mudar o vil metal em ouro.

sábado, 1 de março de 2014

A banalidade do mal

"Eu, porém, vos digo: amai vossos inimigos, fazei bem aos que vos odeiam, orai pelos que vos [maltratam e] perseguem. (São Mateus 5, 44)". Na última missa de domingo passado, o Evangelho e a homilia do meu pároco tratavam disso: o mal e o perdão. Ele me trouxe muitas coisas à reflexão, muitas das quais vou tratar nesse texto. Dia desses um amigo aqui do Facebook, questionando a religiosidade católica, indagou que, se o Diabo quisesse destruir o mundo e o homem, porque por um momento apenas não possuiria o Obama ou outro chefe de uma potência nuclear e acabava assim com tudo? Achei um comentário engraçado. Nos últimos dias me veio, porém, uma resposta a esse “chiste” ateísta do meu amigo: o mal ganha muito mais na banalidade. Seja na falta de solidariedade diária dos homens em relação aos seus irmãos, no tráfico de drogas, na venda de armas, nas guerras, na prostituição e no aborto, o demônio arregimenta almas e “lugares-tenentes” para suas hostes malignas. Sim, eu creio plenamente que isso tudo existe. Coisa que meu pároco referiu no domingo passado também, quando alguém nos faz um mal, “mexe” conosco e levamos essa raiva, esse mal adiante, criamos uma corrente de ódio e desesperança. Por isso a importância e a urgência do perdão. Um dos locais onde é comum a prática do mal, sem que assim o pareça, é nos ambientes de trabalho. Em nome de nossas opiniões, preferências e vontades, pisamos em quem quer que seja que colida com nossas vontades e desejos, destruímos outros seres humanos, nossos colegas, e ainda atribuímos isso a um senso de “ética” e “justiça”, bem nossos. Não é assim? Vejamos um exemplo. Um novo colega chegou ao setor para uma função de supervisão, treinamento e apoio à uma equipe pequena de cerca de quinze pessoas. “Boas pessoas”, segundo ouviu de sua chefe. Grande apoio da coordenação e da gerência, um ótimo currículo, grande entusiasmo e muitos projetos na cabeça... Mas, como diria o Drummond, “no meio do caminho tinha uma pedra, tinha uma pedra no meio do caminho”. A pedra era a preferência da equipe por uma outra pessoa para ocupar essa função, uma colega mais antiga. Essa colega também tinha essa preferência (por essa vaga), viu-se preterida por seus gestores e postou-se como “pedra” no caminho do novato. O começo foi de boicotes, dificuldades no diálogo, má vontade em explicar rotinas. Os primeiros contatos com a equipe trouxeram frieza e indiferença. Todos queriam outra pessoa naquela função, não “aquele cara”, e achavam-se certos por querer assim. Justo, não? Então, o que se seguiu não seria cometer o mal, mas manifestar uma opinião, correto? Boicote, rechaço, piadas de mau-gosto, desprezo, desqualificação da pessoa e de seu trabalho... Isso mexeria com o psicológico de qualquer um: nosso colega perdeu as estribeiras com alguns de seus agressores (e era isso que eram na prática), e isso lhes deu legitimidade para atacarem-no com mais razão, desvalorizando-o, sendo absolutamente intolerantes com quaisquer dificuldades ou dúvidas que tivesse, questionando a sua competência... Esse mesmo cara foi à Missa domingo passado e pela primeira vez entendeu o sentido pleno do “dar a outra face” e do “orai pelos que vos perseguem”. Esvaziar o sentido do mal, essa era a chave. O demônio se alimenta com as reações proporcionais às suas injúrias. Deixe que o mal que te atormenta passe por ti e vá embora em seu próprio caos. Não vibres no mesmo diapasão, não corrobores com ele. Somente assim estarás perto de Deus de fato e longe das armadilhas postas com habilidade pela serpente, para perder as almas dos homens ao final das contas e sua breve passagem por esse planeta, pensando numa perspectiva mais curta. O final dessa história fica em aberto. Não importa o que aconteceu, mas o “como”. O novato naquele emprego continuará dedicado à sua fé e, a partir de agora, incluirá em suas orações todos aqueles que o odeiam e que acreditam terem razões para isso. O destino dessas pessoas, ao certo não sei, a não ser que a vida é uma eterna seara e que todos colhemos o que plantamos. E sempre que rezar o “Pai Nosso”, quando disser “livrai-nos” do mal, ele vai lembrar que o mal não está nas tragédias e hecatombes somente, mas antes na ignorância e raiva quotidianas que nossos irmãos são capazes contra nós. Então, meu Deus, livrai-nos do mal. Amém.