sábado, 12 de novembro de 2011

Enfermo


Agora que todas as coisas
Foram
Só restam caminhos
Ermos
Éramos três
Hoje resto menos
Que um...
Enfermo
Acordo tarde,
Deito à tarde
Esperando chegar
A nova noite
Pois só o sono tudo
Dissolve.
A mente revolvem
Culpas e expectativas
Perdidas
Devo tomar medidas
Drásticas
Para romper essas correntes
Erráticas...

sábado, 22 de outubro de 2011

Exílio


Meus caminhos não são mais
Os mesmos
Minha casa é estranha
Estranho é o que me encara,
No espelho
Tudo que fazia algum sentido
Eu deixei para trás
Atrás de algum sentimento
Perdido
Exilado, dorido,
Só me sobrou o lamento
E o ruído assustador
Do vento...
Mesmo as coisas ruins
Me fazem falta
E as boas?
Elas tem todo o valor
Que eu não sabia dar
Quando as possuia...
Todos me dizem
Ser só uma fase
Mas será que isso passa
Antes que tudo passe
Para mim?

Preciso urgentemente fazer algum sentido...

sexta-feira, 21 de outubro de 2011

O homem decomposto


O que sobra de nós
Mesmos
Quando tudo o que temos
São as sobras?
Assim me sinto
Se perguntarem como vou,
Minto
Pois minhas misérias
Só a mim interessam...
E das coisas que me
Restam
Faço um esforço,
Homem decomposto,
Para me erguer em duas pernas...
Vã tentativa de viver, externa
Quando o que se tem dentro
Clama por paz, eterna...
Assim, sem um alívio
Persigo
A inalcançável utopia
De ser inteiro
De novo, algum dia...

segunda-feira, 11 de julho de 2011

Identidade


Perdi minha identidade
Numa esquina de julho
De um dia qualquer...
Nesta segunda via
Sequer me reconheço;
Estranho recomeço...
Eu costumava ser mais triste,
Talvez mais perspicaz também.
Agora sou a cópia
Da cópia...
Importa se autenticada?
Nada...
Se alguém por acaso encontrar
Minha originalidade
Perdida
Gratifica-se
Com um gesto espontâneo...

terça-feira, 21 de junho de 2011

Ex-perança...


Sob a forte chuva
Já não sentia nada.
Seus sonhos derretiam,
Torrenciais
Nas torrentes...
As águas lavavam
Até
Suas lágrimas
Mais copiosas...
Restava, ainda
O incômodo
Da desagradável
Sensação
De estar
Vivo
Não acompanhada, sequer,
Por uma ex-perança...

segunda-feira, 20 de junho de 2011

Entreguerras


Entre a calamidade
E o fim das eras
Estava a espera...
Um tampão entre mortes
O vácuo
Entre as areias
Do tempo
Os trapos a cobrirem
O relento
A cor pálida
Que precede o sangue...
Oh! Que expectativa
Devemos cultivar
Pelo nosso futuro?
Se hoje, todo o fosco,
Precede o que é escuro?

terça-feira, 7 de junho de 2011

Sobras


Sobrou só a tristeza
Ela, que sempre esteve
Presente
É tudo que tenho
Em meu presente
Companhia certa,
Num futuro
Incerto...
Sobrou só a solidão
Que dispensa companhias,
Sobraram as tardes
Vazias
E eventuais migalhas
De afeição...
Então,
Se as sobras
São tudo o que me
Restam
Resta fazer bom uso
Delas
Antes que elas mesmas
Se acabem...

quarta-feira, 1 de junho de 2011

La tristesse - Luis Fernando Veríssimo


Auvers-sur-Oise é uma cidadezinha à beira do rio Oise, alguns quilômetros ao norte de Paris. Não chega a ser a "France profonde". Com sua proximidade à capital é mais um lugar para casas de campo e escapadas de fim de semana dos parisienses. Mas Auvers é importante. Foi para lá que Vincent Van Gogh se mudou no fim da sua vida. Atormentado por problemas mentais, ele quis estar perto do dr. Gachet, um médico da região que lhe fora recomentado pelo pintor Pissarro. (Um retrato do dr. Gachet está entre as suas últimas obras, que também incluem uma pintura da igreja de Auvers.) Mas, principalmente, Van Gogh foi para Auvers para estar mais perto do seu irmão Theo.
***
A relação entre Vincent e Theo Van Gogh é das mais ricas e, finalmente, pungentes da história da arte. Não apenas porque a ajuda financeira de Theo permitiu a Vincent - que em toda a sua vida só vendeu um quadro - dedicar-se à pintura, mas porque tudo que se sabe sobre os pensamentos e os sentimentos de Van Gogh está nas suas cartas para o irmão mais velho, seu confidente e conselheiro. Sem Theo não haveria Vincent. Quando decidiu ir viver em Auvers, Van Gogh talvez estivesse inconscientemente se aproximando do irmão para morrer perto dele. No dia 27 de julho de 1890, Van Gogh se deu um tiro no peito. Morreu dois dias depois nos braços de Theo. Suas últimas palavras foram "La tristesse durera toujours". A tristeza durará para sempre.
***
Há dias fomos ao cemitério de Auvers-sur-Oise onde estão enterrados Vincent e Theo, que morreu alguns meses depois do irmão. O cemitério fica numa colina em meio a um trigal. O trigo estava verde. Van Gogh poderia transformá-lo em amarelo, e acrescentar alguns redemoinhos ao azul daquele céu de primavera, mas o dia era irretocável. Os dois irmãos estão enterrados lado a lado. Sepulturas simples, com um quadrilátero de plantas na frente. As duas lápides são absolutamente iguais. Os nomes, as datas de nascimento e morte, e só. Com um pouco de imaginação você concluiria que, na morte como na vida, Theo estivesse ali para proteger seu desafortunado irmão. Mas nada nas lápides os diferencia. E Van Gogh tinha razão. A tristeza o perdurava. A tristeza durará para sempre.
Brod. Max Brod não era parente de Franz Kafka. Os dois só eram grandes amigos. E Kafka pediu a Max Brod que impedisse a publicação dos seus livros e queimasse todos os seus escritos, quando ele morresse. Não se sabe se Kafka pediu que Brod prometesse, solenemente, fazer o que ele pedia. Se fez o Brod jurar. O fato é que se deve à decisão de Brod de trair a confiança do amigo a existência literária de Kafka, que só foi publicado postumamente. Se a humanidade deve a Theo e sua dedicação ao irmão as grandes pinturas de Van Gogh, deve à infidelidade de Brod a obra impressa do Kafka. Sem Brod não haveria Kafka.
***
Sei pouco sobre a posteridade de Brod, que entrou para a história da literatura apenas como responsável pela posteridade de outro. Também não sei como foi sua escolha entre assegurar a posteridade de Kafka e honrar seu pedido. A fogueira já estaria acesa quando ele decidiu preservar os escritos? E o remorso? Alguma vez Brod se arrependeu de ter sido um amigo inconfiável, recusando a Kafka o esquecimento desejado? Seja como foi, obrigado Max. E você também, Theo.

sábado, 28 de maio de 2011

Trilhando o Caos


Sem mais caminho
Sob os pés
Sem direção,
Em vão...
Quando tudo
O que tínhamos
Desaba
Somos apenas
Crianças
Tentando viver
Na crueza das ruas...
Não importa quantas
Luas
Tenha o céu
Aqui embaixo tudo
É tragédia
Inanição
E quando nada mais
Importa
Nessa infame vida
Tenho que ser forte,
Arranjar comida
Para passar
Mais um dia
Rumo ao nada...

sexta-feira, 27 de maio de 2011

Anedonia


Não sentir, sequer,
O que sentia
Topor, dormência
Anedonia...
Não faço mais as perguntas
Que fazia
As respostas?
Tanto faz,
Até já esquecia...
A dor, a felicidade
O que vier
Não mais importa,
Pois sou uma casa
Fechada
Da qual perdeu-se
A chave da porta.

segunda-feira, 23 de maio de 2011

Enquanto os sonhos dormem...


Há um silêncio, ou melhor, vários silêncios na história de quem cria. Enquanto os sonhos dormem... O que fazemos? Meu abril passou em branco, meu maio quase chega ao fim... Nada. A vida sem o encanto da palavra parece mais vazia. As dores continuam as mesmas, mas passaram em vão, sem que eu lhes desse um sentido, metabolizasse... Vou continuar aqui, em vigília, aguardando o retorno da inspiração. Só com meus versos tortos dou sentido e explico esse espetáculo circense chamado vida.

sexta-feira, 25 de março de 2011

Passatempo


As letras me fazem
Passar o tempo
Enchendo assim as folhas
De arrazoados, às vezes
Sem sentido...
Ora! O que importa
Mesmo
É o que é sentido
Nesse trilhar solitário
Por entre as palavras
Itinerário
Que é meu passatempo
Com pretensões
De literário...

Poema de março


Março será para mim
O eterno mês
Da volta às aulas...
Ainda que, a essa altura,
Não haja escola
Ou cátedra
Para regressar
Haverá sempre,
Muito
Para aprender...

Dois medos


Eu sou assim como criança
Esperando um brinquedo novo
Com dois medos:
O medo do desapontamento
De não ganhá-lo
E, do contrário,
O de não saber o que fazer
Com ele...

Ao contrário...


Deveria ter calor
Deveria ter conversa
Deveria ter amor...
Ao contrário,
A dor.
Um galho seco
No vento gélido
De um inverno
Sem cor...
Repara
Que nem a Morte
Os separa.

Mapa


Se eu fosse um cartógrafo
Desenharia para ti o mapa
Daquela terra distante
Que sempre buscastes
Em vão...
Mas não. Sou outro
Náufrago
E só o que posso fazer
É embarcar contigo
Nesse pequeno barco
Rumo às dúvidas
Que nos esperam
Na esperança de encontrar
O tesouro da descoberta.

terça-feira, 8 de março de 2011

Sobretudo


Vestiu o seu sobretudo
Sobre o quê?
Seu velho corpo
Surrado
Sua mente
Sugada
Sua alma
Vendida
Por um preço tão baixo...
É, amigos
Mais um caso em que a roupa
Vale mais que o cabide...

Ócio


A negação do negócio
O "dolce far niente"
Simplesmente o presente
Sem preocupações com futuros
Edifícios e seus muros.
O nada fazer...
Em nada fazer
É como nadar num oceano
De ócio
Criativo?
Até pode ser,
De Masi,
Mas não demais...
Só se for incidental
Porque o seu normal
É redundar
Em nada.

quinta-feira, 3 de março de 2011

Até sempre, Moacyr Scliar!


A imortalidade é uma condição incompatível a nós, comuns mortais. Mas não aos escritores; sobretudo os magos da categoria de Moacyr Scliar, independentemente de academias e fardões. Foi com ele que aprendi a ser um menino judeu em “A Guerra no Bom Fim”. Ou um ser mítico e cheio de incertezas em “Um Centauro no Jardim”. Com ele participei do movimento da Legalidade em “Mês de Cães Danados”. Ou fôra tudo delírio de Joel, Guedali ou do Mário Picucha, personagens inesquecíveis daqueles romances? Essa característica de realismo fantástico, de uma ironia fina e sutil, é o que mais me encanta em seus escritos. E seguirá encantando em muitos outros que ainda não tive a honra de ler. Moacyr, contigo descobri, ainda guri, a literatura. Seguirei nessa descoberta, ainda por muito tempo ao teu lado, pois quando esgotarem para mim teus escritos, sempre haverá releituras, pois és imortal, afinal de contas... Até sempre, meu grande amigo!

terça-feira, 1 de março de 2011

Sofro


Sofro da pressão
Sofro depressão
Sofro de ansiedade
Também sofro
De saudade
E de amnésia
Do quê?
Nem me lembro
Porque...
Sofro de alergia
Nada de alegria!
E de uma tristeza
Demente
Que não há pena
Que invente...
Tudo, no fim
É minha mente
Que só sofre
A verdade
Não mente...