sexta-feira, 26 de abril de 2013

Conto - Noite de Todos os Santos – Parte 2

O ar era pesado no interior mal iluminado do ambiente. Homens com roupas surradas de camponeses medievais no balcão, olhos baixos, grandes canecas. Um homem com vestes de monge, capuz, com uma lanterna do tipo lampião ao seu lado, servia-os com algo que parecia ser uma cerveja. David chocou-se ao notar, nas prateleiras que o cercava, os vidros de conservas contendo olhos, órgãos e fetos humanos, conservados em algum líquido. Ao redor, em grupos diversos sentados às mesas, estavam pessoas estranhas, em silêncio. Ao fundo do ambiente, um caixão cercado por homens de preto, em pé. Na penumbra não se podia ver o rosto do morto. Somente as velas que ardiam solitárias. Em uma mesa isolada havia um homem, com uma roupa e um chapéu berrantes. Manipulava alguns objetos que David não podia definir. Duas canecas cheias repousavam entre eles. O médico pensou estar enlouquecendo ao reconhecer a voz provinda do estranho: - Doutor David. Estava aguardando o senhor. Há sete anos. David tentou acordar, mas não era um mero pesadelo. Ele estava ali de fato. E aquele homem, com vestes estranhas e berrantes era... - Urias? Mas você está... - Morto? Há sete anos. Mas hoje é uma noite diferente. Na madrugada de 31 de outubro para primeiro de novembro, as portas para o mundo sobrenatural se abrem. Nós a conhecemos como a Noite de Todos os Santos. Os povos celtas o celebravam também na forma de um festival chamado Samhaim. Mas sente-se. Doutor. Essa cerveja está reservada para você. David tentou não pensar. Era um sonho ruim, tinha certeza. A qualquer momento acordaria. Tudo o que tinha a fazer era seguir seu fluxo, não lutar contra ele. Sentou-se. Deu um largo gole na cerveja. Forte, artesanal, gelada. O líquido passou por sua garganta em direção ao estômago como um fogo percorrendo uma trilha seca. Resolveu jogar aquele jogo. Isso, tinha certeza, o faria despertar. - O que você quer de mim, Urias? - Um pagamento, Doutor. Afinal, você ficou com minha mulher. - Nós só nos envolvemos depois da sua morte... - A minha morte. Foi conveniente, não? Eu sei. Hoje tenho um conhecimento que não tinha na época. A sabedoria dos mortos... Quando nos conhecemos, você a quis desde o primeiro minuto. - Não é verdade, fiz tudo ao meu alcance para salvá-lo... - Salvar-me? Não me faça rir. Toda a sua conversa, a sua dedicação... Os plantões de finais de semana para minhas sessões de radioterapia... Você usou mais rádio em mim do que poderia matar um cavalo... Isso apressou o câncer em meu sangue. Foi isso o que, de fato, provocou a minha morte. - Você está delirando, não pode provar nada... - Estou morto, lembra-se? Não há necessidade de provas. Beba sua cerveja, doutor. Inexplicavelmente, a caneca se enchera de novo. David a esvaziou de uma só vez. Ao repousá-la sobre a mesa, estava novamente cheia. Voltou a esvaziá-la, num ciclo que se repetiria noite a dentro. - Ela também sabia. Quis você desde o início – falou o defunto. Passei a ser um obstáculo entre vocês dois. Ela nunca questionou minhas continuadas sessões de radioterapia, que só me debilitavam mais. Chorou de alegria quando eu morri. O caminho estava livre. O médico sabia, no fundo de sua consciência, ser tudo verdade. Sua cabeça girava. Agora não queria mais nada, a não ser fazer parte também daquele delírio, imiscuir-se nele, até que pudesse exorcizá-lo. - Por quê essas roupas, Urias? - Não se lembra da minha área de estudos, doutor? A simbologia? Eu as criei, e tudo o que você vê a nossa volta, com minha vontade, guardada nesses sete anos. Estou trajando o “Mago”, do Tarot de Marselha, um antigo oráculo francês. Assim como esse arcano, posso manipular a realidade ao meu redor. Vê o homem no balcão, com o capuz e a lanterna? É o “Eremita”. Recolhido ao isolamento e, ao mesmo tempo, em busca do sagrado. - E aquele velório, Urias? Significa a sua morte? A morte que eu encomendei? David não notara, mas agora ria com gosto. Nunca tolerara obstáculos, e era isso o que Urias significara em sua relação com Elizabeth. Ele iria morrer de qualquer modo. Só fizera apressar um pouco as coisas. Foi então que notou o homem alto, vestindo preto, portando uma foice. Parado ao seu lado. - Seu tempo de abandonar esse barco chegou. Vá com a “Morte” despedir-se do defunto e estará livre para voltar ao seu mundo. Eu já tive o que buscava. Sem questionar, David obedeceu Urias. Seguiu o imenso homem até se aproximar do caixão. Foi quando o chão fugiu a seus pés. O rosto do morto. O rosto. Seu rosto. Não, não podia ser! Sua cabeça agora girava desatinadamente, até sentir a dor e o esfacelamento de seu crânio. Então veio o escuro. E depois do escuro, algo que os homens costumaram, desde há muitos séculos, chamar de Inferno. A equipe de salvamento e a polícia rodoviária federal ainda se perguntavam o que teria causado a colisão do carro do Doutor Nasser com aquela árvore. Traumatismo craniano com perda encefálica fora declarada a causa mortis. Seus colegas, amigos e a viúva Elisabeth se perguntavam como o exame de toxicologia pudera apontar um nível tão elevado de álcool em sua corrente sanguínea, se era do conhecimento de todos que David não bebia, muito menos naquela madrugada após a palestra em Porto Alegre. Um mistério que nunca teria resposta. Elisabeth tinha um consolo: um filho crescia em seu ventre. Nove meses depois, causando espanto à equipe obstetrícia, a moça daria a luz a um feto morto, coberto de tumores, tumores que haviam passado à mãe através da placenta, devorando o seu útero e outros órgãos, num processo de metástase. Morreria sete meses depois.

quinta-feira, 25 de abril de 2013

Conto - Noite de Todos os Santos – Parte 1

Porto Alegre, meia-noite da madrugada de 31 de Outubro, uma sexta-feira. O Dr. David Nasser acabara de sair de um seminário sobre oncologia do qual fora o organizador e palestrante principal no Plaza São Rafael. Aos quarenta anos, aquele homem forte, bonito e brilhante estava no auge de seu vigor e de sua carreira como médico. Era o mais importante oncologista da região sul do Brasil, tendo tratado pacientes que vinham lhe consultar de várias procedências. Ganhara inúmeras brigas com a morte, e isso envaidecia-o, dava-lhe uma sensação de poder sem igual. E tinha Elisabeth, a mulher de sua vida. Morena de olhos verdes, 25 anos, linda, inteligente, o destaque no violoncelo da Orquestra Sinfônica de Caxias. Um presente, um troféu. Elisabeth. Antes de ir embora, passou uma água no rosto e olhou-se longamente no espelho. Seus olhos azuis, que passavam paz e confiança aos demais. O cabelo loiro, ondulado, com alguns brancos cobrindo de neve sua fronte, conferindo-lhe um charme adicional. Sentia-se confiante e feliz consigo mesmo. Hora de pegar a estrada para Caxias. Morava na serra já tinha sete anos, desde que ele e Elisabeth se casaram, logo que ela ficou viúva. A conhecera no Hospital Universitário Federal, onde era chefe da equipe de oncologia. Ficara desde o primeiro instante fascinado por aquela jovem mulher, que acompanhava seu esposo Urias na luta contra uma leucemia que aparecera arrasadora e repentinamente. Urias era um professor graduado em diversas áreas das ciências humanas, doutor em estudos da simbologia. Para ele, aquela doença era mais que um simples sofrimento, deveria conter um significado profundo. David passara horas conversando com ele, bem como com Elisabeth. Decidiu que faria de tudo para ajudá-los. Essas lembranças passavam pela mente de David quando pegava o caminho para Caxias. Quando Urias morreu, Elisabeth ficou só. Não demorou muito para que se envolvessem. Após o casamento resolveu se estabelecer em Caxias, terra da esposa. Construíra lá a sua casa dos sonhos, que abrigava também seu consultório na região. Tinha também consultórios em Porto Alegre e no Rio de Janeiro. Ser um “expert” em sua área o conduzia a variados destinos. A viagem seguia tranquila, apesar da baixa visibilidade por uma repentina e inexplicável serração que surgira. O GPS indicava o quilômetro 666 quando o carro parou de repente. Davi fez todas as tentativas para ligá-lo. Tanque cheio, sem problemas mecânicos. Uma pane sem explicação. Parado, resolveu sair e respirar um ar. Estava literalmente no meio do nada, e aquela cerração que tomava conta de tudo dava um ar fantasmagórico e surreal à paisagem. Foi quando viu as luzes. Fracas, bruxoleantes. Avançou alguns metros em sua direção, tendo o cuidado de antes ter fechado o carro e ligado o alarme. Quando chegou em frente à construção, achou que seus olhos o traíam: uma casa de um andar, com uma grande e pesada porta central, janelas ao redor iluminadas por fracas luzes de velas e lampiões. Sobre a porta, a inscrição. “Taverna”. Uma taverna que poderia ter saído de contos medievais ou dos filmes de terror da Hammer. Sem mais a fazer, resolveu entrar. A porta, pesada, abriu-se com um rangido... (CONTINUA)

domingo, 21 de abril de 2013

Nada além de cinzas...

Muller progredira rapidamente no partido. Membro da juventude hitlerista, galgou degraus até se tornar oficial da temida SS. Ele era um dos coordenadores do campo de extermínio de Auschwitz. Quando pensava em sua carreira, lembrava como aquele garoto pobre que convivera com os ricos judeus em Berlim pudera chegar tão alto. E agora era responsável por erradicar de vez o mal que assolava a Alemanha, varrer da face da Terra os tão odiados judeus. Inseridos nas camadas dominantes da sociedade germânica, banqueiros, comerciantes, médicos e outros profissionais judeus parasitavam a nação e sangravam o pouco a que os alemães tinham direito. Agora, finalmente, recebiam o que mereciam.
O ano, porém, era 1945. Os oficiais do campo já sabiam da iminente chegada dos russos, vindos do leste. A guerra estava perdida. O III Reich, que duraria mil anos, agonizava. As ordens eram claras: matar todos os judeus, ciganos, homossexuais e comunistas, não deixando nenhum rastro. Um trabalho conjunto das câmaras de gás e dos fornos de cremação. Nada além de cinzas... Foi na última semana que Muller colocou as etapas finais de seu plano em prática. Um plano que vinha tomando corpo ao longo dos últimos meses. Havia cinco oficiais restantes comandando o campo, responsáveis por matar os derradeiros prisioneiros. Restavam poucos, todos gravemente doentes. O trabalho nos fornos estava se tornando lento demais, então cavavam grandes trincheiras nos arredores e enterravam os mortos. Ultimamente, não perdiam sequer tempo com o gás; como os judeus não tinham força para reagir, jogavam-nos direto às fossas, e os cobriam com terra.
Naquela segunda, uma semana antes dos russos libertarem Auschwitz, um cadavérico Muller colocou a parte decisiva de seu plano em prática. A dieta a partir de ração de alimentos havia dado certo. Para os colegas oficiais, o camarada havia contraído tifo ou outra doença no campo, mas mesmo assim esmerava-se em executar até o fim seu dever. Era digno da admiração de seus pares. Admiração e confiança. Por isso, tinha sido tão fácil matá-los todos enquanto dormiam, na noite anterior, em seu alojamento. No campo restavam somente poucos doentes, fracos demais sequer para falarem. Foi quando raspou seu próprio cabelo, vestiu o uniforme com a estrela de David e, sem ser percebido, se alojou em um dos pavilhões junto àqueles a quem tanto odiava.
A circuncisão, que tinha realizado em si mesmo há três meses, fora a parte mais dolorosa do seu ardil. Muller queria passar por um autêntico judeu. Já tinha um nome e um passaporte, Klaus Weimann, um professor que chegara a Auschwitz contando com então 30 anos, a mesma sua idade. Tinha que parecer um judeu até em sua máxima intimidade, não bastavam a desnutrição e o álibi que havia forjado. Injetou em seu pênis anestésicos e cortou seu prepúcio com um bisturi afiado. Sangue, dor. Determinação. Depois reservou antibióticos, que tomou até cicatrizar sua ferida, sua nova identidade.
Aguardou com paciência, comendo a ração diária que reservara num esconderijo, a chegada dos russos e seu horror quanto ao que descobriram no campo. Foi “libertado” junto com os poucos que restavam.
Nos meses que se seguiram foi cuidado por benfeitores do pós-guerra. Ganhou peso novamente, e não tardou a encantar uma linda moça de uma família judia influente. Crescera entre os judeus em Berlim, conhecia como poucos seus costumes e crenças. A posição de seus sogros o permitiu seguir a carreira de guia religioso.
Muller conseguira. Ou melhor, Klaus. Apagara seu passado, comprara sua liberdade e sua absolvição e agora era o modelo de retidão moral da comunidade a que servia. Após o final dos cultos e exortações, despedia-se de cada homem, mulher ou criança com a palavra “shalom”, que significa paz em hebraico...
Tudo ia bem. Até o dia em que, na sinagoga vazia, um homem transtornado entrou. Órfão da antiga ordem da Alemanha, aos gritos de “morte aos judeus”, lançou sobre o religioso uma bomba incendiária, que tomou conta de todo o local. Ao ser devorado pelo fogo, Muller podia ver e ouvir as milhares de almas dos mortos, que clamavam por ele do Inferno longínquo. Em breve não seria nada além de cinzas...

Eu roubado

Na primeira vez em que te amei / Me perdi de mim mesmo. / Tudo aquilo o que eu era / Ficara junto ao teu corpo / Como se me tivesses roubado / Minha essência, meu eu... / Então, já meu corpo / E minh’alma / Não mais me pertenciam / Contigo ficaram / Dona da minha essência, / Habitando tua pele / E só me encontro de novo / Comigo mesmo / Cada vez que te amo, sedento, / Mais uma vez.

quinta-feira, 18 de abril de 2013

À primeira vista

Ele não acreditava / Que se pudesse amar / Ao primeiro olhar. / Então, ela aconteceu / Em sua vida. / Suave, firme / Decidida / Como a primeira chuva / Que anuncia o Inverno / Anunciando a capitulação / De todas as suas certezas / De suas verdades absolutas / Agora, tudo que caiu, / E só resta o amor / Um amor dorido e extasiante / Só ela reina absoluta / Como o único significado / De sua vida...

segunda-feira, 15 de abril de 2013

Microconto: Despir

Carlos era um daqueles homens que sabia exatamente o que queria. Havia acumulado uma fortuna no mercado financeiro, e podia agora se dedicar ao maior dos prazeres que concebia: ser um predador de mulheres. Não era bonito, mas ostentava todos os símbolos de poder que atraiam o sexo oposto: dinheiro, roupas alinhadas feitas sob medida, o carro importado vindo da Itália, uma imensa cobertura. Foi quando conheceu Verônica, uma escritora ruiva de descendência russa. Mais uma para a lista, pensou. Ela aceitara seu convite, o que só reforçava a soberba auto-confiança de Carlos. Entre um drink e outro, acendeu o cigarro da musa de olhos verdes com seu isqueiro de ouro. Foram para a casa dela. Carlos, a cabeça tomada por seu instinto predador, pulsava. Não demorou muito tempo para que Verônica se despisse. Só faltava a consumação... Então, as coisas mudaram vertiginosamente de rumo. A moça, nua, recitou-lhe um poema de Pablo Neruda, olhando em seus olhos. Depois, um trecho de "Crime e Castigo" de Dostoiévsky, como quem faz uma carícia. Para terminar, cantarolou no ouvido perplexo de Carlos a música "Gracias a la vida", de Violeta Parra. E o homem que se cercava de símbolos de luxo, que sempre viu o dinheiro como um único meio e fim, foi sendo despido de seus símblos de poder, um a um, pela desnuda moça das letras. Perderam seu valor. Restara somente um bem sucedido ignorante. Sua virilidade foi-se esvaindo, assim, como um balão que murcha, e deixou a casa de Verônica sem mais dizer, sem olhá-la nos olhos. Não pode ver o sorriso malicioso em seus lábios.

domingo, 14 de abril de 2013

Eugenia - Parte 1

Planeta Terra. Ano de 2113. Os problemas das guerras, das pestes e da fome foram absolutamente erradicados, com o aperfeiçoamento do genoma humano e sua replicação. Agora existiam somente quatro biotipos de seres humanos: o alfa-calcasianus, o alfa-asiaticus, o alfa-africanus e o Supremus. O Supremus estava no topo da sociedade: era o biótipo responsável pelos governos, finanças, colonização de planetas e, o mais importante, pela replicação em laboratório de novos seres humanos. Os outros biótipos formavam castas responsáveis, cada uma, por determinada tarefa. A reprodução sexual fora eliminada com o contraceptivo-x, inoculado em toda a população pela água por ela ingerida. Doravante seriam gerados somente os quatro biótipos, seres humanos com capacidades físicas e intelectuais máximas, e não seriam miscigenados entre si. E todos seguiriam a liderança dos Supremus. Tudo estaria perfeito se não fossem os Guetos. Humanos primitivos que, por ideologia, insistiam na reprodução sexuada, na miscigenação e em outras práticas bárbaras e atávicas. Refugiavam-se em locais ermos e insalubres, não bebiam da água tratada. Os Guetos, organizados na “Confederação”, travavam guerras por meios militares e terroristas contra o “Governo Uno”, a comunidade que aperfeiçoou o homem e o elevou à máxima potência. Doug era um Supremo. Filho do Dirigente Augustus, um dos membros da Tríade, estava fadado, como todo o cidadão do Governo Uno, a seguir a carreira de seus pais, no seu caso a política. Algo acontecera com seu treinamento psíquico (isso era como se chamava a educação, nessa época). Doug tinha outros planos. [Continua num futuro próximo]

Sumiço

Jonathan era um pequeno menino de cinco anos, tão pobrezinho e mirrado que parecia ter, quando muito, quatro. Ele morava no Centro de Porto Alegre. Sim, no Centro. Depois que a mãe morreu na Santa Casa de Misericórdia e foi enterrada como indigente, Jonathan ficou absolutamente sozinho. Era conhecido pela turba de meninos desgarrados e pelos escroques das ruas como “Sumiço”. Ele estava ali, no meio deles, e de repente... “sumiço”. Jonathan aprendera que a arte da sobrevivência nas ruas era a arte de evadir-se, de sumir. Fugia de todas as coisas ruins: da “pedra”, que na sua inocência já sabia ser uma coisa do diabo; das tentativas de ser molestado pelos meninos mais velhos e pelos homens decrépitos e sórdidos. Conservava seu coração puro e imaculado. Lembrava só de algumas frases da oração à Nossa Senhora que a mãe havia lhe ensinado, mas fazia força para recitá-las, a cada noite: “Ave Maria... Senhor Convosco... Jesus”. Gostava quando o carro do albergue passava, era o primeiro a apresentar-se: banho, sopa quentinha e uma cama como a que tinha na casa da mamãe. Naquela noite, porém, o carro do albergue não passou. Procurou um canto para dormir, longe dos homens maus, escondido pelos jornais e cartões que o aqueciam. Dormiu enfim seu sono de inocência, com seu teto de estrelas. Foi quando eles chegaram, nas altas da madrugada. Num carro esporte, cinco playboys da Zona Sul tiraram do porta-malas um galão de gasolina e despejaram sob os andrajos que cobriam totalmente o menino. Disputaram ainda quem riscaria o fósforo. Em pouco tempo aquilo tudo ardia, e as gargalhadas dos rapazes ainda ecoavam quando arrancaram o carro dali. Não ouviram os gritos e a agonia do pequeno. A cocaína em suas mentes estava-os deixando muito excitados para isso. Então, com uma fúria incontida, caiu o temporal. Há décadas Porto Alegre não via um volume de água daquela forma, tão intenso. Na metade do caminho para suas casas, os assassinos atolaram o carro e presenciaram, impotentes, a água tomando conta de tudo, enchendo seus pulmões e espantando o ar que, afinal, eles não mereciam respirar. “Sumiço” agora estava em outro lugar, um jardim lindo, onde foi recebido pelo abraço de sua mãe. E lembrou-se do último verso daquela oração: “agora, e na hora de nossa morte, amém...”.

As Três Árvores

Três árvores irmãs de madeira nobre foram plantadas numa região fértil da Judéia. Cresceram por anos, até se tornarem robustas. Um dia avistaram o grupo de lenhadores que vinha em sua direção, e se puseram a pensar. No que, depois de derrubadas, se converteriam? A primeira, vaidosa, alimentou o desejo de se tornar um lindo baú de joias, para guardar os tesouros dos homens. A segunda, orgulhosa, alimentou o desejo de se tornar um potente navio, para conduzir os homens no comércio e nas guerras. A terceira, humilde, desejou ser uma ponte, ainda que pequena, para conduzir os homens a salvo em seus caminhos. E foram, então, derrubadas, e tornadas próprias para o trabalho. Os anos se passaram, e as madeiras originadas das três árvores foram parar em regiões diferentes, e tiveram destinos diferentes, em diferentes épocas. A primeira, que queria ser um baú de joias, se tornou uma manjedoura onde os animais comiam sua palha. Num dia especial, porém, abrigou um pobre bebê que, por não ter lugar para nascer, veio ao mundo numa estrebaria. A segunda, que queria ser um navio, foi transformada em um simples barco de pescadores. Entre eles estava um mestre, que pregava a vinda do Reino dos Céus, e em certo dia, saído desse barco em uma noite de tempestade, caminhou sobre as águas. A terceira, que queria simplesmente ser uma ponte, teve seu desejo atendido. Transformada em uma cruz, onde o filho de Deus se ofereceu em sacrifício pela humanidade, nos conduz até hoje a salvo em nossos caminhos, ao caminho da salvação.

NARANON

“Concedei-nos, Senhor, a necessária
SERENIDADE para aceitar as coisas que não podemos modificar
CORAGEM para modificar as que podemos, e
SABEDORIA para distinguir uma das outras. Amém.”

Como de costume, na abertura das reuniões, o grupo de homens e mulheres recitou em coro a oração. O padrinho, que já estava limpo há mais de dez anos, abriu os trabalhos:
- Queridos irmãos e irmãs, hoje é um dia especial. Um de nós completa nesse dia seu primeiro ano inteiramente limpo...
Os aplausos explodiram.
- Isso simboliza o início de um ciclo, que deverá se repetir nos anos que seguem. Agora, como de costume, chamamos esse irmão aqui ao palco para dar seu testemunho. Márcio, vem pra cá!
Márcio engoliu em seco. Já havia dado muitos testemunhos, se acostumado a falar àquele público, mas hoje era diferente. Um ano limpo, mas sabia que ela estaria lá, com seus olhos verdes contrastando com o cabelo negro, a boca expressiva e bem desenhada. Ela estaria na primeira fila, olhando em seus olhos.
Viera preparado. Trouxe o testemunho escrito, embora falasse mesmo de improviso. Era somente um pretexto para não olhar nos olhos de Júlia. Pegou o microfone e iniciou seu discurso:
- Boa noite, irmãos e irmãs. Meu nome é Márcio, e hoje completo um ano limpo.
A plateia explodiu em aplausos. Márcio continuou:
- Tive meu primeiro contato com ela aos dezoito anos, ao entrar na universidade. Ela primeiro acelerava meu pensamento, me fazia brilhante nas discussões em aula e nos exames. Quando o efeito passava, porém, tinha a impressão de cair de um prédio de treze andares. A depressão era intensa, não saia do quarto por nada. Foi quando percebi como as coisas funcionavam. Eu precisava ir em busca de mais, em doses cada vez maiores. E assim fui. Experimentei-a muitas vezes, e cada vez com maior intensidade. E as quedas, quando vinham, eram cada vez mais fundas. Desliguei-me da universidade. Perdi meu emprego. Cortei os contatos sociais. Minha relação com a família foi ficando tão desgastada que acabei num quarto de pensão, entre ratos e baratas. Sem posição, inserção na sociedade e dinheiro, não podia mais manter o meu vício. A falta que ele fazia doía na medula dos ossos. Decidi dar um fim nisso. Se o que eu sentia era uma queda de treze andares, então que eu acabasse com isso da mesma forma. Busquei em Porto Alegre, entre muitos, um prédio com exatos treze andares. Um edifício de escritórios na Rua da Praia. Subi até o terraço, sem que ninguém me notasse, e me postei na beirada. Ali fiquei, esperando o momento certo para pular. Não demorou muito para que alguns transeuntes me avistassem lá de baixo, e buscassem ajuda. Tive sorte. Aquelas pessoas queriam me salvar, não queriam que eu pulasse.
Fez uma pausa. Olhou a plateia. Cruzou com os olhos de Júlia, cravados nos seus. Abaixou a cabeça e tornou a ler, ou a simular que lia:
- Então o negociador do Corpo de Bombeiros chegou. Era um senhor de expressão serena, que transmitia uma calma a quem ele falasse. Perguntou-me o que ali fazia. Vou me matar, eu disse. A dependência química arrasou a minha vida. Agora não posso mais adquirir a droga, então prefiro morrer.
O bombeiro me respondeu:
- E se eu te disser que há uma saída? E se eu te disser que já estive em tua posição e estou limpo há dez anos? E se eu te disser que posso te ajudar?
Estendeu-me a mão. Entre lágrimas, segurei aquela mão firme, e saí da beira do precipício. E venho segurando essa mão a cada mês que comemorei por estar limpo. A cada dia em que digo “só por hoje”. Essa é minha história, meu nome é Márcio e estou limpo há um ano!
A plateia aplaudiu de pé. Para seu alívio, notou que Júlia já não estava mais em seu lugar. Havia ido embora, graças a Deus. O padrinho veio cumprimentar-lhe, dar-lhe um abraço e apertar sua mão, como havia feito há dez anos atrás, no topo daquele prédio.
A reunião seguiu com orações (ecumênicas, pois havia gente de diversas religiões). Mesmo os ateus as recitavam, imaginando dirigir-se a um princípio superior, de ordem e harmonia no universo. Ao final dos trabalhos, abraçaram-se como de costume. Veriam-se novamente daqui há uma semana.
Márcio pegou o caminho de casa. Voltara a estudar, estava novamente empregado. Alugara um apartamento JK em um prédio antigo da Rua Vigário José Inácio. Sua estratégia para fugir do vício, nesse um ano limpo, havia sido a mesma, sempre. Focar no aqui, agora, não olhar para os lados, não desejar. Só por hoje.
Quando chegou à esquina de sua rua, teve um calafrio. Júlia estava ali parada, a sua espera. Seu sangue gelou. Não tinha agora como não olhá-la, o corpo feminino voluptuoso sob o vestido preto que acentuava as curvas, os longos cabelos negros, os olhos, faróis verdes a rasgar a pouca iluminação do local.
A moça falou:
- Eu tenho aqui o que tu queres.
- Não posso. Estou limpo. Há um ano.
- Eu sei que tu queres.
Márcio sentia tantas reações, que não podia entendê-las com precisão. Desejava ardentemente uma dose. Apenas uma dose, ficaria limpo de novo depois, no outro dia. Sim, sim. Não, sabia que não. Uma dose o atiraria novamente na dependência. Seu sangue, antes gelado, agora fervia. Sabia agora que, nessa noite, havia perdido a briga para o antigo vício, e viria a cair de novo dentro de poucos minutos. Respondeu a Júlia.
- Eu quero. Só uma dose. Me mostra?
- Aqui não. Na tua casa.
Subiram. Márcio abriu apressadamente a porta, não queria esperar mais nada. Olhou os olhos, a boca de Júlia. Beijaram-se intensamente, ao mesmo tempo em que tiravam, em desalinho, suas roupas. Deitaram-se na pequena cama de solteiro, e ali ficaram, usando a droga toda a noite. Ao acordar com os primeiros raios da manhã, o rapaz se sentiu novamente inspirado, grandioso, especial. O efeito narcótico estava de novo correndo em suas veias. Ficara sem sentir essa sensação por um ano, e ela agora era sublime. A paixão é uma droga potente, que nos eleva aos céus e depois nos arremessa às profundezas do inferno. Mas nada mais importava. Os beijos e o corpo de Júlia eram aquela dose que ele desejara tão ardentemente nos últimos meses. Consumira aquela dose com total sofreguidão. Estava novamente apaixonado. Só por hoje.

Resposta

Ela respondera a sua mensagem. Recebeu seu e-mail com um frio na barriga. Dissera que adorara seus textos, que ele poderia mandá-los sempre. Ao fim, sugerira que se encontrassem para um cinema ou café, qualquer hora dessas. Ele ficou fascinado. Era o “sim” mais sutil e belo que já havia recebido. Ficaram cada vez mais próximos nos dias que se seguiram. O cinema aconteceu ao final daquela semana. Foi a primeira vez que tocou em suas mãos. Foi a primeira vez que, meio desajeitado e nervoso, a beijou. Viram um filme de ficção científica, mas a ficção nunca lhe parecera tão romântica quanto agora. Conversaram muitas coisas, tinham tantas afinidades... Ela era carinhosa e dedicada. E o olhava daquele jeito, um jeito que lhe tocava a alma, parava o mundo e os relógios ao seu redor... Falaram sobre a primeira vez em que cruzaram seus olhares, no primeiro dia do curso, o que pensaram naquele momento. Tudo começou com esse olhar. Chegaram à conclusão de que esse foi um momento mágico, o início de tudo. Não tentaram explicar a magia, pois a magia não se explica. Simplesmente se vive seu encantamento. Ele procurara por tanto tempo, agora tinha uma resposta: aos seus anseios, dúvidas e desejos mais profundos. Aquela linda mulher era a sua resposta, e ele iria viver intensamente esse milagre, esse presente de Deus.

Expectativa

Ele a conhecera há três dias. Assistiam um curso juntos, no primeiro dia se olharam com atenção. No segundo dia, começaram a conversar, com uma cadeira de intervalo entre eles. No terceiro dia, sentaram juntos. Conversaram de novo, agora como velhos amigos. Velhos amigos há três dias... Os assuntos eram muitos, foram parar em reminiscências da infância dos dois, coisas em comum. Ela o fascinava, tinha um ar tímido e recatado, uns olhos tão doces, que faziam seu coração quase parar. Ele havia inventado uma desculpa para pedir o seu e-mail. E havia lhe enviado umas coisas, uns poemas, umas lembranças. Agora, todo o universo se contraía em espera. Ele perscrutava a caixa de e-mails a cada hora, tentando não ficar tão ansioso com isso, mas dependendo de uma resposta para seu mundo seguir fazendo sentido. Acabara de conferir, nenhuma resposta. Quem sabe o alento de um “sim” viria na próxima hora? Lembrara até de recorrer a Santo Antônio, por que nessas horas, tudo valia. A expectativa seguiria noite adentro...

Guardo Segredo

Hoje,/ Todos dizem “eu te amo” / Como quem dá um bom dia / Ou pede licença para seguir./ Já eu, um triste e anacrônico poeta / Do meu amor, guardo segredo. / Não o firo / Não profiro / A frase fatal / “Eu te amo”/ Que é ela mesma, do amor, / O seu berço e o seu túmulo./ Do meu amor guardo sigilo / Deixo-o aqui,/ Trancado em meu peito / Amarrado, amordaçado,/ A penas sujeito / Pois tenho medo / Que se livre andasse / Pelas verdes paragens / Mesmo a brisa da manhã / Poder-lhe-ia ser fatal, / Pois declarado, assim,/ No mesmo instante / Começaria a perecer / Como a flor que nasce / Tão somente para morrer. / Fica assim, então, meu amor / Desconhecidamente meu / A me correr nas veias e me vergastar / A mente, / Que antes um amor anônimo, demente, / Que um amor ausente...