quarta-feira, 29 de dezembro de 2010

Espelhos


O homem encarou
O deserto
Que o olhou de volta
Apavorantemente
Calcinante.
Seguiram ambos
Sua jornada
Um tão escaldante
E seco
Quanto o outro...

Ama o teu inimigo!


Amo o meu inimigo
Como a mim mesmo;
Por isso o inquiro,
Persigo,
Atormento...
Nada que,
Por um momento
Eu não faça o mesmo
Comigo...

A Roda


Giro do engenho
A roda
Não sei de onde me vem
O empenho...
O Sol queima,
A força destroça...
Só mais uma volta,
Penso
Só mais uma basta...
Para não sentir
O fustigar da chibata
Só mais um dia,
Só mais uma vida...

segunda-feira, 27 de dezembro de 2010

Alheio


Sufocado
Entre a plebe rude e,
Ambiguamente,

Com uma receita
Eu sobrevivo:
É estar alheio...
Alheio a tudo isso!
É estar o mais distante
Quão próximos eles estejam,
Degradantes!
É fazer do meu instante
Autista
Um universo mudo,
Cubista...
É ser mortal
Insignificante e,
Paralelamente,
Um Alexandre
Deus de grandeza
Delirante...

Enquanto eu blefava...


Enquanto eu blefava,
Com toda a segurança
As armas eram depostas.
Eu me rendia como um soldado
Cansado
Frente às linhas inimigas.
Tanta peleja,
Tanta intriga,
Sem nenhuma razão...
Eu caminhava em direção
Aos captores
Sem esquecer de nada
Nem de puxar
O pino
Da granada...

(Somos todos bombas prestes a explodir)

Ano Novo


Ano novo
Vida nova
Nada...
Nada viva,
Nada nova...
Tudo são sobras
Requentadas
Do passado
E a esperança
O tempero humano
Do auto-engano.

Fim da linha


O texto
Encontrou seu termo
No fim da linha
Morto por um fulminante
Ponto final.

quarta-feira, 24 de novembro de 2010

O primeiro hippie - por Moacyr Scliar


Leon Tolstói (1828 1910) foi não apenas um grande escritor, foi um tipo humano fascinante que, sob alguns aspectos, antecipou formas de pensamento e estilos de vida que depois viriam a caracterizar o século 20. Podemos dizer que foi, senão o primeiro, pelo menos um dos primeiros hippies, o resultado de uma trajetória intelectual e espiritual em que não faltaram momento surpreendentes. O centenário de seu nascimento está sendo lembrado em todo o mundo este ano.

De família rica e tradicional, filho de um conde, Tolstói nasceu em 1828 em Yasnaya Polyana, grande propriedade familiar. Frequentou a universidade, estudando Direito e idiomas, mas, aluno rebelde, abandonou o curso. Passava muito tempo em Moscou e em São Petersburgo, levando uma vida boêmia e acumulando pesadas dívidas de jogo.

Talvez para escapar a esta situação, alistou-se no exército e começou a escrever. Resultou daí uma notável obra, expressa em contos, em romances, como Ana Karenina e Guerra e Paz, em ensaios. Seus textos conquistaram a admiração de escritores como Flaubert, Dostoievski e Tchekhov, e tornaram-no famoso.

Aos poucos, Tolstói foi optando por um caminho que, filosoficamente e politicamente, caracterizava a sua independência e sua rebeldia. Depois de presenciar uma execução pública em Paris, concluiu que o Estado “é uma conspiração para explorar e corromper cidadãos”.

Embora influenciado pelo anarquista Pierre-Joseph Proudhon (de quem copiou o título de um livro, La Guerre et la Paix), não aderiu ao anarquismo; mas resolveu dedicar-se à gente pobre, comum. Em Yasnaya Polyana, fundou várias escolas que proporcionavam um ensino livre, democrático. Era um cristão fervoroso, mas não convencional, que buscava sua própria interpretação dos livros sagrados.

Admirador de Buda e de São Francisco de Assis, acabou excomungado pela Igreja Ortodoxa Russa, e, numa época, era vigiado pela polícia do tzar. Pacifista convicto, influenciou o líder hindu Mahatma Gandhi, que, através do movimento de resistência não-violenta, conseguiu que a Índia se tornasse independente da Grã-Bretanha.

Achava que a aristocacia era opressora, opunha-se à propriedade privada e ao casamento; valorizava a castidade, não bebia nem fumava, era vegetariano e usava roupas simples de camponês, renunciando inclusive à sua riqueza e até aos direitos autorais (um escritor que era, portanto, o sonho dos editores).

A família (era casado com a filha de um famoso médico e teve com ela 13 filhos) não aceitava o que era considerado um extravagante modo de vida. Aos 82 anos, Tolstói decidiu fugir de casa; fê-lo de trem, em gélidos vagões de terceira classe. Contraiu pneumonia e morreu em 20 de novembro de 1910, na estação ferroviária de Astapovo. Àquela altura era uma personalidade universal e, apesar de não ter nada a ver com o comunismo, foi prestigiadíssimo na finada União Soviética. Para os hippies dos anos 1960, tornou-se um modelo, e havia até colônias com seu nome.

Certamente no musical Hair, celebração desse movimento, ele teria um papel importante. Basta lembrar uma única frase dele, que aparece no começo de Ana Karenina: “Todas as famílias felizes são iguais, mas cada família infeliz é infeliz à sua maneira”. Bota sabedoria nisso.

Jornal ZH, Revista Donna ZH, domingo, 21.11.2010 - Porto Alegre

Grand Finale - por Cláudia Laitano


A ideia da morte tornou-se concreta na minha vida algumas semanas antes do meu aniversário de 15 anos, quando um caminhão atravessou o caminho da mobilete novinha que minha amiga havia ganho poucos meses antes, no aniversário de 15 anos dela.

Há uma desinteligência essencial entre o ponto final da morte e a explosão de vírgulas, travessões e dois pontos que a adolescência anuncia. Se eu ainda fosse criança, é provável que algum adulto tivesse se ocupado de revestir esse momento de algum sentido mágico ou religioso que ajudasse a tornar essa perda um pouco menos absurda e fora de hora. Alguns anos mais tarde, tudo continuaria absurdo e fora de hora, mas talvez eu já tivesse assimilado melhor a noção de que a ausência de lógica e senso de justiça rege boa parte dos acontecimentos que afetam nossas vidas de forma definitiva.

Aos 15, quando os anticorpos da infância já não funcionam mais e os da vida adulta ainda estão amadurecendo, quase tudo é espantoso, definitivo, absoluto – como a morte. Mas a dimensão trágica da existência, aquilo que faz com que um adulto chore, na morte dos outros, a própria finitude, ainda não está completamente instalada. Talvez por isso, desse primeiro enfrentamento com uma sentença irrevogável do destino, eu lembre não apenas das muitas cenas de choro e consolo mútuo, mas também dos incontroláveis ataques de riso que durante o velório, inclusive nas horas mais impróprias, interrompiam a contrição do nosso luto de principiante. Rir não diminuía a dor ou a saudade nem tornava aceitável o que não era, mas de alguma forma transformava o sentimento individual de cada uma de nós, as amigas mais próximas, em uma experiência coletiva de catarse e expiação. Rir era o nosso jeito de chorar em conjunto o absurdo da situação.

O que eu queria dizer mesmo é o seguinte: no Brasil, os cerimoniais de despedida, em geral, não costumam abrir muito espaço para que o luto seja vivido de forma coletiva e “customizada”. Há um certo pudor em transformar velórios em espetáculos com discursos, trilha sonora e aperitivos no final, como se vê com frequência em filmes americanos ou britânicos. Passamos da experiência pré-moderna dos velórios em casa e das carpideiras contratadas para chorar o defunto alheio diretamente para a cerimônia fria e eficiente dos dias de hoje, em que parentes, amigos e conhecidos, com diferentes graus de envolvimento pessoal com o morto, reúnem-se laconicamente (ou nem tanto) diante de um caixão, reservando o único momento de contrição e despedida coletiva para a breve encomendação religiosa, em geral padronizada, que antecede o enterro. Não há, nesses velórios convencionais, espaço para que o morto seja lembrado em voz alta em toda sua grandeza e banalidade – tornando solene e significativa a experiência daquela perda até para quem não a está sofrendo.

É de certa forma paradoxal que toda a passionalidade que os brasileiros demonstram em vida acabe sepultada em cerimônias chochas, em que a emoção desempenha um papel tão discreto e íntimo. Falta aos nossos velórios a celebração coletiva dos discursos, as lágrimas e o riso, a emoção compartilhada, o espetáculo coreografado da dor. Falta grand finale.

Na morte, quem diria, somos mais britânicos que os próprios.

"Opinião", Jornal Zero Hora, sábado, 20.11.2010, página 2

segunda-feira, 22 de novembro de 2010

Sobrevida


Se já não é mais a Morte...
Em vida?
Ou seria apenas um apêndice
Desta última?
Sobrevida...
Somente um último fôlego,
Exausto, trôpego, dormente
Me resta alguma força
(Um quase nada...)
Ainda que sem rumo...
O que fazer, então?
Íntegro e são,
(São?)
Sábia resolução
Conduzir minha carcaça
Seguindo seu rumo
Com o que me resta de prumo...

Prisioneiro


Os muros invisíveis que me confinam,
Não sei quem os ergueu.
Talvez um passado de tristezas,
Talvez um Deus inclemente,
Ou, quem sabe, eu mesmo?
Não importa...

Aqui estou, senhor e refém do meu próprio castelo,
A contemplar as nuvens que navegam pelo céu azul.
Mas que grandes temores e que belas paisagens
Há lá fora...

Dentro da minha fortaleza, respiro a segurança
E a solidão, minha fiel companheira
O corpo está tão ileso,
Quanto a alma lacerada...

E, de repente, me invade a vontade
De correr descalço por esses verdes campos,
Abraçar amigos, sentir a brisa das madrugadas

Partir um dia com a beleza de um sol poente,
Quem sabe viver um grande amor?
Ah, um grande amor...

Mas como, se os portões fechados me olham
Com sua calma indiferente e intransponível?
Onde está a chave?
Quem tem a chave?

Lá fora a vida resplandece
Enquanto, aqui dentro, à espera da liberdade,
Vou pintando, nas paredes frias,
Musas, luares, viagens
Disfarçando como posso sua cruel proteção...

(dos "Manuscritos Perdidos de um Menino Triste" - 1995)

Transformação


Era uma dor tão bela,
Tão sincera em sua razão de ser
Que um dia rompeu o casulo
E abriu as asas
Um lindo poema...

(dos "Manuscritos Perdidos de um Menino Triste" - 1995)

quinta-feira, 18 de novembro de 2010

Espelhos - Diários de um Misantropo


Um dia pesado
Cercado
Por pessoas
Antes, durante e depois
Eu, que sinto na alma
Que "o Inferno são os outros"...
Mas vamos com calma,
Vez por outra...
Um dia de cada vez.
Deixa-me chegar à toca
Tomar um banho,
Beber um pouco, talvez...
E cobrir todos os espelhos.
Só quero voltar a ver-me
Amanhã
(Também humano)
Refletido nos olhos de todos
A quem abomino...
Eu me pergunto, já dormindo,
já confuso:
A quem odeio mais
A mim
Ou ao mundo?

Fome


Sem um trocado
Na algibeira
Vago nas ruas desertas
Povoadas de sonhos
Desfeitos
E do que me restou
No peito
Um peso...
Sigo sem destino,
A emendar a estrofe
Com remendado
Estribilho
A fim de disfarçar
A fome,
Companheira cruel,
Que a tudo consome
Menos à tristeza
Que comigo vaga...

Consumundo


Descrença
Consumindo meu mundo
Cansaço
Corroendo meus planos
Insônia
No lugar de sonhos...
Como deixar de fazer
O igual
Se não há chance
De sair dos trilhos,
A não ser,
Descarilhando?
Talvez
Entre mortos e feridos
Vir a ser pouco mais
Que um bandido
Ou algo menos
Que anti-herói?
Tanto faz,
Digo eu, olhando no espelho
Tanto faz...
Para a minha mesma cara
De anos atrás...

terça-feira, 9 de novembro de 2010

Pesadelos


Se os sonhos não são mais
Do que o rejeito,
O lixo, dejeto
Do nosso concreto
Viver diurno
Ou complicadas
Cifras junguianas
Plenas de símbolos
E significados,
O que seriam os pesadelos?
Essas mentais ratazanas?
Insidiosas, malevolentes
Sempre em minha mente
Presentes?
Sonhei com as piores casas
Em que vivi,
Na minha infância de misérias,
Condensadas em uma só...
Sonhei com as traumáticas
"Aulas" de educação física
A escola também deforma...
Ou que não havia concluído a faculdade
Por uma derradeira e maldita
Nota.
Notas...
Das quais essas trilhas de terror
São compostas...
Essas, entre outras misérias
Vividas, revividas, ruminadas
Por que retornam, a me assombrar
Mesmo à noite?
Nossos sonhos podem, quem sabe,
Não ser expurgo, talvez
Mas há um esgoto
Em nosso interior
De onde emergem tais
"Bichos escrotos"...
Mesmo agora que estamos acordados, livres, e bem
Ainda assim, furtivamente,
Na escuridão eles vem...
Para rirem-se e nutrirem-se
De nossos pobres sofrimentos,
Traumas
E medos
Num sono de loucura
E de degredos.

Cumulus Nimbus


Cão raivoso, minha sina
Destilo meu ódio
Como o álcool
Destila seu veneno...
Passaram-se os dias amenos
Ó tempestade!
E já que é meu destino
Cruzar-te, de tempos
Em tempos,
Mandame ao menos
Alentos...
Ventos narcóticos
Assim, ainda que me debata,
Amarrado ao mastro
Que eu sangre o menos
Possível
Até a volta da bonança...

Não te iludas, marujo;
Onde há loucura,
Há ilusão
Nunca esperança...

segunda-feira, 8 de novembro de 2010

Poesia em Frangalhos


Eu abro os olhos
E a alma
E vejo o que restou
Depois do vendaval...
Não fomos mais os mesmos
Nem as tábuas de nossas casas
Voltaram aos lugares certos...
E as roupas, contorcidas no varal,
São mero sinal
Do que é revirado por dentro
Em frangalhos...

(25/10)

quinta-feira, 16 de setembro de 2010

O humanista iconoclasta


A matemática
Não tem humanidade
Nem a física
Sente saudades...
O mercado financeiro
Pensa somente em dinheiro...
E os precipitados da química
Nunca serão lágrimas
Derramadas
Pelas crianças que tem fome...
Pobre homem!
Servo de suas próprias criaturas...
E, se um dia, decidisses
Por tua liberdade?
A história, com suas interrogações
A esmagar os números;
A literatura e suas ficções
Para além dos fenômenos
Mensuráveis
Banindo as certezas físicas, decimais,
Miseráveis!
A filosofia, alimentando de trocas
O mercado das idéias...
E as reações da poesia?
Por serem de improviso
Não precisariam de tubos
De ensaio...
Iconoclasta das "verdades",
Insano!
Eu saio a derrubar os falsos
Deuses
E a erigir tudo
O que é humano...

Non Sense


Hoje acordei novamente com a sensação de que o melhor a fazer era continuar dormindo. É, talvez fosse. Seria minha serotonina outra vez? "Motiva-me", no entanto, a sobrevivência. Ela nos faz ir adiante, senão em direção a um alvo, para não nos tornarmos um... Alvo da fome, do abandono, da (in)dignidade... A grande questão é que, por mais que eu insista, tenho sempre a impressão de que as coisas não tem feito sentido. Não sou quem eu pensei que seria, a essa altura da vida... Onde estão o desenvolvimento profissional, de carreira, numa área que me apaixone? No lugar disso, um emprego, um salário-pra-não-passar-fome e graças à Deus? Onde o crescimento intelectual? Por que essa sensação de "falso pacto", onde depois do suor da labuta diária haveria tempo a um propósito maior? Não há. Sou sempre eu em meu circuito "non sense": da corda bamba para o trapézio, deste para o canhão do homem-bala ou para a arena de feras... Onde está o meu "grande momento"? Em fazer o papel de palhaço? Um circo, é o que me parece isso tudo.

Quando era criança e abri um relógio pela primeira vez, fiquei frustrado por não entender suas engrenagens; hoje, olhando para a vida, sinto aquele mesmo pesar infantil, diante de um brinquedo fascinante, mas complicado demais...

Em tempo: pode ser o acima escrito "lugar comum", mas eu realmente tenho vontade de estar é em lugar nenhum... (Serggius, 9 de Setembro)

terça-feira, 7 de setembro de 2010

Soldado


Os olhos inundados de esperança,
Num rosto suave
O sorriso contido
Um homem com traços de menino...
Ou um menino de feições adultas?
Não importa.
Impassível,
Marchava convicto para a
Guerra
Pensando no grande amor que deixara...
Mal sabia ele
Que a guerra - e os homens que a fazem
Não gostam de grandes amores,
Sorrisos contidos,
Olhares esperançosos,
Ou rostos suaves...
Porém, para a surpresa da guerra,
Dos homens e dos exércitos
A Morte - a quem todos servem -
Apaixonou-se pelo jovem soldado e
Transformada num lindo anjo
Levou-o consigo à sua morada,
Onde aninhou-o ternamente
Eternamente
Junto a seu corpo...
E a guerra?
A guerra teve de acabar
Pois, com a Morte ausente,
Já não havia, de ambos os lados,
Baixas aos inimigos...

domingo, 5 de setembro de 2010

Novos Pavavrismos: Poder e Sorte


O poder corrompe.
O poder absoluto corrompe absolutamente.
Do poder irrompem
Os eleitos...
Seus leitos?
Qual MacBeth, manchados de sangue.
Mas isso, absolutamente, não importa
Batem à porta:
A sorte está lançada
Sorte de quem tem, em suas mãos
A lança
Desta forma irá submeter os fracos
Lavar seu leito de sangue
E alcançar o poder
Que corrompe, absolutamente
Sua alma
E os cadáveres de seus inimigos...

sábado, 4 de setembro de 2010

A visita à velha senhora


Correria? Correria! Assim nos cumprimentamos no meu serviço. A "correria", a urgência a que estamos submetidos, por vezes toma o lugar do "bom dia", pois temos que entrar no ritmo, mais que isso, viver o ritmo, pois tempo é dinheiro, não podemos perdê-lo...

Foi no início de 2009; fazia eu um lanche no Mercado Público, quando notei que era insistentemente chamado por alguém: uma velha senhora numa cadeira de rodas, acompanhada por um rapaz. Custei a reconhecê-la; debilitada, respirando com o auxílio de um tubo de oxigênio, estava diante de mim a colega de meu primeiro emprego, em 1994, quando eu tinha 19 anos...

Abracei-a, realmente feliz por revê-la (mas não naquelas condições), trocamos algumas reminiscências sobre o passado e, pasmem, ao perguntar-lhe o endereço, descobrimos que estava morando a dois prédios de distância de onde eu trabalhava! Ela me pediu instantemente que lhe fizesse uma visita, pois havia muito o que conversarmos, estava tão feliz com aquele reencontro... Claro, certamente, no máximo na semana seguinte passaria lá. Passaria. Passaram-se foram as semanas, os meses. A promessa, porém, não me saía da cabeça: tinha que visitar minha amiga, doente daquela forma, antes que fosse tarde.

Numa semana de abril, como se um pressentimento me acometesse, já havia até definido a data da visita, pensando nisso ao folhear o meu jornal. Foi quando fui atingido em cheio por um convite para "Missa de 7º Dia", assinado por sobrinhos e amigos. Ela havia partido.

Isso me pesou na consciência; escravo de meu ritmo louco de vida, não havia dispensado duas horas que fossem para visitar uma pessoa a beira da morte, sempre postergando a iniciativa para um amanhã fictício... Este amanhã que, como ficou provado, só existe em nossas suposições...

Dá o que pensar. "Não se pode voltar atrás para fazer um novo começo, mas pode-se mudar o presente e fazer um novo fim", dizia Chico Xavier... Seguirei escravo dessa engrenagem louca, a ponto de quase não respirar? O quanto e quantos mais deixarei para trás?

Correria? Sim, não há como fugir, se quisermos sobreviver, mas buscando sempre encontrar em nós o humano, aquilo que está além dos ponteiros do relógio e suas cifras. Esse encontro, eu não posso mais postergar...

sexta-feira, 3 de setembro de 2010

Faltava retornar à velha escola


Comecei a estudar na "Escola Estadual Presidente Roosevelt" aos sete anos, quando ainda era chamada de "escola experimental". Concluí lá, oito anos depois, meu ensino fundamental (ou "primeiro grau", como se chamava na época). Vi o "presídio", como o apelidávamos, pela última vez em 1989, passado por média(!). Numa perspectiva ainda adolescente, como quem se livrasse de algo, com certo alívio. Com a maturidade, passei a perceber o quanto aquela escola, aqueles professores, tiveram um papel fundamental na minha formação. Sem contar outras experiências que também contribuíram, como anos seguidos de "bullyng" (que nem esse nome tinha na época!), os primeiros amores, todos frustrados... Lá encontrei também, logo na primeira série, meus dois melhores amigos, o Marcelo e a Solange, uma amizade de quase trinta anos e que transformou-se em um laço autenticamente fraterno. Na sexta série conheci também a Simone, a minha amiga mais inteligente, que viajava comigo por interesses nada ortodoxos para a gurizada "banal": literatura, quadrinhos, ocultismo, conspirações... Coisa de nerds mesmo...

Foi com o Marcelo e a Solange que, no final do ano passado, voltei para rever a velha escola... Exatamente como Piaget observou (em um daqueles seus chatos estudos), tudo agora parecia, ao adulto de hoje, em escala reduzida ao que era à criança de ontem. A distância até o colégio, a dimensão de seus prédios, as quadras de futebol onde eu, humilhado pelos colegas, corria nas aulas de Educação Física (meu maior trauma de infância...). Embarcamos os três numa verdadeira expedição arqueológica; a sensação que tive foi justamente essa: voltar no tempo, a um passado que ali estava, mas não mais me pertencia... Apesar de dois anexos novos, todo o resto se conservara igual: a pintura dos prédios, a textura das paredes, a disposição das coisas... Como era final de ano letivo, os prédios estavam todos desertos, tirando algumas funcionárias que nos permitiram a entrada. Era como ser Howard Carter, descobrindo a tumba de Tutancâmon, a não ser por ter as memórias do Antigo Egito consigo ao mesmo tempo...

O ápice de nossa visita foi um tour pelo prédio principal, de dois amplos andares, onde estudamos da 3ª à 8ª série. Tudo estava bem conservado, mas o que me emocionou foi o fato de que, mesmo com as reformas, até a tonalidade original das paredes havia sido mantida nas minhas antigas salas de aula... Lá aprendi a gostar de História, nas aulas da professora Lorena, descobrindo as grandes navegações e a colonização do Brasil; ou nas da professora Jussara Sebenello, sendo apresentado com fascínio aos astecas; mas foi a inesquecível e inspiradora Vera Xavier quem me "fisgou" para o ramo, com as armações e os bastidores do poder nos 1º e 2º Impérios do Brasil. Ah, e mesmo não gostando de ciências, me apaixonei por biologia, física e química graças à emblemática Magda Ayres, a professora mais "maluca" e divertida que já tive.

Vimos também a "rampa", que dava acesso ao Auditório, o pátio da frente onde cantávamos o hino diante das bandeiras, acompanhandos um disco velho e arranhado... E o hall de entrada, com o quadro com o retrato do presidente dos EUA Franklyn Dellano Roosevelt, o qual eu nunca soube porque era o patrono da escola...

Redescobrimos Pompéia!

Quando eu era bem mais jovem, podia até cantar com Lulu Santos que "(...) faltava abandonar a velha escola (...)". Agora, revisitando-a, percebo o quanto lhe devo de tudo o que sou, e quantos raios de Sol podem emergir, mesmo das lembranças mais cinzentas...

quinta-feira, 2 de setembro de 2010

Pequenos escambos


O dinheiro, mesmo, anda escasso, as contas são superiores aos proventos; mas, mesmo assim, pequenas extravagâncias são cometidas todos os meses. Comprar DVDs ou livros nas Lojas Americanas com o que sobre do vale-alimentação é um exemplo. Ou umas duas revistas Veja ao mês com o cartão Panvel, nas farmácias. Pequenas aquisições que me enriquecem em informação, entretenimento e cultura. Que provam a mim mesmo que não sou o "homem primata" que só existe para caçar, comer e dormir. Não. Também penso; pinto minhas poesias rupestres em paredes de cavernas... E quando sobra algum cobre desavisado (da venda das passagens de trem e ônibus), me encontro em bancas de revistas ou "sebos", atrás dos meus heróis de quadrinhos, que com seus poderes e magias me transportam ao Infinito...
A vida pode estar "primitiva" ultimamente, como uma tribo perdida no meio do nada. Prometo, no entanto, passar por ela como um Dr. Livingstone entre os nativos: lidando com a realidade à minha volta, mas mantendo minha dignidade britânica intacta, acima de tudo.

Nota: David Livingstone (Blantyre, Escócia, 19 de março de 1813 — Zâmbia, 1 de maio de 1873) foi um missionário escocês e explorador europeu da África, cujo desbravamento do interior do continente contribuiu para a colonização da África; passou anos explorando o continente, foi dado até como desaparecido em uma de suas expedições e localizado por um jornalista dos EUA. Fonte: Wikpédia. A dignidade britânica do Dr. Livingstone era, portanto, escocesa, ora bolas!

sexta-feira, 27 de agosto de 2010

Matambre recheado


Minha avó sempre me contava histórias de seus dias gloriósos. Explico: a história de minha família divide-se na época dourada em que meus avós casaram (1940) e os seis filhos, um após o outro, foram chegando, e nos dias negros que se seguiram à precoce morte de meu avô em 1953, por um câncer de faringe. Minha avó ficou só para cuidar de seis filhos. Ou melhor, sete. Meu tio mais novo estava por nascer quando meu avô se foi. Dos dias negros vi e vivi sua herança: pobreza, máguas, limitações, que se disseminaram entre os irmãos... Mas não quero falar disso; quero falar da época dourada, e de uma das histórias que minha avó me contava: o matambre recheado... Era um tipo de carne preparada nos domingos ensolarados entre 1940 e a década de 50, antes de meu avô adoecer, para os almoços especiais reunindo toda a família. Ela me dizia:
- "Meu filho, eu fazia esse prato, que era muito especial; amassava-se o matambre com um rolo, preparava-se o recheio com ovos e iguarias, depois eu enrolava o matambre e amarrava com um cordão, em toda volta... Ia ao forno por algumas horas. Ao tirar-se do forno, estava unido, recheado, uma benção..."
Essas histórias, logicamente, me incitavam a pedir que minha avó preparasse o prato para mim, para que eu também pudesse prová-lo, ao que ela me respondia:
- "Não, filho, agora não tem mais como: era preciso uma mesa grande para amassar o matambre, e não temos; era preciso um grande rolo, e não temos... E o próprio matambre está "caríssimo..."
Isso não quer dizer que ela não me preparasse bons pratos, mesmo que humildes. O matambre recheado mesmo, fui conhecer quando passei a trabalhar e comer em restaurantes, aos 19 anos... Nos últimos dias, inclusive, comi um matambre bem feito, de tamanho pequeno, recheado com toucinho e presunto... E leibrei-me de minha avó, claro. Ela faleceu em 1995, e quando falava de coisas boas, todas eram referentes àqueles "dias gloriosos". Tive um insight, ou como lá se chame, um clarão mental sobre algo... O problema não era a condição econômica, a falta da mesa, do rolo... O tempo e as fatalidades quebraram a fé de minha avó no que ela sabia fazer, podia fazer... As coisas boas ficaram entre 1940 e 1953 como que aprisionadas num conto de fadas com final infeliz, não podendo serem mais realizadas, só evocadas... Isso me fez pensar: quais minhas linhas divisórias? Estaria eu também preso em algum conto de fadas à minha moda, talvez o de um futuro dourado e libertador? Quem sabe... Está decidido. Tenho que preparar também, urgentemente, no meu tempo presente, meus próprios "matambres recheados"...

Nota posterior: minha tia, ao ler a crônica, envia-me a seguinte declaração: "acresento que para o matambre era necessário uma prensa, que tínhamos em casa"; puxa, naquela época as coisas eram difíceis mesmo... Claro, nos anos 80 já vendia-se matambres prontos para rechear, o que não invalida minha percepção das "linhas divisórias"... (atualizado em 02 de setembro)

Pressão


Às vezes,
(Quase sempre...)
Minha vida me parece
Uma panela-de-pressão.
Euforia,
Depressão...
Acordar correndo
Insano compasso...
O tempo é o carrasco!
E devo perdê-lo
Em um lento transporte
Para chegar ao trabalho
Perder mais tempo,
Então
E ganhar o pão.
Quarenta e quatro horas
Semanais
Ou mais...
Nada demais
Nada nunca é demais
Para eles...
Rotina são as cobranças
Metas, agilidade... mudança!
A mudança é a palavra de ordem...
(Deixe o confronto
E saia da "zona de conforto";
É uma ordem!)
Restam-me, de mim mesmo
Poucos traços
Dos descaminhos que traço
De quem eu era
Há tantas eras...
Os momentos de descanço
Dos quais me decalcam
Tantas responsabilidades
Penso, não sei se isso
É um movimento acelerado
Ou uma infinita sucessão
De quadros estagnados...
Esquenta a água, aumenta
O vapor
Nunca mais fui eu mesmo
Sugado, a esmo
Na contra-mão dos meus
Sonhos
Letárgico, irado ou dormente
Dissolve-se assim,
Minha essência, lentamente,
Na água fervente...
Ler, escrever, imaginar...
Criar?
Nem pensar!
Não há mais espaço
Para o pensamento
Neste momento...
Mergulhado na fumaça incandescente,
Sou um refém do meu bolso
E da minha mente.
Até os discípulos de
Freud
E suas panacéias
(Hoje eu sei)
Não passavam de paliativos
Subterfúgios
Talvez um refúgio
Às "desordenadas idéias".
Questiono sempre os motivos
Que tenho
Para seguir nesse circuito
Louco
Dar tempo
A esse Tempo
Que só me dispensa migalhas...
Agora, sob o apito da panela
A soprar
Sinto-me espalhado, disperso,
Esmagado...
Não. Basta de pressão.
Devo buscar transformação
Ou seja o que for
Para potencializar a fórmula
Com que lido com a dor
E a avareza de minha sorte...
A saída não é a morte.
Talvez paciência,
Foco, auto-controle
E, por fim
Subversão!
Escaldar a face do Sistema
Estourando-lhe a tampa
De sua panela-de-pressão.

Yang e Yin


Seria
Um Vaso Ming
Ou um Dragão
Talhado no mais puro jade
Só para mim?
Ou o meu fim...
Tuas curvas cruéis
A me seduzirem
E machucarem
(Ontem, nos sentidos
Hoje, em memória sentida)
Os teus afiados ângulos
Cortes
A rasgarem-me as ilusões
Quando te acariciava...
Eras como um veneno
Enganosamente doce
Do longínquo Oriente
(Desoriente...)
A alternar o sabor da
Descoberta
Com a dor e o desespero
Do teu anunciado
Desterro.
Desejo, deserto... desperto?
Nunca saber quando não me querias
Por perto
Ou então, colado em ti, incrustrado
Como um rubi...!
Não quis entender as pistas
Escritas em ideogramas
Presentes em todos os cantos,
Talvez, por meu mau mandarim,
Até te ver longe de mim,
Do outro lado do Mundo.
Mudo...
E fica-me a questão:
Será que toda a paixão
Deve ser assim?
Prazer, dor, solidão
Todos, por sua vez
Mesclados
Num emblemático
Amor chinês?
Sentimentos
Contraditórios e complementares,
Assim,
Como o Yang e o Yin.

PS: os amores fracassados, dolirida e ruidosamente fracassados, rendem os melhores poemas...

sábado, 14 de agosto de 2010

Não há ordem no caos


Depressão criativa?
Flores brotando de montes de esterco?
Almas nobres em vidas sem amor?
Paixão sem objeto?

Nada brotará do solo estéril,
A não ser ervas daninhas...
Eu quis fazer música, mas
Todas as cordas do violão
Estavam partidas...
Eu quis pintar, mas minhas mãos
Se desgovernaram
As tintas estão espalhadas pelo
Chão...
Eu quis cantar, mas minha voz
Só produziu um triste
Lamento
E os meus olhos não puderam conter
Aquela lágrima fugidia...

Não há luz em minhas palavras
Meus verbos são todos sofrer
Talvez um dia, um crítico estrábico
Encontre beleza nisso, que chamo de
Poesia
A novíssima "roupa nova do rei"


Dos "Manuscritos Perdidos do Menino Triste", escrito aos meus 23 anos em dezembro de 1995.

A bússola


Para onde estou indo?
De onde venho?
Há um Norte
Em minha bússola
corroída?
Sou um náufrago nessa sobrevida
Sub-vida...
À deriva em um Mar
De atrocidades...
Não achei talentos,
Nem verdades
Em suas águas turvas;
Talvez madeiras podres, das quais fiz
Minha inútil jangada
Para chegar a uma ilha deserta,
Abandonada.
Nem tanto, pois eu lá
Habito
Com meus milhares de demônios
E, diante da bússola quebrada
Buscamos juntos um Norte
Para o nada...

Dez


Desânimo
Desalento
Descaminhos
Deserto
Desespero
Desordem
Descompasso
Desterro
Desistência
Descanso
(em paz?)

quarta-feira, 11 de agosto de 2010

Luzes, câmera... ação!


A vida é como um filme
Cheio de glamour,
Aventura
E empolgação...

E se não?

Queria saber
O que tu irias fazer
Preso numa produção
"Classe B"
Com atores e atrizes
De segunda!
Em seguida,
Descobririas
Seres, ao mesmo tempo,
Diretor, protagonista
E produtor
Do longa da tua vida!
E a câmera, emperrada
Condicionada
A refilmar as mesmas cenas
Triviais.
As luzes? Opacas, esmaescentes...
A ação? Em slow motion... Sem emoção.
Só resta uma coisa a fazeres
Gritar "corta"!
Espirrar sangue
Nessa tragicomédia
E transformá-la num "filme trash"
E continuar filmando, filmando,
Enquanto ainda houver sangue
Nas tuas veias
Cortadas...

Possibilidades?


À minha volta palpita
Um universo de possibilidades
Pluralidades, singularidades...
Mas, lamento,
Falta-me o tempo
Para sorvê-las
Pois venho a ter com elas
A luz de velas
Com o que restou do meu
Ser
Massacrado
Por mais um dia condenado
À serviço do Mercado
(A alma, barata, a preço de atacado!)
Diante de mim se acumula
O lume do conhecimento
Para o qual, meu único
Momento
É em meu quarto pequeno
No pequeno quarto de hora
Antes do sono exausto
E de pouca demora...
Acima de mim as estrelas
Brilham
Mas meus olhos cansados
Se fecham, indiferentes,
Com enfado...
Eu tinha tantos caminhos
E, deles, todos
Me perdi
Agora, quedo-me aqui
A repetir os mesmos erros
Andando em círculos,
A branquear os cabelos
Pois nada mais tem importância
Não há o que decidir
Se o verbo é desistir!
Todos os caminhos levam, agora,
Ao meu ponto de estagnação
Onde, num eterno retorno
Encontro, a mim mesmo,
Nessa insólita prisão.

(Os castelos da mente
Tem prisões mais fortes
Do que as mais fortes prisões
Dos castelos das gentes)

Poema do Silêncio


Para uns, sossêgo
Para mim, desterro...
Para outros, alívio
Para mim, mordaça
Mortalha...
Tal é esse silêncio
Me imposto
Que faz a palavra morrer
De inanição
Que mata o sorriso, ainda
Na intenção
Com suas curetas
Velhas
E enferrujadas
A abortar as idéias
E os ideais
Que, ainda embriões,
Expiram em ais...
Cala ele não só
Minha voz
Mas até vós!
Cala o imaginar
Vivendo temporariamente
Esse vácuo impronunciado
Mesquinho...
Condenado à morte
Pelas risadas não dadas
Pelas conversas não tidas
Por uma adiada saída...
(E, a isso, chamam de vida?)
O estar nesse convento neurótico
Onde a clausura do diálogo
Tem seu toque solene,
Sádico... e gótico...

E o resto é silêncio
Como sempre.
Cadeado
Que cumpre fielmente
O trancafiar
Dia após dia,
De tudo o que em mim
Havia
De bom, brilhante e são
("Viver é a arte da representação")
Meus sonhos e fantasias
Hoje, não mais que solidão,
Ilusões e poesias...

Vamos!
Aperte o garrote, carrasco!
No pescoço, veias estouram, estrias brotam
Eis aqui minha sentença,
A me tornar larva fria:
A não-palavra
Mata por asfixia...

domingo, 8 de agosto de 2010

Conjugando o verbo ser


Ontem, as coisas eram
Hoje, as coisas são,
O que são.
Serão?
Triste sentir,
Sem conter...
Não há conjugação, que possa,
Exprimir
O patético porvir
Do meu
Ser

(Será só imaginação?)

sexta-feira, 16 de julho de 2010

Os não-diagnosticados - Paulo Sant'Ana


Acho que foi o Barão de Itararé que escreveu que o hospício é o quartel-general dos loucos.

Isto é uma verdade, os loucos sem diagnóstico andam soltos por aí.

Há pessoas que convivem diariamente, em casa, no trabalho e nas ruas, com os loucos.

Mas nunca ninguém parou para pegar esses loucos de todo gênero e levá-los a um terapeuta para obter um diagnóstico.

Agora, você imagina o que é conviver com loucos durante 10, 15, 20 anos?

Eu sei porque participo do programa Sala de Redação há 38 anos e o que já passou de louco por aquele programa não está no gibi.

Fora os que ainda lá permanecem.

O problema é o louco sem diagnóstico. Ele segue pela vida fazendo estragos porque acha que não é louco, pensa que é certo, normal.

Começa que ninguém é normal: 90% das pessoas têm no mínimo neuroses.

E 90% das pessoas não sabem, nunca souberam nem nunca vão saber que têm distúrbios emocionais ou mentais.

Foi por isso, para não me igualar aos desregulados que não têm diagnóstico, que fui buscar um diagnóstico.

E tive a coragem aqui numa coluna de declarar que eu era bipolar.

Bipolar é o cara que alterna a depressão com a euforia. Uma hora ele está para baixo, outra hora para cima.

E o certo, nesta questão do humor, é estar exatamente no meio da linha vertical que tem a depressão num extremo e a euforia no outro.

O deprimido todo mundo conhece. O cara está arrasado, nada há que o anime ou alegre.

Já o eufórico é o cara que tem superativadas as suas emoções. Ele é um emocional exagerado.

E vive de arroubos e explosões de alegria, comete nos gestos e nas palavras muitos exageros que se tornam de alguma forma agressivos para os seus circunstantes.

Em contraposição, também se extrema a criatividade no eufórico. Ele se torna mais imaginativo e inteligente.

Só que o eufórico passa do limite e se torna socialmente inconveniente.

O ideal é o humor estar controlado, nem tão para baixo que beire a depressão – ou afunde nela – nem tão para cima que beire a expansividade – ou mergulhe nela.

Eu tomo remédio para a bipolaridade. De que adianta, se as pessoas com quem convivo não tomam remédio para seus distúrbios?

Ou seja, remédio para mim eu tomo, já estou diagnosticado. Mas como é que vou obter remédios para o enfrentamento, a fricção entre mim e os que não são diagnosticados?

Lá no Sala de Redação* é assim, naquele serpentário só eu sou controlado por remédio. Existem vários outros que nunca foram monitorados por qualquer psicanalista ou psicólogo.

E eu, contido, fico assoberbado e cercado por vários ângulos pelos não diagnosticados.

Em qualquer família ou círculo social restrito, todos têm de obter diagnóstico.

Caso contrário, corre-se o risco de o diagnosticado ficar pior do que os outros.

Jornal "Zero Hora", Porto Alegre, 18 de maio de 2009 (pág. 35)

* Sala de Redação: programa sobre futebol e outros temas, em formato de debate, há mais de 30 anos no ar na Rádio Gaúcha; nele o jornalista Paulo Sant'Ana contracena com outras grandes figuras do jornalismo e rádio gaúchos: Rui Carlos Ostermann, Lauro Quadros, Kenny Braga... A referência do Sant'Ana ao "serpentário" deve ser levada no sentido humorístico, pois convive e é querido (e aturado) por esses colegas há décadas...

quinta-feira, 15 de julho de 2010

Gótico


Estou determinado
A ficar vivo
Por teimosia, por sorte...
Só assim, teimando em ser
Diferente
Terei voz para louvar
A Morte.

sábado, 10 de julho de 2010

Transformar-se...


Eras força,
Risos,
Confiança...
Agora, na derradeira
Hora
Da "Dança Macabra"
Te tornas menos que um nada
Morto...
Corpo posto
Na madeira
Madeira posta
Na terra
Terra posta
Na crosta
Das rochas
Decomposta...
E, ao final disso tudo,
Tu que te achavas tanto
De ti, resultou apenas
Húmus...
Humanos,
Se um dia o fomos
Achando que podiamos tudo
Encerramos o espetáculo
Como adubo...

segunda-feira, 5 de julho de 2010

Crucificado


Uma vez em erro
Para todo o sempre
Crucificado
Aqui estou,
Meu Cristo
Sangue e agonia
Ao teu lado...
Pai, como é pesado
Este fardo!
Perdão, Senhor, mas
Às vezes duvido
Razão escaldada
Coração doído...
Diz-me:
"Pega a tua cruz
E segue-me"
Como, Senhor
Se não posso soltar-me
Desses cravos?
Se não posso morrer
Tua morte Gloriosa,
Sacríficio que nos salvou?
Apenas me restou,
Esperar que o sangue escoe
E nada nais reste
E que os abutres devorem
Minha carne
E dispam-me
De minhas vestes...

quinta-feira, 1 de julho de 2010

Submergir


Submergir
Na dor
Mergulhar
Na solidão
Deixar-se afundar, lentamente,
No isolamento
(Oceano de lamentos...)
Uma vida inteira?
Um instante?
Tanto hoje
Quanto antes
Não faz a mínima
Diferença...
Descrença...
Sigo, ciclicamente,
(Vez por outra)
Emergindo
Qual um Costeau
Sem propósitos
Para encher os pulmões
De ar
E, ritualisticamente,
Voltar a habitar
As fossas abissais
Do óbvio...

segunda-feira, 28 de junho de 2010

Poema Anti-psicótico


A mente
Inda que aos turbilhões
E tempestades
Navega
Perseguida pelas frotas inimigas...
Antes psicótico
Que robótico
Antes o tormento
Que a morte do pensamento...

Paisagem da Janela


Da janela lateral
Do quarto de dormir
Vejo uma igreja, um sinal de glória
Vejo um muro branco e um vôo pássaro
Vejo uma grade, um velho sinal
Mensageiro natural
De coisas naturais
Quando eu falava dessas cores mórbidas
Quando eu falava desses homens sórdidos
Quando eu falava desse temporal
Você não escutou

Você não quer acreditar
Mas isso é tão normal
Você não quer acreditar
E eu apenas era
Cavaleiro marginal
Lavado em ribeirão
Cavaleiro negro que viveu mistérios
Cavaleiro e senhor de casa e árvore
Sem querer descanso nem dominical

Cavaleiro marginal
Banhado em ribeirão
Conheci as torres e os cemitérios
Conheci os homens e os seus velórios
Quando olhava na janela lateral
Do quarto de dormir

Você não quer acreditar
Mas isso é tão normal
Você não quer acreditar
Mas isso é tão normal
Um cavaleiro marginal
Banhado em ribeirão
Você não quer acreditar
Que eu às vezes era...


Música consagrada na interpretação de Flávio Venturini - Composição: Lô Borges e Fernando Brant

Lírios e Vestes Brancas


Trajando vestes brancas
Desnudei-me, diante de ti
Meu eu
E minhas humildes
Esperanças...
E os lírios, com cuidado,
Empunhados
Foram - vejam só! -
Pisoteados...
As vestes, outrora brancas,
Dilaceradas
Em farrapos se fizeram...
(Situa-te, poeta!
Nessa época hi-tech
Os sentimentos, já eram...).
Pois há amores que se perdem
Sem nunca terem se achado...
Não, não deve haver
Almas gêmeas
Mas almas, apenas.
Visões tão distintas
Que é possível pintar
Tantos quadros diferentes
Com a mesma tinta...
Não minta!
Se a ti pareceu
Meu entusiasmo,
Imposição
Minha vontade,
Delírio ou ânsia e
Minha luz
Breu
Então, algo se perdeu?...
Entre o coração, que a ti
Ofereci
E o punho metálico
Que o espremeu.
Sangro,
Sangra o meu amor...
Para um dia, quem sabe
Se recompor
Cicatrizado?
Como uma ferida, ou tumor
Em coágulos...
Pois assim é a vida
Eu trajei vestes brancas
E colhi lírios
Vesti a ilusão, apaixonado
E caí, ingênuo:
Prostrei-me de joelhos
Mutilado...
Ó amor, infernal tormento
Mesmo ajoelhado,
Sangrante e estilhaçado
Louvo esse caprichoso,
Cruel,
E sublime
Sentimento

(Sejas tu Eterno
Ou, efêmero.
Questão de momento...)

sábado, 26 de junho de 2010

Poema da quase madrugada


O sono insiste
E eu insisto mais ainda
Em ficar acordado
Ouvindo o silêncio
(Raro silêncio...)
A Vida é irônica
Mas não tanto, quanto
A Morte...
Pois, se o silêncio agora
É sorte
Com ela será sobra
A obra
De toda a eternidade...

segunda-feira, 21 de junho de 2010

Antipsicótico


Introduzimos em seu crânio
O instrumento óptico
E também, a custa de muita dor
Nas partes corretas do cérebro
Os fios do amplificador

Que não saia dessas quatro paredes
E não, em hipótese algulma!
Passe daquelas portas
A estarrecedora constatação:
Era tudo verdade...
O louco era, em verdade, são...

Pois agora, todos nós, "doutores",
Vemos (de fato!) as criaturas medonhas
A rasgarem-lhe a alma
Monstros escuros...
E ouvimos, me pergunto, loucos?
Urros...
As vozes que clamam, raivosas,
Pela Morte, pelos espinhos e pelas rosas...

Não. Encerremos o experimento de todo.
Monstros e vozes são alucinações
Produto de projeções, fixações
Ciladas e ilusões
Da mente...
Freud não mente.

Enfermeiro, tome o demente:
Aplique-lhe altas doses
Do anti-psicótico
Até que o seu olhar
Pareça sequer notar
O que lhe chega ao nervo ótico...

Pois assim caminha a ciência
E a psiquiatria, de modo geral
Cada paciente é tal como um rato
E, neste vasto laboratório de experimentações
(Tantas doses, tantas combinações)
Não passaremos, afinal,
De uma consciência vegetal...

domingo, 20 de junho de 2010

Albert Speer fala com as flores - Luís Fernando Veríssimo


"Nosso plano era que a Europa fosse um jardim organizado. Livre da erva daninha do bolchevismo"

(Da série "Diálogos Impossíveis"). Albert Speer foi o arquiteto de Hitler e o ministro de armamentos do Terceiro Reich durante a II Guerra Mundial. Foi ele o responsável pela deportação de milhões de pessoas para trabalho escravo na máquina de guerra nazista. Julgado em Nuremberg, foi condenado a 20 anos de prisão. Entrou na prisão de Spandau, em Berlim, com 42 anos e saiu com 61. A prisão era administrada, em rodízio, por militares americanos, ingleses, franceses e russos, e especula-se que sua sentença só não foi encurtada porque os russos não queriam perder a única presença que mantinham em Berlim Ocidental, na guarda compartilhada de Speer.

Durante seu internamento, Speer leu, escreveu e cuidou do jardim da prisão, dedicando cada vez mais tempo e atenção às flores e à limpeza dos seus canteiros. Num diário, escreveu: "Anos atrás precisei organizar a minha sobrevivência aqui dentro. Isto não é mais necessário. O jardim se apossou completamente da minha vida".

Speer foi libertado em setembro de 1966. Pode-se imaginar que no seu último dia de internamento tenha passeado pelo jardim da prisão, dando os últimos retoques nos canteiros que abandonaria no dia seguinte. Talvez tenha até pensado em ficar, ou em pedir licença às autoridades para voltar lá regularmente e continuar seus cuidados. Os americanos dariam boas risadas do seu pedido. Os franceses o achariam poético. Os ingleses o ignorariam. Os russos o negariam.

Speer talvez tenha falado com as flores naquele seu último passeio.

— Adeus, minhas queridas.

— Adeus, doutor.

Não o surpreenderia, ouvir as flores falando. Elas o tinham ajudado a não enlouquecer em Spandau. Era justo que reivindicassem um pouco de loucura, no final, para poderem se despedir do seu benfeitor. Só um pouco.

— Vou sentir saudades de vocês.

— E nós do senhor.

— Fui um bom jardineiro, não fui?

— Um ótimo jardineiro.

— Aproveitei minha experiência como organizador. Este sempre foi o meu forte.

— Deu para notar. Este é, sem duvida, o jardim mais bem organizado da Europa.

— Arranquei a erva daninha. Adubei quando era necessário. Podei na hora certa. E tudo de acordo com um plano. Com uma visão do que um jardim deveria ser. Uma visão superior.

— As plantas precisam de alguém com uma visão superior para lhes revelar seu destino. E o resultado aí está. Vocês. O meu orgulho.

— Nós também nos orgulhamos do que o senhor fez.

— Eu sou um homem bom, não sou?

— Um homem maravilhoso.

— Mas, doutor, só nos explique uma coisa. Por que um homem maravilhoso como o senhor ficou 20 anos na prisão?

— Foi um mal-entendido.

— Como assim?

— Nós tínhamos um plano. Um pouco como o meu plano para este jardim. Era isso: nosso plano era que a Europa fosse um jardim como este. Um jardim organizado. Livre da erva daninha do bolchevismo. Adubado com o sangue honrado dos seus mártires e o esterco dos seus inimigos naturais. Podado das raças desnecessárias que ofuscavam sua beleza e atrasavam sua glória. O nosso era um projeto estético. Não foi entendido.

— O senhor era um jardineiro e foi confundido com um monstro.

— Exato. Preferiram dar mais importância à dor passageira de alguns milhões de pessoas do que à estética. Como se arrancar erva daninha fosse um crime! Vocês, não. Vocês se submeteram à minha visão superior, à minha tesoura e à minha espátula, sem dar um "ai".

— Sabíamos que era pela nossa maior glória.

— Vocês me entenderam! Um jardim sem uma visão superior não é um jardim, é uma floresta. É o caos. Eu os salvei da desordem. Infelizmente, não pude fazer o mesmo com o resto da Europa.

— E agora, doutor? O que será de nós?

— Não sei. Eu me preocuparia se aparecerem russos com ancinhos. Os russos não têm nenhum senso estético.

— Adeus, doutor.
— Adeus.


http://www.clicrbs.com.br/especial/rs/donna/19,206,2942309,Verissimo-Albert-Speer-fala-com-as-flores.html (ZH de 20.06.2010)

quarta-feira, 16 de junho de 2010

Absyntho


Vou lhes contar como me sinto
Vendo passado e futuro
No fundo do bálsamo verde
Absyntho...
Lamento, mas é indispensável
O entorpecimento
Diante de tantas frustrações
Desalentos,
Indiferença e brutalidade.
Se eu quenho que ser a máquina
A cumprir sua função
Na sociedade
Se o meu sentir é questionável
Ou proibido
Se a minha identidade, no momento
Só incomoda
O "equilíbrio" do Sistema
(Não, não tenhas pena!
De certa forma tambám sou culpado)
Deixe-me viver, então,
No piloto automático
Ajustando as engrenagens
Desde "Admirável Mundo Novo"
E voltar para casa
De novo
Com graxa nas mãos
(à guisa de meu de sangue...
Meu sangue!)
Um pouco mais diminuído do que saí
Na manhã anterior
Pois, aqui,
Não se morre de uma vez,
Amigos...
A Morte corrói qual ácido,
Por anos a fio
As almas de quem se rouba a esperança...
Não quero mais nada
Não me restou sequer
A vontade de querer.
Preciso só me entorpecer
Com o líquido verde e,
Após minhas noites de pesadelos
Estar pronto para a próxima jornada
De uma rotina plena
De nada...

terça-feira, 15 de junho de 2010

Cão raivoso


Luto com minha loucura
Como quem atiçasse
Um cão raivoso
Contra seu próprio dono
(Pasmem, sou eu esse dono!)
Por completo Ela a mim
Se mostra
Nua e crua...
(Seus caninos agudos
Escorrendo a fúria incontida)
A cada avanço,
A cada mordida,
Que põe meus ossos a mostra,
Mais minha vontade se prostra...
Ó Lua, mãe de todos os lunáticos
Santa de todos os loucos erráticos!
Se ao menos esse cão,
Essa loucura
A vida de vez me tomasse,
Invés de lentamente torturasse...
Tirando da carne, cada vez,
Um quinhão
Matando-me, lentamente,
À prestação
Um bocado a cada surto...
Sem qualquer outra opção
De vez
Eu surto, então.
Demente, sozinho,
Já não tenho bússola, nem norte,
Nem sorte, nem razão...
Segue andarilho,
Louco maldito e maltrapilho
Sem direção...
Pois, para quem se perdeu
O caminho agora
É qualquer chão.

Ícaro e o Sol


Meu sonho de cera
Era meu tudo
Absoluto...
Então, lancei-me
Mudo
Rumo ao céu
A respiração presa
E, por um instante,
Um ínfimo instante
Planei!
Cheguei perto demais
Do Sol, porém
Que derreteu minhas asas
E viu-me cair das alturas
Com seu ar majestoso
E zombeteiro...
Indiferente... Estou diferente.
Sangue... Ossos partidos,
Dor...
Morte?
Não, pois o irônico Zeus
Quer que para sempre me lembre
E aos mortais dê testemunho
Que o céu pertence aos Deuses
Unicamente a eles...
E, da matéria que se constroem
Os sonhos
Do seu avesso,
São feitos também os pesadelos...

(Faça um sinal,
Cante uma canção
Sentimental
Em qualquer tom...)*

* Trecho da Música "Sonho de Ícaro", do cantor e compositor Biafra

domingo, 13 de junho de 2010

Insone


Coisa rara de acontecer
A quem vive a recorrer
A remédios...
E cujo remédio
Às agruras da vida
É, tão somente
O curto sono...
Sim, eu curto o sono!
Já que a vigília é tão frustrante...
Mas hoje estou... insone?
O que fazer
Além de combater
Os demônios que me cercam
Desperto?
Ah, nem o consolo da noite!
Espera...
Olha... que o sono já vem!
Bom sinal
Por umas horas, mal-sonhadas,
Deixa estar
Posso esquecer de toda essa rotina
Que só me resta aguentar.