quarta-feira, 27 de novembro de 2013

Última Medida

Estava finalmente sozinho em casa. Hoje seria o dia derradeiro, o momento de colocar em prática o que planejara há meses. Conferiu tudo, pela última vez: tranquilizantes, bisturi. As correspondências por ordem de destinatário, sobretudo o testamento, estavam sobre sua mesa. Quando o achassem, as achariam facilmente. Seria uma grande surpresa para os parasitas de sua família. Sua fortuna tinha sido destinada inteiramente à caridade. Pôs-se, assim, a executar sua última medida. Ingeriu as três caixas de tranquilizantes, que fariam efeito em quinze minutos, tempo suficiente para cortar fundo o pulso direito e, ainda que com dificuldade, também o esquerdo. Deitado, a dor passou logo e a seguir veio o nada. Suas visões seguintes foram de superfícies brancas, dificuldade de mover-se. Seria assim a morte? Não, como ficou sabendo depois. Estava no manicômio, interditado por sua família. Nos anos que se seguiram à sua internação perpétua, as cicatrizes de seus pulsos cortados contavam a história de uma viagem sem volta.

domingo, 24 de novembro de 2013

Ad Nauseam

Sempre ouvira a recomendação para seguir seu primeiro impulso, sua primeira intuição. Sempre. Agora analisava o que sobrara dos restos desmembrados e sangrentos de um dia em que tudo deu errado. Tinha planejado ir à missa pela manhã, o almoço fora no restaurante chinês que tanto gostava, quem sabe uma volta pelo Centro, visitar uns amigos. Refez os planos na noite anterior, e foi quanto tudo começou a ruir. Dormiu demais, o clima em casa estava insuportável, almoço horrível, não conseguiu sequer estudar. Cabeça cheia, deitou de novo, mais para acalmar a angústia que para descansar. Foi à missa da tarde, e o escalaram para a leitura... Ficou nervoso, daquela forma ruim que costumava ficar, perdendo a concentração e sentindo-se mal todo o tempo. Queria agora ter somente uma bebida muito forte ou um calmante eficaz para adormecer esse dia triste nas trevas do sono. Não tinha nada. Conviveria com essa sensação de decepção e tristeza por muitas horas ainda. Não mudar os planos nunca mais, repetiria para si mesmo. Ad nauseam.

sexta-feira, 22 de novembro de 2013

A Primeira Vez

Completara treze anos e, como era tradição em sua família, seu pai o levara à zona para ele que perdesse a virgindade. A casa de tolerância, com sua luz vermelha na entrada, ficava na primeira esquina depois da principal avenida da cidade. Era conhecida pela localização, “a primeira esquina”. Quando chegou à porta do local e viu os clientes na volta e as mulheres a agarrar os passantes, sentiu uma vertigem. Tremia e suava. O pai, indiferente à sua vontade, era só alegria e orgulho. Não dava a mínima para como ele realmente poderia estar se sentindo. Entraram. O ambiente cheirava a mofo, cigarro e perfume barato. Foram recebidos com festa pela cafetina, ainda mais quando o menino foi apresentado e o motivo da visita foi declarado. Zamora – esse era o nome dela, ou um nome de guerra que, depois de tantos anos, adquirira mais legitimidade que o original – anunciou que chamaria a garota mais nova da casa para fazer as honras. Ela veio. Uma menina linda, com um sorriso forçado e um olhar triste sob uma maquiagem pesada. Não devia ter mais que quinze anos. Foram os dois empurrados para o quarto. Sentados na cama tosca, lado a lado, começaram a conversar, sem se olharem nos olhos: - Qual o teu nome? - Lúcia. - Eu sou Alberto. Nunca fiz isso. - Fica tranquilo. Eu te ensino. - Não sei se quero. Não assim, pagando. - Todos começam assim. - Por que tu estás aqui? Não pareces feliz... - Ninguém é feliz nessa vida. Fui expulsa de casa quando meu pai descobriu minha gravidez. Não tinha para onde ir, vim parar aqui... - E teu filho? - Uma menina. Dei para a adoção. - Sabes, eu também tenho medo de ser expulso. Eu gosto de meninos. Ninguém desconfia... - Tens alguém em especial? - Um colega da escola. A gente conversa muito. Nunca aconteceu nada, é só uma paixão minha. Se a gente sair daqui sem fazer nada, tu não contas pro meu pai? - Não conto. Gostei de ti. Desde que entrei aqui eu não amei ninguém mais. Sou só uma coisa que os homens usam e depois jogam fora. Tu és o primeiro que conversa comigo como se eu fosse uma pessoa. - Tu és uma pessoa. Não te esquece disso, nunca. Ela sorriu, um sorriso tímido, desencantado. Ouviram o grito de Zamora. O tempo havia acabado. Saíram para a sala e foram recebidos com aplausos pelos homens, entre eles seu pai. Seu pai estava bêbado. Bêbado e feliz. Carregou o homem na volta para casa. A primeira vez... Foi a primeira vez que abriu sua alma para outra pessoa. Nunca esqueceria aquela noite.

quinta-feira, 21 de novembro de 2013

Miniconto: Psicografia reversa

Recebeu o livro dos espíritos, psicografando, na sessão espírita. Os leitores, recebeu-os autografando, na sessão de autógrafos.

Herança

No inventário que se seguiu à morte de seu avô, o advogado criminalista e milionário Campos Salles, coube a ele a mansão no bairro Moinhos de Vento, propriedade famosa por abrigar a biblioteca particular maior e mais valiosa do país. Dez cômodos dedicados ao Direito, à História, à Literatura e a todos os ramos do conhecimento. Ele, um jovem estudante de filosofia, não sabia ainda o que fazer com aquilo, mas estava em êxtase por ser o novo proprietário daquele depositório do saber. Foi quando achou a sala. Um círculo mágico em ladrilhos escritos em hebraico e símbolos mágicos no chão. Centenas de livros de ocultismo. Pegou um tomo encadernado em couro e o abriu. Foi ao meio do círculo e leu um trecho, aleatoriamente. Riu. Não acreditava em nada daquilo. Deu às costas. Foi quando o imenso tentáculo emergiu do livro e estrangulou-o até a morte. Algumas heranças merecem ser tratadas com cautela...

segunda-feira, 18 de novembro de 2013

A Viagem

O amor é como uma viagem de barco. Como cruzar um lindo e calmo rio na companhia de alguém muito especial. Não estamos sós. Juntos sentimos a brisa em nossos rostos, contemplamos o céu azul, os matizes do sol. O que parece um momento de comunhão, no entanto, não passa de uma ilusão de ótica. Enquanto ele sente em seu peito aquele apreço por sua amada, ela luta contra dúvidas; cogita que talvez não seja ele aquele que será o dono do seu coração. Lembra ainda de sua última paixão, é refém dela. E nosso enamorado? Ele rema feliz, pensando que a chegada ao porto aportará seus sentimentos em terra firme... Ledo engano. Com os pés no chão, ela procurará as palavras para enunciar a breve e definitiva despedida... Ainda que se nos imponha a insistente ilusão de companhia, a viagem que nos propõe o amor é sempre assim: onírica e solitária.

Rorschach

Chegara para a entrevista com uma folga de quinze minutos. A porta da “Central de RH” estava fechada. Na hora exata, ela chegou. Tentou ser educado, mas ela apenas o cumprimentou com um aceno de cabeça, sem olhar em seus olhos, e o mandou passar. Trancou a porta, eram só os dois na sala. Ele tentava não pensar no quanto precisava daquela vaga. O atraso do aluguel já ia para dois meses, a alimentação era escassa, em sua maioria doação de amigos. Quase não dormia à noite, de fome e de preocupação. Reunia todas as prerrogativas para a vaga: cinco anos de experiência na área, vários cursos de especialização, formação superior. Pensava nas outras vagas que perdera, no poder absoluto que tinham os recrutadores, um poder de vida e de morte. Brincavam com as pessoas como se fossem deuses. Aquilo o enchia de ódio e tantas vezes pensara... Não, não. Decidiu que dessa vez não ficaria nervoso, não hesitaria; se eles queriam perfeição, perfeição teriam. Sem nenhuma gentileza, ela pediu-lhe que apresentasse seu currículo e carreira. O seu coração começou a bater mais forte, sentia nas têmporas o sangue pulsar despaçadamente, mas saiu-se relativamente bem. Contou sobre as funções exerceu, suas promoções. Ela perguntou tudo: suas intenções, o que esperava da empresa, até perguntou como seria o seu retorno para casa largando às 23 horas do serviço, como se um desempregado pudesse se dar ao luxo de escolher horários... Desempregado. Era isso que ele era. A posição pedante da mulher o fazia sentir-se, mais uma vez, inferior. Ela quis que ele explicasse o motivo de sua saída da última empresa, ele o fez sem hesitação: reestruturação no quadro funcional do escritório; era o funcionário mais antigo de todos e a gestão queria “sangue-novo”. Ela sorriu num escárnio. A psicóloga (era uma psicóloga? Achava que sim, mas não tinha certeza), passou para a segunda parte da seleção: - Vou aplicar agora o teste de Rorschach. Você irá me dizer o significado de cada um destes dez desenhos. São figuras abstratas que, em sua interpretação, projetam traços da personalidade de quem é testado. Trabalho com uma linha de transparência de avaliação. Para cada uma de suas percepções, atribuo um significado positivo ou negativo e lhe digo na hora. Se você tiver seis significados negativos, estará automaticamente reprovado e poderá ir embora. Tensão absoluta. Ela mostrou-lhe a primeira lâmina: borrões desconexos e simétricos em preto e branco, como seriam todas as outras. - Então, o que você vê? - Um passaro? - Negativo. - Nessa? - Uma casa? - Negativo. - Seguinte. - Um menino? - Negativo. Seu coração disparava em descompasso, suava frio; uma leve tontura turvava sua visão. A vaga... E assim foi, até chegarem à quinta avaliação negativa. Mais uma e ele estaria eliminado da entrevista. Pensava na moradia, na falta do alimento. O desespero tomava conta de seu ser. Pediu uma pausa e perguntou: - Onde fica o banheiro? - Saindo desta sala, à esquerda. Ele se levantou e, antes de cruzar a porta, quando chegou próximo a ela, puxou o martelo que trazia habilmente escondido na perna, sob a calça. Golpeou sua cabeça por trás uma vez, e ela caiu com o rosto voltado de frente para a mesa. Bateu de novo, e de novo, até perder a conta, bateu por todas as entrevistas de que foi eliminado, por todos os “nãos” que tomou em sua vida, de gente idiota e prepotente. Pedaços de massa cinzenta nadavam no sangue que jorrava abundante do crânio daquela que, há pouco tempo, poderia decidir seu destino. Ele próprio o decidira. O sangue lhe chamou a atenção. Escorria sobre a mesa, formando figuras. Voltou ao seu lugar e ligou para a polícia. Se entregaria pacificamente. Enquanto esperava, começou a interpretar as figuras que se formavam do líquido rubro: - Casa. Rancho. Emprego...

sexta-feira, 15 de novembro de 2013

A Espera

Aquele verão tinha feito com que ela se sentisse a menina mais especial do mundo. O garoto mais popular da escola, capitão do time, tinha olhado para ela. Se amavam em segredo, afinal ele não podia arriscar sua reputação, envolvido com alguém simples e não muito bonita. Mas não importava, todas as noites com ele eram mágicas, plenas como o infinito. Contou a ele no final daquela semana. Seus pais não poderiam saber nunca. Combinaram de fugir. Naquele fim de tarde, com seus poucos pertences, o esperou na saída da cidade. Viu a noite chegar sem que ele aparecesse ou ligasse. Sua única companhia crescia em seu ventre.

domingo, 10 de novembro de 2013

Primeira Página

Pacheco terminava o obituário em sua entulhada sala, o arquivo da “Última Hora”. Depois de tantos sonhos da mocidade, ao terminar sua universidade de jornalismo, havia se convertido apenas em mais um medíocre, anônimo e normal. E triste, de uma tristeza rançosa. Cuidava das seções do “Geral” (matérias sobre as tragédias quotidianas da cidade), da “Polícia” e do “Obituário”, algo que era destinado a estudantes de jornalismo estagiários, em outros jornais. Ali, ao último dos últimos. Nunca tinha seu nome vinculado às matérias, que eram sempre as derradeiras na ordem do jornal. O sonho de ser um jornalista reconhecido, de figurar na primeira página, era agora somente uma ilusão a ser esquecida. Tinha sessenta anos, um cansaço de oitenta, um ódio da vida que não tinha idade. Ia desligando o velho computador e o pequeno ventilador, seu único luxo na sala mal iluminada e fedendo a mofo, quando o telefone tocou: - É da Última Hora? Estou indo até ai. Vocês me difamaram, acabaram com minha carreira, desgraçados. Eu vou te matar! O homem desligou bruscamente. Pacheco teve o ímpeto de ligar para seu editor, para a polícia, sair imediatamente dali. Foi quando uma certeza cristalina e serena tomou conta de sua mente. Ligou novamente seu ventilador e abriu o editor de texto. No topo da página, escreveu o título da matéria: “Por que alguém mataria um jornalista da Última Hora?” Buscou inspiração nos tempos de estudante, em seus autores favoritos, nas grandes reportagens que já lera. Esquecera naquele momento toda a sua pobreza quotidiana. Determinara-se a produzir um grande artigo. Fez um apanhado do papel de seu jornal na cidade. A quais interesses afrontava, a quem incomodaria daquela forma? Qual seria o perfil daquele que o ameaçara, e à sua mídia? O texto fluía brilhantemente de suas mãos, que não apenas digitavam, mas tiravam música do teclado. Pensou no fechamento do artigo. Teria que fechá-lo sem uma resposta a última questão de sua vida. Mas essa seria dada por seus colegas, pela polícia, por seus leitores... Pela primeira vez sabia com absoluta certeza que seus leitores tomariam conhecimento de quem ele era. O porteiro interfonou anunciando um visitante. Ele o mandou subir. Saiu do arquivo e foi abrir a porta ao desconhecido. Pode olhar por um momento nos olhos do homem que, sem uma única palavra, disparou um tiro certeiro no rosto do velho jornalista, que morreu na hora. No dia seguinte o “Última Hora” publicou em sua capa a foto e o nome de Alfredo Pacheco, e seu último e brilhante artigo refletindo sobre o papel de “paladino” da mídia jornalística contra os interesses escusos de corruptos, bandidos e mal-intencionados. Nem uma bala os faria calar, acrescentaram ao texto do morto, prestando-lhe as mais copiosas homenagens. A primeira página, afinal, havia chegado...

As Quatro Estações

Outono. As folhas douradas caiam das árvores e compunham caóticos tapetes nas ruas quando ele a conheceu. Um amor inesperado, um alguém que era a resposta a todas às suas questões. Simplesmente tudo naquele momento fazia sentido... Embora a natureza morresse lentamente ao seu redor, ela era mesma toda a vida de que ele precisava. Inverno. O amor dos dois floresceu até o Dia dos Namorados, aquele dia em que trocaram alianças de compromisso numa bucólica Igreja do Partenon... Quando, logo depois, uma tempestade sequer suspeitada levou-a de repente para longe, para fora de seu alcance. E ela ficou, a despeito disso com ele, uma ausência dolorosa e, ao mesmo tempo, tão cara. Primavera. As árvores floriram e perfumaram o ar mais uma vez, mas ele, indiferente, só sentia mais pungentemente a falta de sua amada. A vida se renovava, mas só o que o acalentava era lembrar o passado de quando o vento soprava gélido, mas seu coração ardia em brasa. Verão. O Verão em Porto Alegre é torturante. Ele que só ficou com a saudade, espera desesperadamente que o Outono se apresse e, quem sabe, a traga novamente para junto do seu lado. Se já é difícil esquecer um amor qualquer, quanto mais aquele que só deixou boas lembranças, as melhores, pensava. Se fosse só sentir saudades, mas nem sempre algo mais...

quinta-feira, 7 de novembro de 2013

Mandrágora

Era sabido naqueles dias da Idade Média que, onde repousavam pendurados os corpos dos enforcados, brotava na terra uma raiz mágica chamada mandrágora. Iselda aprendeu com sua mãe que, nos últimos estertores, os enforcados ejaculavam o esperma que fecundava a terra, transformando-se no elemento que servia para evocar o diabo. Ela fez tudo conforme ensinava o grimório: o círculo, o caldeirão fervente, as palavras ancestrais e, por fim, a sagrada raiz, que se parecia com um pequeno homúnculo de cinco pontas. O cheiro de enxofre no ar anunciou a presença maligna: - Mulher, aqui estou. Faze teu pedido. - Quero que me faças homem. E assim foi feito. Ela se tornou um lindo moço chamado Isar, que matou um desafeto pelo amor de uma donzela. Certa de que viveria melhor como homem, a bruxa acabou sentenciada à forca. Do seu estertor brotou uma nova mandrágora...

domingo, 3 de novembro de 2013

Amada

Tens uma forma bela e suave / Que atrai e encanta / Um corpo belo de se ver passar / E um olhar que permanece na lembrança / Mas há entre nós uma muralha / Tão difícil de transpor, que nem imaginas / Tu segues do teu lado a me enfeitiçar / E eu chorando a minha triste sina... "Manuscritos Perdidos de um Menino Triste" (1995)

Eremita

O tempo avança inexoravelmente / Inimigo sempre pontual / A vida passa vagarosamente / Sofrer já é quase natural / No horizonte nenhuma novidade / Somente a solidão, fiel companheira / De um amor fictício sinto às vezes saudade / É uma forma de amor, de qualquer maneira / Este lugar sombrio que tenho habitado / Não mudou muito, em todos esses anos / Como um rosto ainda não de todo marcado / E tem sido assim, sem nenhum sentido / Um dia vou embora, mas pensando / Nem um dia sequer ter vivido... "Manuscritos Perdidos de um Menino Triste" (1995)

Medo da Morte

Não tenho medo da morte, etapa final. / Não me assusta a última morada, o repouso eterno. / O que me apavora é a hedionda morte quotidiana, ladra das horas boas./ A morte de não sorrir, a morte de não vibrar... / A morte de não amar. / A morte de não ter sido amado. / A angústia de coisas sem sentido. / Não temo a morte, ponto final; / Temo a morte que é não ter vivido... "Manuscritos Perdidos de um Menino Triste" (1995)

Arte do Engano

Viver feliz é a arte de enganar a si mesmo Jogando as dores pra baixo do tapete Se não tenho um amor, não me faz falta... Pra quê sofrer? Mas sob a pele sã Os ferimentos estão abertos. "Manuscritos Perdidos de um Menino Triste" (1995)