sexta-feira, 24 de janeiro de 2014

Rotina

O cansaço, à noite, me convence / Que o sono, invicto, me vence / E me faço então inconsciência / Por oito ou nove horas seguidas, / Para no outro dia ter prumo, paciência / Para laborar dez horas de vida / E cansar. E dormir. E sumir. / Mas o relógio, afinal, não falha / Quando dou por mim, já são seis horas / É mais um dia de batalha / O ofício a ferro o homem talha.

quarta-feira, 15 de janeiro de 2014

Poema canalha

Não quero mais do amor / O enlevar do espírito / Nem da paixão / O falso brilhante... / Muito obrigado! / Já não sou o mesmo que dantes. / Quero aqui, comigo, / Somente essa solidão, tão minha, / Que sentimento igual / Tão puro e virginal / Nenhum outrem me daria... / Quero o silêncio / De uma tarde fria / Tempo para ler, pensar, / Tempo para ser eu / Sem importar a quem seja / Sem me importar com quem seja. / E quando os desejos da carne / Afligirem-me o corpo? / Ora! / Afirmo, nesse poema canalha: / Deixem-me chafurdar /Como um lúbrico porco / Nos imundos lupanares! / Deixem-me da noite / Sorver esses ares... / Deixem me perder por um triz / Nas curvas da dissimulada meretriz / (Amante e ao mesmo tempo atriz...) / Quero pagar com prazer pelo prazer vendido / Pois tem ele muito mais verdade / Que quaisquer desses sentimentos fingidos. / Então, amigo, não sejas tolo, não ames! / Busques antes / O gozo rápido e o orgasmo infame / Pois eles serão mais sinceros / Que uns cínicos e falsos "eu te amo", "eu te quero"... / Quanto às doenças do sexo? Te afianço: / Estas tem eficaz proteção / Em uns poucos centímetros de látex / Muito, muito mais / Que as dores do coração. / E se acaso, por esses males passares, / Mantém a calma; / Afinal, serão eles muito menos penosos, / Que os ditos males da alma...

terça-feira, 7 de janeiro de 2014

O aprendiz

Em um mosteiro no Nepal, os três monges principais receberam a notícia de que um jovem aprendiz viria visitá-los para conhecer as corretas práticas da devoção. A partir desse momento, empenharam-se em fazer suas funções de um modo cada vez mais perfeito, a fim de impressionarem o rapaz e não serem falados nas comunidades em que serviam. O primeiro tentou redobrar seu tempo costumaz de meditação. O segundo, que realizava o ritual de encher cem cálices de água em honra do dharma, buscava fazê-lo em tempo ainda menor. O terceiro, responsável pelas rodas de oração, preocupou-se em girá-las ininterruptamente o máximo que pudesse. Essa azáfama acabou por trazer um total desequilíbrio de seus propósitos e eles passaram a culpar o aprendiz, que sequer havia chegado. Esperaram então o rapaz chegar e o levaram a um canto recolhido, onde acusaram-no de ser um portador de karma e um semeador de discórdia. Dito isso, o aprendiz olhou para cima e de seu corpo emanou uma suave e intensa luz. Sem mais esperar, Buda revelou-se em sua essência e disse aos três: - Usei esse jovem para prestar a vocês uma séria lição: buscar o egoísmo ao invés de uma dedicação pura e desinteressada na prática espiritual só lhes trará estagnação e atraso. Instados a ensinarem, pensaram mais em vocês mesmos e em engrandecerem-se perante os outros. Ninguém pode ensinar se não tiver aprendido primeiramente a arte da humildade.