quarta-feira, 16 de dezembro de 2009

Quo Vadis, Domine?



Aonde vais, Senhor?


Deixa-me contigo ir,


Trilhar teus caminhos...


Longe deste deserto,


Cujo único Oasis


É meu mar de lágrimas...


Impele-me como a Paulo


A pregar Tua Palavra


Por todos os cantos


Com isso deixando para trás


Desencantos


Encantado no teu louvor...


Ou como Pedro,


Possa eu


Com fé e firmeza,


Ser a pedra


(Ou mesmo o sino)


Da tua Igreja...


Pois, cego


Busquei amor e paixão,


Fortuna e conforto,


Amizade e abrigo,


Neste mundo de mentiras...


E a colheita foi


(E outra não poderia ser)


Desilusão e solitude,


Miséria e dor,


Traição e desalento...


Pois, não há no prazer nada,


Além do momento...


(Um não contento...)


Fugaz e ilusório...


Sei que um cego


Não pode guiar outros


Na mesma condição...


Restaura-me, então, Senhor


A visão


(Luz do discernir!)


Para que eu possa


Santificado,


Fugir


Deste Vale das Sombras da Morte...


(De todo o meu pecado...)


Que eu possa, então, são e forte


Proclamar tua Redenção


E, pela fé, transcender minha miséria...


Aonde vais, Senhor?


Leva-me contigo


Pois hoje percebi


Que não restou consolo,


Ou fundamento


Do castelo que ergui


Com as pedras que me atiraram...


(E que já não tenho dedos pra contar...)


Nem dos tesouros que ajuntei na Terra


(Que os ratos vão devorar...)


Que eu seja, portanto,


Aquele ainda que, errante,


Trilha o Mundo


Buscando o Teu caminho...


(Com Deus, não há homem sozinho!)


Aonde vais, Senhor?


Deixa que eu siga


A Tua estrada


Estreita senda


Até o final...


Pois há mais glória


No Teu santo martírio,


Que nessa vida banal,


Estéril e sem sentido...


Então, deixa-me estar


Crucificado contigo...

domingo, 13 de dezembro de 2009

Paciência


Quando todas as coisas dão errado

Mesmo o que deveria ser certo,

Tenha a serenidade por perto

Tenha paciência...

Paciência...

Uma sabedoria, uma ciência,

Ou, então,

Uma alienação?

Lembram aquela história

Das rãs que cairam

No pote de leite?

A paciente (ou inerte?) afundou

E se afogou...

A irada tanto esperneou,

Que o leite virou manteiga!

E dali escapou...

Vida estúpida!

És como um casulo que me abriga

E me aprisiona

No meu próprio Inferno...

Quisera eu ter a coragem

De transformar minha raiva

Em Ira

E me evadir de ti!

Mas tenho somente paciência...
Uma paciência inerte...
Chegar ao fundo do pote é questão de tempo

Portanto, de qualquer forma,

Acabarei "livre"

Um dia...

Doentes e Ratos (Debate)


por Paulo Gleich, jornalista


O suicídio da atriz Leila Lopes fica como um enigma mórbido a ser decifrado: ele fala tanto sobre a admiração do público quanto sobre o sentimento de júbilo pelo sofrimento do outro

Semana passada, na noite de quarta para quinta-feira, a atriz Leila Lopes fez sua saída de cena, coroada com um ato final trágico. Parece não haver dúvidas de que se tratou de suicídio: estava sozinha em seu apartamento, não havia sinais de violência nem de arrombamento, foram encontradas embalagens vazias de medicamentos e comida com veneno de rato e, também, duas cartas: uma endereçada ao marido, outra à família. Cartas ao lado de um corpo são um sinal quase inequívoco de suicídio: praticamente extintas de nosso cotidiano – temos tantos outros meios mais rápidos para nos comunicarmos –, continuam sendo usadas por aqueles que decidem acabar com sua vida, pois sua mensagem deve chegar atrasada. Antes de entrar em cena em sua primeira novela, em 1990, Leila Lopes era “apenas” uma professora em Esteio, uma cidade dos arredores de Porto Alegre. A fama veio alguns anos depois – não sem ironia, o papel que a consagrou foi o de uma “professorinha”. Essa, porém, ocupava outro lugar em relação à predecessora: em vez de dezenas, eram milhões os olhares que passaram a contemplá-la. Depois disso, fez participações menores em novelas, sendo a última em 2000. Após alguns anos afastada dos olhares, disputados por cada vez mais concorrentes, Leila decidiu pagar para ver, ou melhor, para ser vista: aceitou um convite para estrelar um filme pornográfico. Para além da compensação financeira, isso lhe rendeu o retorno à cena midiática, que acompanhou a produção e o lançamento do filme com entrevistas, reportagens, participações em programas de TV. Estava de volta à cena. Como toda “notícia”, com o tempo essa também perdeu a validade; Leila perdeu os olhares. Procurou então o público para mostrar-se arrependida de fazer o filme, o que lhe rendeu novos minutos em cena. Depois, acabou voltando atrás e assinou contrato para outros dois filmes. Mais minutos. Em agosto deste ano, uma longa internação hospitalar ocasionada por fortes dores cuja origem jamais foi descoberta. Alguns minutos a mais. Ultimamente, tinha sua dose semanal de minutos garantida: apresentava um programa em um canal de TV erótico. Na noite antes de sua morte, Leila falou por telefone com seu assessor de imprensa, a quem mostrou-se preocupada pelo futuro de seu programa na TV. Sentia-se ameaçada de, outra vez, ter de sair de cena. Decidiu fazê-lo por conta própria e em cena. Não podemos ignorar que, apesar de trágico, seu ato derradeiro foi um sucesso – obteve ampla divulgação nos meios de comunicação. Conseguiu, inclusive, tornar sua saída de cena um fato excepcional: uma regra sagrada da imprensa é a de não publicar suicídios, salvo em casos em que o interesse público o justifique. O veto à publicização de casos de suicídio não é por uma mera questão moral, pelo tabu associado a este assunto. Quem trabalha de perto com o sofrimento humano sabe quão frágil é “ser humano”, e que há muitos outros que, como Leila, com muito custo se equilibram em uma corda-bamba estendida sobre um escuro precipício. Muitas vezes, quando o esforço parece não compensar a caminhada, a ameaçadora escuridão do precipício apresenta-se como uma solução definitiva para apaziguar o sofrimento. O fato de alguém (especialmente um alguém colocado em um lugar de ideal ao olhar público, como o são os “famosos”) resolver pular da corda pode ser o argumento derradeiro para alguém dar esse salto mortal. Um suicídio não é apenas um ato desesperado de alguém acometido por um sofrimento tão grande que torna insuportável continuar vivo: é também um assassinato invertido, que elimina, no mesmo golpe, a fonte que, voluntária ou involuntariamente, causa o sofrimento. Leila, com seu ato, não matou apenas a si própria, mas também a todos aqueles olhares que, sob o disfarce sedutor do interesse e da admiração, exigiam que ela fosse cada vez mais além para que continuassem a mirá-la. É cruel esse amor nada incondicional do olhar público: apenas corresponde ao amado na medida em que este age segundo suas expectativas. E as expectativas de um público cada vez mais sedento pela novidade, pela transgressão, não são poucas: é preciso superá-las para obter uma olhadela amorosa. As cartas deixadas por quem se vai são um ingrediente comum nas cenas montadas pelos suicidas. Essas cartas, geralmente endereçadas às pessoas mais próximas do suicida (no caso de Leila, seu marido e familiares), são uma tentativa de justificar seu ato e, com isso, apaziguar a dor causada por aquele que resolveu deixá-los. Tentativa, no entanto, fadada ao fracasso: quaisquer sejam as palavras deixadas, estas jamais darão conta de preencher o vazio que fica no lugar de quem resolveu partir antes da hora. No caso de Leila, uma figura pública, este vazio se instala também no seio da “grande família” midiática que a acompanha, família com a qual compartilhava detalhes do cotidiano, opiniões, êxitos e frustrações.Um suicídio é um mórbido enigma que cabe aos que ficaram tentar decifrar. A nós, leitores e telespectadores, a quem Leila tantas vezes se expusera, não foi endereçada nenhuma carta para justificá-lo ou para nos apaziguar. O que Leila nos deixou foram suas novelas, filmes, entrevistas, declarações – sua história pública, que tem sido vasculhada na busca de explicações, indícios para seu ato final. Mas, além disso, Leila também deixou sua morte tornada pública e executada com um coquetel de paradoxal composição: um produto destinado a matar animais imundos, outro a curar pessoas enfermas. Remédios e veneno, doentes e ratos. Talvez possamos tomar isso como as palavras da carta que Leila deixou para ser lida por nós, o público que a acompanhava ora com admiração, ora com Schadenfreude – palavra alemã que expressa o tão humano sentimento de alegria pelo sofrimento do outro. Entre veneno e remédio há uma diferença meramente quantitativa: droga é uma palavra que indica isso, é usada em ambos os sentidos. Haveria, no ato de Leila, talvez também um desejo de curar-se? Já a palavra doença, em espanhol, também tem dois sentidos: morbo significa, além de enfermidade, “atração por acontecimentos desagradáveis”. E rato, no Brasil, é uma palavra usada também para designar um trapaceiro, traidor. No caso de Leila, quem é o doente – ela, que publicamente mostrara seu adoecimento, ou nós, que acompanhamos gozosos seu sofrimento? E quem são os ratos – ela, que se sujeitou a “imundícies” por um pouco mais de fama, ou nós, que lhe ofertamos essa droga para chafurdar em sua miséria humana, portanto, também nossa?


Jornal Zero Hora

Caderno Cultura - pág. 06 - Sábado, 12 de dezembro de 2009.

A Marca da Maldade


de Cláudia Laitano, escritora, jornalista e editora do Segundo Caderno (ZH). Essa crônica lembrou-me meus "áureos" tempos de "Primeio e Segundo Graus", onde além de "esquisito" e "CDF" eu era um dos menos favorecidos economicamente, o que implicava, entre outras coisas, repetir roupas de má qualidade e usar tênis batidos e rasgados... A Escola Estadual Presidente Roosevelt (todo meu ensino fundamental), e a Escola Técnica Parobé (meu ensino médio)... Nos anos 80, o adjetivo usado em Porto Alegre para os "nerds" ou "outsiders" era "mongolão", uma alusão às crianças portadoras de Síndrome de Down que eram chamadas, pejorativamente, de "mongolóides"... Essa alcunha me acompanhou por muito, muito tempo... Na 5ª série do ensino fundamental sofri ataques de bullyng (esse foi o termo em inglês cunhado por estudiosos para esse tipo de "terrorismo" e assédio moral infantil) tão intensos que entrei em um processo de auto-isolamento e repeti de ano, pois não conseguia aprender nada... Entre as 6ª, 7ª e 8ª séries (anos em que a coisa chegou ao auge, quando convivi com colegas que me atormentavam sistematicamente com ameaças físicas e morais) e nos primeiros anos do ensino médio, me sentia tão pouco confiante que não tinha coragem de me aproximar de amigos ou mesmo garotas que demonstravam se interessar por mim... Agora, com 36 anos, noto ser impossível esquecer certas coisas... Elas criam um rombo tão grande em nossa personalidade que não sei dizer se, e em que medida, esse rombo algum dia foi (ou será?) fechado...

"Não sei onde ele mora, se tem irmãos ou como são seus pais. Tudo o que eu sei dele é o que as colegas contam, e o que elas contam é o que acontece na escola. Para as meninas, o colega de classe é um tormento manejável. Chama as gordinhas de baleias, as magrelas de anoréxicas, as estudiosas de CDF, mas elas conseguem lidar com o incômodo de forma razoável, aliando-se e protegendo-se umas às outras. Unidas, as meninas se transformam em uma espécie de entidade quase imbatível. Quando o colega as surpreende em um dia ruim, ficam chateadas, algumas choram, mas a camaradagem das amigas e, mais que isso, a facilidade com que se comunicam, tanto na escola quanto em casa, tendem a amenizar os efeitos da provocação. (As muito tímidas, infelizmente, não têm essa sorte.)O teatro social coloca os meninos em uma posição mais frágil em um ambiente contaminado por manifestações de perversidade desse tipo. É mais rara entre eles a percepção de que uma palavra, um apelido ou uma brincadeira podem ser tão violentos quanto um tapa ou um pontapé. Uma covardia física talvez despertasse em parte do grupo o sentido de proteção do mais fraco. Mas não lhes ocorre que quando o colega chama o amigo de “bicha”, de forma constante e cansativa, o tormento pode ser tão ou mais doloroso. O menino cruel tem terreno livre para perseguir sua vítima sem que os amigos façam nada para defendê-la – como se um dos rituais da prova de masculinidade fosse exatamente este, suportar as provocações sozinho, em silêncio, ou resolvê-las com algum tipo de violência. De vez em quando, o menino ofendido chora no banheiro. Volta para a sala de aula com os olhos vermelhos, mas apenas as meninas parecem perceber – e se preocupar com ele.Histórias como essa se repetem todos os dias, em escolas ricas e pobres, com crianças de todos os tipos de famílias. Em conjunto com o que elas aprendem com os pais, essas primeiras experiências de interação social começam a moldar os padrões de relacionamento que terão na vida adulta – a maneira como vão dominar, ou não, a agressividade e a frustração, o sentido de grupo, o convívio civilizado com a diferença, a construção da noção de certo e errado, o limite entre a brincadeira e a maldade. Mas nem os pais mais presentes na vida dos filhos conseguem ter toda a dimensão do jogo de poderes e micropoderes que se estabelece em uma sala de aula, empurrando uns para o papel de vítima e outros para o de vilão. Na escola, a criança constrói uma nova identidade, separada da família e sujeita a outras circunstâncias, e os pais devem aprender a respeitar essa independência – sem perder de vista que a maneira como os filhos se comportam ali, as brincadeiras que fazem e as pequenas crueldades que infligem são um recado eloquente sobre o que vai bem, ou não, dentro de casa.Um menino cruel não será necessariamente um crápula na vida adulta. Se a família e a escola falharem de todas as formas possíveis, ainda resta o imponderável e sua maravilhosa capacidade de corrigir rotas e forjar destinos inesperados. Mas, se a família, a escola e o destino não ajudarem, esse menino pode vir a se transformar em um homem incapaz de se controlar ou de perceber o sofrimento alheio – e não consigo imaginar uma maldição maior para os pais do que ver o filho se transformar em um adulto desse tipo."

Cláudia Laitano

Jornal Zero Hora, Sábado, 12 de dezembro de 2009. Página 02

sábado, 12 de dezembro de 2009

Como um Van Gogh


Hoje nada valho
Apenas um pobre louco
A pintar seus Girassóis sob o céu azul
(Que, para mim, tem sempre nuvens escuras)
Talvez algum dia
Quando não for nada mais que pó
Depois de, sozinho
Em algum sanatório
Com um tiro no peito
Fizer o que já deveria ter feito,
Talvez, séculos depois
Achem-me algum valor...
Nos meus escritos,
Numa maneira de expressar, talvez
Uma dor que não cabe no peito
Por isso ele tem que explodir
Para que a dor
Entre sangue e Morte
Possa, livre, sair...
Querido Vincent
Nunca grangearia tua admiração
Pois não sou digno de tua grandeza
Sou apenas aquele que deseja
No silêncio de uma noite escura
Por um ponto final em toda essa loucura...

Memórias Póstumas


Que ironia é a Morte...

Nunca recebi tantas flores,

Quando estava vivo
Para apreciar seu aroma...

A Ratoeira


Eu era um mísero rato

A perseguir

A saciedade da fome...

Quando senti

O aroma do queijo

Desejo...

Fui ao seu encalço

Dei-lhe a primeira

E saborosa

Dentada

Quando senti a aste

(Cadafalço!)

Da ratoeira

A rasgar-me as carnes...

Agora, aguardo a Morte

Resta-me só o consolo

Do fino queijo

Que rôo devagar

Como devagar esvai-se

A minha vida...

Homem! Põe o dedo

Em tua ferida!

Não és melhor que um rato

E, tuas escolhas, prisioneiras,

São tais como se fossem

Ratoeiras...

Pela comida,

Pela família,

Pelo trabalho,

Morres um pouco

A cada dia...

Perdendo tudo aquilo

Que "serias"...


(As coisas que nos cativam são, afinal, aquelas que nos cativam...)

Cansaço


Eu, que me perdi
De mim mesmo
Só me encontro no sono
Que pouco consola
E logo acaba...
Já não mais leio nada
(Mente cansada...)
Sequer penso, não há tempo!
Entre meus tantos papéis
No teatro da vida...
O sustento suado
À custa da alma ferida
Tristezas, efêmeras alegrias
Companheiras de viagem
Que me acompanham nesse turbilhão
Onde não sei bem onde estou
Nem quem sou...
Mas, onde fui parar "eu" mesmo?
Em meio ao meu interior inferno?
Talvez a resposta se ache
Num frio inverno
Quando o sono, que consola,
Não será breve
Mas eterno...
(E por ele espero... virá logo?
Só Deus - ou minha navalha -
O sabem...)

sábado, 28 de novembro de 2009

A Lição do Goleiro - Moacyr Scliar



Na semana que passou uma sombria notícia abalou o panorama esportivo mundial: a morte, por suicídio, de Robert Enke, goleiro da seleção nacional da Alemanha. Depois de escrever uma nota sobre sua morte, ele deitou-se nos trilhos da ferrovia e foi esmagado por um trem que se aproximava a 160 km/h.Robert Enke tinha 32 anos e há muito tempo sofria de severa depressão. Mas era algo que guardava em segredo, por receio de prejudicar sua carreira esportiva. O clube ao qual Robert pertencia, o Hannover, fez questão de dizer que jamais havia pressionado o goleiro no sentido de ocultar a depressão; simplesmente não sabiam o que se passava. Algo semelhante disse o terapeuta de Robert, Valentin Markser, que o tratava há seis anos: “Eu não sabia que o risco era tão grande”.





A viúva do jogador, Teresa, deu um pungente depoimento sobre a morte de Robert. Seu objetivo: chamar a atenção para o problema da depressão. No que está inteiramente correta. É incrível que esta doença, a mais frequente das enfermidades mentais (acomete, segundo a Organização Mundial da Saúde, cerca de 12% das pessoas), ainda seja tabu. Mas o segredo é explicável. Sociedades competitivas, como aquelas que atualmente predominam em nosso mundo, não querem saber dos deprimidos. São pessoas tristes, que têm dificuldade em fazer as coisas – perdedores, em outras palavras.A reação diante de um depressivo é frequentemente de irritação: te anima, cara, sai dessa. Como se uma situação caracterizada por distúrbios da química cerebral dependesse de vontade própria. Em contraste, o maníaco (lembrando que mania e depressão se alternam na doença bipolar) é, ao menos na fase inicial da doença, um cara simpático, energético, sempre às voltas com projetos, mesmo que malucos. Este ganha das pessoas o benefício da dúvida: pode ser que ele seja doente, mas pode ser que esteja às vésperas de lançar um grande negócio. Pode ser que seja um vencedor.





O caso de Robert encerra uma importante lição. Quem sofre de depressão deve pedir ajuda, como pede ajuda quem está com cólica renal, ou com o braço quebrado, ou com uma hemorragia. Mesmo porque hoje existem medicamentos poderosos para controlar os sintomas da depressão. E, muito importante, existe a psicoterapia, que nos faz entender o que se passa e divisar possibilidades para sair do quadro. É tarde para salvar Robert Enke, mas não é tarde para salvar milhões de pessoas que sofrem de problema semelhante. A depressão não é um fracasso. A depressão faz parte da condição humana, e como tal deve ser encarada.



Moacyr Scliar é um médico e escritor gaúcho de origem judaica, membro da Academia Brasileira de Letras. Atua também como cronista de ZH. Entre seus maiores sucessos literários destacam-se "A Guerra no Bom Fim", "Um Centauro no Jardim", "O Exército de um homem só", entre outros.

(Caderno Vida, Zero Hora, coluna "A Cena Médica", de Moacyr Scliar - 21.11.09, pág. 02)

segunda-feira, 16 de novembro de 2009

Dor


A dor que rasga a carne
Não é nada,
Comparada
À dor que roi a alma
Tristeza...
De lúgubre beleza.
Alivia?
Talvez, um dia,
Com sorte
Há de chegar a Morte...

segunda-feira, 2 de novembro de 2009

O Elogio da Lentidão



Inauguro aqui postagens com textos e poesias alheios que ne chamaram a atenção, por seu conteúdo, sensibilidade e por vir ao encontro do meu modo de ver o mundo. Cláudia Laitano é cronista semanal do jornal Zero Hora, editora do Segundo Caderno, e nos brindou com essa excelente crônica no último sábado, 31.10.09. Segue...



O elogio da lentidão



Em um comovente discurso durante a inauguração de uma biblioteca do MST, no interior de São Paulo, há pouco mais de três anos, o ensaísta e crítico literário Antonio Candido, já perto de completar 90 anos, ousou contrariar um dos clichês mais universais da nossa época:“Acho que uma das coisas mais sinistras da história da civilização ocidental é o famoso dito atribuído a Benjamin Franklin, ‘tempo é dinheiro’. Isso é uma monstruosidade. Tempo não é dinheiro. Tempo é o tecido da nossa vida, é esse minuto que está passando. Daqui a 10 minutos eu estou mais velho, daqui a 20 minutos eu estou mais próximo da morte. Portanto, eu tenho direito a esse tempo; esse tempo pertence a meus afetos, é para amar a mulher que escolhi, para ser amado por ela. Para conviver com meus amigos, para ler Machado de Assis: isso é o tempo.E justamente a luta pela instrução... é a luta pela conquista do tempo como universo de realização própria. A luta pela justiça social começa por uma reivindicação do tempo: ‘eu quero aproveitar o meu tempo de forma que eu me humanize’. As bibliotecas, os livros, são uma grande necessidade de nossa vida humanizada... o amor pelo livro nos refina e nos liberta de muitas servidões.”A psicanalista Maria Rita Kehl, que esteve em Porto Alegre esta semana como palestrante do seminário Fronteiras do Pensamento, já havia começado a escrever um ensaio sobre a relação entre o modo como vivemos neste comecinho de século 21 e a explosão do número de casos de depressão no mundo inteiro quando topou com a frase de Antonio Candido e teve um “clique teórico”. No livro O Tempo e o Cão, lançado este ano pela editora Boitempo, a psicanalista desenvolve aquele “clique” mostrando que a pressa para tudo dos dias de hoje, o horror que temos a qualquer tipo de perda de tempo e o hábito recente de não nos desconectarmos do trabalho e das atividades ditas “produtivas” nem mesmo durante as férias estão produzindo o caldo onde a depressão se desenvolve. A depressão, que pode ser definida, grosso modo, como falta de vontade para fazer qualquer coisa, seria uma espécie de reação psíquica ao excesso de coisas que somos cobrados a fazer o tempo todo (inclusive quando deveríamos estar apenas nos divertindo). O sujeito deprimido pula do trem em movimento da vida contemporânea e fica à margem dos acontecimentos – não por escolha própria, mas por falência geral da engrenagem interna que o faz funcionar no ritmo exigido.A falta de tempo para pensar na morte da bezerra, para ver a grama crescer, para namorar sem olhar para o relógio, tudo isso, e a sensação de que devemos sempre estar envolvidos em algo que vá servir para alguma coisa (nem que seja contar para os amigos do Orkut e do Twitter como vivemos a vida intensamente), estão criando a supremacia da vivência sobre a experiência.Enquanto a vivência produz sensações imediatas e passageiras, a experiência é o que nos transforma, porque tivemos tempo para absorvê-la e refletir sobre ela.Antonio Candido tem toda razão: tempo não é dinheiro, é o tecido da vida. Não dá para guardar, deixar para os netos ou transformar em bens imóveis. É pessoal e intransferível, e deveríamos saber usá-lo sem culpa – até mesmo quando não estamos fazendo nada.

(Jornal Zero Hora, Porto Alegre, 31.10.09 (sábado); pág. 02)

terça-feira, 1 de setembro de 2009

Poema de Frankenstein

(Manuscritos Perdidos de um Menino Triste 2)

Estranho poema sem simetria,
Feito de retalhos, cerzidos com uma linha,
Capaz de amalgamar as coisas mais antagônicas:
Infâncias perdidas...
Horas alegres...
Lágrímas contidas,
Traídas,
Dores sem conta...
Amores secretos, impossíveis,
Desejos obscuros, inconfessáveis...
Ódio, vontade de explodir o mundo!
Ou de cantar uma canção, tão bela,
Que trouxesse paz a todas as criaturas...
Os mistérios, as descobertas, as dúvidas,
Sempre persistentes
Os porquês sem resposta...
A busca de sentido para a Vida
(Certezas que se dissipam...)
Um futuro que angustía,
Paixões que enlevam e derrubam
Quem ainda é tolo o suficiente
Para entregar-se de corpo e alma,
A esses sentimentos tão fora de moda...
O tempo que ainda nos falta
E a Morte
(Que espreita sorrateira)
Sedenta de todos os nossos sonhos...
O sono da manhã, o cansaço da noite,
Os hipotéticos dias vindouros?
Todas as nossas glórias e tormentos,
Tudo isso, animado de uma centelha de loucura,
Dão forma e movimento ao poema, que,
Contraditório
Abre os olhos à diversidade do Universo
Sem saber quem é ou porque é...
Confuso, aflito, ignorante das verdades
E das pretenções
Que fazem dos homens deuses e demônios...

(Poema escrito em 14 de dezembro de 1995, aos 22 anos. Muito antes de "Ponto de Ruptura", Frankenstein - que não foi "re-plagiado", garanto! - e a idéia da junção de coisas diferentes e doridas, já me inspiravam...)

quarta-feira, 26 de agosto de 2009

A Armadura


Cai o corpo do terraço

13º andar

Na noite escura

Tudo posso!

Pois, alucinado,

Visto a Armadura

Da Ira

Que contra todos atira...

Agora nada mais importa

Tanta amargura...

Apenas o vôo livre

Abruptamente interrompido

Pela carne crua,

Sangrenta

A estampar com horror

A quieta rua da madrugada

Como o mapa de uma tormenta...


(Recado a todas as pessoas pequenas que se interpõem diariamente diante dos meus grandes sonhos: eu estou aguentando, e vou aguentar continuar vivo. Acredito que o Bem e a Verdade sempre vencem no final, e se tiver que morrer por algo, será por esse ideal...)

Não há


Não há amigos

Com quem contar...

A quem contar...

Só concorrentes.

Nem crianças felizes

(sua entrada é proibida)
Ou manhãs ensolaradas

(essa luz fluorescente já está ótima...)

Há somente o concreto,

A fumaça e o cheiro

Dos cadáveres cremados

E suas cinzas a fecundar

As árvores de dinheiro

Guardadas com zelo

Pelos futuros cadáveres

Que lhes servirão de adubo...

("Olha, que as oportunidades

Escorrem pelas paredes!

Junto com teu sangue

Com o qual rebocaremos esses muros...")

Máscaras


Quantas caras tens

Ó sedutora arlequina?

Mãe, amante, inimiga

A mão que afaga

(a mesma que apedreja)

A faca afiada

Que nos aguarda

Na esquina?

Quem na verdade és?

Santa... Messalina!

Decana!

Caíram-te todas as máscaras

Só te sobrou, insana,

Tua primeira e última verdade:

a falsidade humana...

domingo, 23 de agosto de 2009

Terminal


O doente terminal

Aguarda sua última visita

No último leito do hospital...

A visita, aflita,

Aguarda o próximo ônibus

(Haverá outros, mas não

chegarão... a tempo!)

Sob o terminal... De ônibus

E o tempo?

O tempo ri

Como um demônio infantil

Pois escoa

Insensível às nossas dores e anseios

E ao acidente

Que parou a viagem

Do ônibus a caminho

Exatamente no meio...

(Nada grave, não se assustem!)

Apenas tempo suficiente

Para que o doente, só

Se fosse, para sempre...

Para que a visita que nunca chegou

A tempo

Carregasse consigo a culpa

Pelo resto de seu tempo...

E para que a Morte

Que ali esteve o tempo todo

Risse eternamente

Das peças que pregava...

"Libertas Quae Sera Tamen"


Será com o sangue gelado,

E a carne fria

Que, finalmente, cruzarei os braços

Bradando mudamente:

"Liberdade, ainda que tardia"?

Ah, a morte, essa sacana...

A morte é a derradeira rebeldia.


(uma homenagem ao poema "Tédio", de Olavo Bilac)

Super-herói


O super-herói salvou a criança

De um prédio em chamas

Conteve a queda

De um avião

Foi aclamado pela população

Após impedir que a represa

Se rompesse em mil pedaços!

Conduziu uma bomba nuclear

Aos confins do espaço

Sem que a explosão

Causasse-lhe qualquer perturbação...

Mas quando tirou sua máscara

E vestiu seu traje civil

(No espelho se viu),

Só estava...

E chorou como uma criança

O peito em chamas,

A alma rompida

Como numa explosão nuclear...

Pois, o que quer que representasse,

Aos outros, sua ilusão

Sabia que, de si mesmo,

Não havia super-herói que o salvasse...


(14 de Agosto de 2008)

Resistência


A última ponte ruiu

Nossa Pátria, afrontada

O território invadido

As bestas-feras fazem seu desfiles

Em nossas praças

(Meu olhar perdido...)

A honra que sobrou é apenas

Uma irônica esmola

Da História...

Hoje o vil é o Rei

É dele a vitória

Não se pode chorar

Ou pedir clemência...

Apenas buscar as sombras

Organizar a Resistência

É a perversidade da vida

Ter-se que continuar a lutar

Quando mais te sangram

As feridas...

Nada que nossas pequenas baionetas

Enferrujadas

Ou fuzis de última geração

Do século XIX

Não resolvam...

Quando a verdade, afinal,

Vier à tona

Nada será maior

Que o nosso ideal...


(Hasta la vitoria, siempre!)

Às armas, cidadãos!


Dia após dia

Em busca do pão

E da carne

(Quando por sorte a obtém-se)

Obstina-se o homem

Domado

("Vida de gado")

A um destino infeliz

E a si mesmo diz

Que a renúncia do hoje

Trará um futuro de escolhas

Não, não escondas

De ti mesmo a verdade

("Envelheço na cidade")

Hoje é o futuro

Que a vinte anos sonhavas

Ainda mais triste e mais duro

Do que era teu presente...

Aceitas um conselho?

É inútil, se te rescentes...

Transforma tua mágua

Em fúria incandescente

Varre com aço a falsidade

Que te cerca e te consome!

Toma o teu destino

Em tuas mãos, homem!

Às armas, cidadãos

Que o sangue impuro

Do que está errado

Lave com abundância

Nossos arados...

sábado, 22 de agosto de 2009

Contenção


Metam-me à força
Numa camisa-de-força.
Preciso... vocês precisam
Conter-me!
Não deixar a ira e o desatino
Virem-me à tona...
Pois a humanidade ama
"Meu" Dr. Jeckyll
Mas odeia Mr. Hyde
Por mais que esse último
Seja seu representante
Mais autêntico...
Talvez, por isso mesmo
(Porque afinal, para alguns
Os espelhos são intoleráveis)
Que eu seja sempre o Dr. Banner
Embora frágil, inseguro,
Porém mais agradável, afinal
Do que o monstro verde
E seu rastro de fúria e destruição
Que torna todos os "homenzinhos"
Tão vulneráveis...
(Hulk, não compreendes?
Os homens amam os "doutores"
Não os "doentes"...
Fica mais fácil assim
Fingirem-se de sãos...)
Preciso, de fato, conter-me
Ser menos "eu mesmo"
Que os outros me tragam
Afrontas e problemas
E eu lhes devolva apenas
Soluções e paz
Embaladas para presente...
(Tomem essas belas flores
Meus caros...
Espinhos? Não, não se preocupem!
Ficaram todos em minhas mãos
Isso explica todo esse sangue...)
Preciso, de fato, conter-me
Sepultar o "mal"
Em um caixão de chumbo
À prova de radiação
(E visões de raios-X...)
De onde não escorra
Sequer minha alma
Mas... Como?
Alguém tem a receita?
Não quero perder a identidade...
Porém todos exigem, com absoluta
Urgência
Que eu me mutile
(Ao menos em parte)
Não há mais porquês...
Tragam-me a camisa-de-força
É o que me restou
Num mundo onde os "normais"
Usam camisas estampadas
(Em dias belos)
Ou de Vênus
(Em noites especiais)
Enquanto resta-me, apenas,
Solitário e feroz
Tentar me acalmar
Em meu traje de contenção...

(Referências à obra "O Médico e o Monstro", "Hulk", HQ da Marvel e à visão de raios-X - que não enxerga através do chumbo - de um certo Superman da DC Comics...)

quarta-feira, 12 de agosto de 2009

Ponto de Ruptura


Fui um Frankenstein

Suas cicatrizes e suturas,

Amálgama maldito

De carnes sacrílegas

Nascido dos raios, da magia e da ciência

E, pasmem...

Humano em essência!

Agora, que os sonhos se esvanessem

Como brumas,

Numa Ávalon sem Redenção

É hora de carregar as esperanças

Perdidas

Para queimarem no solitário barco vicking

Rumo ao Valhala da noite eterna...

Ná há mais perspectiva,

Nem lanterna

A iluminar a trilha escura...

Pois, se só o humano sente

O ponto de ruptura

Entre o que, de fato, se é

E o que, um dia

(Ilusão!)

Se quis ser

Cabe contudo ao monstro

O fatídico dever

De dar cabo disso tudo...

Tormentas Psíquicas



Tudo é tempestade


Do "fiat-lux" das idéias


Às lembranças...


O saber acumulado


E relegado ao baú de tralhas...


Naquelas sinapses


Não circulam impulsos


E sim raios, trovões


Tormentas psíquicas!


Naufrágios da mente...


Ó intrépido desbravador


Dos mares!


Se tuas idéias podem levar-te


Ao Novo Mundo


Podem mais ainda


Dar vida às frotas inimigas!


Guia-te por tua bússola


E descobre no Norte


(Qual seja ele...)


Como proteger-te de ti mesmo...





(28 de Julho de 2009)

Atavismos


Por brutos caminhos me esquio

Da raiva faço meu altar

Donde, a bradar, solitário

Altivo

Entôo pragas aos meus inimigos...


Demente! Buda diria...

"Não sucumbas aos venenos da mente..."

E meu Cristo?

Só calaria...

E a outra face daria

Setenta vezes sete vezes...

A outra face...

Ah, minha outra face...

Não imaginas, amigo

A que penas e perigos

Me custa escondê-la...

Auto-controle? Alto controle...

Talvez um dia,

Desvairado

Quem sabe?

Nessa selva de pedra

De bits e civilidade

Encares, num último esgar

A pontiaguda dentadura

Do Neantherthal

Tingida com o sangue da tua jugular...


segunda-feira, 10 de agosto de 2009

Enfado


O gato, morto de enfado
Buscou uma válvula de escape...
Correndo atrás da própria cauda!
Triste sina, a do gato!
Pois, em seu enfado,
Sua cauda enrolou-se
Em volta do pescoço do bixano...
E agora não há escape, nem enfado
Para o gato...
Morto... Estrangulado...
Com o rabo no pescoço.

(Tédio, esse é o meu drama)

terça-feira, 31 de março de 2009

O Fundo



Quando tu pensavas
Estares no fundo do poço,
Ingrata surpresa!
Ainda faltavam
O resto de teus anos para cair...

Carcinomas... Cárceres sem nomes...


O buraco à minha volta só aumenta
Enquanto tento me equilibrar
Em minhas frágeis pernas de acrobata...

A fumaça do cigarro
Que aparentemente se dissipa
Tatua meus pulmões de cânceres...

Ao fim, são só tumores, descaminhos
Vírus, desvios
Demências...

Deus, clemência!!!

E qual o sentido disso tudo?
Vida, por quê te quero?
Por tudo (ilusões?) que espero?

Uma viagem sem rumo
Em uma nau condenada
Em direção ao Inferno? Incerto...

domingo, 11 de janeiro de 2009

Manuscritos Perdidos do Menino Triste (1)



Ainda não valsei...

O revólver na vitrine
Promete alívio instantâneo...
Os prédios altos me convidam
A voar...
As lâminas afiadas tentam meus pulsos
À carícia de seu toque...
Os comprimidos todos prometem
Um sono profundo...
Os carros me desafiam a deter sua louca marcha
Com a força de meu corpo...
Há de ser assim, pois os tempos mudaram
Já não há mais cicuta,
O arsênico anda escasso...
O concreto baniu as árvores altas, o suficiente
Para se armar uma forca...
A noite chega, com seus perigos intensos
A bela Dama de Negro me chama para a dança
Uma valsa envolvente e interminável...
Entre nós, uma esperança burra
Que dói fundo,
Mas insiste, insiste, insiste...

(Poema escrito por mim em 12/1995, aos 22 anos. A “esperança burra” continuou e deve continuar insistindo, graças a Deus !!!)

Eu Obscuro


Olhei minha face
No fundo do poço
E o que vi não foi reflexo
Confesso...
Foi o lodo
Do fundo,
Escuro, profundo...
Eu obscuro!
A face do monstro
(Eu mesmo???)
Deixou-me inquieto,
Chocado...
Ainda me pergunto
Como cheguei a me tornar “ele”
(Eu mesmo...)
Quantos ideais se perderam,
Quantas bandeiras
Foram queimadas...
E em troca do quê?
Das “trinta moedas”
Que o Sistema paga
Do prato de comida, do teto
E de “uma hora” de Sol
No pátio dessa prisão
De horas eternas?
Da possibilidade de me tornar, eu mesmo
O que sempre odiei e temi?
E, em troca disso
Será que vendi
Minha alma
E meu coração?
E o que restará de mim, então?
Um corpo sem vida e vontade,
Autômato...
Cumprindo cegamente ordens,
Cometendo assassinatos diários...
Lavando suas mãos sanguinárias
Na Pia de Pilatos...
Sem coragem de contemplar o espelho, pois
Além da face hedionda do monstro
(Eu mesmo!)
Inda mais tenebrosa
É a visão que paira,
Etérea, refletida
Logo atrás...
A beleza do que poderia ter sido...
(E não foi!)
Se eu tivesse alguma coragem,
Menos juízo
E um pouco mais de fé...
Feitas essas reflexões,
Convido a culpa do que já sou
E o horror do quê antevejo me tornar
A me ajudarem a cavar
Pois há muitos corpos insepultos a esconder
De mim mesmo...