domingo, 23 de novembro de 2008

Livre da Dor? (Samsara)


Para livrar-se da dor
Pense positivo!
Repouse sob uma pirâmide
Imerso em cristais...
Relaxe... Medite...
Descubra “O Segredo”,
A Lei da Atração...
Imagine amor, saúde e prosperidade
E o Universo conspirará ao seu favor!
Se você assim achar que for,
Meu caro idiota!
Já eu, prefiro "pirar" sob o Universo
Da minha dor...
Onde a “Lei da Atração” é a gravidade,
Que conduz ao fundo do abismo
Onde repousa o verdadeiro “segredo”:
Para livrar-se da dor, basta estar morto!
E eu, que teimo em viver,
Danço com ela uma valsa!
Para exorcizar meus demônios, escrevo-lhes odes!
E, apesar deles,
Tento ser feliz, próspero
E um pouco saudável também...
Às vezes, até relaxar...
Mas me faça um favor
Prezado cultor
Da mística auto-ajuda,
Holisticamente
Aceite que a dor é parte da vida,
E não imagine asneiras, por favor...
Já dizia a canção:

“Tudo é dor
E toda a dor
Vem do desejo
De não sentirmos dor”

E quando o Sol bater
Na janela do meu quarto,
As persianas estarão fechadas...
Porque cantar meu sofrimento
É a maneira que encontrei
De lidar com a realidade
Sempre a um passo da felicidade...

("Mais uma vez
Mais de uma vez...
Quase que fui feliz...")

O Tempo e o Vórtice


Deparo-me, chocado
Com a decoração de Natal
Olhando-me das vitrines
Como quem tivesse tido os seus dias
Roubados, sem perceber...
E, subitamente,
Tomasse consciência do que perdeu...

Porque o tempo,
Este, o do nosso estranho século XXI,
Não passa...
Sem pedir licença
(pois não há tempo para tanto)
Salta!
Como o predador sobre a caça.
Morde a tecitura das horas, a estraçalha
Com a fome hedionda de um cão enfurecido...
E entre os nacos de carne e o sangue esparramados,
Encontro minhas dores, meus cabelos brancos,
As viagens que não fiz, os livros não lidos
Os desamores do quotidiano, a tristeza perene
As impossibilidades do que não vivi
Tudo o que sou, ou talvez virei a ser...
O tempo escoa, como que por um vórtice...
E a fome do cão que, feroz
Devora as horas
É cada vez mais hedionda
E raivosa...

Desistir de tudo?
Deixá-lo cair sobre mim,
Tal qual corça indefesa?
Nunca!
Não quero partir, ainda...
Não quero mais horas perdidas...
Não, sem ao menos ter lido
“O Tempo e o Vento”...
Ah, Érico, se soubesses...
O vento que hoje abranda minhas faces
Vem de um ar viciado, condicionado
(Tal qual minhas ações quotidianas)
O tempo?
Esse não passa de um demônio, a sorver-me
Possibilidades...
O tempo e o vórtice...
Sim, Quintana, eu também escrevo
Diante da janela aberta
(quem sabe, algum dia, algo digno da tua lembrança?)
Porém não é o sol da manhã que contemplo
E sim, a fúria da tempestade
Iluminado pela artificial e mortícia luz
Da lâmpada fluorescente...
E assim sigo,
Esperando ter realizado algo,
Ansiando ter me realizado em algo...
Urgentemente, pois não há tempo!
Antes que o próximo Natal me surpreenda
Com a súbita percepção
Do tempo que perdi...

(“O que foi escondido
É o que se escondeu
E o que foi prometido
Ninguém prometeu
Nem foi tempo perdido
Somos tão jovens...
Tão Jovens!
Tão Jovens!...”)

Fomos tão jovens.

Fé(s): um passeio pelo sagrado


Quando pequeno, perdi minha fé
Precioso brinquedo
Em algum canto
Por tantas carências,
Sofreres, desilusões, desencantos...
Como poderia crer
E ser ainda são?
Achar uma explicação, Pai
Para tua ausência... (1)

Mas a criança que vive hoje ainda
Sob a casca adulta,
Agora crê! E hoje canta,
Canções de ninar a um menino
De filho a pai, encontrei
Um sentido
Não estou mais só... (2)

A criança do passado
Encontrou seu Deus pelo caminho
Tal qual o havia deixado...
E, desde então,
Com ele caminha, como quem passeasse
Com um velho amigo, pela mão.
Ambos,
Questionando nossa presença no Universo
Escrevendo versos...
Quase sempre sem rima,
Mas plenos de intenção!
Vendo quantas Igrejas, Templos, Centros
(espíritas ou umbandistas, candomblecistas...),
Monges budistas,
Hare-Krhishnas,
(Tele)-Pastores,
Católicos, Adventistas
(tantos “istas”, com pouco “theos”)
O quanto disso encontramos em cada esquina
E o quanto de nós
(Mudo)
Lá está, de alguma forma,
Ou quer distância disso tudo!

O meu amigo é generoso
E tem fé!
Ele acredita mais em mim
Do que, por vezes, eu mesmo creio...

O meu Deus é aquele
Que está com todos os que nele
Crêem...
Como força do Bem
E da Luz
Sem reparar na forma que para eles tem
Na figura que lhe fazem
Ou de que nome lhe chamem,
Desde que por ele
Clamem...

Eu, embora libertário (3)
(Ou o que quer que isso seja no século XXI)
Como Tolstoi
(um anarquista cristão – contradição?)
O chamo Jesus, e creio
Nos Santos
Guardiões da fé pura
E na Virgem Maria
(Que, para mim, avisou os pastorezinhos
Pobrezinhos!
Sobre o monstruoso consumismo
Filho da Besta,
O Capitalismo
E nunca mencionou o tal
Comunismo...
Que mal-entendido!)(4)

Ah, pobre João de Deus
Deixaste fugir o Diabo,
Enquanto perseguias uns filhos teus!
Ainda assim, Santo Padre
Apesar dos tantos enganos
(somos apenas humanos!)
Por tua pura fé
És Santo! E Súbito!
Ao menos para mim,
E mais alguns paduanos... (5)

E assim vamos, Deus e eu
Nos buscando em cada canto
Em cada pranto...
E nos achando entre os perdidos...

Deus...
Onde estamos?
O que vemos são novos Judas
A perpetuar sua traição
Cobrando inda mais que trinta moedas
Por nossa devoção?

Pois vejam, hoje
(como em outras eras)
Cobram uma ajuda de custo
Pela ajuda de Cristo!
O meu Deus, que deu,
Sem preço
Seu sangue sagrado
Por nossa remissão, derramado...

E tantos diabos
(Que nada tem de pobres)
Não faltam
Para, em seu nome
Cobrar de quem tem fome...
Vendilhões do templo, cuidado!
Crença não é mercado
Vender a fé é, nesses tempos
O mais hediondo pecado...

Sigo, pensativo, ele comigo
Do meu Jesus, meu Deus
O que ficou?
Uma Igreja Católica, Apostólica
Acima de tudo, Romana
(mais romana que César... ou Nero?)
Que se desculpa
(Inquisições, quantas culpas!)
Por crimes indesculpáveis
Contra crianças! (6)
Mas não perdoa
Ou entende
Nossos atos humanos
De natureza divina...
Capitalizando-os em pecados
Para enriquecer mais ainda
Com as consciências feridas
Sua Santidade perdida...
(Ostensórios de ouro
Ao filho de um carpinteiro?)
A dor é tua moeda corrente
A culpa é tua medida!

E a fé é mesmo um Show? (7)
Milagres transmitidos em troca de valores
(E não virtudes!)
Em imagem digital
Com alcance Universal? (8)
Neopentecostal, neoliberal
Letreiros em neon
Marketing total...

Não rotulemos, no entanto
Há o “crente” verdadeiro
Que faz da Bíblia
A Palavra, fonte de Vida
Esse é meu irmão, com quem
Diante do Teu Trono, Yahvé
Louvo todos os cantos...
E faço uma Aliança
Com o Deus da justiça
E da tolerância
Louvando o diferente
Pois, aos teus olhos
Somos cada um de nós, somente
Únicos... Tementes...

Outras crenças, também
Não esqueçamos:
Os reencarnacionistas, kardecistas
E aqueles que resolveram ser
"Além" Kardek...
Vozes do além
“O telefone só toca
De cima para baixo”
Dizia o saudoso Chico (9)
Saudoso mesmo...
Em um mundo artificialmente florido
Com Violetas na Janela
Que custam tão caro
E nada tem a dizer...
Que escreverias sobre isso
Emmanuel? E tu, André Luiz?
(Nem há dois mil anos esse é o nosso lar!)
Sejas franco, Divaldo!
O Livro de hoje ainda é dos Espíritos
Ou dos espertos?
Não esqueçamos o precioso bordão:
“Fora da caridade não há salvação”. (10)

A caridade me guia, ás vezes
Ou deveria
E Deus também encontro
Entre Orixás, Caboclos e Guias
(Deuses ou Demônios?)(11)
Ou apenas sinônimos
De profetas, anjos ou santos
Por vezes anônimos?
A conduzir pela longa estrada
Os herdeiros, de ricas raízes
De altiva raça
Sangrada, escravizada
Pelos homens brancos
Guardiões da cruz
A crucificar seu semelhante
Por pequenas diferenças...
Cores, crenças
Européia sentença
Que sangrou a negra África...
Velho Mundo
Pretos Velhos...
Nos mostrem com sua Luz e perdão
O caminho da Redenção...

E se coroas eu tivesse
Três Coroas eu daria
A quem, entre dharmas e karmas
O Buda nos trouxe
De longínquas paragens
Do Tibete longínquo
Aos Pampas distantes... (12)
Os Lamas a girarem
As rodas do perdão
Meditação, renúncia, determinação...
(O pensamento, meu inimigo, não mais engana)
Ao desapego entoam sua canção
Não à raiva, ao conflito, à emoção...
Mas será o Nirvana
A negação da condição humana?
Não sou um espelho
Mas reflito sobre isso...

Tantos caminhos...
Espero ver um dia
A brilharem num mesmo céu,
Lado a lado, contentes,
A Estrela de David
E a Lua Crescente
Do Profeta Maomé
Junto à Estrela de Belém...
Signos da fé
Brotados do teu coração,
Patriarca Abraão!

Enquanto isso,
Convido o meu Cristo
A passear comigo na Andradas, rua encantada (13)
No sábado, sétimo dia adventista
Entre camelôs, livros, revistas
A compor, qual repentista
Mantras sagrados com o “Hare-Khrishna”
Que vende incensos na Esquina Democrática... (14)
(Fios de fumaça sagrada
Que rumam direto ao Ganges
Na silenciosa madrugada
Ao sons do Gitã...).

Somos tantos...
Por que não seguirmos todos
Juntos?
Imagine, Lennon...
Um mundo com todas as religiões
E um único Deus? (15)
Ideal comum
Pois o Sagrado tem mil faces,
Mas é só um
E a Paz e o Bem
Não deverão ser estranhas entre si, algum dia...

Assim seja, Amém! Alá Al Aksa! Namastê! Shalom! Saravá! Hare Khrishna! ...


Notas:

Um poema não deveria ter notas... São científicas, burocráticas demais... Esse, porém, traz questões confessionais, outras históricas, que fiquem talvez obscuras. Para compartilhar inteiramente minhas intenções com o leitor, lanço mão delas...

(1) A ausência do pai é referida no meu sentido familiar (e, por extensão para uma criança desiludida, divino...). Meu pai não assumiu minha paternidade, fui criado somente por minha mãe. Isso teve um impacto indizível sobre minha personalidade.
(2) Hoje sou pai, e a paterninade simbolizou para mim uma forma de Redenção... Passei a ser o "filho da criança que cuido", e vice-versa, recuperando dessa forma, também, minha crença em "Deus-pai"...
(3) Aqui situo minha inclinação de esquerda (ou o que quer que isso seja no século XXI? - "meu partido / é um coração partido"...)
(4) Aparições da Virgem Maria em Fátima, Portugal, em 1917. Alerta da Virgem contra o terrível comunismo... Ou um engano dos três pequenos pastores? "Troça" de marxista-católico (sim, tenham fé porque isso existe!)
(5) O Papa João Paulo Segundo (1978/2005) foi um dos mais hábeis agentes internacionais desmanteladores do comunismo no mundo, perseguindo impiedosamente os clérigos latino-americanos defensores da Teologia da Libertação e de uma postura mais liberal na Igreja Católica. Foi sucedido na Santa Sé por Joseph Ratzinger... Apesar de seu "erros" (ou melhor, escolhas), a figura de João Paulo II é inspiradora para mim e outros tantos "paduanos", é o meu Papa da infância à idade adulta, um digno Pastor de Deus... Não nutro a mesma simpatia por Ratzinger, mas o respeito enquanto católico, pelo que representa.
(6) Pedofilia na Igreja, o assunto do momento... Voltemos a Ratzinger e o documento "Crimens Solicitaciones", em que teria orientado Bispos a abafarem os crimes e silenciarem as vítimas...
(7) Referência irônica à Igreja Internacional da Graça de Deus e ao "Show da Fé" (deixo claro, à "Igreja", não a seus fiéis), do "Missionário" R. R. Soares, cunhado do "Bispo" Edir Macedo e co-fundador da Igreja Universal do Reino de Deus na década de 70. Hoje são inimigos mortais, "sem dar a outra face"...
(8) Igreja Universal do Reino de Deus; o maior estelionato religioso institucionalizado feito em nome de Cristo; uma "empresa" com metas para extrair dinheiro de pessoas fragilizadas e ingênuas... Deixo aqui meu respeito a seus fiéis, minha crítica é à "máquina".
(9) Frase dita pelo médium Chico Xavier, o maior popularizador da Doutrina Espírita no Brasil, ao explicar que as comunicações com os "desencarnados" não dependiam da vontade humana, apenas... Tinham que partir deles.
(10) Todos os recursos obtidos com a venda dos livros de Chico Xavier eram doados para obras sociais. "Violetas na Janela" da médium Vera Lúcia Marinzeck de Carvalho, ditada por Patrícia, e outras obras ditadas pelo espírito Lúcius (ou seria Lúcrus?)de Zíbia Gasparetto, inauguram a era do "best-seller espírita". Estes tem enriquecido exponencialmente a médium(?) Zíbia e seu filho, um intragável pintor mediúnico e "guru" que tinha um programa de TV de "aconselhamento espírita" onde humilhava pessoas diante das câmeras... Emmanuel e André Luís eram guias espirituais de Chico Xavier, que não cobravam nada por suas orientações e obras... "Há Dois Mil Anos" é a obra onde Emmanuel relata os acontecimentos de sua vida como contemporâneo de Cristo; Divaldo Franco ("sejas franco...") é o médium que sucedeu Chico Xavier como referência e liderança junto à Federação Espírita Brasileira - FEB; autoritário e arrogante, não tem um pingo do carisma de Chico).
(11) Orixás, Caboclos e Guias(Deuses ou Demônios?)- aqui, uma pequena brincadeira com o título do livro do "Bispo" Edir Macedo, da IURD, que inclusive teve sua circulação judicialmente proibida por apresentar expresso incentivo à perseguição a liberdade de culto.
(12) Aqui me refiro ao "Kadro Ling", conjunto de Templos Budistas Tibetanos idealizado e construído na cidade gaúcha de Três Coroas, pelo Lama Chagdug Tulku Rimpoche. Hoje é administrado por uma comunidade budista local e duas Lamas, uma delas viúva de Rimpoche. Um lindo local, um pedaço do Tibete nos pampas gaúchos...
(13) A Rua dos Andradas, a "Rua da Praia", no Centro de Porto Alegre/RS, é referida pelo poeta Mário Quintana como "uma rua encantada / que nem em sonhos, sonhei" (poema "O Mapa").
(14) A "Esquina Democrática", local de manifestações políticas e outras, fica no encontro da Andradas com a Av. Borges de Medeiros; pelo menos até o final da década de 90, era o "ponto" de proselitismo do movimento Hare-Krhisnna na capital gaúcha, com seus simpáticos integrantes sempre vendendo a preços simbólicos incensos e livros de sua doutrina.
(15) Na música "Imagine", Lennon propõe como ideal um mundo "sem religiões"... Será? Não são as religiões, ao meu ver, que dividem o homem, e sim este que as usa para tal propósito... Imagino.

Escribir


Sonho ser escritor.
Uma meta, dizes?
Não, afimo:
É um sonho!

Já cumpro bravamente minha parte
Nesse mundo de “metas”
Onde os universos são corporativos,
As ações, não espontâneas
Mas de Wall Street
E os amigos?
Concorrentes...

(Metas...
Os sonhos cronometrados
Parecem insípidos,
Cobertos de plástico
Como carne congelada)

Agora, enquanto poeta
Me permita, então
A liberdade de sonhar
Em viver do criar
Talvez, um dia...

Seria uma meta?
Quem diria...
Não!
É um sonho, insisto!
Que, ao contrário das metas
Milimetricamente pensadas
Enfrenta, da realidade
A saraivada de balas
De peito aberto, e sem “plano B”
Correndo o risco de morrer mártir
E perecer eternizado
Filho, árvore, livro...

(Só as palavras, os filhos e as árvores nos fazem viver para sempre...)

November Rain...


Em 30 de novembro de 1973 nascia um menino que hoje aguarda as últimas chuvas de novembro para comemorar seus 35 anos...

Sinto que, mais do que nunca, o tempo se escoa...

Tenho nada menos que cinco anos para concretizar meus maiores sonhos... O maior deles, ser escritor, despertou com fúria indomada neste 2008... Depois dos quarenta, ou já serei "alguém", ou serei aquele que "não foi"...

Tenho lido muito, ouvido depoimentos de escritores gaúchos, como o Quintana, o Érico, o Josué Guimarães... Graças ao misticismo da tecnologia dos DVDs, posso ouví-los... Como se fossem vozes do além...

"Falam" muito sobre o papel do escritor: compromisso com seu tempo, sua sociedade...

Certo, cumprirei meus compromissos, mas não haverá outro jeito, ao menino de 30 de novembro, do que contar suas histórias a partir dos elementos que o fascinaram, por assim dizer, desde o berço, quando um calafrio na espinha o fazia tremer à abertura da novela (1974?) "Pavão Misterioso"....

O fantástico, o impossível, os mortos e fantasmas, assassinos em série, mundos alternativos, passados alterados... Toda a mítica que bebi da ficção e das histórias em quadrinhos nesses quase trinta anos de leitor e cinéfilo, tudo isso haverá de impregnar meus trabalhos, alguns dos quais dormem inquietos na mente, imploranto por tempo e oportunidade de plasmarem-se concretos...

A concretude do absurdo...

Por hora, posto aqui uma nova safra de poemas, escritos nos últimos dois meses... E espero as últimas chuvas de novembro, para que os sonhos se concretizem... Somente a palavra, única amiga e amante fiel de todos esses anos, levará meu nome além do tempo, além de mim mesmo, e juntamente com meu amado filho Matheus, contará aos meus netos o que pensava esse menino, nascido num 30 de novembro do século XX...

Feliz aniversário, envelheço na cidade!

terça-feira, 14 de outubro de 2008

Rendição


Estou cansado de fugir...
Se eu fosse um criminoso,
Me entregaria...
E, paradoxalmente,
As grades e o concreto
Trariam a proteção não encontrada
Ao ar livre, ao céu aberto...
Mas não cometi nenhum crime!
E a culpa?
A culpa vem do fato de eu ser
Dubiamente
Eu(s) mesmo(s)...
E apesar do entendimento,
De todo os reveladores
“Insigths” de auto-conhecimento,
O que resta?
Resta a vontade de erguer
As mãos ao alto
Num gesto de impotência
Ser algemado, coagido
Ser conduzido
A uma cela solitária
Com paredes cruas
E a um pôr-de-sol que nasce
Entre barras de ferro
Um pequeno quadrado emoldurando o céu infinito...

(A paz dos condenados,
O estancar do tempo
Em uma pena perpétua...)

Por quê? Como dizia o poeta:
“Por tanto amor
Por tanta paixão
A vida me fez assim...
Doce ou atroz,
Manso ou feroz,
Eu, caçador de mim...”

Caça e caçador, diria outro cantor...

E eu?
Eu me rendo...

domingo, 28 de setembro de 2008

Palavrismos (3)














Matamos o tempo
O tempo nos mata
Dizia o sábio
Machado de Assis...
Mas, se nos mata o tempo
(Seja com um machado, uma foice ou um cadafalso)
Soaria falso
O contrário dizer
Que o tempo nos vive?
E, através do seu passar, ou
Do seu “matar”
Mortos, tornamo-nos eternos?
Pois, do contrário
Em que outro cenário
Que não o do teatro do tempo
O pecador Francisco
Se faria Santo...
Em Assis!
E, Santo morrendo,
(o sábio!)
Ficaria, assim, eterno
Matando o tempo...
Que nos mata?
Ou, como dizia
Nos vive...

(Foi-se o teu tempo... Como o mataste?)

Palavrismos (2)


Ao homem que não sabe
Onde quer chegar
Qualquer porto lhe serve
Filosofava Lao Tse...
Outro desconhecido dizia
(Onde, ao certo, não se sabia)
Que quem tem boca vai a Roma
Ou ao rumo?
Pois é... quem diria?
Da China à Santa Sé
Mesmo o homem sem fé
Vagando ao Lao, ou ao léu
A palavra conduz
Na escuridão, ou na luz
Aonde se quer chegar...
Mesmo se, ao lá estar
Perceba-se que lá não é
Onde se queria quedar...
Deixa estar...
Que este porto, mesmo, serve,
Ao homem
(Sem rumo!)
Que não quer nem saber
Onde chegar...

Palavrismos (1)


Palavrismos (1)

[A proposta da série “Palavrismos” (malabarismos com palavras) compara a poesia a um malabarismo, misturando ditos e sentenças, dando-lhes algum sentido e equilíbrio, em seu movimento aleatório... Tal como o menino no sinal...]


Estar assim a jogar
As palavras
Como o menino, paupérrimo
Lança ao alto
Sobre o asfalto
Bolas diante do sinal
Vermelho
Em busca de comida, alívio, dinheiro...

Eu, no entanto, cobre não busco
Nem alimento
Me contento
Com o movimento
Das palavras, multicores
A girarem, doidas
Ao vento
Formando sentenças
Desalentos...
Produzindo encantamento
Ao menos para mim!
Paupérrimo menino
Entretido em sua arte...
(Palavrismos!)
Que, esquecido do sinal,
Aos carros deixo, afinal
Dividirem-me em muitas partes...
E as palavras jazem, agora,
No chão...
E, ainda que não rimem
Fazem, afinal, algum sentido...

A espetaculosa morte do homem que não criava


Foi ao cair do sol
De uma morna tarde
Duma incipiente primavera
Quando teve fim a rotina burocrática
De sua monótona vida...

Parou para atravessar a rua
Mecanicamente, como era de hábito
Controlado, cordato, contido
Quase sem sal...

E tudo iniciou numa fração de segundos
A rebelião de suas monstruosas
E fantásticas criaturas interiores
Que, por medo, preguiça ou mesmo falta de fé
Ele condenava a perecer,
Natimortas!
Nos seus abortos diários do não-criar!

De pé, encarando o semáforo
Contemplava passivo o sinal vermelho
Quando, com vermelho-tinto
Inundou a rua, seu sangue profuso...

Atropelado? Não, antes fosse...
Ele explodiu. Como?
Ninguém sabe ao certo...
E sabem, ainda menos
Explicar o bizarro cortejo
Das fantásticas figuras
Surgidas de sua morte...

A começar pelo Navio Pirata
Que singrava ousado o rubro Mar de Sangue,
Brotado de seu peito
Seguido por um Corcel Branco
Com asa de anjos, tal qual Pégasus...
E que dizer dos pequeninos
Diabólicos, gargalhantes,
Vestidos como duendes
A saquear, travessos, as pessoas perplexas?
Os trens antigos, os zepelins e os carros do futuro,
A conduzir uma bárbara multidão de idéias alucinadas
(Mas, que ainda assim tinham algum sentido)
Decretando a queda da Roma da Razão...

Essas criaturas todas,
Quimeras absurdas!
Brotaram livres afinal!
De suas veias e pensar...
E, seu expirar final,
Deu-se, quando, rompido em mil pedaços
Libertou o mais ancião e sábio dos Dragões
Montado pelo último dos últimos Nobres Cavaleiros...

E, para fechar-lhe os olhos
(Ou o que sobrara deles)
Surgiu do seu coração em frangalhos
A mais bela Musa
Pairando suave...
Os cabelos longos como o fio de Ariadne
Cobrindo-lhe o corpo nu...
(Ela era aquela a quem ele nunca tivera a coragem de cantar!)
E tudo acabou nesse instante,
Sem nunca ter começado...

O que fica disso tudo?
Um conselho aos homens que (imaginam)
E não criam...
Cuidado com vossas idéias
Que jazem em qualquer canto...
Elas jazem à espera
De forma, de cor, de encanto...
Nega-lhes o encanto?
Incauto!
Elas jazem a espreita...
Olha que um dia se rebelam!

(Parafraseando Neil Gaiman, a diferença entre um escritor e alguém que tem idéias é que o primeiro não teme o “ridículo” de dar-lhes a vida... E talvez, isso, um dia, ainda lhe salve a mesma...)