sábado, 29 de maio de 2010

Filho do Átomo


Fiz meu acidente nuclear
Do urânio enriquecido
Matando milhares
No meu Chernobyl
Esquecido...
Lembras como era promissor
O futuro do átomo?
Num átimo,
Não tínhamos mais futuro...
Nem o Muro
De Berlim
Para derrubar.
Quem sabe já não faz a hora,
Eis o "fim da História":
Tomar para si, eternamente,
O jugo e a servidão do capital
E se contentar,
Numa China Imperial
E escravista,
Em ser mais um
Na multidão,
Igual...
Calma.
Não sejamos, na pressa,
Distraídos
Lembra, restam ainda os mísseis
Perdidos
Da extinta União Soviética...
(Dane-se a ética!)
Quem sabe, numa manhã
Eu acorde, qual talibã
E me lance, em fúria crescente
No coração do Ocidente
Pregando, qual um Messias
Radioativo
As verdades de meu Evangelho
Vivo
E descrente...

sexta-feira, 28 de maio de 2010

Exposto - um poema misantrópico

Sigo constantemente
Exposto
A esse vírus maldito
Chamado homem...
Vês? As chagas me consomem.
Pela fome, e o compromisso,
Não tenho como furtar-me
A tudo isso...
Aguardo, doente e enojado
A chegada da Dama
De Negro...
A resgatar-me
A me apartar, por definitivo
Dessa corja vil e falsa...
Eu, que não pude ser nada
Ao menos ficarei distante
Sete palmos abaixo
Ainda que, podre e desfeito,
Menos decrepto que os da superfície
Redimido de meu humano defeito!

quinta-feira, 20 de maio de 2010

Contracanção

Se uma canção tem que ter
Amor, sorrisos, bem viver
Me desculpem, então!
Trago comigo uma contracanção...
Aqui, debaixo desta surrada
Capa de chuva...
Sim, foi composta em dias
Tristes
De dor, lágrimas e solidão
(O maior isolamento é o da incompreensão...)
Não tem bela melodia,
Mas o ardor
De um toque de marcha
Fúnebre
(Lúgubre)
Como máquina a vapor,
A rumar, célere, para o Inferno...
Tem o frio de incontáveis invernos
E os versos, sem esperança
Do choro de todas as crianças
Da Roda dos Enjeitados!

(Não sei se um réquiem... ou um fado...)

É fato: nem toda a existência
A alegria perpassa...
Toma, então, minha contracanção
Quem sabe, teu coração,
Vê o belo em minha desgraça?

Plantando Paulo Freire

Se a ignorância é tal como
Uma prisão
Somente a educação
Liberta...
Liberta não a "liberdade"
Da linha de montagem
Ou da jornada de trabalho
Estúpido e diário...
Liberta as letras,
Inertes em nossas mentes
Dá asas ao homem
Com que voar em seus
Sonhos
De mudança e rebeldias...
Ensina-lhe não só a somar, friamente,
Mas a dividir
E ter ciência não para controlar
Mas para coexistir...
Vamos plantar
Vamos plantar Paulo Freire...
Plantar a Revolução
Em nosso coração.

No leito do leproso

Passei a noite
No leito do leproso.
Ele lá não mais estava...
Ou se curara,
Ou se partira,
Em mil pedaços
Podres...
Tantos quantos os de minh'alma...
Passei a noite num anseio
Horroroso
Temendo contrair a peste
Por outro lado, a desafiando a um
Teste
Pois supunha tão mais forte
Minha dor
Que a lepra lhe teria tal 
Temor
Que não conseguiria secar-me, sequer,
Um dedo...
Passei a noite prescrutando
O medo...
Embora tranquilo e vitorioso, já
Por saber, de fato e de cor,
Ser presa de um medo
Indizivelmente maior.

Alice no País dos Espelhos

Alice seguiu o coelho
Caiu na toca
Após um mergulho
No escuro
(Há na mente tanto entulho...)
Chegou a um reino
Demente
Tomou chá com o Chapeleiro
Louco
- Dois torrões de insanidade, por favor.
Ou mais um pouco...
Enfrentou uma Rainha de Copas
Decadente
(O poder corrompe absolutamente)
Foi deprimente...
Pensou ela:
"Vivemos em meio a insultos,
Ao nosso bom senso. Porque,
Justo eu, penso?
Somos mais felizes e vis
Se imbecis...".
Quis virar a página,
Trocar de livro,
Cantar uma canção...
Tudo em vão.
Do outro país, quebrou os espelhos e,
Num ansiado impulso,
Deu fim ao romance
Cortando os pulsos...

domingo, 16 de maio de 2010

Dizeres...

Dislalia,
Dislexia...
Diz...
Estranha conjunção!
Coincidencia, ou não,
Tais entraves,
Que linguagem
Asfixia
Rimam com um verbo
De expressão.

terça-feira, 11 de maio de 2010

Alquimista


Do que resultará
Tua hermética fórmula
Mista
Ó medieval alquimista?
Buscas ainda transformar
Depois da chegada dos séculos
Vindouros
O vil metal
Em ouro?
(Como se vil este não fosse...)
Te proponho, quem sabe
Outra ambição
Um desafio de maior monta...
Transformar o homem
Esse mal-evoluído
Macaco mesquinho
Cuja a maldade, ao Gênesis,
Remonta
Num ser digno,
Repreendendo sua índole
Traiçoeira,
Em criatura reformada
Que a Deus
Dê conta
Dos atos seus?
Besteira...
Volta aos teus metais
Portentoso mago...
Pois, redimir a humanidade?
Delírio, desistas...
Nem que fosses
Ilusionista...

Olhos

Vou procurar o consolo
Da cabana abandonada
Na escuridão da noite
Velada
Perdido em sua névoa
E imensidão
Vou me guardar dos olhos
De inquirição
Ah, Deus me proteja!
Pois, sob a luz do sol
Não há lugar sequer
Que eu não os veja
Sempre a me prescrutar,
Com algum disfarce...
Sempre a me perseguir
Com subterfúgios
(Haverá refúgios?)
Sempre a me vigiar,
Com falsidades...
(Sua fogueira de vaidades)
Já não há disfarces.
Paradoxos... paranóias...
Sinto-me... Sei-me...
Muito doente
Mas são, o suficiente,
Para saber que tais
Malditos olhos
Tem algo de consistente...
(Quem dera fossem, apenas,
Crias de minha mente...)

Alquebrado

Só falta soar uma música
Medieva
Da Espanha mourisca
Ou um fado
Português
Pois minha vontade
Se partiu em três
E não sei quanto dela
Me resta
Ainda...

Divino Presente

Ouro, insenso e mirra
Musa da minha lira...
Quereis me explicar vós,
Por gentileza
Por que o ódio, a tristeza
E a Morte
São o único toque
Que me inspira?

Esgotos


Chovia
A calçada fedia
A dejetos humanos
Enquanto eu circulava
Entre humanos dejetos...
Eu?
O maior...
Abjeto.
Esgotado,
Verto minha forma
Nos esgotos...