segunda-feira, 27 de maio de 2013

Tristeza

Chuva rubra / Que molha / Minh’alma / A dor de fora que / Enlaça / A dor de dentro / Infindável tormento, / Das horas sem sentido / Transformadas em dias, / Em meses, em anos, / Transformados em vida / De derrotas, equívocos e / Enganos... / Haveria uma saída? / Talvez sim, talvez não, / Um corte na carótida / Pondo fim à ilusão...

domingo, 26 de maio de 2013

Eu continuo

Depois do vendaval / E da tormenta / Que te apartaram de mim / Eu continuo aqui. / Continuo, / Um pouco menor do que antes, / E o dia aparece calmo e claro / Mas não é... / Ao menos aqui dentro. / E a minha solidão / Não fala nada ao mundo / Porque a desfruto / Mudo / E assim, vazio / Do teu amor / Que antes me animava / Eu continuo. / (Até quando?)

sexta-feira, 10 de maio de 2013

Conto: O Envelope

“A verdade nada mais é do que aquilo que crês que seja a verdade: uma escolha tua, por fim”. Provérbio árabe. Celso fitou o envelope por um longo e interminável instante. Finalmente saberia a verdade. Aquele ano de desconfianças, desde a festa de Natal de 2012, se encerraria de uma vez por todas quando os fogos anunciassem a despedida de 2013. Começava como sempre a lembrar-se de como tudo começou, a juntar as peças. Acariciou longamente o revólver calibre 38, carregado. Aquilo teria um fim ao raiar de 2014. Naquela confraternização de Natal da empresa em 2012, onde podia-se levar os familiares como acompanhantes, Celso levara Clara. Noivos há cinco anos, estavam por planejar o casamento iminentemente. Ela ainda não conhecia os seus colegas, nem seu melhor amigo na repartição, Fausto, uma falha sérissima provocada pelas correrias do dia a dia. Fausto era muito mais que um simples colega, era um amigo, um irmão. Trabalhavam verdadeiramente em equipe, cobriam os furos um do outro, se protegiam. Algo raro na selva de pedra dos dias de hoje. Apresentou sua noiva ao amigo, notou que sentiam uma simpatia mútua e isso o deixou feliz. Jogara a pedra no meio do açude parado. As ondas que viriam derivadas dessa ação, concêntricas, em direção à margem, foram originadas por ele mesmo. Fausto era um homem vaidoso, um colecionador de conquistas. Quanto mais difíceis e inatingíveis, para ele, maior prazer lhe proporcionavam. Ao contrário de Celso, um homem talhado para um amor, uma única mulher. Em Fausto, a vaidade superava o bom senso, correr riscos dava-lhe o prazer da adrenalina circulando em seu sangue, fazendo sua cabeça latejar. Foi quando começaram suas histórias e comentários com respeito a uma misteriosa mulher que seduzira. As lacunas na história eram de alguma forma suspeitas, já que ele nunca poupara Celso de seus detalhes, inclusive sórdidos... Clara também começou a apresentar lacunas. Compromissos imprevistos do atelier de pintura, coincidentes com as ausências de Fausto no escritório. Tudo seria apenas imaginação de Celso, se não fosse o fato de um clima de constrangimento quando mencionava os nomes de um ao outro. Foi quando as impressões de Celso passaram a tornar-se efetivamente desconfiança. Agora encarava tudo por essa ótica. O sorriso do amigo era o tripudiar de um sujo, escárnio. A felicidade de Clara era luxúria, mentira. Foi quando resolveu recorrer a uma ajuda para confirmar tudo e vingar-se, ou deixar para trás toda essa loucura que o estava consumindo. O detetive Resem estava na casa dos 70 anos. Era o mais procurado em Porto Alegre e também por outras regiões do país. Aposentado do SNI, ex-“araponga”, tinha como seu ponto forte as investigações de adultério. O trabalho encomendado por Celso e que custara todas as suas economias, teria vigilância, campanas, fotos e quebra dos sigilos telefônicos de cada um dos investigados. O resultado estaria pronto no dia 31 de dezembro de 2013. O prazo foi cumprido à risca. Celso, sozinho no escritório, de onde todos os colegas já haviam partido para preparar seu ano novo, contemplava o envelope, que continha toda a verdade, e o exame. O exame entregue por Clara de manhã, anunciando sua gravidez. Sim, Celso seria pai, era o que faltava para completar a felicidade do casal. Deviam apressar a cerimônia. Deviam? Seria ele o pai? O envelope, com seu conteúdo pesado, contemplava Celso. O exame de gravidez de Clara também o fazia. Naquele instante ele decidiu. Buscou o potente triturador de folhas do fundo da sala. Ligou-o na sua capacidade máxima, e viu retalhos indistintos de fotos e relatórios virarem tiras de papel de meio centímetro. Com seu isqueiro, incinerou qualquer resíduo que pudesse ser remontado... Saiu de carro em direção de sua casa, onde Clara o aguardava. Parara na Ipiranga, diante do arroio Dilúvio, onde arremessara a arma com a qual pretendia tornar-se um assassino. Assassinara com isso sua desconfiança, seu ódio. Estava determinado a não pensar, nunca mais, no assunto. O casamento ocorreria em três meses. Felipe, um menino lindo e saudável, nasceria três meses depois. Celso fez questão de chamar Fausto para padrinho, ao que este aceitou sentindo-se honrado. Celso, Clara e Fausto seriam amigos cada vez mais unidos nos anos que se seguiriam. E a verdade? Bem, caro leitor, diante de um final tão feliz, pergunto-te: a verdade realmente importa?