sábado, 31 de agosto de 2013

Chorando sob a chuva*

Não vou te deixar ver o quanto meu coração partido está me machucando. Tenho meu orgulho e devo esconder toda a minha tristeza e sofrimento. Quando os ventos de novembro mudarem, eu irei chorar sob a chuva. Se eu esperar por céus tempestuosos, não distinguirás as lágrimas em meus olhos, nem saberás que ainda te amo muito. Vou chorar sob a fria chuva de novembro. O afeto que cultivei por ti foi recebido com risos e ironia. Trataste meu pedido de casamento com desprezo. O que tem o fato de sermos primos de tão importante? Os amores... Os amores sempre vêm e vão. Ninguém tem certeza de quem pode ficar, ou desistir e ir embora... Crescemos juntos nessa fazenda, que pertenceu aos nossos pais. Desde a época de criança, comecei a te amar. Crescemos diferentes, eu um rapaz do campo, tu uma moça letrada, estudando línguas e literatura. Enquanto eu interpretava o falar dos moinhos, tu discorrias sobre Shakespare e outros nomes que a mim me pareciam tão distantes... Eu me orgulhava de ti, teus saberes reforçavam meu interesse, minha paixão. Eu tinha esse amor tão ingênuo e tão intenso... Agora não tenho mais nada, a não ser nossos campos, a espera da colheita, a estocagem e a vinda de uma nova safra, num ciclo infinito. Vou deixar meu corpo envelhecer no ritmo das estações que vem e vão. Um dia, talvez, um sorriso volte ao meu rosto e eu possa caminhar numa manhã de sol... Até lá, não te darei o gosto de me ver chorando. Irei chorar sob a chuva. Quem sabe, talvez, ainda possamos encontrar um jeito? Tua indiferença, meu amor... Um meio-termo. Afinal, nada permanece o que é para sempre, mesmo sob a fria chuva de novembro. * Baseado nas músicas “Crying in the rain” (A-ha) e “November rain” (Guns n’Roses)

Dois Tempos

Enquanto eu faço a saudade, / Ela faz o esquecimento.

sexta-feira, 30 de agosto de 2013

Enchente

Choveu sete dias em minha alma / Meu coração se encheu / Transbordou de tristezas / Agora que as águas baixam / Volto para a destruição / E a lama que restou / Que desse coração / Só ficaram paredes / E a casa que havia / Foi-se, incontida / Conduzida pelas águas / Não choro, / Pois qualquer gota / Desavisada / Pode produzir ainda mais estrago...

quarta-feira, 28 de agosto de 2013

Um Conto Siciliano

O sol brilhava numa autêntica manhã siciliana de 1920. A brisa mediterrânica sacudia as árvores e arbustos do campo de caça mais ao norte de Palermo. Fragone carregara a sua espingarda e aguardava pacientemente que as perdizes , assim teria o almoço de domingo da família garantido. Vendeiro e cozinheiro por excelência, administrava a Cantina Surriento, que tinha pertencido aos seus pais e antes aos seus avós. Lá os frequentadores podiam saborear os mais autênticos pratos italianos e ainda levar as compras de verduras e frutas para a semana. Fragone mandava em tudo no seu negócio, menos em sua esposa Laurina, também conhecida como Mamma Fragone, que mandava nele e em todo resto... O casal tinha no filho Luccio, oficial do Exército Italiano, sua alegria e orgulho. Tudo estava perfeito. Até aquela trágica manhã. A Sicilia também era conhecida por ser o berço da máfia, uma organização criminosa que tem suas origens perdidas nas névoas do tempo. Cheia de rituais e com uma profunda ênfase nos laços de sangue, era comandada na ilha pela Família Tomasino. O chefe das famílias, também conhecido como “Don” (o padrinho), administrava os negócios ilícitos da ilha (bebidas, jogo, mulheres) juntamente com um subchefe – em geral seu familiar –, um capitão (capo) e um conselheiro (consigliero), figura que dava o aval às principais decisões. Naquela manhã, Dom Tomasino, o chefe supremo dos negócios da ilha, também havia ido ao campo de caça. Fragone observou as duas perdizes paradas e fez a mira. Quando foi disparar, teve um acesso de espirros e atirou a esmo. Mais além ouviram-se gritos. Quando Fragone foi verificar o que tinha se passado, deu de cara com um quadro pavoroso: Don Tomasino, o chefão da Sicilia, atingido no peito, jazia caído ao chão. A munição de caça era fraca, fez um estrago mais superficial, mas Tomasino, ao ver o ferimento e o sangue, enfartou e morreu de susto. Seus acompanhantes avisaram o pobre vendeiro para se preparar para o troco, ou seja, antes daquele dia terminar ele estaria morto. O vendeiro chegou em casa branco como um lençol, reuniu a família, os agregados e contou o caso. O filho Luccio estava servindo na Itália. As cozinheiras e funcionárias da cantina desataram a chorar e falar alto e ao mesmo tempo, numa algaravia em que não se entendia nada. Sua sogra, Nona Andolini, queria sair imediatamente para chamar o alfaiate e o agente funerário para tirarem suas medidas. Foi quando Mamma Fragone, tranquila e impassível, decidiu tomar as rédeas do caso. Já que Deus havia lhe dado um limão, por que não fazer dele uma limonada? Ao final daquele dia, seu marido Fragone não só estaria vivo, mas tiraria o máximo proveito da situação. Laurina e a família aguardaram, pacientes, a visita do assassino-chefe, o capo da família Tomasino. Lucca Brasa era conhecido como “o terror da Sicília” por sua folha corrida de crimes. Fragone deixara-se afundar, suado e tremendo, na cadeira de espaldar alto da sala. Só Laurina parecia inabalável. Foi quando Lucca chegou, mais pontual que a própria morte, às seis badaladas noturnas dos sinos da Igreja. À tiracolo, numa caixa de violino, trazia “La Cantante”, como era conhecida sua metralhadora de estimação. Fragone era a própria imagem do desespero. Laurina recebeu Lucca e lhe serviu um café, como se o motivo da visita fosse uma amabilidade entre amigos. Antes que ele executasse a missão que lhe haviam designado, pediu para ter uma breve conversa com ele. Lucca era um assassino, mas nunca um bruto. Não tinha porque não atender um pedido de uma futura viúva. Foram a um aposento mais afastado: - Lucca, quero saber em primeiro lugar como está tua bambina, Isa. / - Uma tristeza, Mamma Fragone... Três meses. O desgraçado fugiu para a América. Não pude pôr minhas mãos nele. / - O meu Luccio ainda gosta dela. Ele vem pra casa no início do mês. Quero te fazer uma proposta... / - Proposta? / - Eco. Luccio é um oficial do Exército Italiano, tem uma bela carreira pela frente. Ele gostaria muito de tomar Isa como esposa e assumir esse filho. Isso poderia unir nossas famílias. / - Não sei o que dizer... Isso salvaria a reputação de minha filha, lhe daria um futuro. / - Sim Lucca, é isso que nós, eu e tu, queremos. / - E o que eu poderia dar em troca deste gesto tão grandioso, Mamma? / - Quero que poupes a vida de meu esposo. E mais: quero que mates os subchefes e capos das outras famílias. Quero que sejamos a “Família Fragone”. Fez-se um silêncio. O assassino não disse nem que sim, nem que não. Após um tempo, Mamma Fragone levou Lucca até a porta. Ele olhou Fragone afundado na cadeira e fez um gesto com o indicador, passando pelo pescoço. O vendeiro pareceu encolher. Olhou para Laurina e piscou o olho. Ela o acompanhou até o portão, confabulavam. Quando voltou, Mamma disse diante de todos: - Vamos chamar o alfaiate e o funerário. Precisamos preparar o Fragone para um outro tipo de vida. / Às nove horas da noite, tocou novamente o sino. No salão anexo à Cantina Surriento, Mamma Fragone, Nona Andolini e alguns agregados e vizinhos velavam Fragone, que estava impecável num terno escuro feito às pressas pelo alfaiate Vincenzo, especialmente para a ocasião. Quem olhasse para o morto, dizia que simplesmente dormia. A família ocupava um lado da improvisada capela mortuária. Do outro lado, chegando um a um e recebidos por Lucca Brasa, estavam os subchefes e capos das outras cinco famílias da ilha, comparecendo para certificarem-se de que a justiça por Don Tomasino tinha sido levada a cabo. Quando todos cumprimentaram a viúva e sentaram em seus lugares, de repente o morto pulou de seu caixão em direção à família e Lucca sacou de sua metralhadora. Antes que entendessem o que estava acontecendo, as principais figuras da máfia siciliana foram crivadas de balas e jaziam mortas diante dos Fragone. Agora, para que o plano de Mamma Fragone fosse coroado de êxito, faltava somente um mero acordo diplomático com os familiares daqueles ilustres defuntos. Sem seus subchefes e capos, as famílias depostas, representadas por idosos, viúvas e enlutados herdeiros, não tinham mais possibilidade de vingança ou retaliação. Só restava reconhecerem a sucessão dos Fragone e de Lucca Brasa no poder. O casamento dos felizes jovens Luccio e Isa foi um deslumbre, e emocionou suas famílias e conhecidos. Faltava agora o reconhecimento formal do novo chefe da máfia, o novo Don... Lucca. Acumularia as funções de subchefe e capo, e Mama Fragone assumiria a função de conselheira (una belìssima consiglierina), tomando as decisões mais difíceis e estratégicas. As cinco famílias chegaram à Cantina Surriento, como numa procissão, uma após a outra. Fragone, ao lado de duas panelas em que se preparava um molho de tomates e um nhoque ao sugo, sentava-se para que os visitantes beijassem sua mão e o saudassem como o novo “Don”, levantando os olhos a ele e dizendo: “Don Fragone”, ao que lhes respondia com dois beijos no rosto e um caloroso abraço. Ao seu lado, Mamma Fragone controlava o movimento e saudava os que ali chegavam. Ela seria a primeira mulher siciliana a comandar a máfia, um marido e uma cantina...

terça-feira, 27 de agosto de 2013

Sazonal

Porto Alegre desfaz-se em água / E em gelo / Há dias e dias seguidos... / E eu me desfaço em mágoa / Paranoico, perseguido / Por gigantes modorrentos / Os mesmos moinhos de vento / Quixotescas depressões / Desse humor que tanto varia / No inverno desta terra / Ansiando o nascer do sol / Que esse ciclo um dia se encerra...

quarta-feira, 21 de agosto de 2013

Perdas e danos

Estava quieto, sentado à cabeceira da mesa com seu vinho importado. Aquela que chamara de esposa por dez anos e seus dois meninos tinham ido embora. Brindava ao fim da “chatice” familiar, ao tempo consumido com picuinhas. Finalmente estaria livre para cuidar de sua vida, suas preferências intelectuais, suas amizades. Ah, e as mulheres... Estaria livre para fazer suas escolhas. Foi de repente que percebeu, assim, sem esperar: a casa estava vazia.

terça-feira, 20 de agosto de 2013

O que me falta?

Me faz falta meu sorriso
Assim, meio bobo,
De quando eu te via chegando.
Me faz falta minha voz
E nossas conversas
Aquelas que tínhamos
Até altas horas
E que continuavam no outro dia.
Me faz falta a demora
De quando ainda não vinhas
E que só fazia brilhar mais
O encanto de tua presença...
O que sobrou?
Tua ausência, teu silêncio,
Minha expressão triste
E essa saudade
De tudo o que me falta
De tudo o que não sou
Porque não estás aqui...

segunda-feira, 19 de agosto de 2013

A Última Balada

Erick chegara à maturidade de um guerreiro. No entanto, não conseguia mais desembainhar a espada nem brandir o machado. Algo em seu interior o divorciou da guerra, daquela que era a razão de viver de cada viking. Só tinha uma coisa a fazer. Preparou seu barco com as toras besuntadas pelo óleo combustível. Entrou no espaço destinado a encaixar seu corpo e com o remo chegou à correnteza. Acendeu a tocha e sua pira funerária. Ao longo do curso do rio, o pobre guerreiro ia ao encontro da Morte, deixando pouco a pouco de ser um homem e tornando-se mais e mais cinzas...

domingo, 18 de agosto de 2013

Sobras

O amor é uma Esfinge / Com seus enigmas / A serem desvendados / Passada a surpresa / Somos a presa / Do abandono / E da solidão / E do banquete de outrora / Só restam as sobras / Sombras / E a saudade vazia / Como companhia.

sábado, 17 de agosto de 2013

Fobia

Naquela reunião informal dos executivos da companhia, na chácara do diretor, seria divulgada a sua promoção aos colegas e gestores. Ele se sentia o centro do mundo naquele momento. Jovem, bonito, feliz no amor e cada vez mais bem sucedido na profissão de executivo. Sabia que aquele sucesso se devia, em grande parte, ao personagem que representava no trabalho: destemido, arrojado, equilibrado ao extremo. Desta forma, não poderia nunca demonstrar a eles quem ele era de fato. Como ponto alto da noite, degustariam um vinho de safra antiga, um verdadeiro luxo. Para homenageá-lo, o diretor convidou-o a visitar a adega, o lugar mais valioso da propriedade. Desceram ao subsolo e encaminharam-se para lá. Um ambiente à prova de luz, absolutamente seco. Por isso mesmo ele não acreditou quando viu a lagartixa na parede. Desde menino tinha uma gigantesca fobia por aqueles pequenos répteis. Ainda lembrava a cena, de quando puxou a caixa de brinquedos no quarto de guardados e ela veio cheia daqueles bichos, que desatinadamente subiram por seus braços e pescoço, até que ele desmaiasse. A partir de então, não podia sequer enxergar aqueles seres nojentos. Lagartixas preferiam ambientes úmidos e quentes. O que aquela estaria fazendo numa adega climatizada? Não poderia jamais demonstrar medo diante do diretor. Reparou que, com o movimento, o réptil desceu rapidamente pela parede e se escondeu num canto escuro. Mesmo assim, seu coração batia forte, com muito custo conseguia controlar-se e não tremer. Tinha vontade de sair dali correndo. O diretor discorria sobre a história da adega, os vinhos ali armazenados, mas ele não ouvia mais nada, só queria que pegassem o vinho de uma vez e subissem. Indicou-lhe a garrafa que vieram buscar e concedeu-lhe a honra de retirá-la do nicho. Quando fez isso, uma lagartixa correu pela sua mão. Ele deixou o vinho cair no chão e começou a gritar alucinadamente. Não sabia ao certo quanto tempo se passou até sair daquele transe, sacudido pelo diretor. Quando voltaram, na reunião trataram-se de outras pautas e não mais de sua promoção. Sendo o último a sair, recebeu a indicação de passar no departamento de psicologia da empresa. Precisaria de mais equilíbrio para tornar-se um líder, algum dia. Sentiu que, por mais que fingisse, sempre um medo longínquo voltaria para acertar as contas com seu verdadeiro eu, mesmo em forma duma maldita lagartixa...

quarta-feira, 14 de agosto de 2013

Horário Nobre

Enquanto isso, na novela mexicana... - Rodolfo, tenho que confessar um segredo... Você é meu filho! / - Não pode ser, Dona Soledad! Então, sou irmão de Cristina, minha amada... / - Não! Não pode ser, Rodolfo, minha vida! / - Calma Cristina! Somente eu, Alberto Izquiera, sou seu pai. Não és filha de Soledad! / - Alberto, você jurou que nunca iria revelar isso! Cristina é filha da dissimulada Laura Bazan... / - E Rodolfo filho do playboy Carlos Ramires, meu inimigo! / - Corta! Corta! Vamos rever esse roteiro. Não sei mais quem é filho de quem nessa trama e ainda não inventaram o exame de DNA aqui na década de 60...

terça-feira, 13 de agosto de 2013

Escuridão

Ai do meu coração / Que não me pertence mais... / Agora / Anda em algum lugar / Perdido, oculto /Arrastado, vítima /De um amor alienante / Anda agora na escuridão... / E todos os dias, então, / O sol não mais vai nascer / Enquanto durar esse mistério / Que se vive quase expirando / Que o amor e a morte /São tais / Que podemos chegar / A algum lugar / Seguindo uma voz que nos chama / Não se sabe de onde / A lugar nenhum...

quinta-feira, 8 de agosto de 2013

Música

Na pequena sala de espera estava ela, sem esperar por nada além de uma monótona consulta com seu psiquiatra. Já tinha notado o rapaz de terno e óculos escuros. Foi quando a música começou a tocar. Anos 80, intensamente romântica. Ela sentiu que ele desviara seu olhar para onde ela estava. Olhou de volta. Durante a canção, o tempo pareceu parar... A música terminou e ele levantou-se. O coração da jovem batia descompassado... Ele viria falar com ela! Foi então que ele abriu a bengala e, tateando entre os obstáculos, passou pela porta e foi embora.

Previsão do tempo

Porto Alegre / Calor de 30ºC em agosto / Vem aí um temporal / Muito forte / Seguido de frio / E umidade... / Não há de ser nada / Pois em minha alma / Há muito / Um pranto chove, constante / Explodem trovões / E pelas minhas veias /Corre um sangue / Gelado / Como o das águas que se derramam / No inverno... / Portanto o clima / Não me pega desprevenido / Pois estremeço por dentro... / Só lamento não haver / Guarda-chuva, botas / Ou qualquer abrigo / Para esses fenômenos / Meteorológicos / De minh’alma / Tão mais ferozes / Que os divulgados / Pelos jornais...

Durma bem

Meia-noite. Lá fora, as folhas do jardim farfalhavam ao vento, refletindo o pálido luar. Uma pequena mãozinha aciona a lâmpada de cabeceira. Um quarto mergulhado na penumbra surge, com uma estante cheia de bonecas de olhos de vidro que a encaram interrogativamente. A mãozinha então aciona outro botão e espera com o cobertor sob a cabeça. Ele surge à porta. / - O que foi dessa vez? / - Tem uma coisa ruim no armário. / - Já disse que isso é sua imaginação. / - Não é nada, eu escutei. / - Preciso dormir. Seja boazinha. Não tem nada no armário. / - Tá bom. Mas se eu chamar, você vem? / - Venho. / - Boa noite. / - Dorme bem, linda. / O quarto mergulhou na escuridão total outra vez. Durante um tempo dava somente para ouvir sua respiração acelerada e os batimentos de seu coraçãozinho. E o barulho de algo roçando na grade do armário... Senta-se bruscamente na cama, aperta o botão do chamado, acende a luz. Novamente ele vem, com sono e chateado. - De novo. Eu te falei que não tem nada no armário. / - Mas eu ouvi, era um barulho fazendo “tec-tec-tec”... / - Não tem barulho nenhum. Volta a dormir. Amanhã eu trabalho e tu tens aula. / - Tá bem... (Chorando). / Silêncio e escuridão de novo. Apenas o vento e a agitação das árvores. De repente a porta do armário começa a se abrir com um ruído: creeec... / Ela dessa vez não aperta o botão. Grita, grita tão alto que em segundos ele aparece em seu quarto. Com pena da sua reação infantil, resolve ser mais amigo e carinhoso dessa vez. / - Querida, queres que eu te mostre como não tem nada aqui? / - Ela, entre prantos, faz que sim com a cabeça. / - Então vamos lá, vou abrir a porta do armário! Um, dois e... / Quando chegou a contar três, virado de frente para o armário aberto, foi atingido em cheio por um grande facão. Sentada na cama, ela pôde ver a ponta da faca subindo pelas costas dele até a nuca. Quando seu corpo caiu sem vida no chão, foi que a criatura mostrou-se completamente, com seu saco a tiracolo, facão pingando sangue e seus dentes pretos e pontiagudos. Comprimida contra a guarda da cama, ela tentou gritar, mas não emitiu nenhum som.

quarta-feira, 7 de agosto de 2013

Poeminha do silêncio

O silêncio é uma pequena ilha / Com mania de grandeza / Cercada por um Oceano de palavras / Por todos os lados... / As palavras querem entrar, a todo o custo, / Mas o silêncio ergueu grandes muralhas / Com lanças enferrujadas nas pontas / E se fechou, em si mesmo. / Quem sabe um dia, / Uma pequena palavrinha / De apenas quatro letras / Chamada amor / Possa insinuar-se entre as muralhas / E então as pedras ruirão / E a amizade, a compaixão e a tolerância / Estarão livres para brincarem no quintal / Numa manhã de sábado...

segunda-feira, 5 de agosto de 2013

Ensaio sobre a tristeza

Faz frio / Luto contra uma imperiosa / Vontade de dormir / Apenas dormir... / A tristeza que percorre minhas veias / Corre livremente, sem travas / Como um veneno / E pinta meus músculos / De tons negros / Esboços da dor... / Depressão / Rainha absoluta / De boa parte dos meus dias / Projetas as partículas / Do meu sangue / Como precipitados químicos / Precipitadamente / E meu corpo nada mais é / Que teu tubo de ensaio... / Ensaio tua louca peça / Em meus monólogos de um só ato / E nessa arte, ou ciência da tristeza / Tenho que encontrar a fórmula / Suportar a mim mesmo / Até que esse ciclo / Apenas mais um ciclo / Se encerre / E seja somente mais um episódio / Entre a primeira dor /E a derradeira agonia.

sábado, 3 de agosto de 2013

Meias-verdades

Seria apenas mais um bar, perdido em mais uma noite de uma cidade perdida, não fosse o inusitado encontro daqueles dois. A garota que tinha levado um bolo do namorado e ficara esperando à toa e o cara que tinha saído sem esperar encontrar nada, nem ninguém. Diante do balcão de bebidas, ele se senta ao lado dela. Ela faz um pedido: - Garçom, um vinho seco, tinto, safra chilena. / - Olá – ele timidamente a cumprimenta. - Oi (Cara interessante. Acho que o Élio quer me dar um fora mesmo... Não custa investir). - Um bom gosto você tem pra bebidas. (Embora tão diferente do meu). / - Obrigada. Você me acompanha? (Espero que ele não me ache atirada). / - Vou agradecer. Eu nunca bebo. (Não esse tipo de bebida). / - Nunca? Bom, às vezes é melhor se controlar; mas um bom vinho faz bem a saúde (E para dor de corno, também). / - Certo. Você está sozinha? (Espero que sim, seria muita sorte). / - Sim. Saí para dar uma espairecida. (Élio, seu desgraçado. Você vai me pagar. E até já sei como). / - Eu marquei um encontro, mas ela não apareceu. (Isso dá um ar mais normal para a coisa toda). / - Ah, que pena... Bom, mas casualmente nos encontramos. Que bom, não? (Ele vai servir certinho para minha vingança. E até é bonito, olhando bem...). / - Bom. Muito bom... (Preciso não ir com tanta sede ao pote...). - Você mora onde? (Não tão atirada, não tão atirada!). / - Aqui nas proximidades. Sou artista plástico. Moro numa antiga instalação industrial que converti em meu estúdio. (Apenas um estúdio, apenas arte...). / - Artista? Que máximo! Me leva para ver teus trabalhos? (Atirada? Dane-se!). / - É claro que levo. Depois do seu vinho... (E eu que hoje não esperava nada...). / Chegaram às instalações onde ele mantinha seu estúdio. Um lugar amplo, com muitas peças e até um subsolo. Foram direto pra cama. Durante algumas horas, ele saciou sua sede de amor e atenção. Ela dormia, satisfeita e vingada em seus braços. Agora era a hora dele saciar a sua sede. Inacreditavelmente, ele abriu a boca e seus caninos começaram a se afinarem e a se projetarem o suficiente para rasgar a jugular da moça. Drenou com prazer todo o sangue de seu corpo até deixá-la completamente sem vida. Sentiu o teor do vinho chileno circulando por suas veias. Dizer que nunca bebia era uma meia-verdade, como muitas outras que foram ditas naquela noite. Antes da manhã, no subsolo, incineraria os lençóis manchados de sangue e sua vítima até não restarem nada mais que cinzas. Depois dormiria alguns dias, descansando os seus longos duzentos anos... Até o próximo encontro casual.

quinta-feira, 1 de agosto de 2013

Não estamos sós?

Perscruto as estrelas,/ Com meu velho e portátil / Telescópio /E minha velha solidão a tira colo... / Quero provar que existe / Alguém (quem sabe?) / Também / Tão solitário, tão triste, / Assim como eu, talvez / Do outro lado do Universo... / Na falta de respostas imediatas, / Arrisco uns versos, / Mudando o curso da visão / Na tua precisa direção / Em busca de contatos imediatos / Não obtendo mais do que / Um profundo silêncio / E me perguntando, ao ouvir / Ruídos, talvez estática? / Sobre os sons de teus sorrisos perdidos / No tempo? No espaço? / Agora, que esse vazio impera, / Soberano / Com sua dor que se propaga no vácuo / Mesmo que eu provasse / Qual Galileu às avessas / Que o Sol gira / Em torno da Terra / Nunca mais aquilo que entre nós / Era / Será novamente, no porvir das Eras... / Podemos até não estarmos sós/ Nessa escuridão pontilhada / De estrelas, luas e cometas / Mas eu estou, / No meu pequeno planeta, /Irremediavelmente / Sozinho / Girando eternamente / Em torno da tua órbita / Celeste...

O Pacto

A encruzilhada estava deserta à meia-noite. Seguiu as instruções: traçou com pólvora o desenho de um pentagrama invertido, inscrito em um círculo. Com o punhal cortou sua mão esquerda, deixando o sangue escorrer na figura. Saiu de dentro dela, fez as invocações do feitiço e, com seu isqueiro, ateou fogo. Uma explosão se fez, e surgiu um homem, mais parecendo um executivo que o diabo pintado pela Igreja. Deu-lhe um grande livro encadernado em pele humana, com o segredo do sucesso nos próximos dez anos, ao fim dos quais viria buscar sua alma. Sumiu sem mais. Quando abriu o livro, sentiu um arrepio na espinha. A escrita era ininteligível. Até hoje busca a chave.