quinta-feira, 25 de fevereiro de 2010

Sermão aos Pássaros - Nilson Souza


Sempre que saio a caminhar pela manhã, converso com os passarinhos. Na verdade, com um pássaro específico que se aproxima de mim na hora da ginástica. Às vezes é uma pomba-do-mato, em outras ocasiões pode ser um bem-te-vi, um joão-de-barro, um sabiá, ou mesmo uma cambaxirra, que aprendi na infância a chamar de corruíra. É uma conversa mística, confesso. Naquele lugar estive pela última vez com um amigo que já voou para outra dimensão. Então, gosto de imaginar que seu espírito vem me dar um alô nas asas de um daqueles pássaros. Bobagem, meu predominante lado cético sabe disso. Mas é a minha forma de lembrar e de reverenciar a memória de uma pessoa que foi muito especial para mim.

Os pássaros nem ligam para a minha fala, que nada mais é do que uma oração silenciosa. Eles apenas a inspiram. Acredito que também não ouviram São Francisco de Assis, embora a lenda do santo conte que o bando de aves ficou em silêncio até que ele terminasse a sua pregação. Pois o homem que falava com os animais parece ser a inspiração, também, desta Campanha da Fraternidade que acaba de ser lançada pelas igrejas cristãs do país. Os religiosos sugerem que as pessoas deem menos valor ao dinheiro, renunciem ao lucro e ao consumismo, deixem a ganância de lado. Ou seja: que todos passemos a agir, digamos, mais franciscanamente. Com todo respeito à proposta bem intencionada, pregam aos pássaros.

Ninguém vai parar para ouvir. O mundo gira em torno do dinheiro, as pessoas só querem saber de serem ricas, bonitas e famosas. Nem vou gastar o tempo dos leitores enfatizando esta verdade, que todos conhecem. Até mesmo porque, como disse Balzac com muita propriedade para o tema abordado, o tempo é o único capital das pessoas que tem como fortuna apenas a sua inteligência. Em tese, muita gente vai concordar com a ideia de frear o consumismo, semear a solidariedade e preservar o planeta. Na prática, porém, nem as próprias igrejas renunciarão aos dízimos que as permitem viver com algum conforto, algumas até com inexplicável ostentação. Acho que era por isso que São Francisco pregava a sua filosofia de privações aos animais. Os homens jamais o ouviriam.

Pois o santo que me inspira na minha fantasia afetiva de todas as manhãs e que provavelmente inspirou também a campanha anticonsumo deixou entre seus legados uma das orações mais bonitas da história do cristianismo, de onde extraio uma frase que adotaria de bom grado como slogan profissional, se não parecesse demasiado pretensioso: “Onde houver erro, que eu leve a verdade”.

É o que direi amanhã para o primeiro pássaro que encontrar.

Nilson Souza é jornalista, cronista e editor de opinião de ZH. (Jornal Zero Hora, 20/02/2010, sábado. "Segundo Caderno", pág. 05. Porto Alegre, RS)

Excelente essa crônica do Nilson Souza, que li somente depois da do Flávio Tavares ("O Novo Deus"), a qual postei aqui ontem. Somente alguns detalhes a observar: dízimos nas Igrejas Católicas, ao menos no Brasil, (ao contrário de outras "Igrejas", máquinas de estorquir dinheiro) são doações em geral pequenas e expontâneas (ninguém é obrigado ou constrangido à doá-los) para manter o funcionamento das paróquias. Poderia ser abordada aqui a questão da riqueza do Vaticano, proprietário de bancos, empresas, ações e capitais no mundo todo. Não falo da riqueza patrimonial histórica, mas do dinheiro que a Santa Sé possui, em capitais especulativos, e não sabemos claramente em que é empregada... Desta forma, não cultua também o Vaticano o dinheiro e as riquezas mundanas? Suas imensas fortunas também serão oferecidas aos pobres do mundo nessa Campanha da Fraternidade de 2010? Acho a proposta da campanha belíssima e muito oportuna, o consumismo é um câncer. Às pessoas que acham que o mundo "gira em torno do dinheiro", lembro da lenda sobre Alexandre, O Grande (conquistador de quase todo o "mundo conhecido" da Antiguidade, em cerca de 360 a.C), de quem se conta ter pedido para ser sepultado com as mãos para fora de seu esquife, para mostrar a todos que, dessa vida, nada (de material) se leva... Como católico, respeito o Papa e a Santa Sé, mas minha fé não me aleija do meu (bom) senso crítico.

quarta-feira, 24 de fevereiro de 2010

Poesia.com


Isto que agora lês

Não é mais o mesmo

Que, há alguns dias,

Lias...

Voltei ao blog insatisfeito,

Um nó no peito

Por alguma rima torta

Um verso sem sentido

Ou um final que não merecia aplausos...

Editei o poema

Cirurgicamente...

Até que ficasse

Com algo que me agradasse.

Ah, poetas do passado!

Parnasianos, Românticos ou Simbolistas...

A poesia de hoje não é fiel a nada

Nem mesmo ao seu primeiro impulso!

Pois posso, a qualquer momento,

Rever meu sofrimento

Carregar mais nas palavras...

Pois o poema digital jaz

Em constante estado inacabado

Que bom para minha loucura!

Sofrendo hoje bem mais

Que ontem

Posso voltar-lhe ao começo

E injetar-lhe uma nova,

e mais bem acabada,

Dose de amargura...

O Poeta da Amargura




Não me tocou cantar o amor


Nem a paixão, ou suas aventuras...


A vida em movimento


Para o que floresce...


Esquece!


Me tocou foi o tormento


De uma dor sem igual,


Sem alívio.


O asqueroso convívio,


Com o homem, lobo do homem,


Sob um prisma paranóico


(Onde, de fato, não sei


Que é mendigo, ou rei...)


Sobrou cantar talvez


Os encantos da Morte


Minha Noiva Prometida


Meu terno alívio, futuro,


Ao pesado jugo que suporto
Em meu caminho escuro...
Oh, salve!


Todos os artistas loucos


E degradados!


Eu peço a vossa benção,


Para seguir cantando


Meu descontrole,


Minha falta de equilíbrio


Neste "fio da navalha"


Que tenho, dia-a-dia, que cruzar


Para simplesmente não chegar...


Seja eu a última criatura


O poeta da amargura


Que, sem esperança,


Ou redenção


Espera o derradeiro alívio


Na aniquilação...


(Paira em si uma dúvida: segue a esperar


Ou não...?)
Uma singela homenagem ao meu grande ídolo, o poeta Augusto dos Anjos, que me fez descobrir o gosto pela poesia nas aulas de Literatura do ensino médio...

Artigos - O novo deus - por Flávio Tavares


A rotina nos anestesia e, na repetição, cria a ilusão de estável normalidade. Podemos estar diante do precipício mas, acostumados a vê-lo a cada minuto, não temos ideia da queda que nos espera se dermos um passo à frente. Nada é mais perigoso do que os hábitos que se apoderam de nós como oculto invasor noturno, que não percebemos nem notamos que nos assalta e nos domina.Nada mais benéfico, portanto, que nos puxem pelo braço e nos mostrem o abismo, como fez agora a Campanha da Fraternidade, ao chamar a atenção para a devastação ética e comportamental criada pela ambição exibicionista da sociedade de consumo. Ou do consumismo como ideologia e norma de vida.Originalmente promovida pela Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) da Igreja Católica, juntaram-se à campanha as igrejas Evangélica de Confissão Luterana, Anglicana, Presbiteriana, Cristã Reformada e Ortodoxa de Antioquia, no arco que integra o Conselho Nacional das Igrejas Cristãs do Brasil. O lema neste ano é um versículo do Evangelho de Mateus, ao difundir o pensamento de Cristo: “Não podemos servir a Deus e ao dinheiro”. O bispo de Rio Grande, dom José Mário Stroher, presidente regional da CNBB, resumiu a reflexão crítica da campanha: “Tudo entre nós está a serviço do consumo; dos bens às drogas tudo virou instrumento do dinheiro para concentrar ainda mais dinheiro, transformando o ser humano num predador”.-O meio ambiente é a primeira vítima desse frenesi consumista, em que só o que multiplique cifrões é visto como normalidade. Rios degradados pela poluição industrial, ar infectado pelos gases, alimentos contaminados por agrotóxicos, nada dessa pestilência importa se gerar lucro!Está em jogo, porém, a obra fundamental da Criação – a vida. Ou a natureza que permitiu o desenvolvimento da vida. Assim, nada mais natural que as igrejas critiquem um estilo de vida que cultiva o hedonismo e, em consequência, desemboca na extinção da vida em si.No fundo, as igrejas cristãs fazem uma crítica profunda do modelo de capitalismo predatório e consumista que entrou pelo século 21 com ímpeto especulativo sem limites (a crise financeira de 2008, que ainda não terminou, mostrou o que é a especulação). Não se trata de ação oportunista para ocupar o espaço que a medíocre política partidária abandonou. Há muito a Igreja desconfia do capitalismo e o vê com olhos críticos: na Idade Média, a usura era um pecado terrível e os usureiros da época eram os banqueiros de hoje.-No início do século 20, um sacerdote alemão percorreu o interior do Rio Grande (em lombo de mula) fundando cooperativas de crédito entre os pequenos agricultores. As “Volkskassen” orgulhavam-se de não terem lucro, ou de lucro ínfimo, indispensável apenas a reinvestimentos de socorro à lavoura. Algumas dessas “caixas populares” cresceram (como o Banco Agrícola e Mercantil, fundado em Santa Cruz) e foram abocanhadas por grandes bancos. A concepção do crédito mudou, então, e passou a enriquecer os bancos.O escândalo brutal, porém, é o do consumismo em si, que torna obsoleto amanhã o computador ou o telefone celular comprado hoje. E, na orgia desenfreada, o menino pobre de rua mata para roubar o tênis “de marca” de outro guri como ele. Nesse turbilhão, uns devoram aos outros. Os marginais nos tiroteiam no semáforo ou em nossas casas. Os corruptos da política já roubam diretamente, filmados pela TV.Venha de onde vier, todo dinheiro vai para o altar do novo deus. O deus da nova religião fanática, o consumismo.


Jornal Zero Hora, 21 de fevereiro de 2010, Domingo, N° 16253 (Porto Alegre/RS)


* Flávio Tavares é um jornalista e escritor gaúcho; autor de vários livros, entre eles "O Che Guevara que e fotografei" (RBS Publicações, fotos e relatos seus sobre a participação do revolucionário na Conferência Econômica Latino-Americana, em 1961), Atualmente mora em Petrópolis/RJ, de onde colabora com ZH semanalmente. Seus artigos são sempre pautados pela defesa e liberdade do ser humano diante de um sistema opressor, como o que vivemos. Um dos meus cronistas prediletos, primeira leitura "obrigatória" de ZH, todos os domingos, para mim...

sexta-feira, 12 de fevereiro de 2010

Ai de quem for alegre - Paulo Sant'Ana


Temos uma confraria, uns oito amigos, que se reúne uma vez por mês num restaurante, onde ficamos em média três horas e meia.

São médicos, comerciantes, pequenos empresários e profissionais liberais.
Intuitivamente, fomos percebendo, com o passar das reuniões, que nos encontrávamos para nos queixar da vida.

O denominador comum das manifestações era o lamento das coisas, os problemas conjugais, a rotina massacrante. Enfim, as dificuldades todas que a gente enfrenta para levar adiante o barco.

Quem fala mal da vida, quem prega que não há horizontes para a existência, é ouvido com reverência e só falta arrancar aplausos dos outros confrades.

Até que um dia, inadvertidamente, um dos confrades atreveu-se a fazer um discurso otimista. Disse que era feliz com a sua mulher, que seus negócios iam de vento em popa e que tudo dava certo para ele na vida.

Os outros sete confrades restaram estupefatos. Com que audácia, num auditório de pessimistas e queixosos da vida, aquele integrante do comitê do desânimo e da tristeza contrariava todos os cânones sobre os quais foram erigidas as reuniões mensais!

Era de se ver no semblante dos confrades a desilusão com o otimista. Como era possível existir alguém feliz entre nós? Que peito, que coragem desafiar aquela plateia de céticos e desmoronados e, ainda por cima, jogar nas nossas caras que era um homem realizado, contrariando toda a construção filosófica da roda, baseada no lema de que a vida é uma droga.

Foi evidente e amassante o mal-estar que se formou na nossa roda de pesarosos.

Os descrentes resolveram agir e consideraram aquela manifestação de hino à vida um desaforo.
Aos poucos, o otimista e feliz foi deixando de ser convidado, restando tacitamente expulso da confraria.

Ficamos nós, os queixosos e pessimistas, a desfiar todos os meses as nossa mágoa, a nossa náusea existencial, a nossa descrença.

Mas na nossa confraria, como em todas, a gente só conversa. E a conversa vai girando naturalmente, sem censura, até que esses dias um outro conviva, em meio a uma conversa, disse o seguinte: “A vida é bela”. Foi um alvoroço. Outro dissidente? Como ousara pronunciar frase tão acintosa.

Todos se voltaram para ele revoltados. Urgia uma explicação, numa sociedade de desanimados, era uma afronta emitir tal conceito.

Acabou aquela reunião num mal-estar nauseante, decidindo os outros membros que na próxima reunião o apóstata teria de dar explicações sobre a sua frase subversiva.
Além disso, o companheiro que arriscara dizer entre nós que a vida é bela é muito querido entre nós, seria uma lástima e um desastre expulsá-lo do nosso convívio.

Deliberou-se então que ele destrincharia o seu conceito no jantar do mês seguinte, explicando como a vida pode ser bela.

Veio o outro jantar e todos ficamos ansiosos sobre as explicações do rebelde. Ele não se fez de rogado e explicou a sua frase hedionda: “A vida é bela, nós é que a estragamos”.
Todos se sentiram aliviados e desculparam o herege. Afinal, constava de seu conceito que a vida era uma instituição estragada e inviável.

Segue avante a confraria com seus lamentos e desilusão...


Jornal Zero Hora (Porto Alegre, RS), 10 de fevereiro de 2010, coluna de Paulo Sant'Ana.
Brilhante! O jornalista Paulo Sant'Ana (70 anos) atua em rádio, jornal e TV há mais de 40 anos no Grupo RBS. Desta vez, o cronista diário de ZH, bipolar assumido, expressa uma questão interessante: será que não temos o direito de ser infelizes, lamentar nossas mazelas, pelo menos de vez em quando, sem sermos vistos como "destoantes" ou "pobrezinhos" pelo senso comum (e idiota)? Não sempre, é claro, que ninguém é infeliz o tempo todo, mas o contrário também é válido... Para alguém lúcido, como diz uma grande amiga, nada pior do que um otimista lobotomizado... Viva a diferença!!! Valeu Sant'Ana!!! Serggius

segunda-feira, 8 de fevereiro de 2010

O "Meu" Guri


Quando, seu moço
Nasceu meu rebento
Não via o momento dele "rebentar"
Ficou difícil conter o meu pranto
E eu tinha um nome de Santo
Pra lhe dar...
Com todo esse encanto
Sigo a me encantar...
Ele me levando,
Eu a lhe levar...
E desde a sua meninice,
Eu fiz tudo que eu pude
Pra ele chegar lá...

Olha aí! Olha aí!

Olha aí, olha o meu guri, olha aí!
Olha aí, é o meu guri!
E ele chega...

Chega da creche com tantas histórias
Sempre novidades
Pra me alegrar...
Tão boa memória seu moço,
E ele "nem tem a quem puxar"...
Vimos uns desenhos
De super-heróis
Salvamos o mundo
Que bom sermos "nós"...
E na hora da caminha
Ainda tinha historinha
Para eu contar...

Olha aí! Olha aí!

Olha aí, olha o meu guri, olha aí!
Olha aí, é o meu guri!
E ele chega...

Chega da festa
Com a namorada,
Os pais preocupados
Não dormem mais não!
Filho, juízo,
Isso não é mais hora
De badalação!
Porque ficou mudo?
Olha a mãe e o pai
Leva a sério o estudo
Quer ser sofredor?
Se Deus quiser, eu dizia, seu moço,
Seja tudo, menos
Professor...

Olha aí! Olha aí!

Olha aí, olha o meu guri, olha aí!
Olha aí, é o meu guri!
E ele chega...

Chega no palco
De toga e barrete
Com um lindo discurso
A nos homenagear!
Eu não entendo essa gente, seu moço
Dizendo que eu faço fiasco demais...
O guri formado
Acho que tá lindo
Acho que tá rindo, canudo no ar
Desde o começo eu não disse, seu moço?
Eu fiz tudo que eu pude
Pra ele chegar lá...

Olha aí! Olha aí!

Olha aí, olha o meu guri, olha aí!
Olha aí, é o meu guri!

E ele chegará!!!

Inspirado na letra da música "O Meu Guri", de Chico Buarque, uma homenagem ao maior e incomensurável amor da minha vida, meu filho Matheus, e ao meu outro grande amor, minha esposa, mãe exemplar, que me deu esse "meu guri", o maior presente para um homem que honra o dom da paternidade. Juntos, estamos dia-a-dia, com o máximo esforço, garantindo que ele "chegue lá". Amém!

PS: não coloco a fotinho dele para evitar exposição, mas é a cara do Calvin (sem essa careta, claro)!








Equilíbrio Distante


Nada agora será como antes,
Pois, se ainda há nuvens escuras,
Um dia haverá equilíbrio,
Libertação...
Pois nada em meu coração
É estanque
(os ventos do norte não movem moinhos)
E para buscar meu equilíbrio
Ainda que distante
(mas possível!)
Vou revolver as águas paradas
De minhas estradas,
De minha essência...
E notar que, apesar da tempestade,
Um fugidiu raio de sol
Pode, vez em quando
Guiar meu caminhar...
Estou no olho do furacão
Mas até ele pode,
Em sua fúria
Me levar a algum lugar.

sexta-feira, 5 de fevereiro de 2010

"Arbeit Macht Frei"


O trabalho liberta...
Ele te libertará, certamente,
Dos teus melhores dias,
Das tuas melhores horas...
De grandes idéias,
Da poesia...
E te dará, em troca,
Dores,
Mãos suadas,
Toda tua energia dissipada
Para erguer os "grandes sonhos"
Dos outros, que em nada te pertencem!
Claro, a eles
Não interessa que penses,
Repenses,
E arrebente teus grilhões!
O que vale é "estar vivo",
Não é mesmo?
Garantir a comida
O "pão de cada dia",
A roupa,
O teto,
(A "sobrevida")
As sobras, divididas, com quem se ama
De afeto, esperança, infância
Resmas do que serias
Se tudo isso não fosse!
(Oh, quase não vejo
Minhas crianças crescerem!
É o tempo...)
O tempo?... O tempo é o Senhor da Razão,
Já o relógio, o Mestre da Servidão!
Porém, não esmoreças!
Não te deixes corroer pelas dúvidas
Ou pela fadiga...
Resistas, bravamente,
Até o quanto aguentares,
Até a "libertação"...
Pois, quando não mais servires,
Te descartarão!
(Não te preocupes, outros te substituirão!)
Pois o trabalho, amigo,
Enobrece o ("lobo" do) homem
Empobrecendo tudo o quanto ele tem de humano...
Roubando sua alma, sua razão, sua emoção...
E a ti, que aqui vieste,
À esta vida sofrida e sem sentido,
Eis teu "prêmio de chegada"
Ao final dessa partida, viciada:
O trabalho, finalmente
Libertou-te, como um a herói,
Que aos céus ascende!
Mas por uma chaminé encardida...
(O Destino a Deus ofende...)
O que era carne, sangue, osso, homem,
Agora é carvão, em brasa...
O que não ardestes em vida
Ardes, agora em morte, talvez?
(Os restos de tua fuligem se evadem
Queimados, juntos ao teu bom coração
No fogo da Ideologia do Ladrão...)

PS: Esse poema faz uma releitura da frase "Arbeit Macht Frei" ("O trabalho liberta o homem"), ironicamente colocada no portão do Campo de Concentração de Auschwitz, onde sinistramente ao entrar, já se sabia, aos sussurros, que a única libertação era "pela chaminé". Não se iludam, o nazismo foi o modelo capitalista levado ao extremo; expansionismo, ideal de perfeição e competição ("desenvolvimento"?), guerra, genocídio, onde até mesmo o ser humano, depois de "usado", podia servir de objeto de consumo (como os abajures e outros artigos feitos com a pele e cabelos de milhões de judeus, ciganos, comunistas e homossexuais exterminados) ...