quarta-feira, 16 de dezembro de 2009

Quo Vadis, Domine?



Aonde vais, Senhor?


Deixa-me contigo ir,


Trilhar teus caminhos...


Longe deste deserto,


Cujo único Oasis


É meu mar de lágrimas...


Impele-me como a Paulo


A pregar Tua Palavra


Por todos os cantos


Com isso deixando para trás


Desencantos


Encantado no teu louvor...


Ou como Pedro,


Possa eu


Com fé e firmeza,


Ser a pedra


(Ou mesmo o sino)


Da tua Igreja...


Pois, cego


Busquei amor e paixão,


Fortuna e conforto,


Amizade e abrigo,


Neste mundo de mentiras...


E a colheita foi


(E outra não poderia ser)


Desilusão e solitude,


Miséria e dor,


Traição e desalento...


Pois, não há no prazer nada,


Além do momento...


(Um não contento...)


Fugaz e ilusório...


Sei que um cego


Não pode guiar outros


Na mesma condição...


Restaura-me, então, Senhor


A visão


(Luz do discernir!)


Para que eu possa


Santificado,


Fugir


Deste Vale das Sombras da Morte...


(De todo o meu pecado...)


Que eu possa, então, são e forte


Proclamar tua Redenção


E, pela fé, transcender minha miséria...


Aonde vais, Senhor?


Leva-me contigo


Pois hoje percebi


Que não restou consolo,


Ou fundamento


Do castelo que ergui


Com as pedras que me atiraram...


(E que já não tenho dedos pra contar...)


Nem dos tesouros que ajuntei na Terra


(Que os ratos vão devorar...)


Que eu seja, portanto,


Aquele ainda que, errante,


Trilha o Mundo


Buscando o Teu caminho...


(Com Deus, não há homem sozinho!)


Aonde vais, Senhor?


Deixa que eu siga


A Tua estrada


Estreita senda


Até o final...


Pois há mais glória


No Teu santo martírio,


Que nessa vida banal,


Estéril e sem sentido...


Então, deixa-me estar


Crucificado contigo...

domingo, 13 de dezembro de 2009

Paciência


Quando todas as coisas dão errado

Mesmo o que deveria ser certo,

Tenha a serenidade por perto

Tenha paciência...

Paciência...

Uma sabedoria, uma ciência,

Ou, então,

Uma alienação?

Lembram aquela história

Das rãs que cairam

No pote de leite?

A paciente (ou inerte?) afundou

E se afogou...

A irada tanto esperneou,

Que o leite virou manteiga!

E dali escapou...

Vida estúpida!

És como um casulo que me abriga

E me aprisiona

No meu próprio Inferno...

Quisera eu ter a coragem

De transformar minha raiva

Em Ira

E me evadir de ti!

Mas tenho somente paciência...
Uma paciência inerte...
Chegar ao fundo do pote é questão de tempo

Portanto, de qualquer forma,

Acabarei "livre"

Um dia...

Doentes e Ratos (Debate)


por Paulo Gleich, jornalista


O suicídio da atriz Leila Lopes fica como um enigma mórbido a ser decifrado: ele fala tanto sobre a admiração do público quanto sobre o sentimento de júbilo pelo sofrimento do outro

Semana passada, na noite de quarta para quinta-feira, a atriz Leila Lopes fez sua saída de cena, coroada com um ato final trágico. Parece não haver dúvidas de que se tratou de suicídio: estava sozinha em seu apartamento, não havia sinais de violência nem de arrombamento, foram encontradas embalagens vazias de medicamentos e comida com veneno de rato e, também, duas cartas: uma endereçada ao marido, outra à família. Cartas ao lado de um corpo são um sinal quase inequívoco de suicídio: praticamente extintas de nosso cotidiano – temos tantos outros meios mais rápidos para nos comunicarmos –, continuam sendo usadas por aqueles que decidem acabar com sua vida, pois sua mensagem deve chegar atrasada. Antes de entrar em cena em sua primeira novela, em 1990, Leila Lopes era “apenas” uma professora em Esteio, uma cidade dos arredores de Porto Alegre. A fama veio alguns anos depois – não sem ironia, o papel que a consagrou foi o de uma “professorinha”. Essa, porém, ocupava outro lugar em relação à predecessora: em vez de dezenas, eram milhões os olhares que passaram a contemplá-la. Depois disso, fez participações menores em novelas, sendo a última em 2000. Após alguns anos afastada dos olhares, disputados por cada vez mais concorrentes, Leila decidiu pagar para ver, ou melhor, para ser vista: aceitou um convite para estrelar um filme pornográfico. Para além da compensação financeira, isso lhe rendeu o retorno à cena midiática, que acompanhou a produção e o lançamento do filme com entrevistas, reportagens, participações em programas de TV. Estava de volta à cena. Como toda “notícia”, com o tempo essa também perdeu a validade; Leila perdeu os olhares. Procurou então o público para mostrar-se arrependida de fazer o filme, o que lhe rendeu novos minutos em cena. Depois, acabou voltando atrás e assinou contrato para outros dois filmes. Mais minutos. Em agosto deste ano, uma longa internação hospitalar ocasionada por fortes dores cuja origem jamais foi descoberta. Alguns minutos a mais. Ultimamente, tinha sua dose semanal de minutos garantida: apresentava um programa em um canal de TV erótico. Na noite antes de sua morte, Leila falou por telefone com seu assessor de imprensa, a quem mostrou-se preocupada pelo futuro de seu programa na TV. Sentia-se ameaçada de, outra vez, ter de sair de cena. Decidiu fazê-lo por conta própria e em cena. Não podemos ignorar que, apesar de trágico, seu ato derradeiro foi um sucesso – obteve ampla divulgação nos meios de comunicação. Conseguiu, inclusive, tornar sua saída de cena um fato excepcional: uma regra sagrada da imprensa é a de não publicar suicídios, salvo em casos em que o interesse público o justifique. O veto à publicização de casos de suicídio não é por uma mera questão moral, pelo tabu associado a este assunto. Quem trabalha de perto com o sofrimento humano sabe quão frágil é “ser humano”, e que há muitos outros que, como Leila, com muito custo se equilibram em uma corda-bamba estendida sobre um escuro precipício. Muitas vezes, quando o esforço parece não compensar a caminhada, a ameaçadora escuridão do precipício apresenta-se como uma solução definitiva para apaziguar o sofrimento. O fato de alguém (especialmente um alguém colocado em um lugar de ideal ao olhar público, como o são os “famosos”) resolver pular da corda pode ser o argumento derradeiro para alguém dar esse salto mortal. Um suicídio não é apenas um ato desesperado de alguém acometido por um sofrimento tão grande que torna insuportável continuar vivo: é também um assassinato invertido, que elimina, no mesmo golpe, a fonte que, voluntária ou involuntariamente, causa o sofrimento. Leila, com seu ato, não matou apenas a si própria, mas também a todos aqueles olhares que, sob o disfarce sedutor do interesse e da admiração, exigiam que ela fosse cada vez mais além para que continuassem a mirá-la. É cruel esse amor nada incondicional do olhar público: apenas corresponde ao amado na medida em que este age segundo suas expectativas. E as expectativas de um público cada vez mais sedento pela novidade, pela transgressão, não são poucas: é preciso superá-las para obter uma olhadela amorosa. As cartas deixadas por quem se vai são um ingrediente comum nas cenas montadas pelos suicidas. Essas cartas, geralmente endereçadas às pessoas mais próximas do suicida (no caso de Leila, seu marido e familiares), são uma tentativa de justificar seu ato e, com isso, apaziguar a dor causada por aquele que resolveu deixá-los. Tentativa, no entanto, fadada ao fracasso: quaisquer sejam as palavras deixadas, estas jamais darão conta de preencher o vazio que fica no lugar de quem resolveu partir antes da hora. No caso de Leila, uma figura pública, este vazio se instala também no seio da “grande família” midiática que a acompanha, família com a qual compartilhava detalhes do cotidiano, opiniões, êxitos e frustrações.Um suicídio é um mórbido enigma que cabe aos que ficaram tentar decifrar. A nós, leitores e telespectadores, a quem Leila tantas vezes se expusera, não foi endereçada nenhuma carta para justificá-lo ou para nos apaziguar. O que Leila nos deixou foram suas novelas, filmes, entrevistas, declarações – sua história pública, que tem sido vasculhada na busca de explicações, indícios para seu ato final. Mas, além disso, Leila também deixou sua morte tornada pública e executada com um coquetel de paradoxal composição: um produto destinado a matar animais imundos, outro a curar pessoas enfermas. Remédios e veneno, doentes e ratos. Talvez possamos tomar isso como as palavras da carta que Leila deixou para ser lida por nós, o público que a acompanhava ora com admiração, ora com Schadenfreude – palavra alemã que expressa o tão humano sentimento de alegria pelo sofrimento do outro. Entre veneno e remédio há uma diferença meramente quantitativa: droga é uma palavra que indica isso, é usada em ambos os sentidos. Haveria, no ato de Leila, talvez também um desejo de curar-se? Já a palavra doença, em espanhol, também tem dois sentidos: morbo significa, além de enfermidade, “atração por acontecimentos desagradáveis”. E rato, no Brasil, é uma palavra usada também para designar um trapaceiro, traidor. No caso de Leila, quem é o doente – ela, que publicamente mostrara seu adoecimento, ou nós, que acompanhamos gozosos seu sofrimento? E quem são os ratos – ela, que se sujeitou a “imundícies” por um pouco mais de fama, ou nós, que lhe ofertamos essa droga para chafurdar em sua miséria humana, portanto, também nossa?


Jornal Zero Hora

Caderno Cultura - pág. 06 - Sábado, 12 de dezembro de 2009.

A Marca da Maldade


de Cláudia Laitano, escritora, jornalista e editora do Segundo Caderno (ZH). Essa crônica lembrou-me meus "áureos" tempos de "Primeio e Segundo Graus", onde além de "esquisito" e "CDF" eu era um dos menos favorecidos economicamente, o que implicava, entre outras coisas, repetir roupas de má qualidade e usar tênis batidos e rasgados... A Escola Estadual Presidente Roosevelt (todo meu ensino fundamental), e a Escola Técnica Parobé (meu ensino médio)... Nos anos 80, o adjetivo usado em Porto Alegre para os "nerds" ou "outsiders" era "mongolão", uma alusão às crianças portadoras de Síndrome de Down que eram chamadas, pejorativamente, de "mongolóides"... Essa alcunha me acompanhou por muito, muito tempo... Na 5ª série do ensino fundamental sofri ataques de bullyng (esse foi o termo em inglês cunhado por estudiosos para esse tipo de "terrorismo" e assédio moral infantil) tão intensos que entrei em um processo de auto-isolamento e repeti de ano, pois não conseguia aprender nada... Entre as 6ª, 7ª e 8ª séries (anos em que a coisa chegou ao auge, quando convivi com colegas que me atormentavam sistematicamente com ameaças físicas e morais) e nos primeiros anos do ensino médio, me sentia tão pouco confiante que não tinha coragem de me aproximar de amigos ou mesmo garotas que demonstravam se interessar por mim... Agora, com 36 anos, noto ser impossível esquecer certas coisas... Elas criam um rombo tão grande em nossa personalidade que não sei dizer se, e em que medida, esse rombo algum dia foi (ou será?) fechado...

"Não sei onde ele mora, se tem irmãos ou como são seus pais. Tudo o que eu sei dele é o que as colegas contam, e o que elas contam é o que acontece na escola. Para as meninas, o colega de classe é um tormento manejável. Chama as gordinhas de baleias, as magrelas de anoréxicas, as estudiosas de CDF, mas elas conseguem lidar com o incômodo de forma razoável, aliando-se e protegendo-se umas às outras. Unidas, as meninas se transformam em uma espécie de entidade quase imbatível. Quando o colega as surpreende em um dia ruim, ficam chateadas, algumas choram, mas a camaradagem das amigas e, mais que isso, a facilidade com que se comunicam, tanto na escola quanto em casa, tendem a amenizar os efeitos da provocação. (As muito tímidas, infelizmente, não têm essa sorte.)O teatro social coloca os meninos em uma posição mais frágil em um ambiente contaminado por manifestações de perversidade desse tipo. É mais rara entre eles a percepção de que uma palavra, um apelido ou uma brincadeira podem ser tão violentos quanto um tapa ou um pontapé. Uma covardia física talvez despertasse em parte do grupo o sentido de proteção do mais fraco. Mas não lhes ocorre que quando o colega chama o amigo de “bicha”, de forma constante e cansativa, o tormento pode ser tão ou mais doloroso. O menino cruel tem terreno livre para perseguir sua vítima sem que os amigos façam nada para defendê-la – como se um dos rituais da prova de masculinidade fosse exatamente este, suportar as provocações sozinho, em silêncio, ou resolvê-las com algum tipo de violência. De vez em quando, o menino ofendido chora no banheiro. Volta para a sala de aula com os olhos vermelhos, mas apenas as meninas parecem perceber – e se preocupar com ele.Histórias como essa se repetem todos os dias, em escolas ricas e pobres, com crianças de todos os tipos de famílias. Em conjunto com o que elas aprendem com os pais, essas primeiras experiências de interação social começam a moldar os padrões de relacionamento que terão na vida adulta – a maneira como vão dominar, ou não, a agressividade e a frustração, o sentido de grupo, o convívio civilizado com a diferença, a construção da noção de certo e errado, o limite entre a brincadeira e a maldade. Mas nem os pais mais presentes na vida dos filhos conseguem ter toda a dimensão do jogo de poderes e micropoderes que se estabelece em uma sala de aula, empurrando uns para o papel de vítima e outros para o de vilão. Na escola, a criança constrói uma nova identidade, separada da família e sujeita a outras circunstâncias, e os pais devem aprender a respeitar essa independência – sem perder de vista que a maneira como os filhos se comportam ali, as brincadeiras que fazem e as pequenas crueldades que infligem são um recado eloquente sobre o que vai bem, ou não, dentro de casa.Um menino cruel não será necessariamente um crápula na vida adulta. Se a família e a escola falharem de todas as formas possíveis, ainda resta o imponderável e sua maravilhosa capacidade de corrigir rotas e forjar destinos inesperados. Mas, se a família, a escola e o destino não ajudarem, esse menino pode vir a se transformar em um homem incapaz de se controlar ou de perceber o sofrimento alheio – e não consigo imaginar uma maldição maior para os pais do que ver o filho se transformar em um adulto desse tipo."

Cláudia Laitano

Jornal Zero Hora, Sábado, 12 de dezembro de 2009. Página 02

sábado, 12 de dezembro de 2009

Como um Van Gogh


Hoje nada valho
Apenas um pobre louco
A pintar seus Girassóis sob o céu azul
(Que, para mim, tem sempre nuvens escuras)
Talvez algum dia
Quando não for nada mais que pó
Depois de, sozinho
Em algum sanatório
Com um tiro no peito
Fizer o que já deveria ter feito,
Talvez, séculos depois
Achem-me algum valor...
Nos meus escritos,
Numa maneira de expressar, talvez
Uma dor que não cabe no peito
Por isso ele tem que explodir
Para que a dor
Entre sangue e Morte
Possa, livre, sair...
Querido Vincent
Nunca grangearia tua admiração
Pois não sou digno de tua grandeza
Sou apenas aquele que deseja
No silêncio de uma noite escura
Por um ponto final em toda essa loucura...

Memórias Póstumas


Que ironia é a Morte...

Nunca recebi tantas flores,

Quando estava vivo
Para apreciar seu aroma...

A Ratoeira


Eu era um mísero rato

A perseguir

A saciedade da fome...

Quando senti

O aroma do queijo

Desejo...

Fui ao seu encalço

Dei-lhe a primeira

E saborosa

Dentada

Quando senti a aste

(Cadafalço!)

Da ratoeira

A rasgar-me as carnes...

Agora, aguardo a Morte

Resta-me só o consolo

Do fino queijo

Que rôo devagar

Como devagar esvai-se

A minha vida...

Homem! Põe o dedo

Em tua ferida!

Não és melhor que um rato

E, tuas escolhas, prisioneiras,

São tais como se fossem

Ratoeiras...

Pela comida,

Pela família,

Pelo trabalho,

Morres um pouco

A cada dia...

Perdendo tudo aquilo

Que "serias"...


(As coisas que nos cativam são, afinal, aquelas que nos cativam...)

Cansaço


Eu, que me perdi
De mim mesmo
Só me encontro no sono
Que pouco consola
E logo acaba...
Já não mais leio nada
(Mente cansada...)
Sequer penso, não há tempo!
Entre meus tantos papéis
No teatro da vida...
O sustento suado
À custa da alma ferida
Tristezas, efêmeras alegrias
Companheiras de viagem
Que me acompanham nesse turbilhão
Onde não sei bem onde estou
Nem quem sou...
Mas, onde fui parar "eu" mesmo?
Em meio ao meu interior inferno?
Talvez a resposta se ache
Num frio inverno
Quando o sono, que consola,
Não será breve
Mas eterno...
(E por ele espero... virá logo?
Só Deus - ou minha navalha -
O sabem...)