segunda-feira, 28 de junho de 2010

Poema Anti-psicótico


A mente
Inda que aos turbilhões
E tempestades
Navega
Perseguida pelas frotas inimigas...
Antes psicótico
Que robótico
Antes o tormento
Que a morte do pensamento...

Paisagem da Janela


Da janela lateral
Do quarto de dormir
Vejo uma igreja, um sinal de glória
Vejo um muro branco e um vôo pássaro
Vejo uma grade, um velho sinal
Mensageiro natural
De coisas naturais
Quando eu falava dessas cores mórbidas
Quando eu falava desses homens sórdidos
Quando eu falava desse temporal
Você não escutou

Você não quer acreditar
Mas isso é tão normal
Você não quer acreditar
E eu apenas era
Cavaleiro marginal
Lavado em ribeirão
Cavaleiro negro que viveu mistérios
Cavaleiro e senhor de casa e árvore
Sem querer descanso nem dominical

Cavaleiro marginal
Banhado em ribeirão
Conheci as torres e os cemitérios
Conheci os homens e os seus velórios
Quando olhava na janela lateral
Do quarto de dormir

Você não quer acreditar
Mas isso é tão normal
Você não quer acreditar
Mas isso é tão normal
Um cavaleiro marginal
Banhado em ribeirão
Você não quer acreditar
Que eu às vezes era...


Música consagrada na interpretação de Flávio Venturini - Composição: Lô Borges e Fernando Brant

Lírios e Vestes Brancas


Trajando vestes brancas
Desnudei-me, diante de ti
Meu eu
E minhas humildes
Esperanças...
E os lírios, com cuidado,
Empunhados
Foram - vejam só! -
Pisoteados...
As vestes, outrora brancas,
Dilaceradas
Em farrapos se fizeram...
(Situa-te, poeta!
Nessa época hi-tech
Os sentimentos, já eram...).
Pois há amores que se perdem
Sem nunca terem se achado...
Não, não deve haver
Almas gêmeas
Mas almas, apenas.
Visões tão distintas
Que é possível pintar
Tantos quadros diferentes
Com a mesma tinta...
Não minta!
Se a ti pareceu
Meu entusiasmo,
Imposição
Minha vontade,
Delírio ou ânsia e
Minha luz
Breu
Então, algo se perdeu?...
Entre o coração, que a ti
Ofereci
E o punho metálico
Que o espremeu.
Sangro,
Sangra o meu amor...
Para um dia, quem sabe
Se recompor
Cicatrizado?
Como uma ferida, ou tumor
Em coágulos...
Pois assim é a vida
Eu trajei vestes brancas
E colhi lírios
Vesti a ilusão, apaixonado
E caí, ingênuo:
Prostrei-me de joelhos
Mutilado...
Ó amor, infernal tormento
Mesmo ajoelhado,
Sangrante e estilhaçado
Louvo esse caprichoso,
Cruel,
E sublime
Sentimento

(Sejas tu Eterno
Ou, efêmero.
Questão de momento...)

sábado, 26 de junho de 2010

Poema da quase madrugada


O sono insiste
E eu insisto mais ainda
Em ficar acordado
Ouvindo o silêncio
(Raro silêncio...)
A Vida é irônica
Mas não tanto, quanto
A Morte...
Pois, se o silêncio agora
É sorte
Com ela será sobra
A obra
De toda a eternidade...

segunda-feira, 21 de junho de 2010

Antipsicótico


Introduzimos em seu crânio
O instrumento óptico
E também, a custa de muita dor
Nas partes corretas do cérebro
Os fios do amplificador

Que não saia dessas quatro paredes
E não, em hipótese algulma!
Passe daquelas portas
A estarrecedora constatação:
Era tudo verdade...
O louco era, em verdade, são...

Pois agora, todos nós, "doutores",
Vemos (de fato!) as criaturas medonhas
A rasgarem-lhe a alma
Monstros escuros...
E ouvimos, me pergunto, loucos?
Urros...
As vozes que clamam, raivosas,
Pela Morte, pelos espinhos e pelas rosas...

Não. Encerremos o experimento de todo.
Monstros e vozes são alucinações
Produto de projeções, fixações
Ciladas e ilusões
Da mente...
Freud não mente.

Enfermeiro, tome o demente:
Aplique-lhe altas doses
Do anti-psicótico
Até que o seu olhar
Pareça sequer notar
O que lhe chega ao nervo ótico...

Pois assim caminha a ciência
E a psiquiatria, de modo geral
Cada paciente é tal como um rato
E, neste vasto laboratório de experimentações
(Tantas doses, tantas combinações)
Não passaremos, afinal,
De uma consciência vegetal...

domingo, 20 de junho de 2010

Albert Speer fala com as flores - Luís Fernando Veríssimo


"Nosso plano era que a Europa fosse um jardim organizado. Livre da erva daninha do bolchevismo"

(Da série "Diálogos Impossíveis"). Albert Speer foi o arquiteto de Hitler e o ministro de armamentos do Terceiro Reich durante a II Guerra Mundial. Foi ele o responsável pela deportação de milhões de pessoas para trabalho escravo na máquina de guerra nazista. Julgado em Nuremberg, foi condenado a 20 anos de prisão. Entrou na prisão de Spandau, em Berlim, com 42 anos e saiu com 61. A prisão era administrada, em rodízio, por militares americanos, ingleses, franceses e russos, e especula-se que sua sentença só não foi encurtada porque os russos não queriam perder a única presença que mantinham em Berlim Ocidental, na guarda compartilhada de Speer.

Durante seu internamento, Speer leu, escreveu e cuidou do jardim da prisão, dedicando cada vez mais tempo e atenção às flores e à limpeza dos seus canteiros. Num diário, escreveu: "Anos atrás precisei organizar a minha sobrevivência aqui dentro. Isto não é mais necessário. O jardim se apossou completamente da minha vida".

Speer foi libertado em setembro de 1966. Pode-se imaginar que no seu último dia de internamento tenha passeado pelo jardim da prisão, dando os últimos retoques nos canteiros que abandonaria no dia seguinte. Talvez tenha até pensado em ficar, ou em pedir licença às autoridades para voltar lá regularmente e continuar seus cuidados. Os americanos dariam boas risadas do seu pedido. Os franceses o achariam poético. Os ingleses o ignorariam. Os russos o negariam.

Speer talvez tenha falado com as flores naquele seu último passeio.

— Adeus, minhas queridas.

— Adeus, doutor.

Não o surpreenderia, ouvir as flores falando. Elas o tinham ajudado a não enlouquecer em Spandau. Era justo que reivindicassem um pouco de loucura, no final, para poderem se despedir do seu benfeitor. Só um pouco.

— Vou sentir saudades de vocês.

— E nós do senhor.

— Fui um bom jardineiro, não fui?

— Um ótimo jardineiro.

— Aproveitei minha experiência como organizador. Este sempre foi o meu forte.

— Deu para notar. Este é, sem duvida, o jardim mais bem organizado da Europa.

— Arranquei a erva daninha. Adubei quando era necessário. Podei na hora certa. E tudo de acordo com um plano. Com uma visão do que um jardim deveria ser. Uma visão superior.

— As plantas precisam de alguém com uma visão superior para lhes revelar seu destino. E o resultado aí está. Vocês. O meu orgulho.

— Nós também nos orgulhamos do que o senhor fez.

— Eu sou um homem bom, não sou?

— Um homem maravilhoso.

— Mas, doutor, só nos explique uma coisa. Por que um homem maravilhoso como o senhor ficou 20 anos na prisão?

— Foi um mal-entendido.

— Como assim?

— Nós tínhamos um plano. Um pouco como o meu plano para este jardim. Era isso: nosso plano era que a Europa fosse um jardim como este. Um jardim organizado. Livre da erva daninha do bolchevismo. Adubado com o sangue honrado dos seus mártires e o esterco dos seus inimigos naturais. Podado das raças desnecessárias que ofuscavam sua beleza e atrasavam sua glória. O nosso era um projeto estético. Não foi entendido.

— O senhor era um jardineiro e foi confundido com um monstro.

— Exato. Preferiram dar mais importância à dor passageira de alguns milhões de pessoas do que à estética. Como se arrancar erva daninha fosse um crime! Vocês, não. Vocês se submeteram à minha visão superior, à minha tesoura e à minha espátula, sem dar um "ai".

— Sabíamos que era pela nossa maior glória.

— Vocês me entenderam! Um jardim sem uma visão superior não é um jardim, é uma floresta. É o caos. Eu os salvei da desordem. Infelizmente, não pude fazer o mesmo com o resto da Europa.

— E agora, doutor? O que será de nós?

— Não sei. Eu me preocuparia se aparecerem russos com ancinhos. Os russos não têm nenhum senso estético.

— Adeus, doutor.
— Adeus.


http://www.clicrbs.com.br/especial/rs/donna/19,206,2942309,Verissimo-Albert-Speer-fala-com-as-flores.html (ZH de 20.06.2010)

quarta-feira, 16 de junho de 2010

Absyntho


Vou lhes contar como me sinto
Vendo passado e futuro
No fundo do bálsamo verde
Absyntho...
Lamento, mas é indispensável
O entorpecimento
Diante de tantas frustrações
Desalentos,
Indiferença e brutalidade.
Se eu quenho que ser a máquina
A cumprir sua função
Na sociedade
Se o meu sentir é questionável
Ou proibido
Se a minha identidade, no momento
Só incomoda
O "equilíbrio" do Sistema
(Não, não tenhas pena!
De certa forma tambám sou culpado)
Deixe-me viver, então,
No piloto automático
Ajustando as engrenagens
Desde "Admirável Mundo Novo"
E voltar para casa
De novo
Com graxa nas mãos
(à guisa de meu de sangue...
Meu sangue!)
Um pouco mais diminuído do que saí
Na manhã anterior
Pois, aqui,
Não se morre de uma vez,
Amigos...
A Morte corrói qual ácido,
Por anos a fio
As almas de quem se rouba a esperança...
Não quero mais nada
Não me restou sequer
A vontade de querer.
Preciso só me entorpecer
Com o líquido verde e,
Após minhas noites de pesadelos
Estar pronto para a próxima jornada
De uma rotina plena
De nada...

terça-feira, 15 de junho de 2010

Cão raivoso


Luto com minha loucura
Como quem atiçasse
Um cão raivoso
Contra seu próprio dono
(Pasmem, sou eu esse dono!)
Por completo Ela a mim
Se mostra
Nua e crua...
(Seus caninos agudos
Escorrendo a fúria incontida)
A cada avanço,
A cada mordida,
Que põe meus ossos a mostra,
Mais minha vontade se prostra...
Ó Lua, mãe de todos os lunáticos
Santa de todos os loucos erráticos!
Se ao menos esse cão,
Essa loucura
A vida de vez me tomasse,
Invés de lentamente torturasse...
Tirando da carne, cada vez,
Um quinhão
Matando-me, lentamente,
À prestação
Um bocado a cada surto...
Sem qualquer outra opção
De vez
Eu surto, então.
Demente, sozinho,
Já não tenho bússola, nem norte,
Nem sorte, nem razão...
Segue andarilho,
Louco maldito e maltrapilho
Sem direção...
Pois, para quem se perdeu
O caminho agora
É qualquer chão.

Ícaro e o Sol


Meu sonho de cera
Era meu tudo
Absoluto...
Então, lancei-me
Mudo
Rumo ao céu
A respiração presa
E, por um instante,
Um ínfimo instante
Planei!
Cheguei perto demais
Do Sol, porém
Que derreteu minhas asas
E viu-me cair das alturas
Com seu ar majestoso
E zombeteiro...
Indiferente... Estou diferente.
Sangue... Ossos partidos,
Dor...
Morte?
Não, pois o irônico Zeus
Quer que para sempre me lembre
E aos mortais dê testemunho
Que o céu pertence aos Deuses
Unicamente a eles...
E, da matéria que se constroem
Os sonhos
Do seu avesso,
São feitos também os pesadelos...

(Faça um sinal,
Cante uma canção
Sentimental
Em qualquer tom...)*

* Trecho da Música "Sonho de Ícaro", do cantor e compositor Biafra

domingo, 13 de junho de 2010

Insone


Coisa rara de acontecer
A quem vive a recorrer
A remédios...
E cujo remédio
Às agruras da vida
É, tão somente
O curto sono...
Sim, eu curto o sono!
Já que a vigília é tão frustrante...
Mas hoje estou... insone?
O que fazer
Além de combater
Os demônios que me cercam
Desperto?
Ah, nem o consolo da noite!
Espera...
Olha... que o sono já vem!
Bom sinal
Por umas horas, mal-sonhadas,
Deixa estar
Posso esquecer de toda essa rotina
Que só me resta aguentar.

quinta-feira, 10 de junho de 2010

Trégua


Estou de fato, cansado...
Sei que ela
Minha loucura
De mim não abrirá mão.
Resta somente, então
Um acordo
Não lutar contra a camisa
De força
Pois não há força
Que me liberte...
Vamos viver o resto da vida,
Então
Apesar dos surtos
Como se tudo fizesse sentido
E houvesse
Razão.

Olhos de Tigre


A vida é qual uma luta
De boxe
Na qual bato sem parar
Desde sempre
E apanho de punhos indistintos
Murros...
Tão nocauteantes
Que nem sei de onde vem
A não ser
Aqueles de onde menos se espera...
Levanto. Sigo batendo.
Já nem sinto as mãos doendo
Os músculos expostos, sangrantes
Nacarados pelo branco dos ossos
À mostra, brilhantes...
A vida é uma disputa
Extenuante
Na qual sinto estar perdendo
Perdendo
A própria vontade
Da vida...
Então, deixe-me ver as luzes
Da torcida
A delirar, entorpecida
Pelo próprio ópio
Enquanto aguardo o último golpe
Que irá me levar à lona
Da escuridão
Redenção...
(Meus olhos de tigre
finalmente irão descansar...)
Eles não me valeram muito, pois lutei
Num mundo sem regras
Um ringue coberto de trevas...
O final?
Fui um campeão da persistência,
Simples de coração
Mas a Morte... Ah, a Morte,
Ao final da luta
Ganhou o cinturão.

domingo, 6 de junho de 2010

Versos Ínfimos


(Ninguém assistiu
Ao fantástico
Enterro
De tua última Quimera)
Pois os enterros, poeta
Foram tantos
Que cansaram até as carpideiras...
Tu, que fizeste da dor
Tua bandeira
Agora olhas, desolado e só,
Essa pilha de caveiras...
Não podias, pergunto
Ter olhado
Um outro lado?
Apesar da realidade
Fria
Não haveria
Nada belo a cantar?
Ao invés de música
Escolheste o esgar.
Pois bem, eis
O que tens:
O excesso de Morte,
Poeta
Que tentavas tornar bela
Matou a própria poesia
Matou o esteta...

quinta-feira, 3 de junho de 2010

Palavrismos - Anéis, dedos, esperas


Vão-se os anéis, ficam os dedos;
Quem espera, sempre alcança...
Então, suponho que,
Se perdi o que possuía
Mesmo pobre
E insano,
Cultivando a esperança,
De alcançar o que não tinha
Esperando, crendo...
Alcançarei, por força
Inda que um dia!
Ah, mas é preciso bem mais
Que filosofia, fé,
Ou meu simples prometer
Para romper os grilhões
Deste destino impassível,
Desta sorte inamovível
Chegando, destarte, ao que se queria.
E onde, pergunto-me
É o chegar?
Talvez um recuperar
De alegrias e esperanças
Quase esquecidas...
Um brilho da criança,
Brinquedos luminosos
Perdidos na estrada...
Não, tarde demais.
O ideal aos meus pés jazia...
Estão todos mortos,
Pelas noites
Longas e frias
De espera demasiada
Nessa vida fora
Dos trilhos...
Vão-se os anéis
Ficam os dedos...
Ficam?
Poucos preciso
Já que nada, ao fim,
Se alcança
Para tomar a arma
E puxar o gatilho...
E, terminada a espera
Alcançar
Mesmo sem esperança
A eternidade
Das eras...

Bomba H


A cidade quieta
Deserta
Nada mais que o lamento
Do vento
Num dia de céu azul
E claro...
É claro,
Nenhum sobrevivente...
Nenhum?
O misantropo caído
Levanta, são...
E só!
Olha ao redor
E, pela primeira vez,
Sorri...

Beagle


Darwin viajou muito
Darwin viveu
E morreu
Doente.
Darwin voltou de viagem
Repleto de novidades...
Perdoem, amigos
A mesmice
E a mediocridade...
Só trago a doença
Que não é nada de novo...
Não sei se aguento
Até o final da viagem.