sexta-feira, 25 de outubro de 2013

Cadafalso

Tomo o cuidado de não pisar / Em falso / Nesse equilíbrio instável / Tento agarrar, em vão, / O tempo que escoa / Esse tempo que é benção / E cadafalso... / Além do túnel não há luz / Mas trevas indevassáveis / Os sonhos não passavam de / Quimeras... / Dissipando minhas ilusões / Conto nos dedos minhas inúteis / Eras / Tudo o que não fiz / Com as oportunidades que não tive / Faço um chá alucinógeno / Com as heras do jardim / Planejando assim / Cuidadosamente / O fim / Deste conto de mau-gosto / Meus viveres, meus desgostos, / E o Inferno, quem sabe / Seja menos tormentoso / Que esse eterno purgatório... / Não é questão de escolha / A questão é não haver escolhas...

quinta-feira, 24 de outubro de 2013

Paraíso

Sempre escutara que o amor era o paraíso. Essa dádiva, no entanto, estava distante para um menino como ele: magro, introspectivo, fazia o tipo intelectual que era desprezado pelo sexo feminino. Porém, aos dezoito anos, tudo mudou. Seu pai lhe deu de presente um carro novo e imponente. Foi quando Vanessa o convidou para um encontro. À noite, foi à casa da moça buscá-la para o jantar num restaurante fino. Quando ela abriu a porta e o cumprimentou, com ar zombeteiro criticou sua camisa. Durante o trajeto não parou de falar, gabando-se de seus amigos, de seu mundinho, algo tão distante para ele. No meio do caminho, passando pela área verde, ele disse para a menina que o pneu havia furado e pediu que descesse do carro. No porta-malas pegou um pé de cabra, que usou para bater em sua cabeça até que ela calasse a boca de vez. Por fim, bateu a própria testa repetidas vezes no carro, para endossar a versão que usaria de que tinham sido atacados. Aquilo sim era o paraíso. Mal podia esperar até o próximo encontro.

segunda-feira, 21 de outubro de 2013

Quinze anos depois

O encontro da turma formada no “Liceu Renascentista” desse ano era especial. Quinze anos. Cinara não comparecera aos anteriores, pois ainda não estava pronta. Agora poderia encarar seus antigos colegas olhando-os de cima, como nunca pudera antes. Nos tempos de escola era chamada por suas “amigas” de bichinho. Elas incentivavam e exortavam os meninos às brincadeiras cruéis e torturantes. Acima do peso, com o rosto inteiramente coberto por acnes, se refugiava na Biblioteca nos horários de recreio e da Educação Física. Lia, lia muito: literatura, ficção, poesia, ciências. A partir da oitava série descobriu a Química, que seria seu campo predileto desde então. Depois da formatura, à qual não compareceu (pois sabia que seria vítima de uma última chacota preparada cuidadosamente por sua turma), prestou vestibular para Ciências Exatas, com ênfase em Química. Mergulhou nos estudos, sobretudo em relação a compostos voltados para a saúde e estética feminina. Com suas fórmulas, preparadas sob medida, curou-se da acne. Com exercícios e dietas superou o sobrepeso, transformando-se numa mulher linda e irresistível, patenteando e vendendo seus produtos, tornando-se muito rica. Chegou à reunião pretendendo vingar-se de cada um dos desaforos que teve de aguentar quando mais jovem. É certo que provocou um impacto inicial em seus antigos colegas. Em geral demoraram muito a reconhecê-la. Mas esse impacto parou por aí. Estavam todos entretidos com suas lembranças, confraternizando, falando dos filhos e de seus trabalhos. Mesmo os que não tinham tido muito sucesso achavam algo legal e interessante para compartilhar com os outros. Estavam realmente felizes com suas recordações dos tempos de estudantes. Cinara não tinha nada bom para recordar. Saiu silenciosamente, tão só quanto chegou, frustrada. Seu sucesso não conseguira humilhar ninguém, como pretendera. Eram totalmente indiferentes à sua pessoa. Ela nunca pertencera àquele grupo de fato, e o que ela foi e o que se tornou não lhes dizia respeito...

Reunião

Irineu verificou os lugares à mesa. Seis, com o seu à cabeceira. Esperava a chegada dos convidados ansiosamente. Uma pontada no peito, uma sensação de zonzeira na cabeça o deixavam inquieto. A reunião, no entanto, era o mais importante, o mais urgente. Finalmente cumpriria com seus compromissos há tanto adiados. Sentou à mesa da grande sala de jantar da fazenda e esperou. Eles chegaram todos juntos, em silêncio, e ocuparam seus lugares. Aquela sensação de algo errado era cada vez mais forte. Antes de servir o almoço ele tinha que comunicá-los da decisão que tomou. Precisava aliviar aquele peso no peito de uma vez. Tinha que ser agora. - Meus queridos, tomei uma decisão muito importante. Não vou esperar até minha morte para dividir os bens de todos esses anos obtidos aqui na fazenda. Tive que guardar durante muito tempo para que não ficássemos sem nada. A economia e o zelo são a chave para as bênçãos no futuro. Mas agora resolvi legar a cada um sua parte, e quero que a usem da melhor forma. Pra mim deixarei apenas o suficiente para minha subsistência nesses anos que me restam, que não hão de ser muitos. - Pra ti minha velha Ester, te deixo a quantia suficiente para que consultes os melhores médicos na capital pra tratares essa tua persistente dor no baixo ventre. Para o meu neto Zequinha, uma quantia que pague os médicos e a fisioterapia para a pólio, para que ele volte a andar. Para minha filha Larissa o suficiente para acompanhar o Zequinha onde quer que ele tenha que ir. Ao meu genro Manoel, ajudarei a abrir aquela venda aqui na província, onde poderá finalmente ter um trabalho decente. E ao final, não menos importante, ao meu velho capataz Laurêncio, que sempre administrou a fazenda da melhor forma, deixo o suficiente para que se aposente e viva o resto de seus dias com dignidade. Sinto que agora cumpri com meu dever para com vocês. Poderei, quando chegar minha hora, morrer em paz... Os convidados permaneciam quietos, imóveis, fitando Irineu de uma maneira desconcertante. Aquela sensação de desconforto em seu interior aumentou demasiadamente. De repente, num lance de vista, o velho deu com a mesa vazia, os lugares intocados. Então a memória, que estava embaçada e perdida em algum lugar, despejou suas lembranças de forma impiedosa: Ester morrera de câncer de útero, sem que o marido chamasse um médico para assisti-la. Zequinha morrera pelo agravamento da pólio, seguido da mãe que se foi por desgosto. Manoel terminou seus dias no fundo de uma garrafa. Quanto ao capataz Laurêncio, já muito velho e ainda na lida para garantir o pão da família, teve um infarto fulminante em meio às rezes e foi enterrado como indigente. Irineu começou a chorar copiosamente e a pelejar contra a realidade. Pensava que, se fosse lá pegar o dinheiro há muito guardado e o trouxesse, eles apareceriam novamente e então poderia corrigir tudo o que havia feito de errado. Pegou o facão de cortar churrasco e dirigiu-se ao seu quarto, em direção ao grande colchão de sua cama. Cravou-lhe a lâmina e abriu-o às cegas. Junto ao pano e aos flocos de espuma, estava uma grande quantidade de notas de diferentes épocas. Amareladas, amassadas, sem valor algum. O velho olhou para suas economias de tantos anos, ciente agora de que não passavam de pedaços de papel, apenas. A consciência libertadora e ao mesmo tempo pungente de que em qualquer tempo, não eram de fato nada mais que pedaços de papel, lavou seu rosto com as últimas lágrimas antes que a dor do derrame fatal reverberasse por seu crânio e sua alma encontrasse a escuridão.