quarta-feira, 26 de junho de 2013

Caminhos abandonados - miniconto

Eram os primeiros dias da sua separação. Não lhe ligara, não lhe escrevera, não mandara mensagem. A sua presença era ainda imperiosa. Resolvera abandonar os caminhos entre eles abertos. Não pensar nela a cada instante, esquecer seu olhar, com sorte esquecer sua voz. Deixar as heras crescerem no que um dia foi seu éden, deixar o esquecimento matar toda a vida que foi o seu amor.

Sedex - Miniconto

Finalmente juntara o suficiente para fazer a tão sonhada viagem à Veneza. Carlo, o amigo que conhecera pela internet, o aguardava no aeroporto. Ao recebê-lo, pegou a caixa do Sedex. Conforme o combinado, despejou suas cinzas no Mar Adriático...

segunda-feira, 24 de junho de 2013

Sozinho

De volta ao velho castelo abandonado / Suas pesadas correntes a arrastar / Sua amplidão de salas vazias / Como a solidão é enorme, / Como abarca milhares de anos... / Penso que a vida sempre foi esse castelo / E os momentos em que estive no pátio, ao sol, / Contigo / Foram tão poucos e, somente, momentos / Diante dessa eternidade de morte.

quarta-feira, 19 de junho de 2013

Contínuo - miniconto

Acordou. Lavou o rosto e entrou no chuveiro frio. Sua luz tinha sido cortada por falta de pagamento. Quando recebesse acertaria. Vestiu sua roupa surrada. Chegou ao escritório. Organizou os estoques, foi ao banco pagar contas. Estoques e outras coisas de novo. Chegou em casa, pão e mortadela nas mãos. Foi sua janta. Dormiu um sono exausto. Acordou. Chuveiro frio. Escritório. Estoques, contas, banco, estoques. Casa. Acordou. E a fórmula se repetiu muitas vezes, continuamente, num movimento contínuo.

segunda-feira, 17 de junho de 2013

Convicção - microconto

O Muro de Berlim já havia caído há vinte e cinco anos, mas não conseguia cruzar a fronteira. As ideologias, para ele, eram mais concretas do que tijolos e argamassa.

Última Vaidade - miniconto

Postou-se diante do espelho e encostou o revólver na têmpora esquerda. Seus cabelos estavam emaranhados. Pegou gel e escova. Tornou a encostar o revólver. Aquela barba por fazer de três dias não ficaria bem no seu funeral. Procurou o barbeador. Todas as lâminas gastas. Resolveu que sairia para comprar. Estava decidido, mas não tinha pressa. Foi à farmácia. Mal entrou e deparou-se com Lúcia. Ela mesma o atendeu, e deixando claro corresponder ao seu interesse, escreveu seu telefone no cupom fiscal. Estão casados há dez anos. O velho revólver enferruja no fundo de um baú...

quinta-feira, 13 de junho de 2013

Lual

Ao som do mar /O sol se põe / E surge a lua / Cheia./Deitados na areia /Eu e minha menina / Cara metade, sereia... /Mágico instante / Sabe, aqueles momentos,/ Em que todos os problemas Somem?/Esse poema acabaria /Em romance / Não fosse eu /Lobisomem...

quarta-feira, 12 de junho de 2013

Ao pés do altar

Aos pés do altar, / Junto a Santo Antônio / Meu amor te jurei / E meu compromisso. / Alianças trocamos / Como um sinal / Do que sentimos... / Momentos assim / São raros hoje, / Em nossos dias corridos / De muitos compromissos / Sem nenhum amor /De trocas comerciais / Sem alianças / De sacrifícios /Sem altar... /Só o amor / Tem esse dom mágico / De parar esse falso tempo / E devolver à vida / Nossos santos, nossas juras, /Nossos sentimentos.

domingo, 9 de junho de 2013

Microconto: Quanto vale a tua pele?

Rafael olhava a luz fosca da mesa de cirurgia. Anestesiado, não podia fazer sequer um movimento. Pensava no que lhe seria tomado... Os rins? O fígado? Ou...? Fizera sua primeira tatuagem aos quatorze anos. De lá para cá, aos trinta, tinha o corpo totalmente coberto por elas. Eram de todos os tipos: em preto, em cores, trabalhadas, mas sempre seguindo um padrão: arte. Tinha em seu corpo reproduções totais ou em parte de quadros do medievo, do renascimento, do impressionismo, fora os modernos. Retalhos de Da Vinci, de Van Gogh, de Picasso, em seus braços, pernas, peito e costas, por todas as superfícies... Rafael havia se convertido em uma obra de arte humana. Obra essa que interessou ao soturno colecionador Vitor Marchent. Um grande piloto de Fórmula Indi da década de 80, Marchent teve 95% do corpo queimado em um acidente automobilístico. Agora vivia só e recluso em sua mansão, entre o requinte e sua majestosa coleção de arte... Arte de todos os períodos e gêneros. Descobrira Rafael por acaso, numa revista sobre tatuagens, e imediatamente desejara ter aquela peça em seu acervo. Descobrira também o vício do rapaz: o jogo. Foi através dele que fizera o incauto assinar-lhe a promissória em branco. Depois daquele último dia de azar no cassino, Rafael foi sequestrado por um grupo de homens e posto inconsciente. Acordara há pouco, paralisado... Epílogo: naquela madrugada, um homem jovem daria entrada no HPS de Porto Alegre totalmente sem pele, vindo a morrer logo em seguida de choque séptico. Dentro de um mês, após o cuidadoso tratamento do couro humano, Marchent contemplaria o manequim masculino a girar na vitrine iluminada, recoberto por uma arte pintada com tempo e sangue, dando-lhe um suporte nas três dimensões... Uma peça única, pensava ele, com sua pele queimada, observado a pele sã e tratada com o melhor dos remédios, a arte...

sexta-feira, 7 de junho de 2013

Voltas!

Do longínquo Oriente / Das montanhas mais altas / Ou dos revoltos mares? / Não importa de onde, / Voltas! / Te vejo, enfim... / E a minha vida que parou / Na tua partida / Torna de novo a tomar / Movimento... / Voltas! / Com um sorriso no rosto, / Com o olhar mais belo / No meu outono, / Como se primaveras fosses... / Voltas! / E com as mãos repletas / Das minhas saudades...

terça-feira, 4 de junho de 2013

Encruzilhada

Já não há como voltar / E diante de ti / Estão todos esses caminhos... / Descaminhos. / Estás sozinho / Para tomar tuas decisões / Cada uma delas / Que agora ainda não te parecem / Claras / Não até percorreres / Suas vielas / Escuras / De onde não haverá / Retorno. / E agora quedas, pensando, / Como escolher? / O que escolher? / E o tempo, esse vilão / Não te facilitará a decisão / Pelo contrário / Te jogará, aleatoriamente, / No lugar em que achar / Mais conveniente...

segunda-feira, 3 de junho de 2013

Fina ironia

Sentiu a brisa no rosto, / A última de sua vida / Ao subir ao cadafalso. / Saudou o carrasco com entusiasmo / Afinal, não era sempre / Que era recebido com solenidade / Por um homem encapuzado... / Sentiu o roçar da forca / Como uma suave carícia / Em seu pescoço. / Como eram doces / Seus últimos momentos! / Lamentava apenas / No derradeiro instante / Não conseguir / Deixar de mostrar a língua / Aos presentes.

domingo, 2 de junho de 2013

Poema do Nada

Às vezes não há nada / Para escrever / Porque tudo / Está tão parado... / Porque, aqui dentro,/ É tudo só ausência. / E esse imenso nada / Aqui de dentro, / É tão múltiplo e tão vivo / Que se evade de mim / Acaba se fazendo / Palavra / E aqui vem habitar / Entre os homens / Na forma de poesia.