quarta-feira, 31 de julho de 2013

Santa Inquisição

- Joana, te arrependes dos teus pecados? Se confessares que ouvias Satã, serás estrangulada antes da fogueira e tua alma será salva. / - Como posso confessar tal abominação, se quem me falava eram os anjos de Deus? / - Os anjos de Deus jamais falariam tais heresias... / - Falas-me em heresias? Com tuas torturas e tuas fogueiras? / - A fogueira há de purgar o pecado do teu corrupto coração, da tua carne, do teu espírito. / - O fogo nada fará ao meu espírito. Irei para junto do meu Deus. E minha carne se transformará. /- Bruxa! Essa manobra do diabo de transmutar a carne é típica de teus tratos com o oculto! / - A transmutação do que somos nessa vida, em outras formas, é algo que vem de Deus. Quando meu corpo queimar, serei fumaça e cinzas. Com a fumaça, minha essência subirá rumo aos céus. Com minhas cinzas, a terra germinará. Choverei sobre Órleans e farei brotar novos frutos dos seus campos. /- A bruxa não se arrepende... Acenda a pira carrasco! / - Pai nosso, que estás no céu... / - Queime no Inferno, herege! / - Santificado seja vosso nome...

A luz das estrelas

Finalmente tinha conseguido comprar a linda propriedade que ficava a cerca de uma hora da cidade. Um sítio imenso, com piscinas, áreas de esportes, equitação. Poderia reunir-se ali com os executivos e também promover encontros com as equipes de trabalho. Amigos? Não, não os tinha. Afastou-se da família e de todos os outros quando decidiu tornar-se um dos melhores no mercado financeiro. Laços eram coisas que atravancavam seu caminho, tiravam seu foco. A última a ir embora foi Cecília, sua amiga, seu amor. Diferente dele como a água para o vinho. Ela reverenciava cada momento como único. Insistia com ele para que freasse aquele instinto predador, para que vivesse um pouco. A brisa da tarde, os por de sóis, a sedução da lua e o brilho das estrelas... Cecília lhe propunha um mundo mágico, enquanto ele só via cifras e degraus em sua louca escalada pelo poder. Teve que se livrar dela também, cortar na própria carne, mas isso o tornou o vice-presidente da maior multinacional da região sul. E ainda queria mais... Resolveu explorar a propriedade, alimentar o ego avaliando a sua conquista. Dera folga ao caseiro, queria ter um pouco de solidão e privacidade. Mais tarde mandaria vir da cidade uma menina... Era assim que se relacionava, sem envolvimentos afetivos, comprando o melhor que o dinheiro podia pagar. Resolveu percorrer a ala sul, a mais arborizada. Levou uma garrafa com água, algo para comer e uma lanterna. Caminhou muito, quase uma hora. Foi quando, sem aviso, o chão simplesmente cedeu sob seus pés e ele caiu, sem entender o que acontecia, perdendo os sentidos. Quando acordou, ainda confuso, estava no fundo de um buraco muito profundo. Passou a avaliar a situação com sua mente prática. Pelo menos dez metros abaixo da superfície. Um antigo poço desativado. Ninguém o ouviria se gritasse, pois não havia ninguém por ali. O celular estava totalmente quebrado da queda. O caseiro só voltaria no próximo final de semana. Tentou não entrar em desespero, inutilmente. Não havia água nem alimento para sobreviver tanto tempo. Certamente em no máximo dois dias estaria agonizando, desidratado. Só o que conseguia ver, de onde estava, era um rasgo de céu, onde a lua e as estrelas começavam a despontar. Pensou em Cecília com uma dor pungente. O céu, as estrelas e o luar. Finalmente teria um tempo para refrear sua louca corrida e contemplar algo que não podia ser traduzido ou convertido em dinheiro, um pedaço do universo. Aquele céu, um presente gratuito de Deus, seria sua última visão antes da morte.

domingo, 28 de julho de 2013

"Nós" e "Eles"

Desde muito pequeno sua vida era o futebol. As primeiras lembranças eram das bolas de meia, mal sabendo andar, disputando com os outros meninos. Também as recordações das cores do time, os primeiros jogos, no rádio de pilhas do pai. Cresceu, casou-se, teve filhos. Sua vida, porém, pulsava mesmo era na cadência do esporte. Que bom era chegar na obra, na segunda-feira, e falar pra “eles” como “nós” tínhamos ganhado o jogo, dessa vez! Usava muito esse “nós” para definir sua paixão. Sentia-se parte mesmo do time, era uma verdadeira comunhão. Duro era quando o time perdia. Chorava muito, brigava em casa. Tinha vezes que não conseguia esconder a dor, entre a flauta dos colegas, “deles”, que tinham ido melhor daquela vez... Assim seguiu sua pobre vida, entre obras, jogos, campeonatos, escalações... A velhice veio, e trouxe o câncer. Ouviu o rádio de pilha até a inconsciência com que adentrou no sono da morte. Epílogo: Uma senhora e seus filhos esperaram horas no estádio para levar seu pedido de ajuda ao presidente e aos conselheiros do time. Depois de muito tempo, o segurança apareceu dizendo que era impossível a ajuda para o enterro. E, quanto a bandeiras para cobrir o caixão, tinham disponíveis somente para venda, na loja ao lado. Ele foi enterrado como indigente. Partiu magro e acabado, na mão, ao invés de um terço, o velho rádio de pilhas. Sobre o caixão, um de seus muitos pôsteres de jornal de um campeonato de um ano qualquer. Foi assim, num ano qualquer. Como um qualquer, esquecido totalmente por “eles” e por “nós”... Naquela casa ninguém mais ouviu futebol.

sexta-feira, 26 de julho de 2013

Solidão

Chega um determinado momento em que tu percebes que estás um tanto pra baixo. Passando a mão no rosto, sentes a barba de dias por fazer. E aí percebes também que nem tens te encarado no espelho, ao lavar o rosto e escovar os dentes. Parece que tudo, tudo converge para a tristeza e o abandono. O frio inverno acentua ainda mais essa sensação interior. O emprego que foi embora há meses, os projetos para o futuro que te deixam tão pressionado e preocupado. Um amor que surgiu e se foi brevemente, ainda intenção, com as últimas folhas do outono. Assim, ventando... E os amigos, os amigos que não aparecem mais. De repente é como se nos caminhos até tua casa, por não pisados, começassem a crescer ervas daninhas, aprisionando-te em teu último refúgio. Nem o sono resta como um consolo, pois além dos pesadelos, ao acordar-te a cada dia não quer calar a sensação de que o tempo passa como um carrasco, e o relógio é teu cadafalso a esperar-te na volta da esquina...

segunda-feira, 22 de julho de 2013

Gelo

Temperatura? / Negativa, lá fora... / Aqui dentro, o frio / Ainda é maior. / E neva nesse descampado / Que é minha alma / Presa de esperas, / De finais infelizes / E de começos abortados... / Não me atenho à previsão / Do tempo / Pra quê? / Mais vale a pré-visão / De minha partida: / Fantasma gelado / De um rigoroso inverno / De desamores.

domingo, 21 de julho de 2013

Trinta moedas

Fazia muito frio quando, à luz de velas, Rubens postava-se à frente da máquina de escrever naquela madrugada. A pequena tossia no quarto de cima. Há dias ele estava com dificuldade para criar e, não tendo vendido nada ao jornal sensacionalista da cidade, estava completamente sem dinheiro. A seção de polícia lhe pagava trinta moedas por histórias bizarras, que divulgava como se fossem reais. Já tinha criado tantas mentiras sobre monstruosidades ficcionais que sentia seu repertório esgotado. Resolveu dar uma lida no velho álbum de recortes, herança de seu avô. Uma curiosa coleção de histórias de todo o tipo, provenientes de antigos jornais, panfletos e livros. Abriu o grosso volume e, providencialmente, topou com a história. “A praga do Egito”. Um homem louco que perdera seu primogênito por falta de recursos e que resolveu sair pela cidade matando todas as crianças das famílias mais abastadas. Perfeito, pensou! Começou a trabalhar na aparência e na psicologia do assassino, criou alguns verossímeis casos hediondos. Alertou a comunidade sobre a necessidade de prevenção e medidas de segurança para proteger sua prole. Olhou para a folha na máquina de escrever com satisfação. Amanhã de manhã sem falta iria ao jornal e, com os trinta réis, compraria mantimentos e remédios. Animado, conseguiria escrever mais. Foi quando sentiu em seu pescoço a pressão do garrote. Virou-se. Um vulto imenso e andrajoso esmagava sua garganta com força. Agonizou sem que ninguém percebesse. O homem retirou as folhas da máquina e as guardou no bolso. Depositou trinta moedas na mesa e partiu, em busca das casas abastadas da região e de suas crianças...

sábado, 20 de julho de 2013

Chove

Chove, / Nas ruas desertas / De Porto Alegre. / Chove... / Chove e faz muito / Muito frio. / Nos desvãos desertos / De minha fria alma / Chove... / E faz muita solidão. / Agora são 20 horas / Preciso buscar o fogo / E o álcool / Para passar a madrugada / E amanhecer / Sem mais motivos.

quinta-feira, 18 de julho de 2013

O Astronauta de Mármore

Naquela noite, na beira da praia sob a lua cheia, senti algo me puxar. Simplesmente a gravidade deixou de ter efeito sobre mim. A lua era tão grande, tão soberana... Eu abri meus braços e me entreguei ao magnetismo que me trazia cada vez mais perto do astro pálido. Devo ter desmaiado, não sei se por minutos ou por horas. Quando abri os olhos, me vi num ambiente totalmente diferente de tudo o que já havia visto. Milhares de quilômetros de vazio e crateras, perdidos num espaço imenso. Reconheci no ponto azul distante o planeta Terra, minha origem. Eu estava só e, ao mesmo tempo, me sentia completo, purificado. Afinal, no espaço a solidão é tão normal... Flutuava, em grandes passos. Tinha o peso de minha alma, leve... Não pensei, na ocasião, em como poderia estar ali, respirando no vácuo. Sentia frio. Havia crostas de gelo sobre as pedras, sobre as paisagens. Queria ter um machado para quebrar aquele gelo, pensei. Acordar daquele sonho agora mesmo... Não senti, porém, o passar do tempo. Apenas deixei-me estar ali... Um dia, um grande cometa passou rente à superfície lunar e me arrancou de sua órbita. Sem ter outra escolha, me agarrei a ele e segui sua cadência alucinada em direção a Terra. Quando entrei na atmosfera, minhas roupas incendiaram-se com o calor da fricção com o ar. Fui encontrado por um grupo de pescadores na mesma praia onde desapareci, completamente nu. Os dias são sempre os mesmos aqui no “Hospital Psiquiátrico Dom Quixote”. Há hora para tudo, e todas as horas se repetem, invariavelmente, todos os dias. Hora de levantar, a primeira ronda dos enfermeiros. Hora dos remédios da manhã. Hora do pátio, do almoço, e assim por diante, até o apagar da televisão da sala de estar e das luzes. Hora de dormir. É quando me sento diante da janela gradeada para observar a lua. Nas noites de luar eu fico mais calmo. Estou nessa clínica desde que voltei do meu período de “desaparecimento”. Quarenta dias. Um brilhante e jovem advogado, agora apenas mais um alienado mental. A lua tem um papel chave no que eles chamam de “minha alienação”. Não éramos, nós loucos, chamados antigamente de lunáticos? Apesar dos médicos e de todos mais pensarem nos meus relatos como um delírio, tenho certeza de que o que me lembro aconteceu de fato. Desde então, tenho contado a mesma história para meus familiares, para meus amigos, para os médicos que me mantém aqui. Desculpe, estranho, eu voltei mais puro do céu... Enquanto não encontro “a cura”, vou ficar por aqui contemplando a lua. Vou chorar, sem medo. Vou lembrar do tempo de onde eu via o mundo azul...

quarta-feira, 17 de julho de 2013

Segredo

Há um ano ele ataca em todas as madrugadas de lua cheia. Primeiro foram os animais. Cães, cavalos, bois. Depois, seres humanos. A nossa pequena Monte Claro manchou-se de sangue e medo. Como de costume, organizo as buscas. Há esperança entre nossos homens de conseguir caça-lo e dar fim a este pesadelo hoje. Divido os grupos por quadrantes e oriento-os a usarem as balas de prata. Fico na cabana, em minha cadeira de rodas, esperando as notícias que chegarão ao raiar do dia. Lua Cheia... Aprendi a controlar o momento exato da transformação. Depois que todos se vão, solto a besta que carrego no peito. Somente como lobo posso andar novamente. O preço pago pelas vítimas não passa de um efeito colateral...

quinta-feira, 11 de julho de 2013

Vão-se ao anéis, ficam os dedos

Madame Zora, célebre ocultista, havia sido enterrada há sete dias. Leo ficou sabendo que ela levara consigo todas as suas joias: colares, braceletes e, sobretudo, os anéis. Anéis riquíssimos de ouro e diamantes. Cavou por horas a fio. Retirou a tampa do caixão e colocou um lenço no rosto, para suportar o cheiro da decomposição. Começou a coleta.Quando chegou às mãos, para retirar o primeiro anel, algo imprevisto aconteceu. A morta abriu os olhos, agarrou seu braço e cravou-lhe as unhas. A tampa do caixão fechou-se. O ladrão experimentava um pânico nunca antes sentido. Momentos depois, mergulhado nas trevas, sentiu a primeira pá de terra selar seu destino...

terça-feira, 9 de julho de 2013

Veneno

É estranho só conhecer a verdadeira face do outro quando o amor acaba. É como a história da tartaruga que, seduzida pelo escorpião, aceitou levá-lo à outra margem do rio. Quando estavam quase chegando, ela recebeu o ferrão mortal de seu passageiro e disse: - Assim vais matar a nós dois! – Ao que ele respondeu: - Nada posso fazer, é da minha natureza... Será da natureza do amor, quando acaba, só restar o veneno?

domingo, 7 de julho de 2013

Teoria da Conspiração

Tudo começou na repartição. Ouvia meus colegas falando sobre mim. Eles sabiam de algo, que àquela altura eu ainda desconhecia. Na rua, me sentia seguido, observado... Passei a prestar mais atenção nas conversas do serviço. Tive a oportunidade de observá-los mais de perto e descobrir seu plano: eles queriam acabar comigo, pois eu sabia de algo. Não sabia ainda o que. Numa certa manhã, meu chefe me chamou para a sala dele e, com um par de desculpas, me demitiu. Agora eu estava mais convencido do que antes das intenções deles. No outro dia a minha assinatura do jornal foi cancelada. E no dia seguinte cortaram minha luz. Comprei o jornal na banca e o li à luz de velas. Havia algo lá... Acho que agora sei o que queriam ocultar de mim. Fui mais cedo ao morro, comprei um revólver e balas para me defender. Agora é meia-noite, ouço passos nas escadas, passos de umas cinco pessoas, subindo juntas. São eles. Encosto o revólver na têmpora esquerda. Não hão de me arrancar nada. O que sei morrerá comigo...

quinta-feira, 4 de julho de 2013

Soldados

Nesses momentos, em que me vejo a sós com meus pensamentos, descubro quantas coisas oculto ao meu próprio respeito, quantos desejos secretos eu teimo em mergulhar de volta no fundo do poço. Viver aqui em Israel como soldado tem sido um defrontar-se com a morte, cara-a-cara, a cada dia. Já faz um ano que eu e o Beto servimos aqui. Uma amizade dos tempos de meninos, no Colégio Israelita. Os dois de famílias pobres, bolsistas, diferentes da elite judaica predominante. Acho que veio daquelas tardes de brincadeiras depois das aulas a vontade de sermos soldados. Nossos colegas, aos dezessete anos, teriam um suporte para ingressar em suas carreiras. Nós não. Ser soldado em Israel seria uma garantia de futuro. Os três primeiros anos eram os mais difíceis, um estágio para depois incorporarmos em definitivo à tropa. A realidade, porém, é sempre mais complicada que o sonho. Ver palestinos mortos todos os dias, participar mesmo dessas matanças, era algo frequente. Os atentados eram frequentes e imprevistos. Vários dos nossos já tinham morrido ou ficado inválidos. Tudo isso acompanhado pelos meus conflitos internos, a necessidade de definir o que eu sentia, o receio de expressar isso... E nossas meninas estão longe daqui. O Beto sempre espera, ansioso, as cartas de Leila. Eu não anseio pelas de Natália. Ela certa vez me falou que “a felicidade é uma mentira e a mentira é a salvação”. Talvez ela tenha interesse em casar-se com um oficial do exército israelense. Sempre suspeitei que o filho do vendedor de tecidos que sou, de fato, nunca lhe interessou. Lembro agora de tudo o que se passou hoje: o atentado, as mortes, minha quase revelação... Iniciamos a patrulha como de costume, revistando os palestinos que cruzavam diariamente a fronteira para seus postos de trabalho em Israel. Cidadãos registrados que cooperavam com a paz. O grande problema era a cooptação pelo terror: qualquer professor, médico ou funcionário podia ser recrutado. Estávamos em dez. Um homem passou para a área de revista. Quando ele fechou os olhos e recitou alto uma prece islâmica, já sabíamos. Buscamos um abrigo, mas não tínhamos nenhum. A explosão matou instantaneamente seis colegas. Do meu grupo mais próximo, só eu fiquei em pé, pingando sangue, o sangue do terrorista, o sangue de meus amigos, talvez o meu próprio. Foi quando vi o Beto. Caído. Não sei falar o que eu senti. Vê-lo assim, desacordado, indefeso... Quis abraçá-lo, protegê-lo, talvez beijá-lo. Quem vai saber agora o que eu não fiz? Beto terá alta do hospital dentro de alguns dias. Já eu, sofri um trauma mais profundo: a confirmação desse sentimento que sempre quis negar, do qual agora tenho plena consciência. Apesar disso, devo continuar negando. Beto, como explicar pra você o que eu quis? Não. O silêncio deve predominar sobre essa verdade incômoda. Afinal, somos soldados...