domingo, 28 de setembro de 2008

Palavrismos (3)














Matamos o tempo
O tempo nos mata
Dizia o sábio
Machado de Assis...
Mas, se nos mata o tempo
(Seja com um machado, uma foice ou um cadafalso)
Soaria falso
O contrário dizer
Que o tempo nos vive?
E, através do seu passar, ou
Do seu “matar”
Mortos, tornamo-nos eternos?
Pois, do contrário
Em que outro cenário
Que não o do teatro do tempo
O pecador Francisco
Se faria Santo...
Em Assis!
E, Santo morrendo,
(o sábio!)
Ficaria, assim, eterno
Matando o tempo...
Que nos mata?
Ou, como dizia
Nos vive...

(Foi-se o teu tempo... Como o mataste?)

Palavrismos (2)


Ao homem que não sabe
Onde quer chegar
Qualquer porto lhe serve
Filosofava Lao Tse...
Outro desconhecido dizia
(Onde, ao certo, não se sabia)
Que quem tem boca vai a Roma
Ou ao rumo?
Pois é... quem diria?
Da China à Santa Sé
Mesmo o homem sem fé
Vagando ao Lao, ou ao léu
A palavra conduz
Na escuridão, ou na luz
Aonde se quer chegar...
Mesmo se, ao lá estar
Perceba-se que lá não é
Onde se queria quedar...
Deixa estar...
Que este porto, mesmo, serve,
Ao homem
(Sem rumo!)
Que não quer nem saber
Onde chegar...

Palavrismos (1)


Palavrismos (1)

[A proposta da série “Palavrismos” (malabarismos com palavras) compara a poesia a um malabarismo, misturando ditos e sentenças, dando-lhes algum sentido e equilíbrio, em seu movimento aleatório... Tal como o menino no sinal...]


Estar assim a jogar
As palavras
Como o menino, paupérrimo
Lança ao alto
Sobre o asfalto
Bolas diante do sinal
Vermelho
Em busca de comida, alívio, dinheiro...

Eu, no entanto, cobre não busco
Nem alimento
Me contento
Com o movimento
Das palavras, multicores
A girarem, doidas
Ao vento
Formando sentenças
Desalentos...
Produzindo encantamento
Ao menos para mim!
Paupérrimo menino
Entretido em sua arte...
(Palavrismos!)
Que, esquecido do sinal,
Aos carros deixo, afinal
Dividirem-me em muitas partes...
E as palavras jazem, agora,
No chão...
E, ainda que não rimem
Fazem, afinal, algum sentido...

A espetaculosa morte do homem que não criava


Foi ao cair do sol
De uma morna tarde
Duma incipiente primavera
Quando teve fim a rotina burocrática
De sua monótona vida...

Parou para atravessar a rua
Mecanicamente, como era de hábito
Controlado, cordato, contido
Quase sem sal...

E tudo iniciou numa fração de segundos
A rebelião de suas monstruosas
E fantásticas criaturas interiores
Que, por medo, preguiça ou mesmo falta de fé
Ele condenava a perecer,
Natimortas!
Nos seus abortos diários do não-criar!

De pé, encarando o semáforo
Contemplava passivo o sinal vermelho
Quando, com vermelho-tinto
Inundou a rua, seu sangue profuso...

Atropelado? Não, antes fosse...
Ele explodiu. Como?
Ninguém sabe ao certo...
E sabem, ainda menos
Explicar o bizarro cortejo
Das fantásticas figuras
Surgidas de sua morte...

A começar pelo Navio Pirata
Que singrava ousado o rubro Mar de Sangue,
Brotado de seu peito
Seguido por um Corcel Branco
Com asa de anjos, tal qual Pégasus...
E que dizer dos pequeninos
Diabólicos, gargalhantes,
Vestidos como duendes
A saquear, travessos, as pessoas perplexas?
Os trens antigos, os zepelins e os carros do futuro,
A conduzir uma bárbara multidão de idéias alucinadas
(Mas, que ainda assim tinham algum sentido)
Decretando a queda da Roma da Razão...

Essas criaturas todas,
Quimeras absurdas!
Brotaram livres afinal!
De suas veias e pensar...
E, seu expirar final,
Deu-se, quando, rompido em mil pedaços
Libertou o mais ancião e sábio dos Dragões
Montado pelo último dos últimos Nobres Cavaleiros...

E, para fechar-lhe os olhos
(Ou o que sobrara deles)
Surgiu do seu coração em frangalhos
A mais bela Musa
Pairando suave...
Os cabelos longos como o fio de Ariadne
Cobrindo-lhe o corpo nu...
(Ela era aquela a quem ele nunca tivera a coragem de cantar!)
E tudo acabou nesse instante,
Sem nunca ter começado...

O que fica disso tudo?
Um conselho aos homens que (imaginam)
E não criam...
Cuidado com vossas idéias
Que jazem em qualquer canto...
Elas jazem à espera
De forma, de cor, de encanto...
Nega-lhes o encanto?
Incauto!
Elas jazem a espreita...
Olha que um dia se rebelam!

(Parafraseando Neil Gaiman, a diferença entre um escritor e alguém que tem idéias é que o primeiro não teme o “ridículo” de dar-lhes a vida... E talvez, isso, um dia, ainda lhe salve a mesma...)