terça-feira, 24 de setembro de 2013

Love Story

Foi num dia chuvoso que Márcia conheceu Eduardo. Ela tinha sido escalada para acompanhar o novo paciente em suas sessões de hemodiálise. Trinta anos, um homem bonito, apesar de seu estado debilitado. Ela, uma enfermeira balzaquiana que vivia para o trabalho, jamais tivera algo sério no amor; muitos motivos: sua aparência, sua insegurança... Naqueles dias começaram a conversar. Um laço surgiu, e foi se estreitando. Ele aguardava por um transplante e só poderia voltar para o interior quando estivesse com o novo rim. Foi quando ela teve a ideia: seria a doadora. Isso os uniria ainda mais e daria ao amado sua vida de volta... Ele hesitou em aceitar, não queria que ela se sacrificasse, mas isso aumentou ainda mais sua resolução. A cirurgia foi um sucesso. Passaram a recuperação juntos. Ele voltou ao interior e prometeu que mandaria buscá-la. Dias e semanas se passaram, sem nenhuma notícia. O convite de casamento com a foto dos noivos chegou de manhã, endereçado a toda a equipe médica. Ela escondeu o choro, pegou o copo d’água e tomou um dos remédios que deveria usar pelo resto da vida.

Um rio

Numa certa montanha havia um ancião que tinha a fama de aconselhar os caminhantes sobre seus problemas, suas dificuldades, suas dores. Quem passava por ele e lhe contava seus revezes saia como que purificado. Um sábio, tomando ciência disso, decidiu visitar o ancião. Ao chegar a casa deste, no entanto, não pode acreditar no que viu: a mulher do dito iluminado não podia sair da cama, devido a uma grave enfermidade. Seus filhos passavam fome e rastejavam sujos no chão, junto aos animais. Então o sábio disse ao ancião: - Esqueceste que o caminho espiritual é como um rio; o que jogas numa margem, deves deixar correr na outra, seguir o curso purificante das águas. Não limpastes as energias negativas que te traziam os caminhantes, e essa sujeira acumulou-se em teu jardim. E mais que isso, tendo o teu jardim heras, deixaste-o a esmo e te arvorastes a limpar e embelezar os alheios. Para quê? Digo que já tens, de fato, o teu pagamento...

segunda-feira, 23 de setembro de 2013

Primavera?

As folhas de minhas árvores estão douradas e secas, e caem com o vento gélido que sopra repetidamente nesses meus dias perdidos, formando um tapete de morte e decomposição junto às suas raízes. A chuva cai como nunca, variando seu ritmo de grossos e cortantes pingos a uma fina e espectral garoa. As perspectivas de um futuro são cada vez mais sombrias, como o meu céu tormentoso. Não há mais sonhos, há um sono narcótico e sobressaltado que nem é mais alternativa ou fuga. Não há primavera, sou eternamente inverno, um inverno insano e inclemente. Um inverno que há de chegar ao seu termo, quem sabe, depois de repetir a si mesmo por incontáveis ciclos...

quarta-feira, 18 de setembro de 2013

Síndrome de abstinência

Passaram-se sete dias / Seis horas e cinco minutos / Desde o meu último copo... / Meus sentidos são como um sol / Que não quer se por / Não tenho o consolo / Sequer do sono / Deitado, meu corpo treme / Deliro / Com os espasmos / Meus músculos / A se contorcerem / Insana dança... / A vontade de um gole / Percorre / Minha garganta seca / Cada gota do meu sangue / Ferve em ebulição / Olho as paredes, que parecem / Exibir imagens / Como um a tela de cinema / Desenhos que se projetam / Para fora / Em três dimensões / E tentam me estrangular / O mundo gira / Enquanto eu permaneço / Parado / Num ciclo que se repete / Indefinidamente... / A sobriedade tem seu preço / O preço de uma alma / E a loucura? / A loucura / É servida em doses / Homeopáticas / Até o fim inevitável / Dos meus derradeiros dias.

sexta-feira, 13 de setembro de 2013

Fuga

Tenho me afastado constantemente das tuas lembranças, apenas para te encontrar de novo, em meus pensamentos, quando ouço nossa música, quando vejo algo belo ou, quando adormecendo, fico vagando naquele limbo entre a terra dos sonhos e as últimas luzes da consciência. Apesar de todos os esforços empreendidos, esse movimento de fuga a que me obrigo tem se mostrado infrutífero, pois estás aqui, sempre comigo. O mais irônico de tudo isso é que, por tua própria vontade, estás longe de mim e me deixastes a viver eternamente com o teu fantasma e com as aparições esmaecidas daquilo a que chamamos amor.

quinta-feira, 12 de setembro de 2013

Inquietude

A consciência / E a inteligência / Te cobram seu preço / De repente, / Tuas frágeis certezas / Esboroam. / Que consolador seria / O abraço da alienação...

terça-feira, 10 de setembro de 2013

Apenas mais uma segunda-feira

Uma segunda-feira não tem muito sentido para quem está desempregado. Sempre odiara as segundas-feiras, mas agora elas eram, além de tudo, constrangedoras. Levantou da cama com uma imensa enxaqueca. A dor orbitava atrás do olho direito, como se uma longa agulha o penetrasse todo o tempo. Procurou na caixa de remédios, não tinha nada. Deitou-se de novo, rezando para que aquilo cessasse. Tudo aquilo: a dor, o desemprego, Ângela. Pensava nela sempre ao acordar, e antes de adormecer também. Era como se aquela tristeza que sentia lhe trouxesse um pouco do amor que tinha ido embora. Dela, não dele. Ela o tinha abandonado alegando problemas emocionais e dificuldades de lidar com os sentimentos. Não era bem assim, pensava. Ele era o cara errado, na hora errada, e ela percebera isso. Desempregado, sem carro, arcando com o caro aluguel de um pequeno apartamento... E ela linda, socialmente bem posicionada e já em uma idade de buscar algo mais sério. Por quê, então, o encantara daquela forma, sugara seu sangue e cuspira para fora aquele bagaço de tristeza e melancolia em que ele tinha se transformado? Tornara-se um cara ainda mais solitário e taciturno do que já costumava ser. Suas únicas companhias eram os livros, músicas e filmes. Estava, no entanto, fazendo contatos, buscando desesperadamente um novo emprego, mas temia que, se não o encontrasse a tempo, pudesse parar na rua. Ultimamente não podia passar por um sem-teto na rua sem sentir uma pontada de medo, um pavor de acabar também naquela situação. A enxaqueca se tornara mais e mais forte. Tomou um gole de café e se vestiu para ir à farmácia. Compraria um analgésico e também um calmante forte. Dormiria e só acordaria na terça. Pelo menos a segunda-feira, com seu semblante de derrota, fracasso e abandono já teria passado... Até a próxima semana.

segunda-feira, 9 de setembro de 2013

Sem volta para o futuro

Pois, a convivência na “Casa da Sogra” não era nada fácil. A filha do Tarso Genro, a Luciana Genro, era na prática tudo o que um dia o pai foi no discurso. Durante anos ela militou no mesmo partido do pai, o Partido dos Trabalhadores, mas na corrente mais socialista possível. Enquanto isso, ele ficava na mais em cima do muro... Hoje estão definitivamente divididos, pois a moçoila, sem suportar o pragmatismo do recém eleito presidente Lula, que rompeu com qualquer programa mais à esquerda e fez alianças com Deus e o Diabo para governar a partir de 2003, saiu (expulsa) do PT e fundou o PSOL (Partido Socialismo e Liberdade), se é que dá pra harmonizar essas duas coisas, em meados de 2004. O tempo passou, Tarso foi ministro do Lula na Educação, na Justiça e se elegeu Governador do Rio Grande do Sul em 2010. Luciana perdeu a cadeira de Deputada Federal somente porque o PSOL não alcançou o “coeficiente eleitoral”, apesar de ter tido uma grande votação. E por uma regra constitucional que visa proibir o nepotismo na política, a Luciana não pode mais ocorrer a nenhum cargo enquanto o pai estiver no executivo gaúcho... Isso aumentou a tensão entre os dois até no almoço de domingo: - Luciana, minha filha, me passa o strogonoff? - Strogonoff nada, pai! Isso é coisa de burguês capitalista! Tu sabes o preço do champignom? - Bom, então me alcança o molho inglês pra eu temperar a salada? - Molho inglês??? Isso é fruto do Imperialismo que domina nossa cultura. Não alcanço! E a coisa ia por aí. Luciana queria a todo o custo que o pai fizesse no Governo do Rio Grande do Sul tudo o que já havia pregado na juventude e no início dos anos 80. Mas isso ia ser bem difícil, a não ser que... Num domingo, na habitual reunião de família, Luciana aparece com um convidado. - Oi pai, oi pessoal. Trouxe um amigo pro almoço... - Mas esse aí é o... - Jovem, pai. Tarso Jovem. Esse és tu vindo da década de 60, um rapaz verdadeiramente socialista, acadêmico de Direito, caminhando contra o vento, sem lenço e sem documento... - Mas como é possível uma coisa dessas? - Pai, sabe aquele filme, “De volta para o futuro”, que tu me levaste pra ver quando eu era guria? É mais ou menos isso, o Tarso Jovem viajou no tempo do passado até aqui... Ah, pai, dá um tempo, essa é uma crônica non sense, então faz o teu papel e entra no diálogo. - Então. Jovem, o que tu viestes falar comigo? - Tarso, a Luciana me contou que elegemos dois presidentes por um partido de esquerda e que agora “nós” somos governadores do Rio Grande do Sul! Então, como está funcionando a revolução socialista no Brasil? - Veja bem, companheiro Jovem... Não existe mais socialismo no mundo. Mas somos comprometidos com os ideais das classes trabalhadoras... - Dá um tempo, pai! O PT é mais neoliberal que os tucanos. - Luciana, minha filha, não é bem assim... - Tarso, o que nós fizemos com os professores do RS? Eles são a categoria mais bem remunerada do funcionalismo, como eu defendia na minha época? - Jovem, o RS do pai não paga nem um “piso nacional” que não chega a dois salários mínimos pra eles... Tô fazendo até uns comerciais do PSOL na TV pra dizer isso, inclusive. - Mas como, Tarso? E a reforma agrária, as causas sociais, e nossa relação com Cuba... - Ah, jovem, isso eu posso te falar de peito aberto. Nossa relação com Cuba continua ótima. Quando eu era ministro da Justiça deportei uns pobres refugiados de volta pra ilha. Atualmente a Dilma, que é a nossa presidenta, importou uns médicos de lá pra trabalharem aqui num regime semi-escravista. Uma beleza! - Chega! Não posso acreditar que “nos” tornamos isso! Vou voltar pro passado e entrar pra Guerrilha do Araguaia! - Jovem, tu estás proibido de fazer isso! Se tu fores pro Araguaia “nós” morremos! - Calma, gente. Te filia no PSOL, pai, rasga essa cartilha burguesa que eu levo o Jovem são e salvo pro passado. - Luciana, se tu não sumires com esse sujeito agora, eu te corto a mesada! - Pô pai, pegou pesado... Corte na mesada é golpe de estado... Vamos embora, Jovem. Esse teu futuro não tem volta. Sem volta para o futuro...

sábado, 7 de setembro de 2013

Independência Dark

Uns desfilam / Uns protestam / Muitos assistem / Eu não me presto / E sigo só / No meu imaginário Ipiranga / A gritar somente / Morte!

sexta-feira, 6 de setembro de 2013

Conto de Fadas

O amor é o conto de fadas dos adultos. Acreditamos sempre em amores à primeira vista, almas gêmeas, metades da laranja... Esquecemos que na história da Chapeuzinho tem um lobo. Esquecemos que a Cinderela teve que ralar muito para largar o borralho e que a carruagem encantada era só uma abóbora. Esquecemos que João e Maria foram abandonados na floresta, pasmem, pelo pai. Depois de tudo isso, ainda queremos mais histórias, queremos o encanto. Descobri que a princesa encantada era desde o começo a bruxa malvada e só eu, um ingênuo sapo, não via. Continuo sapo, é claro. Mesmo assim, não posso garantir que, da próxima vez que alguém vier me contar uma fábula eu não caia, de novo, como um patinho. O patinho feio.

Aos Teus Olhos

Teus olhos tristes / Cativaram uma alegria / Que havia em mim / E foram assim / Como dois luzeiros / Ao redor dos quais / Voei embevecido, / Ainda que por pouco tempo / Com todo o meu sentimento... / Teus olhos amorosos / Curaram uma tristeza / Que havia em mim / E fiquei assim / Apaixonado / Teu eterno devedor. / Hoje sou apenas eu / Com a lembrança da luz / Do teu olhar / A singrar a escuridão / Em busca de algum porto / Pois me levaste a luz / As alegrias, as tristezas / Junto com o lume / Dos teus olhos / Que agora olham outras / Paragens / E não tem de mim, sequer / A lembrança...

quarta-feira, 4 de setembro de 2013

Sobreviver

Tinha achado uma função como dentista em Auschwitz: identificar as obturações de ouro dos mortos e repassá-las aos nazistas. Em troca, tinha boas acomodações e comida. Triava cada cadáver antes dos fornos. Chegava a uma média de cem dentes de ouro por dia, o que enriquecia pouco a pouco o Reich. Sem contar o que fariam da pele e dos cabelos de suas vítimas. Não se importava com isso, precisava apenas sobreviver. Até que encontrou Frau Ingard, seu grande amor de juventude, amor não correspondido. Ela tinha belíssimas obturações douradas. Não podia mais prosseguir com aquilo. No dia seguinte, havia outro fazendo seu serviço. Ele fora mandado às câmaras de gás e seguiria para o nada, sem seus cinco dentes de ouro...

segunda-feira, 2 de setembro de 2013

Antiquário

Sou um anacrônico fantasma / De um casarão derrubado / Vivendo entre casas germinadas / Ou estendidas coberturas / Do passado trago / Minhas correntes / Minha armadura /E a bola de ferro / Que arrasto / Até o final dos dias / Tudo isso / Por uma donzela perdida / Perdida de mim... / Eu, que fiquei / Tão perdido assim / E assombrar, nem sequer / Posso /Nem que eu insista / Pois ninguém nessa terra / Acredita que eu exista... / Quem sabe um antiquário / Compre uma alma penada / E me venda a uma nova donzela / Junto a outras coisas / Empoeiradas?