quarta-feira, 24 de novembro de 2010

O primeiro hippie - por Moacyr Scliar


Leon Tolstói (1828 1910) foi não apenas um grande escritor, foi um tipo humano fascinante que, sob alguns aspectos, antecipou formas de pensamento e estilos de vida que depois viriam a caracterizar o século 20. Podemos dizer que foi, senão o primeiro, pelo menos um dos primeiros hippies, o resultado de uma trajetória intelectual e espiritual em que não faltaram momento surpreendentes. O centenário de seu nascimento está sendo lembrado em todo o mundo este ano.

De família rica e tradicional, filho de um conde, Tolstói nasceu em 1828 em Yasnaya Polyana, grande propriedade familiar. Frequentou a universidade, estudando Direito e idiomas, mas, aluno rebelde, abandonou o curso. Passava muito tempo em Moscou e em São Petersburgo, levando uma vida boêmia e acumulando pesadas dívidas de jogo.

Talvez para escapar a esta situação, alistou-se no exército e começou a escrever. Resultou daí uma notável obra, expressa em contos, em romances, como Ana Karenina e Guerra e Paz, em ensaios. Seus textos conquistaram a admiração de escritores como Flaubert, Dostoievski e Tchekhov, e tornaram-no famoso.

Aos poucos, Tolstói foi optando por um caminho que, filosoficamente e politicamente, caracterizava a sua independência e sua rebeldia. Depois de presenciar uma execução pública em Paris, concluiu que o Estado “é uma conspiração para explorar e corromper cidadãos”.

Embora influenciado pelo anarquista Pierre-Joseph Proudhon (de quem copiou o título de um livro, La Guerre et la Paix), não aderiu ao anarquismo; mas resolveu dedicar-se à gente pobre, comum. Em Yasnaya Polyana, fundou várias escolas que proporcionavam um ensino livre, democrático. Era um cristão fervoroso, mas não convencional, que buscava sua própria interpretação dos livros sagrados.

Admirador de Buda e de São Francisco de Assis, acabou excomungado pela Igreja Ortodoxa Russa, e, numa época, era vigiado pela polícia do tzar. Pacifista convicto, influenciou o líder hindu Mahatma Gandhi, que, através do movimento de resistência não-violenta, conseguiu que a Índia se tornasse independente da Grã-Bretanha.

Achava que a aristocacia era opressora, opunha-se à propriedade privada e ao casamento; valorizava a castidade, não bebia nem fumava, era vegetariano e usava roupas simples de camponês, renunciando inclusive à sua riqueza e até aos direitos autorais (um escritor que era, portanto, o sonho dos editores).

A família (era casado com a filha de um famoso médico e teve com ela 13 filhos) não aceitava o que era considerado um extravagante modo de vida. Aos 82 anos, Tolstói decidiu fugir de casa; fê-lo de trem, em gélidos vagões de terceira classe. Contraiu pneumonia e morreu em 20 de novembro de 1910, na estação ferroviária de Astapovo. Àquela altura era uma personalidade universal e, apesar de não ter nada a ver com o comunismo, foi prestigiadíssimo na finada União Soviética. Para os hippies dos anos 1960, tornou-se um modelo, e havia até colônias com seu nome.

Certamente no musical Hair, celebração desse movimento, ele teria um papel importante. Basta lembrar uma única frase dele, que aparece no começo de Ana Karenina: “Todas as famílias felizes são iguais, mas cada família infeliz é infeliz à sua maneira”. Bota sabedoria nisso.

Jornal ZH, Revista Donna ZH, domingo, 21.11.2010 - Porto Alegre

Grand Finale - por Cláudia Laitano


A ideia da morte tornou-se concreta na minha vida algumas semanas antes do meu aniversário de 15 anos, quando um caminhão atravessou o caminho da mobilete novinha que minha amiga havia ganho poucos meses antes, no aniversário de 15 anos dela.

Há uma desinteligência essencial entre o ponto final da morte e a explosão de vírgulas, travessões e dois pontos que a adolescência anuncia. Se eu ainda fosse criança, é provável que algum adulto tivesse se ocupado de revestir esse momento de algum sentido mágico ou religioso que ajudasse a tornar essa perda um pouco menos absurda e fora de hora. Alguns anos mais tarde, tudo continuaria absurdo e fora de hora, mas talvez eu já tivesse assimilado melhor a noção de que a ausência de lógica e senso de justiça rege boa parte dos acontecimentos que afetam nossas vidas de forma definitiva.

Aos 15, quando os anticorpos da infância já não funcionam mais e os da vida adulta ainda estão amadurecendo, quase tudo é espantoso, definitivo, absoluto – como a morte. Mas a dimensão trágica da existência, aquilo que faz com que um adulto chore, na morte dos outros, a própria finitude, ainda não está completamente instalada. Talvez por isso, desse primeiro enfrentamento com uma sentença irrevogável do destino, eu lembre não apenas das muitas cenas de choro e consolo mútuo, mas também dos incontroláveis ataques de riso que durante o velório, inclusive nas horas mais impróprias, interrompiam a contrição do nosso luto de principiante. Rir não diminuía a dor ou a saudade nem tornava aceitável o que não era, mas de alguma forma transformava o sentimento individual de cada uma de nós, as amigas mais próximas, em uma experiência coletiva de catarse e expiação. Rir era o nosso jeito de chorar em conjunto o absurdo da situação.

O que eu queria dizer mesmo é o seguinte: no Brasil, os cerimoniais de despedida, em geral, não costumam abrir muito espaço para que o luto seja vivido de forma coletiva e “customizada”. Há um certo pudor em transformar velórios em espetáculos com discursos, trilha sonora e aperitivos no final, como se vê com frequência em filmes americanos ou britânicos. Passamos da experiência pré-moderna dos velórios em casa e das carpideiras contratadas para chorar o defunto alheio diretamente para a cerimônia fria e eficiente dos dias de hoje, em que parentes, amigos e conhecidos, com diferentes graus de envolvimento pessoal com o morto, reúnem-se laconicamente (ou nem tanto) diante de um caixão, reservando o único momento de contrição e despedida coletiva para a breve encomendação religiosa, em geral padronizada, que antecede o enterro. Não há, nesses velórios convencionais, espaço para que o morto seja lembrado em voz alta em toda sua grandeza e banalidade – tornando solene e significativa a experiência daquela perda até para quem não a está sofrendo.

É de certa forma paradoxal que toda a passionalidade que os brasileiros demonstram em vida acabe sepultada em cerimônias chochas, em que a emoção desempenha um papel tão discreto e íntimo. Falta aos nossos velórios a celebração coletiva dos discursos, as lágrimas e o riso, a emoção compartilhada, o espetáculo coreografado da dor. Falta grand finale.

Na morte, quem diria, somos mais britânicos que os próprios.

"Opinião", Jornal Zero Hora, sábado, 20.11.2010, página 2

segunda-feira, 22 de novembro de 2010

Sobrevida


Se já não é mais a Morte...
Em vida?
Ou seria apenas um apêndice
Desta última?
Sobrevida...
Somente um último fôlego,
Exausto, trôpego, dormente
Me resta alguma força
(Um quase nada...)
Ainda que sem rumo...
O que fazer, então?
Íntegro e são,
(São?)
Sábia resolução
Conduzir minha carcaça
Seguindo seu rumo
Com o que me resta de prumo...

Prisioneiro


Os muros invisíveis que me confinam,
Não sei quem os ergueu.
Talvez um passado de tristezas,
Talvez um Deus inclemente,
Ou, quem sabe, eu mesmo?
Não importa...

Aqui estou, senhor e refém do meu próprio castelo,
A contemplar as nuvens que navegam pelo céu azul.
Mas que grandes temores e que belas paisagens
Há lá fora...

Dentro da minha fortaleza, respiro a segurança
E a solidão, minha fiel companheira
O corpo está tão ileso,
Quanto a alma lacerada...

E, de repente, me invade a vontade
De correr descalço por esses verdes campos,
Abraçar amigos, sentir a brisa das madrugadas

Partir um dia com a beleza de um sol poente,
Quem sabe viver um grande amor?
Ah, um grande amor...

Mas como, se os portões fechados me olham
Com sua calma indiferente e intransponível?
Onde está a chave?
Quem tem a chave?

Lá fora a vida resplandece
Enquanto, aqui dentro, à espera da liberdade,
Vou pintando, nas paredes frias,
Musas, luares, viagens
Disfarçando como posso sua cruel proteção...

(dos "Manuscritos Perdidos de um Menino Triste" - 1995)

Transformação


Era uma dor tão bela,
Tão sincera em sua razão de ser
Que um dia rompeu o casulo
E abriu as asas
Um lindo poema...

(dos "Manuscritos Perdidos de um Menino Triste" - 1995)

quinta-feira, 18 de novembro de 2010

Espelhos - Diários de um Misantropo


Um dia pesado
Cercado
Por pessoas
Antes, durante e depois
Eu, que sinto na alma
Que "o Inferno são os outros"...
Mas vamos com calma,
Vez por outra...
Um dia de cada vez.
Deixa-me chegar à toca
Tomar um banho,
Beber um pouco, talvez...
E cobrir todos os espelhos.
Só quero voltar a ver-me
Amanhã
(Também humano)
Refletido nos olhos de todos
A quem abomino...
Eu me pergunto, já dormindo,
já confuso:
A quem odeio mais
A mim
Ou ao mundo?

Fome


Sem um trocado
Na algibeira
Vago nas ruas desertas
Povoadas de sonhos
Desfeitos
E do que me restou
No peito
Um peso...
Sigo sem destino,
A emendar a estrofe
Com remendado
Estribilho
A fim de disfarçar
A fome,
Companheira cruel,
Que a tudo consome
Menos à tristeza
Que comigo vaga...

Consumundo


Descrença
Consumindo meu mundo
Cansaço
Corroendo meus planos
Insônia
No lugar de sonhos...
Como deixar de fazer
O igual
Se não há chance
De sair dos trilhos,
A não ser,
Descarilhando?
Talvez
Entre mortos e feridos
Vir a ser pouco mais
Que um bandido
Ou algo menos
Que anti-herói?
Tanto faz,
Digo eu, olhando no espelho
Tanto faz...
Para a minha mesma cara
De anos atrás...

terça-feira, 9 de novembro de 2010

Pesadelos


Se os sonhos não são mais
Do que o rejeito,
O lixo, dejeto
Do nosso concreto
Viver diurno
Ou complicadas
Cifras junguianas
Plenas de símbolos
E significados,
O que seriam os pesadelos?
Essas mentais ratazanas?
Insidiosas, malevolentes
Sempre em minha mente
Presentes?
Sonhei com as piores casas
Em que vivi,
Na minha infância de misérias,
Condensadas em uma só...
Sonhei com as traumáticas
"Aulas" de educação física
A escola também deforma...
Ou que não havia concluído a faculdade
Por uma derradeira e maldita
Nota.
Notas...
Das quais essas trilhas de terror
São compostas...
Essas, entre outras misérias
Vividas, revividas, ruminadas
Por que retornam, a me assombrar
Mesmo à noite?
Nossos sonhos podem, quem sabe,
Não ser expurgo, talvez
Mas há um esgoto
Em nosso interior
De onde emergem tais
"Bichos escrotos"...
Mesmo agora que estamos acordados, livres, e bem
Ainda assim, furtivamente,
Na escuridão eles vem...
Para rirem-se e nutrirem-se
De nossos pobres sofrimentos,
Traumas
E medos
Num sono de loucura
E de degredos.

Cumulus Nimbus


Cão raivoso, minha sina
Destilo meu ódio
Como o álcool
Destila seu veneno...
Passaram-se os dias amenos
Ó tempestade!
E já que é meu destino
Cruzar-te, de tempos
Em tempos,
Mandame ao menos
Alentos...
Ventos narcóticos
Assim, ainda que me debata,
Amarrado ao mastro
Que eu sangre o menos
Possível
Até a volta da bonança...

Não te iludas, marujo;
Onde há loucura,
Há ilusão
Nunca esperança...

segunda-feira, 8 de novembro de 2010

Poesia em Frangalhos


Eu abro os olhos
E a alma
E vejo o que restou
Depois do vendaval...
Não fomos mais os mesmos
Nem as tábuas de nossas casas
Voltaram aos lugares certos...
E as roupas, contorcidas no varal,
São mero sinal
Do que é revirado por dentro
Em frangalhos...

(25/10)