quarta-feira, 26 de agosto de 2009

A Armadura


Cai o corpo do terraço

13º andar

Na noite escura

Tudo posso!

Pois, alucinado,

Visto a Armadura

Da Ira

Que contra todos atira...

Agora nada mais importa

Tanta amargura...

Apenas o vôo livre

Abruptamente interrompido

Pela carne crua,

Sangrenta

A estampar com horror

A quieta rua da madrugada

Como o mapa de uma tormenta...


(Recado a todas as pessoas pequenas que se interpõem diariamente diante dos meus grandes sonhos: eu estou aguentando, e vou aguentar continuar vivo. Acredito que o Bem e a Verdade sempre vencem no final, e se tiver que morrer por algo, será por esse ideal...)

Não há


Não há amigos

Com quem contar...

A quem contar...

Só concorrentes.

Nem crianças felizes

(sua entrada é proibida)
Ou manhãs ensolaradas

(essa luz fluorescente já está ótima...)

Há somente o concreto,

A fumaça e o cheiro

Dos cadáveres cremados

E suas cinzas a fecundar

As árvores de dinheiro

Guardadas com zelo

Pelos futuros cadáveres

Que lhes servirão de adubo...

("Olha, que as oportunidades

Escorrem pelas paredes!

Junto com teu sangue

Com o qual rebocaremos esses muros...")

Máscaras


Quantas caras tens

Ó sedutora arlequina?

Mãe, amante, inimiga

A mão que afaga

(a mesma que apedreja)

A faca afiada

Que nos aguarda

Na esquina?

Quem na verdade és?

Santa... Messalina!

Decana!

Caíram-te todas as máscaras

Só te sobrou, insana,

Tua primeira e última verdade:

a falsidade humana...

domingo, 23 de agosto de 2009

Terminal


O doente terminal

Aguarda sua última visita

No último leito do hospital...

A visita, aflita,

Aguarda o próximo ônibus

(Haverá outros, mas não

chegarão... a tempo!)

Sob o terminal... De ônibus

E o tempo?

O tempo ri

Como um demônio infantil

Pois escoa

Insensível às nossas dores e anseios

E ao acidente

Que parou a viagem

Do ônibus a caminho

Exatamente no meio...

(Nada grave, não se assustem!)

Apenas tempo suficiente

Para que o doente, só

Se fosse, para sempre...

Para que a visita que nunca chegou

A tempo

Carregasse consigo a culpa

Pelo resto de seu tempo...

E para que a Morte

Que ali esteve o tempo todo

Risse eternamente

Das peças que pregava...

"Libertas Quae Sera Tamen"


Será com o sangue gelado,

E a carne fria

Que, finalmente, cruzarei os braços

Bradando mudamente:

"Liberdade, ainda que tardia"?

Ah, a morte, essa sacana...

A morte é a derradeira rebeldia.


(uma homenagem ao poema "Tédio", de Olavo Bilac)

Super-herói


O super-herói salvou a criança

De um prédio em chamas

Conteve a queda

De um avião

Foi aclamado pela população

Após impedir que a represa

Se rompesse em mil pedaços!

Conduziu uma bomba nuclear

Aos confins do espaço

Sem que a explosão

Causasse-lhe qualquer perturbação...

Mas quando tirou sua máscara

E vestiu seu traje civil

(No espelho se viu),

Só estava...

E chorou como uma criança

O peito em chamas,

A alma rompida

Como numa explosão nuclear...

Pois, o que quer que representasse,

Aos outros, sua ilusão

Sabia que, de si mesmo,

Não havia super-herói que o salvasse...


(14 de Agosto de 2008)

Resistência


A última ponte ruiu

Nossa Pátria, afrontada

O território invadido

As bestas-feras fazem seu desfiles

Em nossas praças

(Meu olhar perdido...)

A honra que sobrou é apenas

Uma irônica esmola

Da História...

Hoje o vil é o Rei

É dele a vitória

Não se pode chorar

Ou pedir clemência...

Apenas buscar as sombras

Organizar a Resistência

É a perversidade da vida

Ter-se que continuar a lutar

Quando mais te sangram

As feridas...

Nada que nossas pequenas baionetas

Enferrujadas

Ou fuzis de última geração

Do século XIX

Não resolvam...

Quando a verdade, afinal,

Vier à tona

Nada será maior

Que o nosso ideal...


(Hasta la vitoria, siempre!)

Às armas, cidadãos!


Dia após dia

Em busca do pão

E da carne

(Quando por sorte a obtém-se)

Obstina-se o homem

Domado

("Vida de gado")

A um destino infeliz

E a si mesmo diz

Que a renúncia do hoje

Trará um futuro de escolhas

Não, não escondas

De ti mesmo a verdade

("Envelheço na cidade")

Hoje é o futuro

Que a vinte anos sonhavas

Ainda mais triste e mais duro

Do que era teu presente...

Aceitas um conselho?

É inútil, se te rescentes...

Transforma tua mágua

Em fúria incandescente

Varre com aço a falsidade

Que te cerca e te consome!

Toma o teu destino

Em tuas mãos, homem!

Às armas, cidadãos

Que o sangue impuro

Do que está errado

Lave com abundância

Nossos arados...

sábado, 22 de agosto de 2009

Contenção


Metam-me à força
Numa camisa-de-força.
Preciso... vocês precisam
Conter-me!
Não deixar a ira e o desatino
Virem-me à tona...
Pois a humanidade ama
"Meu" Dr. Jeckyll
Mas odeia Mr. Hyde
Por mais que esse último
Seja seu representante
Mais autêntico...
Talvez, por isso mesmo
(Porque afinal, para alguns
Os espelhos são intoleráveis)
Que eu seja sempre o Dr. Banner
Embora frágil, inseguro,
Porém mais agradável, afinal
Do que o monstro verde
E seu rastro de fúria e destruição
Que torna todos os "homenzinhos"
Tão vulneráveis...
(Hulk, não compreendes?
Os homens amam os "doutores"
Não os "doentes"...
Fica mais fácil assim
Fingirem-se de sãos...)
Preciso, de fato, conter-me
Ser menos "eu mesmo"
Que os outros me tragam
Afrontas e problemas
E eu lhes devolva apenas
Soluções e paz
Embaladas para presente...
(Tomem essas belas flores
Meus caros...
Espinhos? Não, não se preocupem!
Ficaram todos em minhas mãos
Isso explica todo esse sangue...)
Preciso, de fato, conter-me
Sepultar o "mal"
Em um caixão de chumbo
À prova de radiação
(E visões de raios-X...)
De onde não escorra
Sequer minha alma
Mas... Como?
Alguém tem a receita?
Não quero perder a identidade...
Porém todos exigem, com absoluta
Urgência
Que eu me mutile
(Ao menos em parte)
Não há mais porquês...
Tragam-me a camisa-de-força
É o que me restou
Num mundo onde os "normais"
Usam camisas estampadas
(Em dias belos)
Ou de Vênus
(Em noites especiais)
Enquanto resta-me, apenas,
Solitário e feroz
Tentar me acalmar
Em meu traje de contenção...

(Referências à obra "O Médico e o Monstro", "Hulk", HQ da Marvel e à visão de raios-X - que não enxerga através do chumbo - de um certo Superman da DC Comics...)

quarta-feira, 12 de agosto de 2009

Ponto de Ruptura


Fui um Frankenstein

Suas cicatrizes e suturas,

Amálgama maldito

De carnes sacrílegas

Nascido dos raios, da magia e da ciência

E, pasmem...

Humano em essência!

Agora, que os sonhos se esvanessem

Como brumas,

Numa Ávalon sem Redenção

É hora de carregar as esperanças

Perdidas

Para queimarem no solitário barco vicking

Rumo ao Valhala da noite eterna...

Ná há mais perspectiva,

Nem lanterna

A iluminar a trilha escura...

Pois, se só o humano sente

O ponto de ruptura

Entre o que, de fato, se é

E o que, um dia

(Ilusão!)

Se quis ser

Cabe contudo ao monstro

O fatídico dever

De dar cabo disso tudo...

Tormentas Psíquicas



Tudo é tempestade


Do "fiat-lux" das idéias


Às lembranças...


O saber acumulado


E relegado ao baú de tralhas...


Naquelas sinapses


Não circulam impulsos


E sim raios, trovões


Tormentas psíquicas!


Naufrágios da mente...


Ó intrépido desbravador


Dos mares!


Se tuas idéias podem levar-te


Ao Novo Mundo


Podem mais ainda


Dar vida às frotas inimigas!


Guia-te por tua bússola


E descobre no Norte


(Qual seja ele...)


Como proteger-te de ti mesmo...





(28 de Julho de 2009)

Atavismos


Por brutos caminhos me esquio

Da raiva faço meu altar

Donde, a bradar, solitário

Altivo

Entôo pragas aos meus inimigos...


Demente! Buda diria...

"Não sucumbas aos venenos da mente..."

E meu Cristo?

Só calaria...

E a outra face daria

Setenta vezes sete vezes...

A outra face...

Ah, minha outra face...

Não imaginas, amigo

A que penas e perigos

Me custa escondê-la...

Auto-controle? Alto controle...

Talvez um dia,

Desvairado

Quem sabe?

Nessa selva de pedra

De bits e civilidade

Encares, num último esgar

A pontiaguda dentadura

Do Neantherthal

Tingida com o sangue da tua jugular...


segunda-feira, 10 de agosto de 2009

Enfado


O gato, morto de enfado
Buscou uma válvula de escape...
Correndo atrás da própria cauda!
Triste sina, a do gato!
Pois, em seu enfado,
Sua cauda enrolou-se
Em volta do pescoço do bixano...
E agora não há escape, nem enfado
Para o gato...
Morto... Estrangulado...
Com o rabo no pescoço.

(Tédio, esse é o meu drama)