quarta-feira, 25 de dezembro de 2013

O pequeno rei

Bader, rei do pequeno Império de Cântaros, estava muito infeliz. Seu reino não era nada comparado aos seus vizinhos do norte e do sul. Era mesmo o último reino entre eles. Isso o atormentava dia e noite. Foi quando recebeu a visita de um sábio, a quem relatou o problema. O sábio ouviu em silêncio e, depois, pediu ao rei que contasse sua história. O rei contou-lhe que fora um simples pastor, que depois virou soldado e general. Depôs do poder um perigoso tirano, assumiu o reino e, em sua primeira medida como monarca, distribuiu igualmente o alimento e as terras entre seu povo. - Mesmo assim – lamentava – não sou mais que o último entre meus vizinhos... O sábio propôs-lhe a seguinte reflexão: - Já parastes para pensar qual a vossa trajetória? Fostes de pastor a rei, fizestes justiça ao vosso povo... Digo-vos que comparar-se ao outros é a receita da eterna infelicidade. Sempre temos a tendência de medirmos nossa sorte em contraste com quem é maior do que nós em algum sentido, e a lamentarmo-nos por isso. Em verdade a única comparação que vale é aquela que avalia nossa própria caminhada. Se contássemos os obstáculos que já superamos em nossa jornada, seríamos mais fortes e determinados para superarmos os que nos aguardam a seguir.

sexta-feira, 20 de dezembro de 2013

Trocando a pele

Te deixei num desvão escondido, como uma excrescência, coisa seca, sobra, como um bicho que trocasse a pele. Depois de tanto tempo aqui comigo, finalmente te desprendi de mim, e não te sinto mais. Não sinto mais nada. Para ser sincero, nem sei se volto a sentir. Agora só quero percorrer a relva e sentir o sol queimar minha nova epiderme. Viver do mato e do que a natureza me trouxer, do verde, da chuva, sem nenhuma expectativa que não o dia de hoje. Sigo puro instinto, enquanto meu amor, a pele que deixei para trás, passa a não significar mais nada para mim.

quinta-feira, 19 de dezembro de 2013

Dor

Uma jovem moça foi visitar a morada de um homem considerado santo em seu vilarejo. Ela contou-lhe que desejava morrer, pois não via mais sentido na vida. - Ancião, por favor, diga-me como obter a morte mais rápida e menos dolorosa. Não posso mais continuar assim. Viver com as outras pessoas me fere, e não posso mais sustentar essa dor. O homem parou um instante e depois contou-lhe a seguinte história: Havia uma mulher que dera à luz na aldeia de Karashi. Quando seu filho nasceu, ela suplicou ao deus Krishna que o pequeno nunca sentisse nenhuma dor. E assim foi feito. Quando a criança tinha três anos, a mãe apavorada levou-a ao templo aos prantos. A criança havia colocado a mão em uma fogueira e observado a carne se carbonizar, até restarem só os ossos. O deus Krishna, compadecido, restaurou a mão ferida do menino e fez a mãe aceitar de volta a dor da qual queria livrar o filho. A dor, em certas ocasiões, pode ser uma benção; pode também ensinar-nos a amadurecermos e evoluirmos em nossa caminhada. Com essas palavras o ancião despediu-se de sua visitante: - Vai em paz e agradece aos deuses todos os presentes que eles te deram.

terça-feira, 17 de dezembro de 2013

Reinventar

Estou precisando urgentemente me reinventar. Ver a luz, como Edison, voar como Santos Dumont, mandar a minha voz longe como Landell, a fim de que alguém me veja, de que alguém me ouça... Ou que eu fique simplesmente suspenso no ar, pairando sobre todas as coisas como Ícaro, até o sol derreter minhas asas.

segunda-feira, 16 de dezembro de 2013

Ritual

Um aldeão estava em frente a um grande lago. Arremessava pedras enroladas em folhas de papel, uma a uma, à máxima distância que conseguia. Um monge, passando pelo local, parou curioso e perguntou: - Que fazes aqui, homem? - Executo um velho ritual. Escrevi o nome de meus inimigos em folhas, que enrolei em cada uma dessas pedras que arremesso ao centro do lago. Com isso rogo aos deuses que sepultem a sorte de meus desafetos no fundo lodoso dessas águas. - Te digo que farias melhor jogando essas folhas aos ventos para levarem embora teu rancor – disse o monge. Com isso tomou uma das pedras e a jogou. - Vês esses círculos que surgem de dentro para fora, quando a pedra afunda? Assim tua raiva e ressentimento te trazem de volta, multiplicados, todos os males que desejas aos outros. Não se pode combater o fogo com fogo. Ouve o que te digo e deixa isso de lado...

Não vale o seu preço

Desde a manhã me tortura / O cérebro, mortal gangrena, / Uma sentença talvez / Talvez um pseudo-poema / Sem cadência, sem métrica, sem rima, / Que de poeta não tenho / Nada mais que falso ar de ator, / A remexer inquieto em meu peito, / O cinismo, e uma pontada de dor. / Toma este fósforo, amigo, / Aceita o cigarro que te ofereço / E reflete comigo / A inutilidade do teu tão caro apreço... / O amor não vale o seu preço / De dissimulada falsidade / Por fim, mutilante saudade, / Deixando na alma cravada / A sua derradeira facada. / Só de ilusão é feita essa trilha / E de apego inútil, que humilha / Teu resto de honra de homem / Então, troca essa tua vergonha / Por ira! / E antes que o galo cante / E a meretriz te negue três vezes, / Volta tuas costas a toda essa mentira / E de tua carne cansada retira / Essas tão pesadas correntes... / Esse sentimento, não vale o que sentes / Cuida de agora em diante cuidar / Só de ti, tão somente / Pois quando a intempérie chegar / Apenas contigo, meu caro, / É que poderás contar. (Livremente inspirado no mestre Augusto dos Anjos)

domingo, 15 de dezembro de 2013

Funeral

O reverendo vestiu-se com sua melhor batina e repassou o discurso que iria proferir em mais um funeral. Diferente da monotonia dos sermões de tantas décadas como pastor, esse tinha conteúdo e entusiasmo, vida verdadeira. Fizera uma profunda pesquisa nas Escrituras, escrevera calmamente o texto e o decorara, ensaiando em voz alta suas entonações e pausas. Seria um marco em sua carreira religiosa. Sua esposa realmente merecia tanto empenho. Deixara a vida pondo um ponto final em quarenta anos de casamento em que o dominara totalmente, legando-lhe um papel apenas secundário e apagado. Era o primeiro dia de um novo ciclo e o sol e o céu azul lhe sorriam lá fora. Saiu para cantar alegremente sua melhor elegia de todos os tempos.

terça-feira, 10 de dezembro de 2013

Numerologia

Quarta-feira / 11/12/13... / Apenas uma sequência? / Ou talvez algo mais / Para os numerólogos e adivinhos / Que não vêem apenas coincidências / Nos eventos repetidos? / Para mim /Quem sabe mais que um acaso / Pois, por esses dias / Tento descobrir verdades /(No decorrer desses dias solitários) / Tento descobrir sentidos / Nesse desvãos da vida, / Tão ao sabor do nada / O que acontecerá então / Nesse dia cabalístico? / Agora é mistério, potencial, / E possibilidades...

segunda-feira, 9 de dezembro de 2013

Receitas de Sonhos

No Bosque Esquecido havia uma comunidade de duendes que vivia de criar sonhos. Receitas de sonhos. Alimentavam com suas criações o Reino das Fadas e, inclusive, o Mundo dos Humanos. Cada duende era mestre em um tipo de sonho, em fazer como ninguém sua receita. Os sonhos eram amorosos, inspiradores, viajantes. Quem os sonhasse acordaria no outro dia descansado e feliz, quem sabe até com uma preciosa lembrança. Um belo dia, porém, um grupo de duendes decidiu que, a partir daquele momento, iria avaliar os sonhos criados por seus irmãos. Todos teriam que seguir um padrão, agora. Então, passaram a criticar, retirar cor, perfume e movimento dos sonhos alheios. Agora os duendes já não faziam mais suas receitas felizes, mas sim se preocupando em agradar os outros, em estarem enquadrados. E a beleza foi perdida. E passou-se a sonhar em cinza e em câmera lenta. Passou-se a sonhar como se o sonho fosse um pesadelo.

sexta-feira, 6 de dezembro de 2013

A flor púrpura do Himalaia

Flávio era um homem determinado. Atingira o primeiro milhão com 25 anos. Agora, aos 40, era dono de um conglomerado de multinacionais. Triatleta, mestre no Judô, buscava desafiar-se sempre. A sensação de que faltava algo para atingir o clímax de sua vida o atormentava. Foi quando soube da lenda. Uma flor púrpura crescia no ponto mais alto do Himalaia. Quem se apossasse dela seria o homem mais poderoso do mundo. Viajou ao Oriente com sua equipe de alpinismo. Escalou. Dois de seus instrutores foram dispensados alguns metros antes do fim do percurso. Ele queria apossar-se do amuleto sozinho. Chegou ao topo e foi como um sonho. Ela estava lá: uma grande flor brotando do gelo, em tons púrpuras. Quando tocou suavemente em suas pétalas, foi atingido em cheio pelo entendimento. A impermanência, o caráter transitório dos bens materiais, a inutilidade de perseguir conquistas diante da finitude da vida... Coisas tão simples, podia vê-las claramente agora. Então, esse era o verdadeiro poder? Chorou, chorou copiosamente. Durante quarenta anos tinha corrido na direção errada. O homem que desceu a montanha era outro, um novo. Aquele antigo morrera junto ao cume do Himalaia.

domingo, 1 de dezembro de 2013

Auto-ficção

Quis não fazer notar que, apesar das mensagens e telefonemas de tantos amigos, esperei todo um dia por um sinal de teu retorno. Talvez uma lembrança tua dessa data que foi tão importante para mim, ou dos momentos mágicos vividos por nós dois. Apenas uma esperança vã, insana e sem cabimento. Mas de quem eu gosto, nem às paredes confesso. Não me confesso, eu mesmo, o dono dessa solidão. De forma que,para lidar com tua evidente ausência, camuflo em literatura sua essência... Reelaboro-me, por fim, como auto-ficção. Um personagem do qual qualquer semelhança com os fatos reais não passa de uma acidental coincidência.