quinta-feira, 16 de setembro de 2010

O humanista iconoclasta


A matemática
Não tem humanidade
Nem a física
Sente saudades...
O mercado financeiro
Pensa somente em dinheiro...
E os precipitados da química
Nunca serão lágrimas
Derramadas
Pelas crianças que tem fome...
Pobre homem!
Servo de suas próprias criaturas...
E, se um dia, decidisses
Por tua liberdade?
A história, com suas interrogações
A esmagar os números;
A literatura e suas ficções
Para além dos fenômenos
Mensuráveis
Banindo as certezas físicas, decimais,
Miseráveis!
A filosofia, alimentando de trocas
O mercado das idéias...
E as reações da poesia?
Por serem de improviso
Não precisariam de tubos
De ensaio...
Iconoclasta das "verdades",
Insano!
Eu saio a derrubar os falsos
Deuses
E a erigir tudo
O que é humano...

Non Sense


Hoje acordei novamente com a sensação de que o melhor a fazer era continuar dormindo. É, talvez fosse. Seria minha serotonina outra vez? "Motiva-me", no entanto, a sobrevivência. Ela nos faz ir adiante, senão em direção a um alvo, para não nos tornarmos um... Alvo da fome, do abandono, da (in)dignidade... A grande questão é que, por mais que eu insista, tenho sempre a impressão de que as coisas não tem feito sentido. Não sou quem eu pensei que seria, a essa altura da vida... Onde estão o desenvolvimento profissional, de carreira, numa área que me apaixone? No lugar disso, um emprego, um salário-pra-não-passar-fome e graças à Deus? Onde o crescimento intelectual? Por que essa sensação de "falso pacto", onde depois do suor da labuta diária haveria tempo a um propósito maior? Não há. Sou sempre eu em meu circuito "non sense": da corda bamba para o trapézio, deste para o canhão do homem-bala ou para a arena de feras... Onde está o meu "grande momento"? Em fazer o papel de palhaço? Um circo, é o que me parece isso tudo.

Quando era criança e abri um relógio pela primeira vez, fiquei frustrado por não entender suas engrenagens; hoje, olhando para a vida, sinto aquele mesmo pesar infantil, diante de um brinquedo fascinante, mas complicado demais...

Em tempo: pode ser o acima escrito "lugar comum", mas eu realmente tenho vontade de estar é em lugar nenhum... (Serggius, 9 de Setembro)

terça-feira, 7 de setembro de 2010

Soldado


Os olhos inundados de esperança,
Num rosto suave
O sorriso contido
Um homem com traços de menino...
Ou um menino de feições adultas?
Não importa.
Impassível,
Marchava convicto para a
Guerra
Pensando no grande amor que deixara...
Mal sabia ele
Que a guerra - e os homens que a fazem
Não gostam de grandes amores,
Sorrisos contidos,
Olhares esperançosos,
Ou rostos suaves...
Porém, para a surpresa da guerra,
Dos homens e dos exércitos
A Morte - a quem todos servem -
Apaixonou-se pelo jovem soldado e
Transformada num lindo anjo
Levou-o consigo à sua morada,
Onde aninhou-o ternamente
Eternamente
Junto a seu corpo...
E a guerra?
A guerra teve de acabar
Pois, com a Morte ausente,
Já não havia, de ambos os lados,
Baixas aos inimigos...

domingo, 5 de setembro de 2010

Novos Pavavrismos: Poder e Sorte


O poder corrompe.
O poder absoluto corrompe absolutamente.
Do poder irrompem
Os eleitos...
Seus leitos?
Qual MacBeth, manchados de sangue.
Mas isso, absolutamente, não importa
Batem à porta:
A sorte está lançada
Sorte de quem tem, em suas mãos
A lança
Desta forma irá submeter os fracos
Lavar seu leito de sangue
E alcançar o poder
Que corrompe, absolutamente
Sua alma
E os cadáveres de seus inimigos...

sábado, 4 de setembro de 2010

A visita à velha senhora


Correria? Correria! Assim nos cumprimentamos no meu serviço. A "correria", a urgência a que estamos submetidos, por vezes toma o lugar do "bom dia", pois temos que entrar no ritmo, mais que isso, viver o ritmo, pois tempo é dinheiro, não podemos perdê-lo...

Foi no início de 2009; fazia eu um lanche no Mercado Público, quando notei que era insistentemente chamado por alguém: uma velha senhora numa cadeira de rodas, acompanhada por um rapaz. Custei a reconhecê-la; debilitada, respirando com o auxílio de um tubo de oxigênio, estava diante de mim a colega de meu primeiro emprego, em 1994, quando eu tinha 19 anos...

Abracei-a, realmente feliz por revê-la (mas não naquelas condições), trocamos algumas reminiscências sobre o passado e, pasmem, ao perguntar-lhe o endereço, descobrimos que estava morando a dois prédios de distância de onde eu trabalhava! Ela me pediu instantemente que lhe fizesse uma visita, pois havia muito o que conversarmos, estava tão feliz com aquele reencontro... Claro, certamente, no máximo na semana seguinte passaria lá. Passaria. Passaram-se foram as semanas, os meses. A promessa, porém, não me saía da cabeça: tinha que visitar minha amiga, doente daquela forma, antes que fosse tarde.

Numa semana de abril, como se um pressentimento me acometesse, já havia até definido a data da visita, pensando nisso ao folhear o meu jornal. Foi quando fui atingido em cheio por um convite para "Missa de 7º Dia", assinado por sobrinhos e amigos. Ela havia partido.

Isso me pesou na consciência; escravo de meu ritmo louco de vida, não havia dispensado duas horas que fossem para visitar uma pessoa a beira da morte, sempre postergando a iniciativa para um amanhã fictício... Este amanhã que, como ficou provado, só existe em nossas suposições...

Dá o que pensar. "Não se pode voltar atrás para fazer um novo começo, mas pode-se mudar o presente e fazer um novo fim", dizia Chico Xavier... Seguirei escravo dessa engrenagem louca, a ponto de quase não respirar? O quanto e quantos mais deixarei para trás?

Correria? Sim, não há como fugir, se quisermos sobreviver, mas buscando sempre encontrar em nós o humano, aquilo que está além dos ponteiros do relógio e suas cifras. Esse encontro, eu não posso mais postergar...

sexta-feira, 3 de setembro de 2010

Faltava retornar à velha escola


Comecei a estudar na "Escola Estadual Presidente Roosevelt" aos sete anos, quando ainda era chamada de "escola experimental". Concluí lá, oito anos depois, meu ensino fundamental (ou "primeiro grau", como se chamava na época). Vi o "presídio", como o apelidávamos, pela última vez em 1989, passado por média(!). Numa perspectiva ainda adolescente, como quem se livrasse de algo, com certo alívio. Com a maturidade, passei a perceber o quanto aquela escola, aqueles professores, tiveram um papel fundamental na minha formação. Sem contar outras experiências que também contribuíram, como anos seguidos de "bullyng" (que nem esse nome tinha na época!), os primeiros amores, todos frustrados... Lá encontrei também, logo na primeira série, meus dois melhores amigos, o Marcelo e a Solange, uma amizade de quase trinta anos e que transformou-se em um laço autenticamente fraterno. Na sexta série conheci também a Simone, a minha amiga mais inteligente, que viajava comigo por interesses nada ortodoxos para a gurizada "banal": literatura, quadrinhos, ocultismo, conspirações... Coisa de nerds mesmo...

Foi com o Marcelo e a Solange que, no final do ano passado, voltei para rever a velha escola... Exatamente como Piaget observou (em um daqueles seus chatos estudos), tudo agora parecia, ao adulto de hoje, em escala reduzida ao que era à criança de ontem. A distância até o colégio, a dimensão de seus prédios, as quadras de futebol onde eu, humilhado pelos colegas, corria nas aulas de Educação Física (meu maior trauma de infância...). Embarcamos os três numa verdadeira expedição arqueológica; a sensação que tive foi justamente essa: voltar no tempo, a um passado que ali estava, mas não mais me pertencia... Apesar de dois anexos novos, todo o resto se conservara igual: a pintura dos prédios, a textura das paredes, a disposição das coisas... Como era final de ano letivo, os prédios estavam todos desertos, tirando algumas funcionárias que nos permitiram a entrada. Era como ser Howard Carter, descobrindo a tumba de Tutancâmon, a não ser por ter as memórias do Antigo Egito consigo ao mesmo tempo...

O ápice de nossa visita foi um tour pelo prédio principal, de dois amplos andares, onde estudamos da 3ª à 8ª série. Tudo estava bem conservado, mas o que me emocionou foi o fato de que, mesmo com as reformas, até a tonalidade original das paredes havia sido mantida nas minhas antigas salas de aula... Lá aprendi a gostar de História, nas aulas da professora Lorena, descobrindo as grandes navegações e a colonização do Brasil; ou nas da professora Jussara Sebenello, sendo apresentado com fascínio aos astecas; mas foi a inesquecível e inspiradora Vera Xavier quem me "fisgou" para o ramo, com as armações e os bastidores do poder nos 1º e 2º Impérios do Brasil. Ah, e mesmo não gostando de ciências, me apaixonei por biologia, física e química graças à emblemática Magda Ayres, a professora mais "maluca" e divertida que já tive.

Vimos também a "rampa", que dava acesso ao Auditório, o pátio da frente onde cantávamos o hino diante das bandeiras, acompanhandos um disco velho e arranhado... E o hall de entrada, com o quadro com o retrato do presidente dos EUA Franklyn Dellano Roosevelt, o qual eu nunca soube porque era o patrono da escola...

Redescobrimos Pompéia!

Quando eu era bem mais jovem, podia até cantar com Lulu Santos que "(...) faltava abandonar a velha escola (...)". Agora, revisitando-a, percebo o quanto lhe devo de tudo o que sou, e quantos raios de Sol podem emergir, mesmo das lembranças mais cinzentas...

quinta-feira, 2 de setembro de 2010

Pequenos escambos


O dinheiro, mesmo, anda escasso, as contas são superiores aos proventos; mas, mesmo assim, pequenas extravagâncias são cometidas todos os meses. Comprar DVDs ou livros nas Lojas Americanas com o que sobre do vale-alimentação é um exemplo. Ou umas duas revistas Veja ao mês com o cartão Panvel, nas farmácias. Pequenas aquisições que me enriquecem em informação, entretenimento e cultura. Que provam a mim mesmo que não sou o "homem primata" que só existe para caçar, comer e dormir. Não. Também penso; pinto minhas poesias rupestres em paredes de cavernas... E quando sobra algum cobre desavisado (da venda das passagens de trem e ônibus), me encontro em bancas de revistas ou "sebos", atrás dos meus heróis de quadrinhos, que com seus poderes e magias me transportam ao Infinito...
A vida pode estar "primitiva" ultimamente, como uma tribo perdida no meio do nada. Prometo, no entanto, passar por ela como um Dr. Livingstone entre os nativos: lidando com a realidade à minha volta, mas mantendo minha dignidade britânica intacta, acima de tudo.

Nota: David Livingstone (Blantyre, Escócia, 19 de março de 1813 — Zâmbia, 1 de maio de 1873) foi um missionário escocês e explorador europeu da África, cujo desbravamento do interior do continente contribuiu para a colonização da África; passou anos explorando o continente, foi dado até como desaparecido em uma de suas expedições e localizado por um jornalista dos EUA. Fonte: Wikpédia. A dignidade britânica do Dr. Livingstone era, portanto, escocesa, ora bolas!