sexta-feira, 16 de julho de 2010

Os não-diagnosticados - Paulo Sant'Ana


Acho que foi o Barão de Itararé que escreveu que o hospício é o quartel-general dos loucos.

Isto é uma verdade, os loucos sem diagnóstico andam soltos por aí.

Há pessoas que convivem diariamente, em casa, no trabalho e nas ruas, com os loucos.

Mas nunca ninguém parou para pegar esses loucos de todo gênero e levá-los a um terapeuta para obter um diagnóstico.

Agora, você imagina o que é conviver com loucos durante 10, 15, 20 anos?

Eu sei porque participo do programa Sala de Redação há 38 anos e o que já passou de louco por aquele programa não está no gibi.

Fora os que ainda lá permanecem.

O problema é o louco sem diagnóstico. Ele segue pela vida fazendo estragos porque acha que não é louco, pensa que é certo, normal.

Começa que ninguém é normal: 90% das pessoas têm no mínimo neuroses.

E 90% das pessoas não sabem, nunca souberam nem nunca vão saber que têm distúrbios emocionais ou mentais.

Foi por isso, para não me igualar aos desregulados que não têm diagnóstico, que fui buscar um diagnóstico.

E tive a coragem aqui numa coluna de declarar que eu era bipolar.

Bipolar é o cara que alterna a depressão com a euforia. Uma hora ele está para baixo, outra hora para cima.

E o certo, nesta questão do humor, é estar exatamente no meio da linha vertical que tem a depressão num extremo e a euforia no outro.

O deprimido todo mundo conhece. O cara está arrasado, nada há que o anime ou alegre.

Já o eufórico é o cara que tem superativadas as suas emoções. Ele é um emocional exagerado.

E vive de arroubos e explosões de alegria, comete nos gestos e nas palavras muitos exageros que se tornam de alguma forma agressivos para os seus circunstantes.

Em contraposição, também se extrema a criatividade no eufórico. Ele se torna mais imaginativo e inteligente.

Só que o eufórico passa do limite e se torna socialmente inconveniente.

O ideal é o humor estar controlado, nem tão para baixo que beire a depressão – ou afunde nela – nem tão para cima que beire a expansividade – ou mergulhe nela.

Eu tomo remédio para a bipolaridade. De que adianta, se as pessoas com quem convivo não tomam remédio para seus distúrbios?

Ou seja, remédio para mim eu tomo, já estou diagnosticado. Mas como é que vou obter remédios para o enfrentamento, a fricção entre mim e os que não são diagnosticados?

Lá no Sala de Redação* é assim, naquele serpentário só eu sou controlado por remédio. Existem vários outros que nunca foram monitorados por qualquer psicanalista ou psicólogo.

E eu, contido, fico assoberbado e cercado por vários ângulos pelos não diagnosticados.

Em qualquer família ou círculo social restrito, todos têm de obter diagnóstico.

Caso contrário, corre-se o risco de o diagnosticado ficar pior do que os outros.

Jornal "Zero Hora", Porto Alegre, 18 de maio de 2009 (pág. 35)

* Sala de Redação: programa sobre futebol e outros temas, em formato de debate, há mais de 30 anos no ar na Rádio Gaúcha; nele o jornalista Paulo Sant'Ana contracena com outras grandes figuras do jornalismo e rádio gaúchos: Rui Carlos Ostermann, Lauro Quadros, Kenny Braga... A referência do Sant'Ana ao "serpentário" deve ser levada no sentido humorístico, pois convive e é querido (e aturado) por esses colegas há décadas...

quinta-feira, 15 de julho de 2010

Gótico


Estou determinado
A ficar vivo
Por teimosia, por sorte...
Só assim, teimando em ser
Diferente
Terei voz para louvar
A Morte.

sábado, 10 de julho de 2010

Transformar-se...


Eras força,
Risos,
Confiança...
Agora, na derradeira
Hora
Da "Dança Macabra"
Te tornas menos que um nada
Morto...
Corpo posto
Na madeira
Madeira posta
Na terra
Terra posta
Na crosta
Das rochas
Decomposta...
E, ao final disso tudo,
Tu que te achavas tanto
De ti, resultou apenas
Húmus...
Humanos,
Se um dia o fomos
Achando que podiamos tudo
Encerramos o espetáculo
Como adubo...

segunda-feira, 5 de julho de 2010

Crucificado


Uma vez em erro
Para todo o sempre
Crucificado
Aqui estou,
Meu Cristo
Sangue e agonia
Ao teu lado...
Pai, como é pesado
Este fardo!
Perdão, Senhor, mas
Às vezes duvido
Razão escaldada
Coração doído...
Diz-me:
"Pega a tua cruz
E segue-me"
Como, Senhor
Se não posso soltar-me
Desses cravos?
Se não posso morrer
Tua morte Gloriosa,
Sacríficio que nos salvou?
Apenas me restou,
Esperar que o sangue escoe
E nada nais reste
E que os abutres devorem
Minha carne
E dispam-me
De minhas vestes...

quinta-feira, 1 de julho de 2010

Submergir


Submergir
Na dor
Mergulhar
Na solidão
Deixar-se afundar, lentamente,
No isolamento
(Oceano de lamentos...)
Uma vida inteira?
Um instante?
Tanto hoje
Quanto antes
Não faz a mínima
Diferença...
Descrença...
Sigo, ciclicamente,
(Vez por outra)
Emergindo
Qual um Costeau
Sem propósitos
Para encher os pulmões
De ar
E, ritualisticamente,
Voltar a habitar
As fossas abissais
Do óbvio...