sábado, 28 de novembro de 2009

A Lição do Goleiro - Moacyr Scliar



Na semana que passou uma sombria notícia abalou o panorama esportivo mundial: a morte, por suicídio, de Robert Enke, goleiro da seleção nacional da Alemanha. Depois de escrever uma nota sobre sua morte, ele deitou-se nos trilhos da ferrovia e foi esmagado por um trem que se aproximava a 160 km/h.Robert Enke tinha 32 anos e há muito tempo sofria de severa depressão. Mas era algo que guardava em segredo, por receio de prejudicar sua carreira esportiva. O clube ao qual Robert pertencia, o Hannover, fez questão de dizer que jamais havia pressionado o goleiro no sentido de ocultar a depressão; simplesmente não sabiam o que se passava. Algo semelhante disse o terapeuta de Robert, Valentin Markser, que o tratava há seis anos: “Eu não sabia que o risco era tão grande”.





A viúva do jogador, Teresa, deu um pungente depoimento sobre a morte de Robert. Seu objetivo: chamar a atenção para o problema da depressão. No que está inteiramente correta. É incrível que esta doença, a mais frequente das enfermidades mentais (acomete, segundo a Organização Mundial da Saúde, cerca de 12% das pessoas), ainda seja tabu. Mas o segredo é explicável. Sociedades competitivas, como aquelas que atualmente predominam em nosso mundo, não querem saber dos deprimidos. São pessoas tristes, que têm dificuldade em fazer as coisas – perdedores, em outras palavras.A reação diante de um depressivo é frequentemente de irritação: te anima, cara, sai dessa. Como se uma situação caracterizada por distúrbios da química cerebral dependesse de vontade própria. Em contraste, o maníaco (lembrando que mania e depressão se alternam na doença bipolar) é, ao menos na fase inicial da doença, um cara simpático, energético, sempre às voltas com projetos, mesmo que malucos. Este ganha das pessoas o benefício da dúvida: pode ser que ele seja doente, mas pode ser que esteja às vésperas de lançar um grande negócio. Pode ser que seja um vencedor.





O caso de Robert encerra uma importante lição. Quem sofre de depressão deve pedir ajuda, como pede ajuda quem está com cólica renal, ou com o braço quebrado, ou com uma hemorragia. Mesmo porque hoje existem medicamentos poderosos para controlar os sintomas da depressão. E, muito importante, existe a psicoterapia, que nos faz entender o que se passa e divisar possibilidades para sair do quadro. É tarde para salvar Robert Enke, mas não é tarde para salvar milhões de pessoas que sofrem de problema semelhante. A depressão não é um fracasso. A depressão faz parte da condição humana, e como tal deve ser encarada.



Moacyr Scliar é um médico e escritor gaúcho de origem judaica, membro da Academia Brasileira de Letras. Atua também como cronista de ZH. Entre seus maiores sucessos literários destacam-se "A Guerra no Bom Fim", "Um Centauro no Jardim", "O Exército de um homem só", entre outros.

(Caderno Vida, Zero Hora, coluna "A Cena Médica", de Moacyr Scliar - 21.11.09, pág. 02)

segunda-feira, 16 de novembro de 2009

Dor


A dor que rasga a carne
Não é nada,
Comparada
À dor que roi a alma
Tristeza...
De lúgubre beleza.
Alivia?
Talvez, um dia,
Com sorte
Há de chegar a Morte...

segunda-feira, 2 de novembro de 2009

O Elogio da Lentidão



Inauguro aqui postagens com textos e poesias alheios que ne chamaram a atenção, por seu conteúdo, sensibilidade e por vir ao encontro do meu modo de ver o mundo. Cláudia Laitano é cronista semanal do jornal Zero Hora, editora do Segundo Caderno, e nos brindou com essa excelente crônica no último sábado, 31.10.09. Segue...



O elogio da lentidão



Em um comovente discurso durante a inauguração de uma biblioteca do MST, no interior de São Paulo, há pouco mais de três anos, o ensaísta e crítico literário Antonio Candido, já perto de completar 90 anos, ousou contrariar um dos clichês mais universais da nossa época:“Acho que uma das coisas mais sinistras da história da civilização ocidental é o famoso dito atribuído a Benjamin Franklin, ‘tempo é dinheiro’. Isso é uma monstruosidade. Tempo não é dinheiro. Tempo é o tecido da nossa vida, é esse minuto que está passando. Daqui a 10 minutos eu estou mais velho, daqui a 20 minutos eu estou mais próximo da morte. Portanto, eu tenho direito a esse tempo; esse tempo pertence a meus afetos, é para amar a mulher que escolhi, para ser amado por ela. Para conviver com meus amigos, para ler Machado de Assis: isso é o tempo.E justamente a luta pela instrução... é a luta pela conquista do tempo como universo de realização própria. A luta pela justiça social começa por uma reivindicação do tempo: ‘eu quero aproveitar o meu tempo de forma que eu me humanize’. As bibliotecas, os livros, são uma grande necessidade de nossa vida humanizada... o amor pelo livro nos refina e nos liberta de muitas servidões.”A psicanalista Maria Rita Kehl, que esteve em Porto Alegre esta semana como palestrante do seminário Fronteiras do Pensamento, já havia começado a escrever um ensaio sobre a relação entre o modo como vivemos neste comecinho de século 21 e a explosão do número de casos de depressão no mundo inteiro quando topou com a frase de Antonio Candido e teve um “clique teórico”. No livro O Tempo e o Cão, lançado este ano pela editora Boitempo, a psicanalista desenvolve aquele “clique” mostrando que a pressa para tudo dos dias de hoje, o horror que temos a qualquer tipo de perda de tempo e o hábito recente de não nos desconectarmos do trabalho e das atividades ditas “produtivas” nem mesmo durante as férias estão produzindo o caldo onde a depressão se desenvolve. A depressão, que pode ser definida, grosso modo, como falta de vontade para fazer qualquer coisa, seria uma espécie de reação psíquica ao excesso de coisas que somos cobrados a fazer o tempo todo (inclusive quando deveríamos estar apenas nos divertindo). O sujeito deprimido pula do trem em movimento da vida contemporânea e fica à margem dos acontecimentos – não por escolha própria, mas por falência geral da engrenagem interna que o faz funcionar no ritmo exigido.A falta de tempo para pensar na morte da bezerra, para ver a grama crescer, para namorar sem olhar para o relógio, tudo isso, e a sensação de que devemos sempre estar envolvidos em algo que vá servir para alguma coisa (nem que seja contar para os amigos do Orkut e do Twitter como vivemos a vida intensamente), estão criando a supremacia da vivência sobre a experiência.Enquanto a vivência produz sensações imediatas e passageiras, a experiência é o que nos transforma, porque tivemos tempo para absorvê-la e refletir sobre ela.Antonio Candido tem toda razão: tempo não é dinheiro, é o tecido da vida. Não dá para guardar, deixar para os netos ou transformar em bens imóveis. É pessoal e intransferível, e deveríamos saber usá-lo sem culpa – até mesmo quando não estamos fazendo nada.

(Jornal Zero Hora, Porto Alegre, 31.10.09 (sábado); pág. 02)