quarta-feira, 25 de dezembro de 2013

O pequeno rei

Bader, rei do pequeno Império de Cântaros, estava muito infeliz. Seu reino não era nada comparado aos seus vizinhos do norte e do sul. Era mesmo o último reino entre eles. Isso o atormentava dia e noite. Foi quando recebeu a visita de um sábio, a quem relatou o problema. O sábio ouviu em silêncio e, depois, pediu ao rei que contasse sua história. O rei contou-lhe que fora um simples pastor, que depois virou soldado e general. Depôs do poder um perigoso tirano, assumiu o reino e, em sua primeira medida como monarca, distribuiu igualmente o alimento e as terras entre seu povo. - Mesmo assim – lamentava – não sou mais que o último entre meus vizinhos... O sábio propôs-lhe a seguinte reflexão: - Já parastes para pensar qual a vossa trajetória? Fostes de pastor a rei, fizestes justiça ao vosso povo... Digo-vos que comparar-se ao outros é a receita da eterna infelicidade. Sempre temos a tendência de medirmos nossa sorte em contraste com quem é maior do que nós em algum sentido, e a lamentarmo-nos por isso. Em verdade a única comparação que vale é aquela que avalia nossa própria caminhada. Se contássemos os obstáculos que já superamos em nossa jornada, seríamos mais fortes e determinados para superarmos os que nos aguardam a seguir.

sexta-feira, 20 de dezembro de 2013

Trocando a pele

Te deixei num desvão escondido, como uma excrescência, coisa seca, sobra, como um bicho que trocasse a pele. Depois de tanto tempo aqui comigo, finalmente te desprendi de mim, e não te sinto mais. Não sinto mais nada. Para ser sincero, nem sei se volto a sentir. Agora só quero percorrer a relva e sentir o sol queimar minha nova epiderme. Viver do mato e do que a natureza me trouxer, do verde, da chuva, sem nenhuma expectativa que não o dia de hoje. Sigo puro instinto, enquanto meu amor, a pele que deixei para trás, passa a não significar mais nada para mim.

quinta-feira, 19 de dezembro de 2013

Dor

Uma jovem moça foi visitar a morada de um homem considerado santo em seu vilarejo. Ela contou-lhe que desejava morrer, pois não via mais sentido na vida. - Ancião, por favor, diga-me como obter a morte mais rápida e menos dolorosa. Não posso mais continuar assim. Viver com as outras pessoas me fere, e não posso mais sustentar essa dor. O homem parou um instante e depois contou-lhe a seguinte história: Havia uma mulher que dera à luz na aldeia de Karashi. Quando seu filho nasceu, ela suplicou ao deus Krishna que o pequeno nunca sentisse nenhuma dor. E assim foi feito. Quando a criança tinha três anos, a mãe apavorada levou-a ao templo aos prantos. A criança havia colocado a mão em uma fogueira e observado a carne se carbonizar, até restarem só os ossos. O deus Krishna, compadecido, restaurou a mão ferida do menino e fez a mãe aceitar de volta a dor da qual queria livrar o filho. A dor, em certas ocasiões, pode ser uma benção; pode também ensinar-nos a amadurecermos e evoluirmos em nossa caminhada. Com essas palavras o ancião despediu-se de sua visitante: - Vai em paz e agradece aos deuses todos os presentes que eles te deram.

terça-feira, 17 de dezembro de 2013

Reinventar

Estou precisando urgentemente me reinventar. Ver a luz, como Edison, voar como Santos Dumont, mandar a minha voz longe como Landell, a fim de que alguém me veja, de que alguém me ouça... Ou que eu fique simplesmente suspenso no ar, pairando sobre todas as coisas como Ícaro, até o sol derreter minhas asas.

segunda-feira, 16 de dezembro de 2013

Ritual

Um aldeão estava em frente a um grande lago. Arremessava pedras enroladas em folhas de papel, uma a uma, à máxima distância que conseguia. Um monge, passando pelo local, parou curioso e perguntou: - Que fazes aqui, homem? - Executo um velho ritual. Escrevi o nome de meus inimigos em folhas, que enrolei em cada uma dessas pedras que arremesso ao centro do lago. Com isso rogo aos deuses que sepultem a sorte de meus desafetos no fundo lodoso dessas águas. - Te digo que farias melhor jogando essas folhas aos ventos para levarem embora teu rancor – disse o monge. Com isso tomou uma das pedras e a jogou. - Vês esses círculos que surgem de dentro para fora, quando a pedra afunda? Assim tua raiva e ressentimento te trazem de volta, multiplicados, todos os males que desejas aos outros. Não se pode combater o fogo com fogo. Ouve o que te digo e deixa isso de lado...

Não vale o seu preço

Desde a manhã me tortura / O cérebro, mortal gangrena, / Uma sentença talvez / Talvez um pseudo-poema / Sem cadência, sem métrica, sem rima, / Que de poeta não tenho / Nada mais que falso ar de ator, / A remexer inquieto em meu peito, / O cinismo, e uma pontada de dor. / Toma este fósforo, amigo, / Aceita o cigarro que te ofereço / E reflete comigo / A inutilidade do teu tão caro apreço... / O amor não vale o seu preço / De dissimulada falsidade / Por fim, mutilante saudade, / Deixando na alma cravada / A sua derradeira facada. / Só de ilusão é feita essa trilha / E de apego inútil, que humilha / Teu resto de honra de homem / Então, troca essa tua vergonha / Por ira! / E antes que o galo cante / E a meretriz te negue três vezes, / Volta tuas costas a toda essa mentira / E de tua carne cansada retira / Essas tão pesadas correntes... / Esse sentimento, não vale o que sentes / Cuida de agora em diante cuidar / Só de ti, tão somente / Pois quando a intempérie chegar / Apenas contigo, meu caro, / É que poderás contar. (Livremente inspirado no mestre Augusto dos Anjos)

domingo, 15 de dezembro de 2013

Funeral

O reverendo vestiu-se com sua melhor batina e repassou o discurso que iria proferir em mais um funeral. Diferente da monotonia dos sermões de tantas décadas como pastor, esse tinha conteúdo e entusiasmo, vida verdadeira. Fizera uma profunda pesquisa nas Escrituras, escrevera calmamente o texto e o decorara, ensaiando em voz alta suas entonações e pausas. Seria um marco em sua carreira religiosa. Sua esposa realmente merecia tanto empenho. Deixara a vida pondo um ponto final em quarenta anos de casamento em que o dominara totalmente, legando-lhe um papel apenas secundário e apagado. Era o primeiro dia de um novo ciclo e o sol e o céu azul lhe sorriam lá fora. Saiu para cantar alegremente sua melhor elegia de todos os tempos.

terça-feira, 10 de dezembro de 2013

Numerologia

Quarta-feira / 11/12/13... / Apenas uma sequência? / Ou talvez algo mais / Para os numerólogos e adivinhos / Que não vêem apenas coincidências / Nos eventos repetidos? / Para mim /Quem sabe mais que um acaso / Pois, por esses dias / Tento descobrir verdades /(No decorrer desses dias solitários) / Tento descobrir sentidos / Nesse desvãos da vida, / Tão ao sabor do nada / O que acontecerá então / Nesse dia cabalístico? / Agora é mistério, potencial, / E possibilidades...

segunda-feira, 9 de dezembro de 2013

Receitas de Sonhos

No Bosque Esquecido havia uma comunidade de duendes que vivia de criar sonhos. Receitas de sonhos. Alimentavam com suas criações o Reino das Fadas e, inclusive, o Mundo dos Humanos. Cada duende era mestre em um tipo de sonho, em fazer como ninguém sua receita. Os sonhos eram amorosos, inspiradores, viajantes. Quem os sonhasse acordaria no outro dia descansado e feliz, quem sabe até com uma preciosa lembrança. Um belo dia, porém, um grupo de duendes decidiu que, a partir daquele momento, iria avaliar os sonhos criados por seus irmãos. Todos teriam que seguir um padrão, agora. Então, passaram a criticar, retirar cor, perfume e movimento dos sonhos alheios. Agora os duendes já não faziam mais suas receitas felizes, mas sim se preocupando em agradar os outros, em estarem enquadrados. E a beleza foi perdida. E passou-se a sonhar em cinza e em câmera lenta. Passou-se a sonhar como se o sonho fosse um pesadelo.

sexta-feira, 6 de dezembro de 2013

A flor púrpura do Himalaia

Flávio era um homem determinado. Atingira o primeiro milhão com 25 anos. Agora, aos 40, era dono de um conglomerado de multinacionais. Triatleta, mestre no Judô, buscava desafiar-se sempre. A sensação de que faltava algo para atingir o clímax de sua vida o atormentava. Foi quando soube da lenda. Uma flor púrpura crescia no ponto mais alto do Himalaia. Quem se apossasse dela seria o homem mais poderoso do mundo. Viajou ao Oriente com sua equipe de alpinismo. Escalou. Dois de seus instrutores foram dispensados alguns metros antes do fim do percurso. Ele queria apossar-se do amuleto sozinho. Chegou ao topo e foi como um sonho. Ela estava lá: uma grande flor brotando do gelo, em tons púrpuras. Quando tocou suavemente em suas pétalas, foi atingido em cheio pelo entendimento. A impermanência, o caráter transitório dos bens materiais, a inutilidade de perseguir conquistas diante da finitude da vida... Coisas tão simples, podia vê-las claramente agora. Então, esse era o verdadeiro poder? Chorou, chorou copiosamente. Durante quarenta anos tinha corrido na direção errada. O homem que desceu a montanha era outro, um novo. Aquele antigo morrera junto ao cume do Himalaia.

domingo, 1 de dezembro de 2013

Auto-ficção

Quis não fazer notar que, apesar das mensagens e telefonemas de tantos amigos, esperei todo um dia por um sinal de teu retorno. Talvez uma lembrança tua dessa data que foi tão importante para mim, ou dos momentos mágicos vividos por nós dois. Apenas uma esperança vã, insana e sem cabimento. Mas de quem eu gosto, nem às paredes confesso. Não me confesso, eu mesmo, o dono dessa solidão. De forma que,para lidar com tua evidente ausência, camuflo em literatura sua essência... Reelaboro-me, por fim, como auto-ficção. Um personagem do qual qualquer semelhança com os fatos reais não passa de uma acidental coincidência.

quarta-feira, 27 de novembro de 2013

Última Medida

Estava finalmente sozinho em casa. Hoje seria o dia derradeiro, o momento de colocar em prática o que planejara há meses. Conferiu tudo, pela última vez: tranquilizantes, bisturi. As correspondências por ordem de destinatário, sobretudo o testamento, estavam sobre sua mesa. Quando o achassem, as achariam facilmente. Seria uma grande surpresa para os parasitas de sua família. Sua fortuna tinha sido destinada inteiramente à caridade. Pôs-se, assim, a executar sua última medida. Ingeriu as três caixas de tranquilizantes, que fariam efeito em quinze minutos, tempo suficiente para cortar fundo o pulso direito e, ainda que com dificuldade, também o esquerdo. Deitado, a dor passou logo e a seguir veio o nada. Suas visões seguintes foram de superfícies brancas, dificuldade de mover-se. Seria assim a morte? Não, como ficou sabendo depois. Estava no manicômio, interditado por sua família. Nos anos que se seguiram à sua internação perpétua, as cicatrizes de seus pulsos cortados contavam a história de uma viagem sem volta.

domingo, 24 de novembro de 2013

Ad Nauseam

Sempre ouvira a recomendação para seguir seu primeiro impulso, sua primeira intuição. Sempre. Agora analisava o que sobrara dos restos desmembrados e sangrentos de um dia em que tudo deu errado. Tinha planejado ir à missa pela manhã, o almoço fora no restaurante chinês que tanto gostava, quem sabe uma volta pelo Centro, visitar uns amigos. Refez os planos na noite anterior, e foi quanto tudo começou a ruir. Dormiu demais, o clima em casa estava insuportável, almoço horrível, não conseguiu sequer estudar. Cabeça cheia, deitou de novo, mais para acalmar a angústia que para descansar. Foi à missa da tarde, e o escalaram para a leitura... Ficou nervoso, daquela forma ruim que costumava ficar, perdendo a concentração e sentindo-se mal todo o tempo. Queria agora ter somente uma bebida muito forte ou um calmante eficaz para adormecer esse dia triste nas trevas do sono. Não tinha nada. Conviveria com essa sensação de decepção e tristeza por muitas horas ainda. Não mudar os planos nunca mais, repetiria para si mesmo. Ad nauseam.

sexta-feira, 22 de novembro de 2013

A Primeira Vez

Completara treze anos e, como era tradição em sua família, seu pai o levara à zona para ele que perdesse a virgindade. A casa de tolerância, com sua luz vermelha na entrada, ficava na primeira esquina depois da principal avenida da cidade. Era conhecida pela localização, “a primeira esquina”. Quando chegou à porta do local e viu os clientes na volta e as mulheres a agarrar os passantes, sentiu uma vertigem. Tremia e suava. O pai, indiferente à sua vontade, era só alegria e orgulho. Não dava a mínima para como ele realmente poderia estar se sentindo. Entraram. O ambiente cheirava a mofo, cigarro e perfume barato. Foram recebidos com festa pela cafetina, ainda mais quando o menino foi apresentado e o motivo da visita foi declarado. Zamora – esse era o nome dela, ou um nome de guerra que, depois de tantos anos, adquirira mais legitimidade que o original – anunciou que chamaria a garota mais nova da casa para fazer as honras. Ela veio. Uma menina linda, com um sorriso forçado e um olhar triste sob uma maquiagem pesada. Não devia ter mais que quinze anos. Foram os dois empurrados para o quarto. Sentados na cama tosca, lado a lado, começaram a conversar, sem se olharem nos olhos: - Qual o teu nome? - Lúcia. - Eu sou Alberto. Nunca fiz isso. - Fica tranquilo. Eu te ensino. - Não sei se quero. Não assim, pagando. - Todos começam assim. - Por que tu estás aqui? Não pareces feliz... - Ninguém é feliz nessa vida. Fui expulsa de casa quando meu pai descobriu minha gravidez. Não tinha para onde ir, vim parar aqui... - E teu filho? - Uma menina. Dei para a adoção. - Sabes, eu também tenho medo de ser expulso. Eu gosto de meninos. Ninguém desconfia... - Tens alguém em especial? - Um colega da escola. A gente conversa muito. Nunca aconteceu nada, é só uma paixão minha. Se a gente sair daqui sem fazer nada, tu não contas pro meu pai? - Não conto. Gostei de ti. Desde que entrei aqui eu não amei ninguém mais. Sou só uma coisa que os homens usam e depois jogam fora. Tu és o primeiro que conversa comigo como se eu fosse uma pessoa. - Tu és uma pessoa. Não te esquece disso, nunca. Ela sorriu, um sorriso tímido, desencantado. Ouviram o grito de Zamora. O tempo havia acabado. Saíram para a sala e foram recebidos com aplausos pelos homens, entre eles seu pai. Seu pai estava bêbado. Bêbado e feliz. Carregou o homem na volta para casa. A primeira vez... Foi a primeira vez que abriu sua alma para outra pessoa. Nunca esqueceria aquela noite.

quinta-feira, 21 de novembro de 2013

Miniconto: Psicografia reversa

Recebeu o livro dos espíritos, psicografando, na sessão espírita. Os leitores, recebeu-os autografando, na sessão de autógrafos.

Herança

No inventário que se seguiu à morte de seu avô, o advogado criminalista e milionário Campos Salles, coube a ele a mansão no bairro Moinhos de Vento, propriedade famosa por abrigar a biblioteca particular maior e mais valiosa do país. Dez cômodos dedicados ao Direito, à História, à Literatura e a todos os ramos do conhecimento. Ele, um jovem estudante de filosofia, não sabia ainda o que fazer com aquilo, mas estava em êxtase por ser o novo proprietário daquele depositório do saber. Foi quando achou a sala. Um círculo mágico em ladrilhos escritos em hebraico e símbolos mágicos no chão. Centenas de livros de ocultismo. Pegou um tomo encadernado em couro e o abriu. Foi ao meio do círculo e leu um trecho, aleatoriamente. Riu. Não acreditava em nada daquilo. Deu às costas. Foi quando o imenso tentáculo emergiu do livro e estrangulou-o até a morte. Algumas heranças merecem ser tratadas com cautela...

segunda-feira, 18 de novembro de 2013

A Viagem

O amor é como uma viagem de barco. Como cruzar um lindo e calmo rio na companhia de alguém muito especial. Não estamos sós. Juntos sentimos a brisa em nossos rostos, contemplamos o céu azul, os matizes do sol. O que parece um momento de comunhão, no entanto, não passa de uma ilusão de ótica. Enquanto ele sente em seu peito aquele apreço por sua amada, ela luta contra dúvidas; cogita que talvez não seja ele aquele que será o dono do seu coração. Lembra ainda de sua última paixão, é refém dela. E nosso enamorado? Ele rema feliz, pensando que a chegada ao porto aportará seus sentimentos em terra firme... Ledo engano. Com os pés no chão, ela procurará as palavras para enunciar a breve e definitiva despedida... Ainda que se nos imponha a insistente ilusão de companhia, a viagem que nos propõe o amor é sempre assim: onírica e solitária.

Rorschach

Chegara para a entrevista com uma folga de quinze minutos. A porta da “Central de RH” estava fechada. Na hora exata, ela chegou. Tentou ser educado, mas ela apenas o cumprimentou com um aceno de cabeça, sem olhar em seus olhos, e o mandou passar. Trancou a porta, eram só os dois na sala. Ele tentava não pensar no quanto precisava daquela vaga. O atraso do aluguel já ia para dois meses, a alimentação era escassa, em sua maioria doação de amigos. Quase não dormia à noite, de fome e de preocupação. Reunia todas as prerrogativas para a vaga: cinco anos de experiência na área, vários cursos de especialização, formação superior. Pensava nas outras vagas que perdera, no poder absoluto que tinham os recrutadores, um poder de vida e de morte. Brincavam com as pessoas como se fossem deuses. Aquilo o enchia de ódio e tantas vezes pensara... Não, não. Decidiu que dessa vez não ficaria nervoso, não hesitaria; se eles queriam perfeição, perfeição teriam. Sem nenhuma gentileza, ela pediu-lhe que apresentasse seu currículo e carreira. O seu coração começou a bater mais forte, sentia nas têmporas o sangue pulsar despaçadamente, mas saiu-se relativamente bem. Contou sobre as funções exerceu, suas promoções. Ela perguntou tudo: suas intenções, o que esperava da empresa, até perguntou como seria o seu retorno para casa largando às 23 horas do serviço, como se um desempregado pudesse se dar ao luxo de escolher horários... Desempregado. Era isso que ele era. A posição pedante da mulher o fazia sentir-se, mais uma vez, inferior. Ela quis que ele explicasse o motivo de sua saída da última empresa, ele o fez sem hesitação: reestruturação no quadro funcional do escritório; era o funcionário mais antigo de todos e a gestão queria “sangue-novo”. Ela sorriu num escárnio. A psicóloga (era uma psicóloga? Achava que sim, mas não tinha certeza), passou para a segunda parte da seleção: - Vou aplicar agora o teste de Rorschach. Você irá me dizer o significado de cada um destes dez desenhos. São figuras abstratas que, em sua interpretação, projetam traços da personalidade de quem é testado. Trabalho com uma linha de transparência de avaliação. Para cada uma de suas percepções, atribuo um significado positivo ou negativo e lhe digo na hora. Se você tiver seis significados negativos, estará automaticamente reprovado e poderá ir embora. Tensão absoluta. Ela mostrou-lhe a primeira lâmina: borrões desconexos e simétricos em preto e branco, como seriam todas as outras. - Então, o que você vê? - Um passaro? - Negativo. - Nessa? - Uma casa? - Negativo. - Seguinte. - Um menino? - Negativo. Seu coração disparava em descompasso, suava frio; uma leve tontura turvava sua visão. A vaga... E assim foi, até chegarem à quinta avaliação negativa. Mais uma e ele estaria eliminado da entrevista. Pensava na moradia, na falta do alimento. O desespero tomava conta de seu ser. Pediu uma pausa e perguntou: - Onde fica o banheiro? - Saindo desta sala, à esquerda. Ele se levantou e, antes de cruzar a porta, quando chegou próximo a ela, puxou o martelo que trazia habilmente escondido na perna, sob a calça. Golpeou sua cabeça por trás uma vez, e ela caiu com o rosto voltado de frente para a mesa. Bateu de novo, e de novo, até perder a conta, bateu por todas as entrevistas de que foi eliminado, por todos os “nãos” que tomou em sua vida, de gente idiota e prepotente. Pedaços de massa cinzenta nadavam no sangue que jorrava abundante do crânio daquela que, há pouco tempo, poderia decidir seu destino. Ele próprio o decidira. O sangue lhe chamou a atenção. Escorria sobre a mesa, formando figuras. Voltou ao seu lugar e ligou para a polícia. Se entregaria pacificamente. Enquanto esperava, começou a interpretar as figuras que se formavam do líquido rubro: - Casa. Rancho. Emprego...

sexta-feira, 15 de novembro de 2013

A Espera

Aquele verão tinha feito com que ela se sentisse a menina mais especial do mundo. O garoto mais popular da escola, capitão do time, tinha olhado para ela. Se amavam em segredo, afinal ele não podia arriscar sua reputação, envolvido com alguém simples e não muito bonita. Mas não importava, todas as noites com ele eram mágicas, plenas como o infinito. Contou a ele no final daquela semana. Seus pais não poderiam saber nunca. Combinaram de fugir. Naquele fim de tarde, com seus poucos pertences, o esperou na saída da cidade. Viu a noite chegar sem que ele aparecesse ou ligasse. Sua única companhia crescia em seu ventre.

domingo, 10 de novembro de 2013

Primeira Página

Pacheco terminava o obituário em sua entulhada sala, o arquivo da “Última Hora”. Depois de tantos sonhos da mocidade, ao terminar sua universidade de jornalismo, havia se convertido apenas em mais um medíocre, anônimo e normal. E triste, de uma tristeza rançosa. Cuidava das seções do “Geral” (matérias sobre as tragédias quotidianas da cidade), da “Polícia” e do “Obituário”, algo que era destinado a estudantes de jornalismo estagiários, em outros jornais. Ali, ao último dos últimos. Nunca tinha seu nome vinculado às matérias, que eram sempre as derradeiras na ordem do jornal. O sonho de ser um jornalista reconhecido, de figurar na primeira página, era agora somente uma ilusão a ser esquecida. Tinha sessenta anos, um cansaço de oitenta, um ódio da vida que não tinha idade. Ia desligando o velho computador e o pequeno ventilador, seu único luxo na sala mal iluminada e fedendo a mofo, quando o telefone tocou: - É da Última Hora? Estou indo até ai. Vocês me difamaram, acabaram com minha carreira, desgraçados. Eu vou te matar! O homem desligou bruscamente. Pacheco teve o ímpeto de ligar para seu editor, para a polícia, sair imediatamente dali. Foi quando uma certeza cristalina e serena tomou conta de sua mente. Ligou novamente seu ventilador e abriu o editor de texto. No topo da página, escreveu o título da matéria: “Por que alguém mataria um jornalista da Última Hora?” Buscou inspiração nos tempos de estudante, em seus autores favoritos, nas grandes reportagens que já lera. Esquecera naquele momento toda a sua pobreza quotidiana. Determinara-se a produzir um grande artigo. Fez um apanhado do papel de seu jornal na cidade. A quais interesses afrontava, a quem incomodaria daquela forma? Qual seria o perfil daquele que o ameaçara, e à sua mídia? O texto fluía brilhantemente de suas mãos, que não apenas digitavam, mas tiravam música do teclado. Pensou no fechamento do artigo. Teria que fechá-lo sem uma resposta a última questão de sua vida. Mas essa seria dada por seus colegas, pela polícia, por seus leitores... Pela primeira vez sabia com absoluta certeza que seus leitores tomariam conhecimento de quem ele era. O porteiro interfonou anunciando um visitante. Ele o mandou subir. Saiu do arquivo e foi abrir a porta ao desconhecido. Pode olhar por um momento nos olhos do homem que, sem uma única palavra, disparou um tiro certeiro no rosto do velho jornalista, que morreu na hora. No dia seguinte o “Última Hora” publicou em sua capa a foto e o nome de Alfredo Pacheco, e seu último e brilhante artigo refletindo sobre o papel de “paladino” da mídia jornalística contra os interesses escusos de corruptos, bandidos e mal-intencionados. Nem uma bala os faria calar, acrescentaram ao texto do morto, prestando-lhe as mais copiosas homenagens. A primeira página, afinal, havia chegado...

As Quatro Estações

Outono. As folhas douradas caiam das árvores e compunham caóticos tapetes nas ruas quando ele a conheceu. Um amor inesperado, um alguém que era a resposta a todas às suas questões. Simplesmente tudo naquele momento fazia sentido... Embora a natureza morresse lentamente ao seu redor, ela era mesma toda a vida de que ele precisava. Inverno. O amor dos dois floresceu até o Dia dos Namorados, aquele dia em que trocaram alianças de compromisso numa bucólica Igreja do Partenon... Quando, logo depois, uma tempestade sequer suspeitada levou-a de repente para longe, para fora de seu alcance. E ela ficou, a despeito disso com ele, uma ausência dolorosa e, ao mesmo tempo, tão cara. Primavera. As árvores floriram e perfumaram o ar mais uma vez, mas ele, indiferente, só sentia mais pungentemente a falta de sua amada. A vida se renovava, mas só o que o acalentava era lembrar o passado de quando o vento soprava gélido, mas seu coração ardia em brasa. Verão. O Verão em Porto Alegre é torturante. Ele que só ficou com a saudade, espera desesperadamente que o Outono se apresse e, quem sabe, a traga novamente para junto do seu lado. Se já é difícil esquecer um amor qualquer, quanto mais aquele que só deixou boas lembranças, as melhores, pensava. Se fosse só sentir saudades, mas nem sempre algo mais...

quinta-feira, 7 de novembro de 2013

Mandrágora

Era sabido naqueles dias da Idade Média que, onde repousavam pendurados os corpos dos enforcados, brotava na terra uma raiz mágica chamada mandrágora. Iselda aprendeu com sua mãe que, nos últimos estertores, os enforcados ejaculavam o esperma que fecundava a terra, transformando-se no elemento que servia para evocar o diabo. Ela fez tudo conforme ensinava o grimório: o círculo, o caldeirão fervente, as palavras ancestrais e, por fim, a sagrada raiz, que se parecia com um pequeno homúnculo de cinco pontas. O cheiro de enxofre no ar anunciou a presença maligna: - Mulher, aqui estou. Faze teu pedido. - Quero que me faças homem. E assim foi feito. Ela se tornou um lindo moço chamado Isar, que matou um desafeto pelo amor de uma donzela. Certa de que viveria melhor como homem, a bruxa acabou sentenciada à forca. Do seu estertor brotou uma nova mandrágora...

domingo, 3 de novembro de 2013

Amada

Tens uma forma bela e suave / Que atrai e encanta / Um corpo belo de se ver passar / E um olhar que permanece na lembrança / Mas há entre nós uma muralha / Tão difícil de transpor, que nem imaginas / Tu segues do teu lado a me enfeitiçar / E eu chorando a minha triste sina... "Manuscritos Perdidos de um Menino Triste" (1995)

Eremita

O tempo avança inexoravelmente / Inimigo sempre pontual / A vida passa vagarosamente / Sofrer já é quase natural / No horizonte nenhuma novidade / Somente a solidão, fiel companheira / De um amor fictício sinto às vezes saudade / É uma forma de amor, de qualquer maneira / Este lugar sombrio que tenho habitado / Não mudou muito, em todos esses anos / Como um rosto ainda não de todo marcado / E tem sido assim, sem nenhum sentido / Um dia vou embora, mas pensando / Nem um dia sequer ter vivido... "Manuscritos Perdidos de um Menino Triste" (1995)

Medo da Morte

Não tenho medo da morte, etapa final. / Não me assusta a última morada, o repouso eterno. / O que me apavora é a hedionda morte quotidiana, ladra das horas boas./ A morte de não sorrir, a morte de não vibrar... / A morte de não amar. / A morte de não ter sido amado. / A angústia de coisas sem sentido. / Não temo a morte, ponto final; / Temo a morte que é não ter vivido... "Manuscritos Perdidos de um Menino Triste" (1995)

Arte do Engano

Viver feliz é a arte de enganar a si mesmo Jogando as dores pra baixo do tapete Se não tenho um amor, não me faz falta... Pra quê sofrer? Mas sob a pele sã Os ferimentos estão abertos. "Manuscritos Perdidos de um Menino Triste" (1995)

sexta-feira, 25 de outubro de 2013

Cadafalso

Tomo o cuidado de não pisar / Em falso / Nesse equilíbrio instável / Tento agarrar, em vão, / O tempo que escoa / Esse tempo que é benção / E cadafalso... / Além do túnel não há luz / Mas trevas indevassáveis / Os sonhos não passavam de / Quimeras... / Dissipando minhas ilusões / Conto nos dedos minhas inúteis / Eras / Tudo o que não fiz / Com as oportunidades que não tive / Faço um chá alucinógeno / Com as heras do jardim / Planejando assim / Cuidadosamente / O fim / Deste conto de mau-gosto / Meus viveres, meus desgostos, / E o Inferno, quem sabe / Seja menos tormentoso / Que esse eterno purgatório... / Não é questão de escolha / A questão é não haver escolhas...

quinta-feira, 24 de outubro de 2013

Paraíso

Sempre escutara que o amor era o paraíso. Essa dádiva, no entanto, estava distante para um menino como ele: magro, introspectivo, fazia o tipo intelectual que era desprezado pelo sexo feminino. Porém, aos dezoito anos, tudo mudou. Seu pai lhe deu de presente um carro novo e imponente. Foi quando Vanessa o convidou para um encontro. À noite, foi à casa da moça buscá-la para o jantar num restaurante fino. Quando ela abriu a porta e o cumprimentou, com ar zombeteiro criticou sua camisa. Durante o trajeto não parou de falar, gabando-se de seus amigos, de seu mundinho, algo tão distante para ele. No meio do caminho, passando pela área verde, ele disse para a menina que o pneu havia furado e pediu que descesse do carro. No porta-malas pegou um pé de cabra, que usou para bater em sua cabeça até que ela calasse a boca de vez. Por fim, bateu a própria testa repetidas vezes no carro, para endossar a versão que usaria de que tinham sido atacados. Aquilo sim era o paraíso. Mal podia esperar até o próximo encontro.

segunda-feira, 21 de outubro de 2013

Quinze anos depois

O encontro da turma formada no “Liceu Renascentista” desse ano era especial. Quinze anos. Cinara não comparecera aos anteriores, pois ainda não estava pronta. Agora poderia encarar seus antigos colegas olhando-os de cima, como nunca pudera antes. Nos tempos de escola era chamada por suas “amigas” de bichinho. Elas incentivavam e exortavam os meninos às brincadeiras cruéis e torturantes. Acima do peso, com o rosto inteiramente coberto por acnes, se refugiava na Biblioteca nos horários de recreio e da Educação Física. Lia, lia muito: literatura, ficção, poesia, ciências. A partir da oitava série descobriu a Química, que seria seu campo predileto desde então. Depois da formatura, à qual não compareceu (pois sabia que seria vítima de uma última chacota preparada cuidadosamente por sua turma), prestou vestibular para Ciências Exatas, com ênfase em Química. Mergulhou nos estudos, sobretudo em relação a compostos voltados para a saúde e estética feminina. Com suas fórmulas, preparadas sob medida, curou-se da acne. Com exercícios e dietas superou o sobrepeso, transformando-se numa mulher linda e irresistível, patenteando e vendendo seus produtos, tornando-se muito rica. Chegou à reunião pretendendo vingar-se de cada um dos desaforos que teve de aguentar quando mais jovem. É certo que provocou um impacto inicial em seus antigos colegas. Em geral demoraram muito a reconhecê-la. Mas esse impacto parou por aí. Estavam todos entretidos com suas lembranças, confraternizando, falando dos filhos e de seus trabalhos. Mesmo os que não tinham tido muito sucesso achavam algo legal e interessante para compartilhar com os outros. Estavam realmente felizes com suas recordações dos tempos de estudantes. Cinara não tinha nada bom para recordar. Saiu silenciosamente, tão só quanto chegou, frustrada. Seu sucesso não conseguira humilhar ninguém, como pretendera. Eram totalmente indiferentes à sua pessoa. Ela nunca pertencera àquele grupo de fato, e o que ela foi e o que se tornou não lhes dizia respeito...

Reunião

Irineu verificou os lugares à mesa. Seis, com o seu à cabeceira. Esperava a chegada dos convidados ansiosamente. Uma pontada no peito, uma sensação de zonzeira na cabeça o deixavam inquieto. A reunião, no entanto, era o mais importante, o mais urgente. Finalmente cumpriria com seus compromissos há tanto adiados. Sentou à mesa da grande sala de jantar da fazenda e esperou. Eles chegaram todos juntos, em silêncio, e ocuparam seus lugares. Aquela sensação de algo errado era cada vez mais forte. Antes de servir o almoço ele tinha que comunicá-los da decisão que tomou. Precisava aliviar aquele peso no peito de uma vez. Tinha que ser agora. - Meus queridos, tomei uma decisão muito importante. Não vou esperar até minha morte para dividir os bens de todos esses anos obtidos aqui na fazenda. Tive que guardar durante muito tempo para que não ficássemos sem nada. A economia e o zelo são a chave para as bênçãos no futuro. Mas agora resolvi legar a cada um sua parte, e quero que a usem da melhor forma. Pra mim deixarei apenas o suficiente para minha subsistência nesses anos que me restam, que não hão de ser muitos. - Pra ti minha velha Ester, te deixo a quantia suficiente para que consultes os melhores médicos na capital pra tratares essa tua persistente dor no baixo ventre. Para o meu neto Zequinha, uma quantia que pague os médicos e a fisioterapia para a pólio, para que ele volte a andar. Para minha filha Larissa o suficiente para acompanhar o Zequinha onde quer que ele tenha que ir. Ao meu genro Manoel, ajudarei a abrir aquela venda aqui na província, onde poderá finalmente ter um trabalho decente. E ao final, não menos importante, ao meu velho capataz Laurêncio, que sempre administrou a fazenda da melhor forma, deixo o suficiente para que se aposente e viva o resto de seus dias com dignidade. Sinto que agora cumpri com meu dever para com vocês. Poderei, quando chegar minha hora, morrer em paz... Os convidados permaneciam quietos, imóveis, fitando Irineu de uma maneira desconcertante. Aquela sensação de desconforto em seu interior aumentou demasiadamente. De repente, num lance de vista, o velho deu com a mesa vazia, os lugares intocados. Então a memória, que estava embaçada e perdida em algum lugar, despejou suas lembranças de forma impiedosa: Ester morrera de câncer de útero, sem que o marido chamasse um médico para assisti-la. Zequinha morrera pelo agravamento da pólio, seguido da mãe que se foi por desgosto. Manoel terminou seus dias no fundo de uma garrafa. Quanto ao capataz Laurêncio, já muito velho e ainda na lida para garantir o pão da família, teve um infarto fulminante em meio às rezes e foi enterrado como indigente. Irineu começou a chorar copiosamente e a pelejar contra a realidade. Pensava que, se fosse lá pegar o dinheiro há muito guardado e o trouxesse, eles apareceriam novamente e então poderia corrigir tudo o que havia feito de errado. Pegou o facão de cortar churrasco e dirigiu-se ao seu quarto, em direção ao grande colchão de sua cama. Cravou-lhe a lâmina e abriu-o às cegas. Junto ao pano e aos flocos de espuma, estava uma grande quantidade de notas de diferentes épocas. Amareladas, amassadas, sem valor algum. O velho olhou para suas economias de tantos anos, ciente agora de que não passavam de pedaços de papel, apenas. A consciência libertadora e ao mesmo tempo pungente de que em qualquer tempo, não eram de fato nada mais que pedaços de papel, lavou seu rosto com as últimas lágrimas antes que a dor do derrame fatal reverberasse por seu crânio e sua alma encontrasse a escuridão.

terça-feira, 24 de setembro de 2013

Love Story

Foi num dia chuvoso que Márcia conheceu Eduardo. Ela tinha sido escalada para acompanhar o novo paciente em suas sessões de hemodiálise. Trinta anos, um homem bonito, apesar de seu estado debilitado. Ela, uma enfermeira balzaquiana que vivia para o trabalho, jamais tivera algo sério no amor; muitos motivos: sua aparência, sua insegurança... Naqueles dias começaram a conversar. Um laço surgiu, e foi se estreitando. Ele aguardava por um transplante e só poderia voltar para o interior quando estivesse com o novo rim. Foi quando ela teve a ideia: seria a doadora. Isso os uniria ainda mais e daria ao amado sua vida de volta... Ele hesitou em aceitar, não queria que ela se sacrificasse, mas isso aumentou ainda mais sua resolução. A cirurgia foi um sucesso. Passaram a recuperação juntos. Ele voltou ao interior e prometeu que mandaria buscá-la. Dias e semanas se passaram, sem nenhuma notícia. O convite de casamento com a foto dos noivos chegou de manhã, endereçado a toda a equipe médica. Ela escondeu o choro, pegou o copo d’água e tomou um dos remédios que deveria usar pelo resto da vida.

Um rio

Numa certa montanha havia um ancião que tinha a fama de aconselhar os caminhantes sobre seus problemas, suas dificuldades, suas dores. Quem passava por ele e lhe contava seus revezes saia como que purificado. Um sábio, tomando ciência disso, decidiu visitar o ancião. Ao chegar a casa deste, no entanto, não pode acreditar no que viu: a mulher do dito iluminado não podia sair da cama, devido a uma grave enfermidade. Seus filhos passavam fome e rastejavam sujos no chão, junto aos animais. Então o sábio disse ao ancião: - Esqueceste que o caminho espiritual é como um rio; o que jogas numa margem, deves deixar correr na outra, seguir o curso purificante das águas. Não limpastes as energias negativas que te traziam os caminhantes, e essa sujeira acumulou-se em teu jardim. E mais que isso, tendo o teu jardim heras, deixaste-o a esmo e te arvorastes a limpar e embelezar os alheios. Para quê? Digo que já tens, de fato, o teu pagamento...

segunda-feira, 23 de setembro de 2013

Primavera?

As folhas de minhas árvores estão douradas e secas, e caem com o vento gélido que sopra repetidamente nesses meus dias perdidos, formando um tapete de morte e decomposição junto às suas raízes. A chuva cai como nunca, variando seu ritmo de grossos e cortantes pingos a uma fina e espectral garoa. As perspectivas de um futuro são cada vez mais sombrias, como o meu céu tormentoso. Não há mais sonhos, há um sono narcótico e sobressaltado que nem é mais alternativa ou fuga. Não há primavera, sou eternamente inverno, um inverno insano e inclemente. Um inverno que há de chegar ao seu termo, quem sabe, depois de repetir a si mesmo por incontáveis ciclos...

quarta-feira, 18 de setembro de 2013

Síndrome de abstinência

Passaram-se sete dias / Seis horas e cinco minutos / Desde o meu último copo... / Meus sentidos são como um sol / Que não quer se por / Não tenho o consolo / Sequer do sono / Deitado, meu corpo treme / Deliro / Com os espasmos / Meus músculos / A se contorcerem / Insana dança... / A vontade de um gole / Percorre / Minha garganta seca / Cada gota do meu sangue / Ferve em ebulição / Olho as paredes, que parecem / Exibir imagens / Como um a tela de cinema / Desenhos que se projetam / Para fora / Em três dimensões / E tentam me estrangular / O mundo gira / Enquanto eu permaneço / Parado / Num ciclo que se repete / Indefinidamente... / A sobriedade tem seu preço / O preço de uma alma / E a loucura? / A loucura / É servida em doses / Homeopáticas / Até o fim inevitável / Dos meus derradeiros dias.

sexta-feira, 13 de setembro de 2013

Fuga

Tenho me afastado constantemente das tuas lembranças, apenas para te encontrar de novo, em meus pensamentos, quando ouço nossa música, quando vejo algo belo ou, quando adormecendo, fico vagando naquele limbo entre a terra dos sonhos e as últimas luzes da consciência. Apesar de todos os esforços empreendidos, esse movimento de fuga a que me obrigo tem se mostrado infrutífero, pois estás aqui, sempre comigo. O mais irônico de tudo isso é que, por tua própria vontade, estás longe de mim e me deixastes a viver eternamente com o teu fantasma e com as aparições esmaecidas daquilo a que chamamos amor.

quinta-feira, 12 de setembro de 2013

Inquietude

A consciência / E a inteligência / Te cobram seu preço / De repente, / Tuas frágeis certezas / Esboroam. / Que consolador seria / O abraço da alienação...

terça-feira, 10 de setembro de 2013

Apenas mais uma segunda-feira

Uma segunda-feira não tem muito sentido para quem está desempregado. Sempre odiara as segundas-feiras, mas agora elas eram, além de tudo, constrangedoras. Levantou da cama com uma imensa enxaqueca. A dor orbitava atrás do olho direito, como se uma longa agulha o penetrasse todo o tempo. Procurou na caixa de remédios, não tinha nada. Deitou-se de novo, rezando para que aquilo cessasse. Tudo aquilo: a dor, o desemprego, Ângela. Pensava nela sempre ao acordar, e antes de adormecer também. Era como se aquela tristeza que sentia lhe trouxesse um pouco do amor que tinha ido embora. Dela, não dele. Ela o tinha abandonado alegando problemas emocionais e dificuldades de lidar com os sentimentos. Não era bem assim, pensava. Ele era o cara errado, na hora errada, e ela percebera isso. Desempregado, sem carro, arcando com o caro aluguel de um pequeno apartamento... E ela linda, socialmente bem posicionada e já em uma idade de buscar algo mais sério. Por quê, então, o encantara daquela forma, sugara seu sangue e cuspira para fora aquele bagaço de tristeza e melancolia em que ele tinha se transformado? Tornara-se um cara ainda mais solitário e taciturno do que já costumava ser. Suas únicas companhias eram os livros, músicas e filmes. Estava, no entanto, fazendo contatos, buscando desesperadamente um novo emprego, mas temia que, se não o encontrasse a tempo, pudesse parar na rua. Ultimamente não podia passar por um sem-teto na rua sem sentir uma pontada de medo, um pavor de acabar também naquela situação. A enxaqueca se tornara mais e mais forte. Tomou um gole de café e se vestiu para ir à farmácia. Compraria um analgésico e também um calmante forte. Dormiria e só acordaria na terça. Pelo menos a segunda-feira, com seu semblante de derrota, fracasso e abandono já teria passado... Até a próxima semana.

segunda-feira, 9 de setembro de 2013

Sem volta para o futuro

Pois, a convivência na “Casa da Sogra” não era nada fácil. A filha do Tarso Genro, a Luciana Genro, era na prática tudo o que um dia o pai foi no discurso. Durante anos ela militou no mesmo partido do pai, o Partido dos Trabalhadores, mas na corrente mais socialista possível. Enquanto isso, ele ficava na mais em cima do muro... Hoje estão definitivamente divididos, pois a moçoila, sem suportar o pragmatismo do recém eleito presidente Lula, que rompeu com qualquer programa mais à esquerda e fez alianças com Deus e o Diabo para governar a partir de 2003, saiu (expulsa) do PT e fundou o PSOL (Partido Socialismo e Liberdade), se é que dá pra harmonizar essas duas coisas, em meados de 2004. O tempo passou, Tarso foi ministro do Lula na Educação, na Justiça e se elegeu Governador do Rio Grande do Sul em 2010. Luciana perdeu a cadeira de Deputada Federal somente porque o PSOL não alcançou o “coeficiente eleitoral”, apesar de ter tido uma grande votação. E por uma regra constitucional que visa proibir o nepotismo na política, a Luciana não pode mais ocorrer a nenhum cargo enquanto o pai estiver no executivo gaúcho... Isso aumentou a tensão entre os dois até no almoço de domingo: - Luciana, minha filha, me passa o strogonoff? - Strogonoff nada, pai! Isso é coisa de burguês capitalista! Tu sabes o preço do champignom? - Bom, então me alcança o molho inglês pra eu temperar a salada? - Molho inglês??? Isso é fruto do Imperialismo que domina nossa cultura. Não alcanço! E a coisa ia por aí. Luciana queria a todo o custo que o pai fizesse no Governo do Rio Grande do Sul tudo o que já havia pregado na juventude e no início dos anos 80. Mas isso ia ser bem difícil, a não ser que... Num domingo, na habitual reunião de família, Luciana aparece com um convidado. - Oi pai, oi pessoal. Trouxe um amigo pro almoço... - Mas esse aí é o... - Jovem, pai. Tarso Jovem. Esse és tu vindo da década de 60, um rapaz verdadeiramente socialista, acadêmico de Direito, caminhando contra o vento, sem lenço e sem documento... - Mas como é possível uma coisa dessas? - Pai, sabe aquele filme, “De volta para o futuro”, que tu me levaste pra ver quando eu era guria? É mais ou menos isso, o Tarso Jovem viajou no tempo do passado até aqui... Ah, pai, dá um tempo, essa é uma crônica non sense, então faz o teu papel e entra no diálogo. - Então. Jovem, o que tu viestes falar comigo? - Tarso, a Luciana me contou que elegemos dois presidentes por um partido de esquerda e que agora “nós” somos governadores do Rio Grande do Sul! Então, como está funcionando a revolução socialista no Brasil? - Veja bem, companheiro Jovem... Não existe mais socialismo no mundo. Mas somos comprometidos com os ideais das classes trabalhadoras... - Dá um tempo, pai! O PT é mais neoliberal que os tucanos. - Luciana, minha filha, não é bem assim... - Tarso, o que nós fizemos com os professores do RS? Eles são a categoria mais bem remunerada do funcionalismo, como eu defendia na minha época? - Jovem, o RS do pai não paga nem um “piso nacional” que não chega a dois salários mínimos pra eles... Tô fazendo até uns comerciais do PSOL na TV pra dizer isso, inclusive. - Mas como, Tarso? E a reforma agrária, as causas sociais, e nossa relação com Cuba... - Ah, jovem, isso eu posso te falar de peito aberto. Nossa relação com Cuba continua ótima. Quando eu era ministro da Justiça deportei uns pobres refugiados de volta pra ilha. Atualmente a Dilma, que é a nossa presidenta, importou uns médicos de lá pra trabalharem aqui num regime semi-escravista. Uma beleza! - Chega! Não posso acreditar que “nos” tornamos isso! Vou voltar pro passado e entrar pra Guerrilha do Araguaia! - Jovem, tu estás proibido de fazer isso! Se tu fores pro Araguaia “nós” morremos! - Calma, gente. Te filia no PSOL, pai, rasga essa cartilha burguesa que eu levo o Jovem são e salvo pro passado. - Luciana, se tu não sumires com esse sujeito agora, eu te corto a mesada! - Pô pai, pegou pesado... Corte na mesada é golpe de estado... Vamos embora, Jovem. Esse teu futuro não tem volta. Sem volta para o futuro...

sábado, 7 de setembro de 2013

Independência Dark

Uns desfilam / Uns protestam / Muitos assistem / Eu não me presto / E sigo só / No meu imaginário Ipiranga / A gritar somente / Morte!

sexta-feira, 6 de setembro de 2013

Conto de Fadas

O amor é o conto de fadas dos adultos. Acreditamos sempre em amores à primeira vista, almas gêmeas, metades da laranja... Esquecemos que na história da Chapeuzinho tem um lobo. Esquecemos que a Cinderela teve que ralar muito para largar o borralho e que a carruagem encantada era só uma abóbora. Esquecemos que João e Maria foram abandonados na floresta, pasmem, pelo pai. Depois de tudo isso, ainda queremos mais histórias, queremos o encanto. Descobri que a princesa encantada era desde o começo a bruxa malvada e só eu, um ingênuo sapo, não via. Continuo sapo, é claro. Mesmo assim, não posso garantir que, da próxima vez que alguém vier me contar uma fábula eu não caia, de novo, como um patinho. O patinho feio.

Aos Teus Olhos

Teus olhos tristes / Cativaram uma alegria / Que havia em mim / E foram assim / Como dois luzeiros / Ao redor dos quais / Voei embevecido, / Ainda que por pouco tempo / Com todo o meu sentimento... / Teus olhos amorosos / Curaram uma tristeza / Que havia em mim / E fiquei assim / Apaixonado / Teu eterno devedor. / Hoje sou apenas eu / Com a lembrança da luz / Do teu olhar / A singrar a escuridão / Em busca de algum porto / Pois me levaste a luz / As alegrias, as tristezas / Junto com o lume / Dos teus olhos / Que agora olham outras / Paragens / E não tem de mim, sequer / A lembrança...

quarta-feira, 4 de setembro de 2013

Sobreviver

Tinha achado uma função como dentista em Auschwitz: identificar as obturações de ouro dos mortos e repassá-las aos nazistas. Em troca, tinha boas acomodações e comida. Triava cada cadáver antes dos fornos. Chegava a uma média de cem dentes de ouro por dia, o que enriquecia pouco a pouco o Reich. Sem contar o que fariam da pele e dos cabelos de suas vítimas. Não se importava com isso, precisava apenas sobreviver. Até que encontrou Frau Ingard, seu grande amor de juventude, amor não correspondido. Ela tinha belíssimas obturações douradas. Não podia mais prosseguir com aquilo. No dia seguinte, havia outro fazendo seu serviço. Ele fora mandado às câmaras de gás e seguiria para o nada, sem seus cinco dentes de ouro...

segunda-feira, 2 de setembro de 2013

Antiquário

Sou um anacrônico fantasma / De um casarão derrubado / Vivendo entre casas germinadas / Ou estendidas coberturas / Do passado trago / Minhas correntes / Minha armadura /E a bola de ferro / Que arrasto / Até o final dos dias / Tudo isso / Por uma donzela perdida / Perdida de mim... / Eu, que fiquei / Tão perdido assim / E assombrar, nem sequer / Posso /Nem que eu insista / Pois ninguém nessa terra / Acredita que eu exista... / Quem sabe um antiquário / Compre uma alma penada / E me venda a uma nova donzela / Junto a outras coisas / Empoeiradas?

sábado, 31 de agosto de 2013

Chorando sob a chuva*

Não vou te deixar ver o quanto meu coração partido está me machucando. Tenho meu orgulho e devo esconder toda a minha tristeza e sofrimento. Quando os ventos de novembro mudarem, eu irei chorar sob a chuva. Se eu esperar por céus tempestuosos, não distinguirás as lágrimas em meus olhos, nem saberás que ainda te amo muito. Vou chorar sob a fria chuva de novembro. O afeto que cultivei por ti foi recebido com risos e ironia. Trataste meu pedido de casamento com desprezo. O que tem o fato de sermos primos de tão importante? Os amores... Os amores sempre vêm e vão. Ninguém tem certeza de quem pode ficar, ou desistir e ir embora... Crescemos juntos nessa fazenda, que pertenceu aos nossos pais. Desde a época de criança, comecei a te amar. Crescemos diferentes, eu um rapaz do campo, tu uma moça letrada, estudando línguas e literatura. Enquanto eu interpretava o falar dos moinhos, tu discorrias sobre Shakespare e outros nomes que a mim me pareciam tão distantes... Eu me orgulhava de ti, teus saberes reforçavam meu interesse, minha paixão. Eu tinha esse amor tão ingênuo e tão intenso... Agora não tenho mais nada, a não ser nossos campos, a espera da colheita, a estocagem e a vinda de uma nova safra, num ciclo infinito. Vou deixar meu corpo envelhecer no ritmo das estações que vem e vão. Um dia, talvez, um sorriso volte ao meu rosto e eu possa caminhar numa manhã de sol... Até lá, não te darei o gosto de me ver chorando. Irei chorar sob a chuva. Quem sabe, talvez, ainda possamos encontrar um jeito? Tua indiferença, meu amor... Um meio-termo. Afinal, nada permanece o que é para sempre, mesmo sob a fria chuva de novembro. * Baseado nas músicas “Crying in the rain” (A-ha) e “November rain” (Guns n’Roses)

Dois Tempos

Enquanto eu faço a saudade, / Ela faz o esquecimento.

sexta-feira, 30 de agosto de 2013

Enchente

Choveu sete dias em minha alma / Meu coração se encheu / Transbordou de tristezas / Agora que as águas baixam / Volto para a destruição / E a lama que restou / Que desse coração / Só ficaram paredes / E a casa que havia / Foi-se, incontida / Conduzida pelas águas / Não choro, / Pois qualquer gota / Desavisada / Pode produzir ainda mais estrago...

quarta-feira, 28 de agosto de 2013

Um Conto Siciliano

O sol brilhava numa autêntica manhã siciliana de 1920. A brisa mediterrânica sacudia as árvores e arbustos do campo de caça mais ao norte de Palermo. Fragone carregara a sua espingarda e aguardava pacientemente que as perdizes , assim teria o almoço de domingo da família garantido. Vendeiro e cozinheiro por excelência, administrava a Cantina Surriento, que tinha pertencido aos seus pais e antes aos seus avós. Lá os frequentadores podiam saborear os mais autênticos pratos italianos e ainda levar as compras de verduras e frutas para a semana. Fragone mandava em tudo no seu negócio, menos em sua esposa Laurina, também conhecida como Mamma Fragone, que mandava nele e em todo resto... O casal tinha no filho Luccio, oficial do Exército Italiano, sua alegria e orgulho. Tudo estava perfeito. Até aquela trágica manhã. A Sicilia também era conhecida por ser o berço da máfia, uma organização criminosa que tem suas origens perdidas nas névoas do tempo. Cheia de rituais e com uma profunda ênfase nos laços de sangue, era comandada na ilha pela Família Tomasino. O chefe das famílias, também conhecido como “Don” (o padrinho), administrava os negócios ilícitos da ilha (bebidas, jogo, mulheres) juntamente com um subchefe – em geral seu familiar –, um capitão (capo) e um conselheiro (consigliero), figura que dava o aval às principais decisões. Naquela manhã, Dom Tomasino, o chefe supremo dos negócios da ilha, também havia ido ao campo de caça. Fragone observou as duas perdizes paradas e fez a mira. Quando foi disparar, teve um acesso de espirros e atirou a esmo. Mais além ouviram-se gritos. Quando Fragone foi verificar o que tinha se passado, deu de cara com um quadro pavoroso: Don Tomasino, o chefão da Sicilia, atingido no peito, jazia caído ao chão. A munição de caça era fraca, fez um estrago mais superficial, mas Tomasino, ao ver o ferimento e o sangue, enfartou e morreu de susto. Seus acompanhantes avisaram o pobre vendeiro para se preparar para o troco, ou seja, antes daquele dia terminar ele estaria morto. O vendeiro chegou em casa branco como um lençol, reuniu a família, os agregados e contou o caso. O filho Luccio estava servindo na Itália. As cozinheiras e funcionárias da cantina desataram a chorar e falar alto e ao mesmo tempo, numa algaravia em que não se entendia nada. Sua sogra, Nona Andolini, queria sair imediatamente para chamar o alfaiate e o agente funerário para tirarem suas medidas. Foi quando Mamma Fragone, tranquila e impassível, decidiu tomar as rédeas do caso. Já que Deus havia lhe dado um limão, por que não fazer dele uma limonada? Ao final daquele dia, seu marido Fragone não só estaria vivo, mas tiraria o máximo proveito da situação. Laurina e a família aguardaram, pacientes, a visita do assassino-chefe, o capo da família Tomasino. Lucca Brasa era conhecido como “o terror da Sicília” por sua folha corrida de crimes. Fragone deixara-se afundar, suado e tremendo, na cadeira de espaldar alto da sala. Só Laurina parecia inabalável. Foi quando Lucca chegou, mais pontual que a própria morte, às seis badaladas noturnas dos sinos da Igreja. À tiracolo, numa caixa de violino, trazia “La Cantante”, como era conhecida sua metralhadora de estimação. Fragone era a própria imagem do desespero. Laurina recebeu Lucca e lhe serviu um café, como se o motivo da visita fosse uma amabilidade entre amigos. Antes que ele executasse a missão que lhe haviam designado, pediu para ter uma breve conversa com ele. Lucca era um assassino, mas nunca um bruto. Não tinha porque não atender um pedido de uma futura viúva. Foram a um aposento mais afastado: - Lucca, quero saber em primeiro lugar como está tua bambina, Isa. / - Uma tristeza, Mamma Fragone... Três meses. O desgraçado fugiu para a América. Não pude pôr minhas mãos nele. / - O meu Luccio ainda gosta dela. Ele vem pra casa no início do mês. Quero te fazer uma proposta... / - Proposta? / - Eco. Luccio é um oficial do Exército Italiano, tem uma bela carreira pela frente. Ele gostaria muito de tomar Isa como esposa e assumir esse filho. Isso poderia unir nossas famílias. / - Não sei o que dizer... Isso salvaria a reputação de minha filha, lhe daria um futuro. / - Sim Lucca, é isso que nós, eu e tu, queremos. / - E o que eu poderia dar em troca deste gesto tão grandioso, Mamma? / - Quero que poupes a vida de meu esposo. E mais: quero que mates os subchefes e capos das outras famílias. Quero que sejamos a “Família Fragone”. Fez-se um silêncio. O assassino não disse nem que sim, nem que não. Após um tempo, Mamma Fragone levou Lucca até a porta. Ele olhou Fragone afundado na cadeira e fez um gesto com o indicador, passando pelo pescoço. O vendeiro pareceu encolher. Olhou para Laurina e piscou o olho. Ela o acompanhou até o portão, confabulavam. Quando voltou, Mamma disse diante de todos: - Vamos chamar o alfaiate e o funerário. Precisamos preparar o Fragone para um outro tipo de vida. / Às nove horas da noite, tocou novamente o sino. No salão anexo à Cantina Surriento, Mamma Fragone, Nona Andolini e alguns agregados e vizinhos velavam Fragone, que estava impecável num terno escuro feito às pressas pelo alfaiate Vincenzo, especialmente para a ocasião. Quem olhasse para o morto, dizia que simplesmente dormia. A família ocupava um lado da improvisada capela mortuária. Do outro lado, chegando um a um e recebidos por Lucca Brasa, estavam os subchefes e capos das outras cinco famílias da ilha, comparecendo para certificarem-se de que a justiça por Don Tomasino tinha sido levada a cabo. Quando todos cumprimentaram a viúva e sentaram em seus lugares, de repente o morto pulou de seu caixão em direção à família e Lucca sacou de sua metralhadora. Antes que entendessem o que estava acontecendo, as principais figuras da máfia siciliana foram crivadas de balas e jaziam mortas diante dos Fragone. Agora, para que o plano de Mamma Fragone fosse coroado de êxito, faltava somente um mero acordo diplomático com os familiares daqueles ilustres defuntos. Sem seus subchefes e capos, as famílias depostas, representadas por idosos, viúvas e enlutados herdeiros, não tinham mais possibilidade de vingança ou retaliação. Só restava reconhecerem a sucessão dos Fragone e de Lucca Brasa no poder. O casamento dos felizes jovens Luccio e Isa foi um deslumbre, e emocionou suas famílias e conhecidos. Faltava agora o reconhecimento formal do novo chefe da máfia, o novo Don... Lucca. Acumularia as funções de subchefe e capo, e Mama Fragone assumiria a função de conselheira (una belìssima consiglierina), tomando as decisões mais difíceis e estratégicas. As cinco famílias chegaram à Cantina Surriento, como numa procissão, uma após a outra. Fragone, ao lado de duas panelas em que se preparava um molho de tomates e um nhoque ao sugo, sentava-se para que os visitantes beijassem sua mão e o saudassem como o novo “Don”, levantando os olhos a ele e dizendo: “Don Fragone”, ao que lhes respondia com dois beijos no rosto e um caloroso abraço. Ao seu lado, Mamma Fragone controlava o movimento e saudava os que ali chegavam. Ela seria a primeira mulher siciliana a comandar a máfia, um marido e uma cantina...

terça-feira, 27 de agosto de 2013

Sazonal

Porto Alegre desfaz-se em água / E em gelo / Há dias e dias seguidos... / E eu me desfaço em mágoa / Paranoico, perseguido / Por gigantes modorrentos / Os mesmos moinhos de vento / Quixotescas depressões / Desse humor que tanto varia / No inverno desta terra / Ansiando o nascer do sol / Que esse ciclo um dia se encerra...

quarta-feira, 21 de agosto de 2013

Perdas e danos

Estava quieto, sentado à cabeceira da mesa com seu vinho importado. Aquela que chamara de esposa por dez anos e seus dois meninos tinham ido embora. Brindava ao fim da “chatice” familiar, ao tempo consumido com picuinhas. Finalmente estaria livre para cuidar de sua vida, suas preferências intelectuais, suas amizades. Ah, e as mulheres... Estaria livre para fazer suas escolhas. Foi de repente que percebeu, assim, sem esperar: a casa estava vazia.

terça-feira, 20 de agosto de 2013

O que me falta?

Me faz falta meu sorriso
Assim, meio bobo,
De quando eu te via chegando.
Me faz falta minha voz
E nossas conversas
Aquelas que tínhamos
Até altas horas
E que continuavam no outro dia.
Me faz falta a demora
De quando ainda não vinhas
E que só fazia brilhar mais
O encanto de tua presença...
O que sobrou?
Tua ausência, teu silêncio,
Minha expressão triste
E essa saudade
De tudo o que me falta
De tudo o que não sou
Porque não estás aqui...

segunda-feira, 19 de agosto de 2013

A Última Balada

Erick chegara à maturidade de um guerreiro. No entanto, não conseguia mais desembainhar a espada nem brandir o machado. Algo em seu interior o divorciou da guerra, daquela que era a razão de viver de cada viking. Só tinha uma coisa a fazer. Preparou seu barco com as toras besuntadas pelo óleo combustível. Entrou no espaço destinado a encaixar seu corpo e com o remo chegou à correnteza. Acendeu a tocha e sua pira funerária. Ao longo do curso do rio, o pobre guerreiro ia ao encontro da Morte, deixando pouco a pouco de ser um homem e tornando-se mais e mais cinzas...

domingo, 18 de agosto de 2013

Sobras

O amor é uma Esfinge / Com seus enigmas / A serem desvendados / Passada a surpresa / Somos a presa / Do abandono / E da solidão / E do banquete de outrora / Só restam as sobras / Sombras / E a saudade vazia / Como companhia.

sábado, 17 de agosto de 2013

Fobia

Naquela reunião informal dos executivos da companhia, na chácara do diretor, seria divulgada a sua promoção aos colegas e gestores. Ele se sentia o centro do mundo naquele momento. Jovem, bonito, feliz no amor e cada vez mais bem sucedido na profissão de executivo. Sabia que aquele sucesso se devia, em grande parte, ao personagem que representava no trabalho: destemido, arrojado, equilibrado ao extremo. Desta forma, não poderia nunca demonstrar a eles quem ele era de fato. Como ponto alto da noite, degustariam um vinho de safra antiga, um verdadeiro luxo. Para homenageá-lo, o diretor convidou-o a visitar a adega, o lugar mais valioso da propriedade. Desceram ao subsolo e encaminharam-se para lá. Um ambiente à prova de luz, absolutamente seco. Por isso mesmo ele não acreditou quando viu a lagartixa na parede. Desde menino tinha uma gigantesca fobia por aqueles pequenos répteis. Ainda lembrava a cena, de quando puxou a caixa de brinquedos no quarto de guardados e ela veio cheia daqueles bichos, que desatinadamente subiram por seus braços e pescoço, até que ele desmaiasse. A partir de então, não podia sequer enxergar aqueles seres nojentos. Lagartixas preferiam ambientes úmidos e quentes. O que aquela estaria fazendo numa adega climatizada? Não poderia jamais demonstrar medo diante do diretor. Reparou que, com o movimento, o réptil desceu rapidamente pela parede e se escondeu num canto escuro. Mesmo assim, seu coração batia forte, com muito custo conseguia controlar-se e não tremer. Tinha vontade de sair dali correndo. O diretor discorria sobre a história da adega, os vinhos ali armazenados, mas ele não ouvia mais nada, só queria que pegassem o vinho de uma vez e subissem. Indicou-lhe a garrafa que vieram buscar e concedeu-lhe a honra de retirá-la do nicho. Quando fez isso, uma lagartixa correu pela sua mão. Ele deixou o vinho cair no chão e começou a gritar alucinadamente. Não sabia ao certo quanto tempo se passou até sair daquele transe, sacudido pelo diretor. Quando voltaram, na reunião trataram-se de outras pautas e não mais de sua promoção. Sendo o último a sair, recebeu a indicação de passar no departamento de psicologia da empresa. Precisaria de mais equilíbrio para tornar-se um líder, algum dia. Sentiu que, por mais que fingisse, sempre um medo longínquo voltaria para acertar as contas com seu verdadeiro eu, mesmo em forma duma maldita lagartixa...

quarta-feira, 14 de agosto de 2013

Horário Nobre

Enquanto isso, na novela mexicana... - Rodolfo, tenho que confessar um segredo... Você é meu filho! / - Não pode ser, Dona Soledad! Então, sou irmão de Cristina, minha amada... / - Não! Não pode ser, Rodolfo, minha vida! / - Calma Cristina! Somente eu, Alberto Izquiera, sou seu pai. Não és filha de Soledad! / - Alberto, você jurou que nunca iria revelar isso! Cristina é filha da dissimulada Laura Bazan... / - E Rodolfo filho do playboy Carlos Ramires, meu inimigo! / - Corta! Corta! Vamos rever esse roteiro. Não sei mais quem é filho de quem nessa trama e ainda não inventaram o exame de DNA aqui na década de 60...

terça-feira, 13 de agosto de 2013

Escuridão

Ai do meu coração / Que não me pertence mais... / Agora / Anda em algum lugar / Perdido, oculto /Arrastado, vítima /De um amor alienante / Anda agora na escuridão... / E todos os dias, então, / O sol não mais vai nascer / Enquanto durar esse mistério / Que se vive quase expirando / Que o amor e a morte /São tais / Que podemos chegar / A algum lugar / Seguindo uma voz que nos chama / Não se sabe de onde / A lugar nenhum...

quinta-feira, 8 de agosto de 2013

Música

Na pequena sala de espera estava ela, sem esperar por nada além de uma monótona consulta com seu psiquiatra. Já tinha notado o rapaz de terno e óculos escuros. Foi quando a música começou a tocar. Anos 80, intensamente romântica. Ela sentiu que ele desviara seu olhar para onde ela estava. Olhou de volta. Durante a canção, o tempo pareceu parar... A música terminou e ele levantou-se. O coração da jovem batia descompassado... Ele viria falar com ela! Foi então que ele abriu a bengala e, tateando entre os obstáculos, passou pela porta e foi embora.

Previsão do tempo

Porto Alegre / Calor de 30ºC em agosto / Vem aí um temporal / Muito forte / Seguido de frio / E umidade... / Não há de ser nada / Pois em minha alma / Há muito / Um pranto chove, constante / Explodem trovões / E pelas minhas veias /Corre um sangue / Gelado / Como o das águas que se derramam / No inverno... / Portanto o clima / Não me pega desprevenido / Pois estremeço por dentro... / Só lamento não haver / Guarda-chuva, botas / Ou qualquer abrigo / Para esses fenômenos / Meteorológicos / De minh’alma / Tão mais ferozes / Que os divulgados / Pelos jornais...

Durma bem

Meia-noite. Lá fora, as folhas do jardim farfalhavam ao vento, refletindo o pálido luar. Uma pequena mãozinha aciona a lâmpada de cabeceira. Um quarto mergulhado na penumbra surge, com uma estante cheia de bonecas de olhos de vidro que a encaram interrogativamente. A mãozinha então aciona outro botão e espera com o cobertor sob a cabeça. Ele surge à porta. / - O que foi dessa vez? / - Tem uma coisa ruim no armário. / - Já disse que isso é sua imaginação. / - Não é nada, eu escutei. / - Preciso dormir. Seja boazinha. Não tem nada no armário. / - Tá bom. Mas se eu chamar, você vem? / - Venho. / - Boa noite. / - Dorme bem, linda. / O quarto mergulhou na escuridão total outra vez. Durante um tempo dava somente para ouvir sua respiração acelerada e os batimentos de seu coraçãozinho. E o barulho de algo roçando na grade do armário... Senta-se bruscamente na cama, aperta o botão do chamado, acende a luz. Novamente ele vem, com sono e chateado. - De novo. Eu te falei que não tem nada no armário. / - Mas eu ouvi, era um barulho fazendo “tec-tec-tec”... / - Não tem barulho nenhum. Volta a dormir. Amanhã eu trabalho e tu tens aula. / - Tá bem... (Chorando). / Silêncio e escuridão de novo. Apenas o vento e a agitação das árvores. De repente a porta do armário começa a se abrir com um ruído: creeec... / Ela dessa vez não aperta o botão. Grita, grita tão alto que em segundos ele aparece em seu quarto. Com pena da sua reação infantil, resolve ser mais amigo e carinhoso dessa vez. / - Querida, queres que eu te mostre como não tem nada aqui? / - Ela, entre prantos, faz que sim com a cabeça. / - Então vamos lá, vou abrir a porta do armário! Um, dois e... / Quando chegou a contar três, virado de frente para o armário aberto, foi atingido em cheio por um grande facão. Sentada na cama, ela pôde ver a ponta da faca subindo pelas costas dele até a nuca. Quando seu corpo caiu sem vida no chão, foi que a criatura mostrou-se completamente, com seu saco a tiracolo, facão pingando sangue e seus dentes pretos e pontiagudos. Comprimida contra a guarda da cama, ela tentou gritar, mas não emitiu nenhum som.

quarta-feira, 7 de agosto de 2013

Poeminha do silêncio

O silêncio é uma pequena ilha / Com mania de grandeza / Cercada por um Oceano de palavras / Por todos os lados... / As palavras querem entrar, a todo o custo, / Mas o silêncio ergueu grandes muralhas / Com lanças enferrujadas nas pontas / E se fechou, em si mesmo. / Quem sabe um dia, / Uma pequena palavrinha / De apenas quatro letras / Chamada amor / Possa insinuar-se entre as muralhas / E então as pedras ruirão / E a amizade, a compaixão e a tolerância / Estarão livres para brincarem no quintal / Numa manhã de sábado...

segunda-feira, 5 de agosto de 2013

Ensaio sobre a tristeza

Faz frio / Luto contra uma imperiosa / Vontade de dormir / Apenas dormir... / A tristeza que percorre minhas veias / Corre livremente, sem travas / Como um veneno / E pinta meus músculos / De tons negros / Esboços da dor... / Depressão / Rainha absoluta / De boa parte dos meus dias / Projetas as partículas / Do meu sangue / Como precipitados químicos / Precipitadamente / E meu corpo nada mais é / Que teu tubo de ensaio... / Ensaio tua louca peça / Em meus monólogos de um só ato / E nessa arte, ou ciência da tristeza / Tenho que encontrar a fórmula / Suportar a mim mesmo / Até que esse ciclo / Apenas mais um ciclo / Se encerre / E seja somente mais um episódio / Entre a primeira dor /E a derradeira agonia.

sábado, 3 de agosto de 2013

Meias-verdades

Seria apenas mais um bar, perdido em mais uma noite de uma cidade perdida, não fosse o inusitado encontro daqueles dois. A garota que tinha levado um bolo do namorado e ficara esperando à toa e o cara que tinha saído sem esperar encontrar nada, nem ninguém. Diante do balcão de bebidas, ele se senta ao lado dela. Ela faz um pedido: - Garçom, um vinho seco, tinto, safra chilena. / - Olá – ele timidamente a cumprimenta. - Oi (Cara interessante. Acho que o Élio quer me dar um fora mesmo... Não custa investir). - Um bom gosto você tem pra bebidas. (Embora tão diferente do meu). / - Obrigada. Você me acompanha? (Espero que ele não me ache atirada). / - Vou agradecer. Eu nunca bebo. (Não esse tipo de bebida). / - Nunca? Bom, às vezes é melhor se controlar; mas um bom vinho faz bem a saúde (E para dor de corno, também). / - Certo. Você está sozinha? (Espero que sim, seria muita sorte). / - Sim. Saí para dar uma espairecida. (Élio, seu desgraçado. Você vai me pagar. E até já sei como). / - Eu marquei um encontro, mas ela não apareceu. (Isso dá um ar mais normal para a coisa toda). / - Ah, que pena... Bom, mas casualmente nos encontramos. Que bom, não? (Ele vai servir certinho para minha vingança. E até é bonito, olhando bem...). / - Bom. Muito bom... (Preciso não ir com tanta sede ao pote...). - Você mora onde? (Não tão atirada, não tão atirada!). / - Aqui nas proximidades. Sou artista plástico. Moro numa antiga instalação industrial que converti em meu estúdio. (Apenas um estúdio, apenas arte...). / - Artista? Que máximo! Me leva para ver teus trabalhos? (Atirada? Dane-se!). / - É claro que levo. Depois do seu vinho... (E eu que hoje não esperava nada...). / Chegaram às instalações onde ele mantinha seu estúdio. Um lugar amplo, com muitas peças e até um subsolo. Foram direto pra cama. Durante algumas horas, ele saciou sua sede de amor e atenção. Ela dormia, satisfeita e vingada em seus braços. Agora era a hora dele saciar a sua sede. Inacreditavelmente, ele abriu a boca e seus caninos começaram a se afinarem e a se projetarem o suficiente para rasgar a jugular da moça. Drenou com prazer todo o sangue de seu corpo até deixá-la completamente sem vida. Sentiu o teor do vinho chileno circulando por suas veias. Dizer que nunca bebia era uma meia-verdade, como muitas outras que foram ditas naquela noite. Antes da manhã, no subsolo, incineraria os lençóis manchados de sangue e sua vítima até não restarem nada mais que cinzas. Depois dormiria alguns dias, descansando os seus longos duzentos anos... Até o próximo encontro casual.

quinta-feira, 1 de agosto de 2013

Não estamos sós?

Perscruto as estrelas,/ Com meu velho e portátil / Telescópio /E minha velha solidão a tira colo... / Quero provar que existe / Alguém (quem sabe?) / Também / Tão solitário, tão triste, / Assim como eu, talvez / Do outro lado do Universo... / Na falta de respostas imediatas, / Arrisco uns versos, / Mudando o curso da visão / Na tua precisa direção / Em busca de contatos imediatos / Não obtendo mais do que / Um profundo silêncio / E me perguntando, ao ouvir / Ruídos, talvez estática? / Sobre os sons de teus sorrisos perdidos / No tempo? No espaço? / Agora, que esse vazio impera, / Soberano / Com sua dor que se propaga no vácuo / Mesmo que eu provasse / Qual Galileu às avessas / Que o Sol gira / Em torno da Terra / Nunca mais aquilo que entre nós / Era / Será novamente, no porvir das Eras... / Podemos até não estarmos sós/ Nessa escuridão pontilhada / De estrelas, luas e cometas / Mas eu estou, / No meu pequeno planeta, /Irremediavelmente / Sozinho / Girando eternamente / Em torno da tua órbita / Celeste...

O Pacto

A encruzilhada estava deserta à meia-noite. Seguiu as instruções: traçou com pólvora o desenho de um pentagrama invertido, inscrito em um círculo. Com o punhal cortou sua mão esquerda, deixando o sangue escorrer na figura. Saiu de dentro dela, fez as invocações do feitiço e, com seu isqueiro, ateou fogo. Uma explosão se fez, e surgiu um homem, mais parecendo um executivo que o diabo pintado pela Igreja. Deu-lhe um grande livro encadernado em pele humana, com o segredo do sucesso nos próximos dez anos, ao fim dos quais viria buscar sua alma. Sumiu sem mais. Quando abriu o livro, sentiu um arrepio na espinha. A escrita era ininteligível. Até hoje busca a chave.

quarta-feira, 31 de julho de 2013

Santa Inquisição

- Joana, te arrependes dos teus pecados? Se confessares que ouvias Satã, serás estrangulada antes da fogueira e tua alma será salva. / - Como posso confessar tal abominação, se quem me falava eram os anjos de Deus? / - Os anjos de Deus jamais falariam tais heresias... / - Falas-me em heresias? Com tuas torturas e tuas fogueiras? / - A fogueira há de purgar o pecado do teu corrupto coração, da tua carne, do teu espírito. / - O fogo nada fará ao meu espírito. Irei para junto do meu Deus. E minha carne se transformará. /- Bruxa! Essa manobra do diabo de transmutar a carne é típica de teus tratos com o oculto! / - A transmutação do que somos nessa vida, em outras formas, é algo que vem de Deus. Quando meu corpo queimar, serei fumaça e cinzas. Com a fumaça, minha essência subirá rumo aos céus. Com minhas cinzas, a terra germinará. Choverei sobre Órleans e farei brotar novos frutos dos seus campos. /- A bruxa não se arrepende... Acenda a pira carrasco! / - Pai nosso, que estás no céu... / - Queime no Inferno, herege! / - Santificado seja vosso nome...

A luz das estrelas

Finalmente tinha conseguido comprar a linda propriedade que ficava a cerca de uma hora da cidade. Um sítio imenso, com piscinas, áreas de esportes, equitação. Poderia reunir-se ali com os executivos e também promover encontros com as equipes de trabalho. Amigos? Não, não os tinha. Afastou-se da família e de todos os outros quando decidiu tornar-se um dos melhores no mercado financeiro. Laços eram coisas que atravancavam seu caminho, tiravam seu foco. A última a ir embora foi Cecília, sua amiga, seu amor. Diferente dele como a água para o vinho. Ela reverenciava cada momento como único. Insistia com ele para que freasse aquele instinto predador, para que vivesse um pouco. A brisa da tarde, os por de sóis, a sedução da lua e o brilho das estrelas... Cecília lhe propunha um mundo mágico, enquanto ele só via cifras e degraus em sua louca escalada pelo poder. Teve que se livrar dela também, cortar na própria carne, mas isso o tornou o vice-presidente da maior multinacional da região sul. E ainda queria mais... Resolveu explorar a propriedade, alimentar o ego avaliando a sua conquista. Dera folga ao caseiro, queria ter um pouco de solidão e privacidade. Mais tarde mandaria vir da cidade uma menina... Era assim que se relacionava, sem envolvimentos afetivos, comprando o melhor que o dinheiro podia pagar. Resolveu percorrer a ala sul, a mais arborizada. Levou uma garrafa com água, algo para comer e uma lanterna. Caminhou muito, quase uma hora. Foi quando, sem aviso, o chão simplesmente cedeu sob seus pés e ele caiu, sem entender o que acontecia, perdendo os sentidos. Quando acordou, ainda confuso, estava no fundo de um buraco muito profundo. Passou a avaliar a situação com sua mente prática. Pelo menos dez metros abaixo da superfície. Um antigo poço desativado. Ninguém o ouviria se gritasse, pois não havia ninguém por ali. O celular estava totalmente quebrado da queda. O caseiro só voltaria no próximo final de semana. Tentou não entrar em desespero, inutilmente. Não havia água nem alimento para sobreviver tanto tempo. Certamente em no máximo dois dias estaria agonizando, desidratado. Só o que conseguia ver, de onde estava, era um rasgo de céu, onde a lua e as estrelas começavam a despontar. Pensou em Cecília com uma dor pungente. O céu, as estrelas e o luar. Finalmente teria um tempo para refrear sua louca corrida e contemplar algo que não podia ser traduzido ou convertido em dinheiro, um pedaço do universo. Aquele céu, um presente gratuito de Deus, seria sua última visão antes da morte.

domingo, 28 de julho de 2013

"Nós" e "Eles"

Desde muito pequeno sua vida era o futebol. As primeiras lembranças eram das bolas de meia, mal sabendo andar, disputando com os outros meninos. Também as recordações das cores do time, os primeiros jogos, no rádio de pilhas do pai. Cresceu, casou-se, teve filhos. Sua vida, porém, pulsava mesmo era na cadência do esporte. Que bom era chegar na obra, na segunda-feira, e falar pra “eles” como “nós” tínhamos ganhado o jogo, dessa vez! Usava muito esse “nós” para definir sua paixão. Sentia-se parte mesmo do time, era uma verdadeira comunhão. Duro era quando o time perdia. Chorava muito, brigava em casa. Tinha vezes que não conseguia esconder a dor, entre a flauta dos colegas, “deles”, que tinham ido melhor daquela vez... Assim seguiu sua pobre vida, entre obras, jogos, campeonatos, escalações... A velhice veio, e trouxe o câncer. Ouviu o rádio de pilha até a inconsciência com que adentrou no sono da morte. Epílogo: Uma senhora e seus filhos esperaram horas no estádio para levar seu pedido de ajuda ao presidente e aos conselheiros do time. Depois de muito tempo, o segurança apareceu dizendo que era impossível a ajuda para o enterro. E, quanto a bandeiras para cobrir o caixão, tinham disponíveis somente para venda, na loja ao lado. Ele foi enterrado como indigente. Partiu magro e acabado, na mão, ao invés de um terço, o velho rádio de pilhas. Sobre o caixão, um de seus muitos pôsteres de jornal de um campeonato de um ano qualquer. Foi assim, num ano qualquer. Como um qualquer, esquecido totalmente por “eles” e por “nós”... Naquela casa ninguém mais ouviu futebol.

sexta-feira, 26 de julho de 2013

Solidão

Chega um determinado momento em que tu percebes que estás um tanto pra baixo. Passando a mão no rosto, sentes a barba de dias por fazer. E aí percebes também que nem tens te encarado no espelho, ao lavar o rosto e escovar os dentes. Parece que tudo, tudo converge para a tristeza e o abandono. O frio inverno acentua ainda mais essa sensação interior. O emprego que foi embora há meses, os projetos para o futuro que te deixam tão pressionado e preocupado. Um amor que surgiu e se foi brevemente, ainda intenção, com as últimas folhas do outono. Assim, ventando... E os amigos, os amigos que não aparecem mais. De repente é como se nos caminhos até tua casa, por não pisados, começassem a crescer ervas daninhas, aprisionando-te em teu último refúgio. Nem o sono resta como um consolo, pois além dos pesadelos, ao acordar-te a cada dia não quer calar a sensação de que o tempo passa como um carrasco, e o relógio é teu cadafalso a esperar-te na volta da esquina...

segunda-feira, 22 de julho de 2013

Gelo

Temperatura? / Negativa, lá fora... / Aqui dentro, o frio / Ainda é maior. / E neva nesse descampado / Que é minha alma / Presa de esperas, / De finais infelizes / E de começos abortados... / Não me atenho à previsão / Do tempo / Pra quê? / Mais vale a pré-visão / De minha partida: / Fantasma gelado / De um rigoroso inverno / De desamores.

domingo, 21 de julho de 2013

Trinta moedas

Fazia muito frio quando, à luz de velas, Rubens postava-se à frente da máquina de escrever naquela madrugada. A pequena tossia no quarto de cima. Há dias ele estava com dificuldade para criar e, não tendo vendido nada ao jornal sensacionalista da cidade, estava completamente sem dinheiro. A seção de polícia lhe pagava trinta moedas por histórias bizarras, que divulgava como se fossem reais. Já tinha criado tantas mentiras sobre monstruosidades ficcionais que sentia seu repertório esgotado. Resolveu dar uma lida no velho álbum de recortes, herança de seu avô. Uma curiosa coleção de histórias de todo o tipo, provenientes de antigos jornais, panfletos e livros. Abriu o grosso volume e, providencialmente, topou com a história. “A praga do Egito”. Um homem louco que perdera seu primogênito por falta de recursos e que resolveu sair pela cidade matando todas as crianças das famílias mais abastadas. Perfeito, pensou! Começou a trabalhar na aparência e na psicologia do assassino, criou alguns verossímeis casos hediondos. Alertou a comunidade sobre a necessidade de prevenção e medidas de segurança para proteger sua prole. Olhou para a folha na máquina de escrever com satisfação. Amanhã de manhã sem falta iria ao jornal e, com os trinta réis, compraria mantimentos e remédios. Animado, conseguiria escrever mais. Foi quando sentiu em seu pescoço a pressão do garrote. Virou-se. Um vulto imenso e andrajoso esmagava sua garganta com força. Agonizou sem que ninguém percebesse. O homem retirou as folhas da máquina e as guardou no bolso. Depositou trinta moedas na mesa e partiu, em busca das casas abastadas da região e de suas crianças...

sábado, 20 de julho de 2013

Chove

Chove, / Nas ruas desertas / De Porto Alegre. / Chove... / Chove e faz muito / Muito frio. / Nos desvãos desertos / De minha fria alma / Chove... / E faz muita solidão. / Agora são 20 horas / Preciso buscar o fogo / E o álcool / Para passar a madrugada / E amanhecer / Sem mais motivos.

quinta-feira, 18 de julho de 2013

O Astronauta de Mármore

Naquela noite, na beira da praia sob a lua cheia, senti algo me puxar. Simplesmente a gravidade deixou de ter efeito sobre mim. A lua era tão grande, tão soberana... Eu abri meus braços e me entreguei ao magnetismo que me trazia cada vez mais perto do astro pálido. Devo ter desmaiado, não sei se por minutos ou por horas. Quando abri os olhos, me vi num ambiente totalmente diferente de tudo o que já havia visto. Milhares de quilômetros de vazio e crateras, perdidos num espaço imenso. Reconheci no ponto azul distante o planeta Terra, minha origem. Eu estava só e, ao mesmo tempo, me sentia completo, purificado. Afinal, no espaço a solidão é tão normal... Flutuava, em grandes passos. Tinha o peso de minha alma, leve... Não pensei, na ocasião, em como poderia estar ali, respirando no vácuo. Sentia frio. Havia crostas de gelo sobre as pedras, sobre as paisagens. Queria ter um machado para quebrar aquele gelo, pensei. Acordar daquele sonho agora mesmo... Não senti, porém, o passar do tempo. Apenas deixei-me estar ali... Um dia, um grande cometa passou rente à superfície lunar e me arrancou de sua órbita. Sem ter outra escolha, me agarrei a ele e segui sua cadência alucinada em direção a Terra. Quando entrei na atmosfera, minhas roupas incendiaram-se com o calor da fricção com o ar. Fui encontrado por um grupo de pescadores na mesma praia onde desapareci, completamente nu. Os dias são sempre os mesmos aqui no “Hospital Psiquiátrico Dom Quixote”. Há hora para tudo, e todas as horas se repetem, invariavelmente, todos os dias. Hora de levantar, a primeira ronda dos enfermeiros. Hora dos remédios da manhã. Hora do pátio, do almoço, e assim por diante, até o apagar da televisão da sala de estar e das luzes. Hora de dormir. É quando me sento diante da janela gradeada para observar a lua. Nas noites de luar eu fico mais calmo. Estou nessa clínica desde que voltei do meu período de “desaparecimento”. Quarenta dias. Um brilhante e jovem advogado, agora apenas mais um alienado mental. A lua tem um papel chave no que eles chamam de “minha alienação”. Não éramos, nós loucos, chamados antigamente de lunáticos? Apesar dos médicos e de todos mais pensarem nos meus relatos como um delírio, tenho certeza de que o que me lembro aconteceu de fato. Desde então, tenho contado a mesma história para meus familiares, para meus amigos, para os médicos que me mantém aqui. Desculpe, estranho, eu voltei mais puro do céu... Enquanto não encontro “a cura”, vou ficar por aqui contemplando a lua. Vou chorar, sem medo. Vou lembrar do tempo de onde eu via o mundo azul...

quarta-feira, 17 de julho de 2013

Segredo

Há um ano ele ataca em todas as madrugadas de lua cheia. Primeiro foram os animais. Cães, cavalos, bois. Depois, seres humanos. A nossa pequena Monte Claro manchou-se de sangue e medo. Como de costume, organizo as buscas. Há esperança entre nossos homens de conseguir caça-lo e dar fim a este pesadelo hoje. Divido os grupos por quadrantes e oriento-os a usarem as balas de prata. Fico na cabana, em minha cadeira de rodas, esperando as notícias que chegarão ao raiar do dia. Lua Cheia... Aprendi a controlar o momento exato da transformação. Depois que todos se vão, solto a besta que carrego no peito. Somente como lobo posso andar novamente. O preço pago pelas vítimas não passa de um efeito colateral...

quinta-feira, 11 de julho de 2013

Vão-se ao anéis, ficam os dedos

Madame Zora, célebre ocultista, havia sido enterrada há sete dias. Leo ficou sabendo que ela levara consigo todas as suas joias: colares, braceletes e, sobretudo, os anéis. Anéis riquíssimos de ouro e diamantes. Cavou por horas a fio. Retirou a tampa do caixão e colocou um lenço no rosto, para suportar o cheiro da decomposição. Começou a coleta.Quando chegou às mãos, para retirar o primeiro anel, algo imprevisto aconteceu. A morta abriu os olhos, agarrou seu braço e cravou-lhe as unhas. A tampa do caixão fechou-se. O ladrão experimentava um pânico nunca antes sentido. Momentos depois, mergulhado nas trevas, sentiu a primeira pá de terra selar seu destino...

terça-feira, 9 de julho de 2013

Veneno

É estranho só conhecer a verdadeira face do outro quando o amor acaba. É como a história da tartaruga que, seduzida pelo escorpião, aceitou levá-lo à outra margem do rio. Quando estavam quase chegando, ela recebeu o ferrão mortal de seu passageiro e disse: - Assim vais matar a nós dois! – Ao que ele respondeu: - Nada posso fazer, é da minha natureza... Será da natureza do amor, quando acaba, só restar o veneno?

domingo, 7 de julho de 2013

Teoria da Conspiração

Tudo começou na repartição. Ouvia meus colegas falando sobre mim. Eles sabiam de algo, que àquela altura eu ainda desconhecia. Na rua, me sentia seguido, observado... Passei a prestar mais atenção nas conversas do serviço. Tive a oportunidade de observá-los mais de perto e descobrir seu plano: eles queriam acabar comigo, pois eu sabia de algo. Não sabia ainda o que. Numa certa manhã, meu chefe me chamou para a sala dele e, com um par de desculpas, me demitiu. Agora eu estava mais convencido do que antes das intenções deles. No outro dia a minha assinatura do jornal foi cancelada. E no dia seguinte cortaram minha luz. Comprei o jornal na banca e o li à luz de velas. Havia algo lá... Acho que agora sei o que queriam ocultar de mim. Fui mais cedo ao morro, comprei um revólver e balas para me defender. Agora é meia-noite, ouço passos nas escadas, passos de umas cinco pessoas, subindo juntas. São eles. Encosto o revólver na têmpora esquerda. Não hão de me arrancar nada. O que sei morrerá comigo...

quinta-feira, 4 de julho de 2013

Soldados

Nesses momentos, em que me vejo a sós com meus pensamentos, descubro quantas coisas oculto ao meu próprio respeito, quantos desejos secretos eu teimo em mergulhar de volta no fundo do poço. Viver aqui em Israel como soldado tem sido um defrontar-se com a morte, cara-a-cara, a cada dia. Já faz um ano que eu e o Beto servimos aqui. Uma amizade dos tempos de meninos, no Colégio Israelita. Os dois de famílias pobres, bolsistas, diferentes da elite judaica predominante. Acho que veio daquelas tardes de brincadeiras depois das aulas a vontade de sermos soldados. Nossos colegas, aos dezessete anos, teriam um suporte para ingressar em suas carreiras. Nós não. Ser soldado em Israel seria uma garantia de futuro. Os três primeiros anos eram os mais difíceis, um estágio para depois incorporarmos em definitivo à tropa. A realidade, porém, é sempre mais complicada que o sonho. Ver palestinos mortos todos os dias, participar mesmo dessas matanças, era algo frequente. Os atentados eram frequentes e imprevistos. Vários dos nossos já tinham morrido ou ficado inválidos. Tudo isso acompanhado pelos meus conflitos internos, a necessidade de definir o que eu sentia, o receio de expressar isso... E nossas meninas estão longe daqui. O Beto sempre espera, ansioso, as cartas de Leila. Eu não anseio pelas de Natália. Ela certa vez me falou que “a felicidade é uma mentira e a mentira é a salvação”. Talvez ela tenha interesse em casar-se com um oficial do exército israelense. Sempre suspeitei que o filho do vendedor de tecidos que sou, de fato, nunca lhe interessou. Lembro agora de tudo o que se passou hoje: o atentado, as mortes, minha quase revelação... Iniciamos a patrulha como de costume, revistando os palestinos que cruzavam diariamente a fronteira para seus postos de trabalho em Israel. Cidadãos registrados que cooperavam com a paz. O grande problema era a cooptação pelo terror: qualquer professor, médico ou funcionário podia ser recrutado. Estávamos em dez. Um homem passou para a área de revista. Quando ele fechou os olhos e recitou alto uma prece islâmica, já sabíamos. Buscamos um abrigo, mas não tínhamos nenhum. A explosão matou instantaneamente seis colegas. Do meu grupo mais próximo, só eu fiquei em pé, pingando sangue, o sangue do terrorista, o sangue de meus amigos, talvez o meu próprio. Foi quando vi o Beto. Caído. Não sei falar o que eu senti. Vê-lo assim, desacordado, indefeso... Quis abraçá-lo, protegê-lo, talvez beijá-lo. Quem vai saber agora o que eu não fiz? Beto terá alta do hospital dentro de alguns dias. Já eu, sofri um trauma mais profundo: a confirmação desse sentimento que sempre quis negar, do qual agora tenho plena consciência. Apesar disso, devo continuar negando. Beto, como explicar pra você o que eu quis? Não. O silêncio deve predominar sobre essa verdade incômoda. Afinal, somos soldados...

quarta-feira, 26 de junho de 2013

Caminhos abandonados - miniconto

Eram os primeiros dias da sua separação. Não lhe ligara, não lhe escrevera, não mandara mensagem. A sua presença era ainda imperiosa. Resolvera abandonar os caminhos entre eles abertos. Não pensar nela a cada instante, esquecer seu olhar, com sorte esquecer sua voz. Deixar as heras crescerem no que um dia foi seu éden, deixar o esquecimento matar toda a vida que foi o seu amor.

Sedex - Miniconto

Finalmente juntara o suficiente para fazer a tão sonhada viagem à Veneza. Carlo, o amigo que conhecera pela internet, o aguardava no aeroporto. Ao recebê-lo, pegou a caixa do Sedex. Conforme o combinado, despejou suas cinzas no Mar Adriático...

segunda-feira, 24 de junho de 2013

Sozinho

De volta ao velho castelo abandonado / Suas pesadas correntes a arrastar / Sua amplidão de salas vazias / Como a solidão é enorme, / Como abarca milhares de anos... / Penso que a vida sempre foi esse castelo / E os momentos em que estive no pátio, ao sol, / Contigo / Foram tão poucos e, somente, momentos / Diante dessa eternidade de morte.

quarta-feira, 19 de junho de 2013

Contínuo - miniconto

Acordou. Lavou o rosto e entrou no chuveiro frio. Sua luz tinha sido cortada por falta de pagamento. Quando recebesse acertaria. Vestiu sua roupa surrada. Chegou ao escritório. Organizou os estoques, foi ao banco pagar contas. Estoques e outras coisas de novo. Chegou em casa, pão e mortadela nas mãos. Foi sua janta. Dormiu um sono exausto. Acordou. Chuveiro frio. Escritório. Estoques, contas, banco, estoques. Casa. Acordou. E a fórmula se repetiu muitas vezes, continuamente, num movimento contínuo.

segunda-feira, 17 de junho de 2013

Convicção - microconto

O Muro de Berlim já havia caído há vinte e cinco anos, mas não conseguia cruzar a fronteira. As ideologias, para ele, eram mais concretas do que tijolos e argamassa.

Última Vaidade - miniconto

Postou-se diante do espelho e encostou o revólver na têmpora esquerda. Seus cabelos estavam emaranhados. Pegou gel e escova. Tornou a encostar o revólver. Aquela barba por fazer de três dias não ficaria bem no seu funeral. Procurou o barbeador. Todas as lâminas gastas. Resolveu que sairia para comprar. Estava decidido, mas não tinha pressa. Foi à farmácia. Mal entrou e deparou-se com Lúcia. Ela mesma o atendeu, e deixando claro corresponder ao seu interesse, escreveu seu telefone no cupom fiscal. Estão casados há dez anos. O velho revólver enferruja no fundo de um baú...