sábado, 27 de março de 2010

Folhas Secas


Minhas palavras,
Tocadas de sentimento
Foram, jogadas à tua indiferença
Como folhas secas
Ao vento...
De tristeza e mágoa
Outonais fizeram-se
Quebradiças, espalhadas, desiguais...
Mas, presas dos vendavais,
Num raro momento,
Com urro e fúria vararam
Os quatro cantos do mundo
Dos mais belos jardins,
Às profundas fossas abissais,
Dançaram à melodia do vento
E, por tais distantes viagens
Voltaram, diferentes
Do que eram...
Com tamanha consciência
Trazendo consigo a crença
De que no amor, tudo compensa
Ao que sentiu, pois
Até mesmo com o alheio desprezo
Um castelo se erigiu
De seus sonhos desconexos...
E os vendavais
Por terríveis que sejam
Nos fazem voar
E do céu ver além,
Muito mais do que o simples amar...

Identidade


Quem és tu,
Afinal,
Para além do viver banal,
Das personagens que interpretas
No trabalho,
Das contas a pagar, e seus sacrifícios,
Dos "ossos do ofício"
Da resma de tempo que te sobra
De tudo isso...
Quando podes ser, tu mesmo,
Afinal...?
Podes? Ou assim finges?
Te iludes com as coisas em volta:
Os livros, poucos lidos,
Os vídeos, imagens esperando serem vistas,
Teus heróis dos gibis, que eventualmente,
Te fazem companhia
E superam por ti teus fantasmas
De agonia...
A casa cheia, que por vezes parece vazia,
Diante do vazio do teu peito...
Um mundo perfeito
No qual és alienígena...
Mas, pergunto,
Foste tu que escolheste o que queria?
E, das tuas escolhas, deixaste lugar
Para a consciência
De tua própria essência,
Tua identidade?
Não necessitas responder...
Essas pesadas correntes,
Que arrastas ao redor de tua alma
São minhas respostas...
(Lamento, não adianta contemplar as águas,
Almas não podem afundar em rios...)
E assim segues, nesse palco da vida
Desempenhando teus papeis
Pobre acorrentado Prometeu!
Mesmo que nenhum deles, seja de fato,
Teu verdadeiro Eu...
E constatatas que,
Contrariando a Natureza,
Todo o bom senso,
E a perversa lógica
És, nada mais, nada menos,
Que uma secreta falsidade ideológica...

terça-feira, 16 de março de 2010

Corporação


Besta de
Sete Cabeças
Que "redentora" te intitulas
Em troca do pão e da sombra
Nossas almas sugas...
E, de nossos corpos devolve-nos,
A sobras...
Tantas obras
O pobre homem, em vão
Realiza com devoção
E ao lar regressa,
Alquebrado
Com seu prato de feijão
Somente para dar lucro ao "Primeiro Escalão"...
Irônica que és, te declaras
Família!
Que blasfêmia!
Pois o teu amor é qual o da meretriz
Pago com preço de sangue
E, como sádico tratador,
Como cães nos atiças,
Uns contra os outros...
Sendo o teu merecedor
Aquele que melhor for...
(Saudável competição!)
Sagrado com tua medalha
Aquele que traja a mortalha
(Do corpo, da alma, ou da ética)
E repousa sobre a pilha de cadáveres
De amigos...? Não, colegas!
Pois não há aqui lugar para amizade,
Afinal, tudo é concorrência
Dama da pestilência...
Sei que não te posso pedir clemência
Nem coerência...
Mas afinal,
Corporação,
(Corpo são?)
Concedeste-me a iluminação
Se estou louco
(E é fato consumado
A me consumir...)
Ao menos tenho eu
Um traço de razão
Pois não pode haver,
Percebo, lúcido,
"mens sana,
in corpus putridus..."

It's a Sin


Dedico uma prece
A ti, que no Sagrado
Não crês
Para que voltes!
E me esclareça
Os porques
De todas as minhas construções
Hipotéticas
Desse amor profano,
Imaginado
(E impossível?)
Entre duas personas
Tão improváveis...
Que o ateu
Por ironia,
Torne críveis
Minhas religiosas fantasias...
(Românticas?)
Quebre a semântica,
A ideologia...
E faça-se, de fato,
Um hiato
Hierofania
Na realidade
Sombria...
Seja ele a minha resposta
A essas paragens vazias,
Que varam meu coração
Desolação...
Uma ilha de significados
(Ainda que, alquebrados)
Nesse oceano de cruel indagação...

(Haverá conflito
entre o Sagrado
E o Coração?)

segunda-feira, 15 de março de 2010

O Poema da Esfinge


Amo os teus enigmas
Perfeitos...
O não saber-te,
Ideal
Me enleva...
Assim, tornas-te a chave
De tudo o que tenho,
Contido,
No peito:
A sede do novo,
No deserto cotidiano...
O sentimento insano
De sentir-me completo
Com alguém tão familiar e,
Ao mesmo tempo,
Diverso...
Então, recuso-me
A descobrir-te,
A decifrar-te....
Não quero te ver desfeita,
Quimérica esfinge...
Prefiro errar as respostas
Aos teus sutis enigmas
E por ti ser devorado,
Pois não desejo, em verdade,
Possuir-te, mas, apenas por ti
Estar apaixonado...

"Decifra-me ou te devoro...
Não te decifro. Devora-me."

(O amor é como
Um presente
Brilhante,
Letal
E cortante...
Feito por um Louco
Nas mãos inocentes
De uma imaculada Criança...
O pior é constatar
Que o Louco
E a Criança
Somos nós mesmos
Ao mesmo tempo...)