domingo, 11 de janeiro de 2009

Manuscritos Perdidos do Menino Triste (1)



Ainda não valsei...

O revólver na vitrine
Promete alívio instantâneo...
Os prédios altos me convidam
A voar...
As lâminas afiadas tentam meus pulsos
À carícia de seu toque...
Os comprimidos todos prometem
Um sono profundo...
Os carros me desafiam a deter sua louca marcha
Com a força de meu corpo...
Há de ser assim, pois os tempos mudaram
Já não há mais cicuta,
O arsênico anda escasso...
O concreto baniu as árvores altas, o suficiente
Para se armar uma forca...
A noite chega, com seus perigos intensos
A bela Dama de Negro me chama para a dança
Uma valsa envolvente e interminável...
Entre nós, uma esperança burra
Que dói fundo,
Mas insiste, insiste, insiste...

(Poema escrito por mim em 12/1995, aos 22 anos. A “esperança burra” continuou e deve continuar insistindo, graças a Deus !!!)

Eu Obscuro


Olhei minha face
No fundo do poço
E o que vi não foi reflexo
Confesso...
Foi o lodo
Do fundo,
Escuro, profundo...
Eu obscuro!
A face do monstro
(Eu mesmo???)
Deixou-me inquieto,
Chocado...
Ainda me pergunto
Como cheguei a me tornar “ele”
(Eu mesmo...)
Quantos ideais se perderam,
Quantas bandeiras
Foram queimadas...
E em troca do quê?
Das “trinta moedas”
Que o Sistema paga
Do prato de comida, do teto
E de “uma hora” de Sol
No pátio dessa prisão
De horas eternas?
Da possibilidade de me tornar, eu mesmo
O que sempre odiei e temi?
E, em troca disso
Será que vendi
Minha alma
E meu coração?
E o que restará de mim, então?
Um corpo sem vida e vontade,
Autômato...
Cumprindo cegamente ordens,
Cometendo assassinatos diários...
Lavando suas mãos sanguinárias
Na Pia de Pilatos...
Sem coragem de contemplar o espelho, pois
Além da face hedionda do monstro
(Eu mesmo!)
Inda mais tenebrosa
É a visão que paira,
Etérea, refletida
Logo atrás...
A beleza do que poderia ter sido...
(E não foi!)
Se eu tivesse alguma coragem,
Menos juízo
E um pouco mais de fé...
Feitas essas reflexões,
Convido a culpa do que já sou
E o horror do quê antevejo me tornar
A me ajudarem a cavar
Pois há muitos corpos insepultos a esconder
De mim mesmo...