sexta-feira, 27 de agosto de 2010

Matambre recheado


Minha avó sempre me contava histórias de seus dias gloriósos. Explico: a história de minha família divide-se na época dourada em que meus avós casaram (1940) e os seis filhos, um após o outro, foram chegando, e nos dias negros que se seguiram à precoce morte de meu avô em 1953, por um câncer de faringe. Minha avó ficou só para cuidar de seis filhos. Ou melhor, sete. Meu tio mais novo estava por nascer quando meu avô se foi. Dos dias negros vi e vivi sua herança: pobreza, máguas, limitações, que se disseminaram entre os irmãos... Mas não quero falar disso; quero falar da época dourada, e de uma das histórias que minha avó me contava: o matambre recheado... Era um tipo de carne preparada nos domingos ensolarados entre 1940 e a década de 50, antes de meu avô adoecer, para os almoços especiais reunindo toda a família. Ela me dizia:
- "Meu filho, eu fazia esse prato, que era muito especial; amassava-se o matambre com um rolo, preparava-se o recheio com ovos e iguarias, depois eu enrolava o matambre e amarrava com um cordão, em toda volta... Ia ao forno por algumas horas. Ao tirar-se do forno, estava unido, recheado, uma benção..."
Essas histórias, logicamente, me incitavam a pedir que minha avó preparasse o prato para mim, para que eu também pudesse prová-lo, ao que ela me respondia:
- "Não, filho, agora não tem mais como: era preciso uma mesa grande para amassar o matambre, e não temos; era preciso um grande rolo, e não temos... E o próprio matambre está "caríssimo..."
Isso não quer dizer que ela não me preparasse bons pratos, mesmo que humildes. O matambre recheado mesmo, fui conhecer quando passei a trabalhar e comer em restaurantes, aos 19 anos... Nos últimos dias, inclusive, comi um matambre bem feito, de tamanho pequeno, recheado com toucinho e presunto... E leibrei-me de minha avó, claro. Ela faleceu em 1995, e quando falava de coisas boas, todas eram referentes àqueles "dias gloriosos". Tive um insight, ou como lá se chame, um clarão mental sobre algo... O problema não era a condição econômica, a falta da mesa, do rolo... O tempo e as fatalidades quebraram a fé de minha avó no que ela sabia fazer, podia fazer... As coisas boas ficaram entre 1940 e 1953 como que aprisionadas num conto de fadas com final infeliz, não podendo serem mais realizadas, só evocadas... Isso me fez pensar: quais minhas linhas divisórias? Estaria eu também preso em algum conto de fadas à minha moda, talvez o de um futuro dourado e libertador? Quem sabe... Está decidido. Tenho que preparar também, urgentemente, no meu tempo presente, meus próprios "matambres recheados"...

Nota posterior: minha tia, ao ler a crônica, envia-me a seguinte declaração: "acresento que para o matambre era necessário uma prensa, que tínhamos em casa"; puxa, naquela época as coisas eram difíceis mesmo... Claro, nos anos 80 já vendia-se matambres prontos para rechear, o que não invalida minha percepção das "linhas divisórias"... (atualizado em 02 de setembro)

Pressão


Às vezes,
(Quase sempre...)
Minha vida me parece
Uma panela-de-pressão.
Euforia,
Depressão...
Acordar correndo
Insano compasso...
O tempo é o carrasco!
E devo perdê-lo
Em um lento transporte
Para chegar ao trabalho
Perder mais tempo,
Então
E ganhar o pão.
Quarenta e quatro horas
Semanais
Ou mais...
Nada demais
Nada nunca é demais
Para eles...
Rotina são as cobranças
Metas, agilidade... mudança!
A mudança é a palavra de ordem...
(Deixe o confronto
E saia da "zona de conforto";
É uma ordem!)
Restam-me, de mim mesmo
Poucos traços
Dos descaminhos que traço
De quem eu era
Há tantas eras...
Os momentos de descanço
Dos quais me decalcam
Tantas responsabilidades
Penso, não sei se isso
É um movimento acelerado
Ou uma infinita sucessão
De quadros estagnados...
Esquenta a água, aumenta
O vapor
Nunca mais fui eu mesmo
Sugado, a esmo
Na contra-mão dos meus
Sonhos
Letárgico, irado ou dormente
Dissolve-se assim,
Minha essência, lentamente,
Na água fervente...
Ler, escrever, imaginar...
Criar?
Nem pensar!
Não há mais espaço
Para o pensamento
Neste momento...
Mergulhado na fumaça incandescente,
Sou um refém do meu bolso
E da minha mente.
Até os discípulos de
Freud
E suas panacéias
(Hoje eu sei)
Não passavam de paliativos
Subterfúgios
Talvez um refúgio
Às "desordenadas idéias".
Questiono sempre os motivos
Que tenho
Para seguir nesse circuito
Louco
Dar tempo
A esse Tempo
Que só me dispensa migalhas...
Agora, sob o apito da panela
A soprar
Sinto-me espalhado, disperso,
Esmagado...
Não. Basta de pressão.
Devo buscar transformação
Ou seja o que for
Para potencializar a fórmula
Com que lido com a dor
E a avareza de minha sorte...
A saída não é a morte.
Talvez paciência,
Foco, auto-controle
E, por fim
Subversão!
Escaldar a face do Sistema
Estourando-lhe a tampa
De sua panela-de-pressão.

Yang e Yin


Seria
Um Vaso Ming
Ou um Dragão
Talhado no mais puro jade
Só para mim?
Ou o meu fim...
Tuas curvas cruéis
A me seduzirem
E machucarem
(Ontem, nos sentidos
Hoje, em memória sentida)
Os teus afiados ângulos
Cortes
A rasgarem-me as ilusões
Quando te acariciava...
Eras como um veneno
Enganosamente doce
Do longínquo Oriente
(Desoriente...)
A alternar o sabor da
Descoberta
Com a dor e o desespero
Do teu anunciado
Desterro.
Desejo, deserto... desperto?
Nunca saber quando não me querias
Por perto
Ou então, colado em ti, incrustrado
Como um rubi...!
Não quis entender as pistas
Escritas em ideogramas
Presentes em todos os cantos,
Talvez, por meu mau mandarim,
Até te ver longe de mim,
Do outro lado do Mundo.
Mudo...
E fica-me a questão:
Será que toda a paixão
Deve ser assim?
Prazer, dor, solidão
Todos, por sua vez
Mesclados
Num emblemático
Amor chinês?
Sentimentos
Contraditórios e complementares,
Assim,
Como o Yang e o Yin.

PS: os amores fracassados, dolirida e ruidosamente fracassados, rendem os melhores poemas...

sábado, 14 de agosto de 2010

Não há ordem no caos


Depressão criativa?
Flores brotando de montes de esterco?
Almas nobres em vidas sem amor?
Paixão sem objeto?

Nada brotará do solo estéril,
A não ser ervas daninhas...
Eu quis fazer música, mas
Todas as cordas do violão
Estavam partidas...
Eu quis pintar, mas minhas mãos
Se desgovernaram
As tintas estão espalhadas pelo
Chão...
Eu quis cantar, mas minha voz
Só produziu um triste
Lamento
E os meus olhos não puderam conter
Aquela lágrima fugidia...

Não há luz em minhas palavras
Meus verbos são todos sofrer
Talvez um dia, um crítico estrábico
Encontre beleza nisso, que chamo de
Poesia
A novíssima "roupa nova do rei"


Dos "Manuscritos Perdidos do Menino Triste", escrito aos meus 23 anos em dezembro de 1995.

A bússola


Para onde estou indo?
De onde venho?
Há um Norte
Em minha bússola
corroída?
Sou um náufrago nessa sobrevida
Sub-vida...
À deriva em um Mar
De atrocidades...
Não achei talentos,
Nem verdades
Em suas águas turvas;
Talvez madeiras podres, das quais fiz
Minha inútil jangada
Para chegar a uma ilha deserta,
Abandonada.
Nem tanto, pois eu lá
Habito
Com meus milhares de demônios
E, diante da bússola quebrada
Buscamos juntos um Norte
Para o nada...

Dez


Desânimo
Desalento
Descaminhos
Deserto
Desespero
Desordem
Descompasso
Desterro
Desistência
Descanso
(em paz?)

quarta-feira, 11 de agosto de 2010

Luzes, câmera... ação!


A vida é como um filme
Cheio de glamour,
Aventura
E empolgação...

E se não?

Queria saber
O que tu irias fazer
Preso numa produção
"Classe B"
Com atores e atrizes
De segunda!
Em seguida,
Descobririas
Seres, ao mesmo tempo,
Diretor, protagonista
E produtor
Do longa da tua vida!
E a câmera, emperrada
Condicionada
A refilmar as mesmas cenas
Triviais.
As luzes? Opacas, esmaescentes...
A ação? Em slow motion... Sem emoção.
Só resta uma coisa a fazeres
Gritar "corta"!
Espirrar sangue
Nessa tragicomédia
E transformá-la num "filme trash"
E continuar filmando, filmando,
Enquanto ainda houver sangue
Nas tuas veias
Cortadas...

Possibilidades?


À minha volta palpita
Um universo de possibilidades
Pluralidades, singularidades...
Mas, lamento,
Falta-me o tempo
Para sorvê-las
Pois venho a ter com elas
A luz de velas
Com o que restou do meu
Ser
Massacrado
Por mais um dia condenado
À serviço do Mercado
(A alma, barata, a preço de atacado!)
Diante de mim se acumula
O lume do conhecimento
Para o qual, meu único
Momento
É em meu quarto pequeno
No pequeno quarto de hora
Antes do sono exausto
E de pouca demora...
Acima de mim as estrelas
Brilham
Mas meus olhos cansados
Se fecham, indiferentes,
Com enfado...
Eu tinha tantos caminhos
E, deles, todos
Me perdi
Agora, quedo-me aqui
A repetir os mesmos erros
Andando em círculos,
A branquear os cabelos
Pois nada mais tem importância
Não há o que decidir
Se o verbo é desistir!
Todos os caminhos levam, agora,
Ao meu ponto de estagnação
Onde, num eterno retorno
Encontro, a mim mesmo,
Nessa insólita prisão.

(Os castelos da mente
Tem prisões mais fortes
Do que as mais fortes prisões
Dos castelos das gentes)

Poema do Silêncio


Para uns, sossêgo
Para mim, desterro...
Para outros, alívio
Para mim, mordaça
Mortalha...
Tal é esse silêncio
Me imposto
Que faz a palavra morrer
De inanição
Que mata o sorriso, ainda
Na intenção
Com suas curetas
Velhas
E enferrujadas
A abortar as idéias
E os ideais
Que, ainda embriões,
Expiram em ais...
Cala ele não só
Minha voz
Mas até vós!
Cala o imaginar
Vivendo temporariamente
Esse vácuo impronunciado
Mesquinho...
Condenado à morte
Pelas risadas não dadas
Pelas conversas não tidas
Por uma adiada saída...
(E, a isso, chamam de vida?)
O estar nesse convento neurótico
Onde a clausura do diálogo
Tem seu toque solene,
Sádico... e gótico...

E o resto é silêncio
Como sempre.
Cadeado
Que cumpre fielmente
O trancafiar
Dia após dia,
De tudo o que em mim
Havia
De bom, brilhante e são
("Viver é a arte da representação")
Meus sonhos e fantasias
Hoje, não mais que solidão,
Ilusões e poesias...

Vamos!
Aperte o garrote, carrasco!
No pescoço, veias estouram, estrias brotam
Eis aqui minha sentença,
A me tornar larva fria:
A não-palavra
Mata por asfixia...

domingo, 8 de agosto de 2010

Conjugando o verbo ser


Ontem, as coisas eram
Hoje, as coisas são,
O que são.
Serão?
Triste sentir,
Sem conter...
Não há conjugação, que possa,
Exprimir
O patético porvir
Do meu
Ser

(Será só imaginação?)