sábado, 25 de agosto de 2007

O Baú dos Ossos...


“O Baú dos Ossos”... Fantástico produto
Da imaginação de um poeta...
Pois os baús, salvo muitas utilidades que tenham
Lembram a mim, um pouco ainda criança, tesouros!
E os ossos (não animados, mas soltos) projetam em mim,
Lamentavelmente adulto, envelhecendo,
A sombra hedionda da morte...
Mas nos baús também se guardam coisas antigas,
Fotos amarelecidas, velhas cartas e outros pertences,
A espera de serem encontrados,
Que resgatam, perenemente, as lembranças de quem já se foi...
E os esqueletos? Bem, os esqueletos nem sempre...
Falam do fim
Pois podem habitar entre os vivos,
Dentro de seus armários com “desing” moderno,
A esconder verdades inconvenientes e palpitantes...
(Que pretendem, ingênuas, manterem-se longe de olhos alheios...)

Duas Solidões...


Quando a minha solidão
Encontrou a tua,
Achou que, finalmente,
Acompanhada estava...
Acercou-se dela, afagou-lhe os cabelos,
E beijou-a longamente, selando sérias promessas... Encantada!
E, pela primeira vez, sentiu-se em paz...
Mas a tua solidão... ingrata!
Foi buscar, com outras cores,
Os mesmos quadros que devotamente eu lhe pintava...
E restou, comigo, novamente o nada...
Ingrata? Não... Talvez sensata...
Iludida, talvez, seja a solidão que me cabe:
Tentando preencher seus vazios
Com as lacunas alheias...
Quem sabe?

Poema Promíscuo...


Dediquei-te um poema,
Imaculado
Do qual pouco caso fizestes..
Então à outra, como um teste,
Dediquei o poema desprezado
E ela me recebeu em seu seios, inconteste... (!!!)
Usar o poema, então, tornou-se um vício,
E de poeta devotado,
Passei a espalhar um poema de pecado,
Em busca dos prazeres que não destes...
Até que um dia caiu, o poema,
Infectado
De um vírus que o faz disseminar-se,
Alucinado
Matando sua fome em corações cansados...
Poeta !!! Se a miséria da saudade te diverte,
E a vida ainda queres,
Preserva, então, teus versos !!!
Não compartilhes tuas intenções,
Nem te injetes alheios sentimentos !!!
Testa antes o sangue de tuas musas,
Pois o preço a pagar por um poema promíscuo
É deveras alto:
Monstros vorazes, nunca saciados, multiplicados,
Tomarão conta de ti, tuas dores,
Teus amores, teus enfados...
Até findares, consumido, definhado,
Pelas chagas dos teus sonhos encantados...

O Caderno do Avesso


Um caderno do avesso, do avesso escrito,
Para traduzir ao inverso,
Minha agonia em êxtase,
Minha solidão em compleitude,
Minhas dúvidas em (ao menos alguma) certeza...
Traduzir minha obscuridade em clareza, e
Minha amargura em paixão...
Se simples assim fosse,
Reescreveria uma a uma as rasuradas páginas
Da minha vida...
E não te deixaria partir, ou antes,
Encontraria-te antes ainda, e escreveria
Novos versos, de um amor plácido e constante
(Ao invés da intensa tempestade que precedeu a calmaria da tua ausência...)
A vida toda escrita de traz para diante,
Corrigindo os erros no sentido oposto...
O que foi lágrima, sorriso,
O que feriu, afago,
E mesmo o verme da solidão que me devora,
Reinventado, seria a plenitude de tua presença,
E o tempo perdido
Seria o encontrado...

A Fantasia das Musas


Fadado a perseguir-te eternamente
Maldita inspiração,
Busco a Musa que (lâmina afiada) me faça
Verter (o sangue) em versos, essa angústia amarga
Que transborda, triste, do que sou...

E, para cantar o amor,
(essa mítica sereia da qual só ouço o nome falar,
e da qual só vejo vultos)
Visto minhas quimeras com corpos e psiques emprestados,
Que por aí encontro... Por que busco!

Então não seria a ti que amo,
Mas a uma criação por mim composta?
Pois, para amar-te, dei-te as roupas, a fantasia
Dos meus delírios
Passando a louvar o que é meu, e em ti reflito...

Silencia, verdade! Cala-te, grito!
Não importa: ainda que eu invente, minta,
Seguirei a perseguir-te,
Ó tão sonhado alívio de minhas dores,
Contando um dia encontrar-te, ainda que sejas somente
O sublime Nada, e não existas, sequer,
No meu aniquilamento...

Dança Macabra...


O "são" é aquele que valsa
Com a Indesejada Dama da Noite,
Sob o pálido luar...
Ao final da valsa, apenas um beijo
E, só, deixa-a ficar...
"Não há pressa de te encontrar..."
O "são" escala os montes nevados
Para que se preservar?
Porém, diante do abismo
Não se arremessa, antes
Apenas deixa-se estar...
"Ainda não hoje... mas ganharei o ar...".
Contemplas, tu também, a face da morte, e vê:
De que outra forma te se saberias "são"???

Poema Suicída


Cansado de sua falta de rima
De seus versos tortos
E seus temas sempre sofridos
Naquela manhã de inverno
Botou um ponto final em si mesmo.
E aquela página amarelada
Agora jaz, esquecida,
Não pulsa mais tristeza
Não pulsa mais nada...
E os que julgaram seu ato?
Ora! Alguns com pena,
Outros felizes por estarem vivos
São todos aqueles que,
Ao lerem o poema triste
A qualquer momento podiam fechar o livro...
Não ele.
Era a Dor impressa com a tinta do
Desamparo
Nas páginas do esquecimento...
Agora jaz...

sexta-feira, 24 de agosto de 2007

Poema Bipolar


Um poema transtornado
Afetivamente bipolar
Às vezes maníaco,
Outras deprimido
Mas poema...
Seria eu um santo?
Há um halo sobre minha cabeça...
Haloperidol.
Ou estaria psicótico?
E cá estou, meio ácido, perdido na minha agressividade...
Valpróico. Prosaico...
Perdendo e ganhando a cada dia,
Fluoxetina.
A vida flui,
Flui o que se tinha, flui o que se perdeu...
Lítio. Li... Leio, ainda.
Li, em algum lugar,
Que Freud teria dito que " (...) no futuro
a química resolveria tudo (...)"...
E em outro lugar, não lembro,
Ser tudo placebo, e a crença a cura...
Se "o poeta é um fingidor
Que finge não ser sua
A dor que deveras sente" (seria isso?)
Quisera eu, demente, fingir não ser tudo verdade...
Mas se confessei os nomes, os crimes,
Ainda não cheguei na dose certa
Onde a mente se equilibra
E a incógnita que somos desperta...

(Estou enlouquecendo à velocidade do pensamento...)