sábado, 10 de novembro de 2007

Sonhos Mortos...


Flores vívidas da minha infância
Carinhosamente cultivadas,
Meus sonhos...
Um amor verdadeiro,
Uma viagem à Terras Distantes,
Um saber-fazer-algo-como-mais-ninguém,
Jazem mortas sob o Sol escaldante
Da monocromática vida real...
Ah! Quisera eu que a vida fosse
Em parte mentira, ficção talvez
E eu pudesse escrever seu roteiro
Com as cores múltiplas do imaginar...
Viveria então na tal Terra Distante,
Nos braços da mais encantadora de suas filhas
E em sua vida seria
Aquele-que-sabe-fazer-algo-como-mais-ninguém:
Fazê-la amada e feliz...
Mas eis que, dos meus mais loucos devaneios,
Vislumbro de relance tua luminosa presença
Junto a mim...
E das lágrimas brotadas da esperança
Que perpassa meus olhos
Regadas as cinzas dos meus sonhos mortos
Brotam outros sonhos, afinal...

O Feitiço de Áquila


Apenas por um instante
Ao pôr do Sol
Posso olhar nos olhos de minha amada
Para além da maldição que nos separa
Apesar de estarmos sempre juntos...
Pois, no instante seguinte,
Não mais humano,
Fera eu sou, um lobo triste
A guardar seus caminhos na escuridão...
Apenas por um instanste
Ao nascer do Sol
Posso olhar nos olhos de minha amada
Para além da maldição que nos separa
Apesar de sempre estarmos juntos...
Pois, no instante seguinte,
Não mais humana,
Livre ela é, pássaro resplandescente
A rasgar as alturas
Guiando meus caminhos sob a luz...
Magias estudo, no oculto me embrenho,
Ah! Conjuro as forças insanas da natureza!
Submeto os Demônios,
E dos Arcanjos busco a intercessão...
Aguardando impaciente o dia em que,
No sacrifício do Eclipse,
Possa eu, melancólica Lua
Unir-me novamente ao teu corpo,
Sol radiante
E, mergulhado em tua essência
Viver e morrer eternamente
Nessa doce Comunião...

Incertezas


O porto do amor
E suas belezas
Isso, somente, sei que busco
(Além das tantas buscas outras)...
Onde ancorar?
Incertezas...
Pois o porto que um dia me abrigou
E me sorriu
Parece agora não mais estar...
E, eis que novo porto surge...
Arriscar?
Talvez...
Não.
Delícia mesmo é singrar
O vasto mar, com suas fartas brizas
À espera de um dia chegar...

Homens são de Marte


Homens são de Marte,
Mulheres são de Vênus...
E os poetas?
Bem, os poetas estão em algum lugar
Entre Andrômeda e Alfa-Centauro,
Fugindo do vácuo dos buracos negros...
Homens fazem sexo,
Mulheres fazem amor...
E os poetas?
Os poetas amam o amor,
Transam com os sentimentos,
Deleitam-se com as palavras,
E gozam, com suas musas,
Versos, ainda que imperfeitos
Saciantes...

sexta-feira, 7 de setembro de 2007

Ângulo Diverso


Para entender-me, de fato
Deves olhar-me de um ângulo diverso...
Encarar-me de frente
Não te dirá nada,
Além da agonia instantânea
De um momento...
Ao me ver passar, captarás apenas
Os restos de uma intenção que já se foi...
E, se me vires a caminho...
Ora! Como advinharás o que sequer ainda
Eu mesmo sei?
Encontrarás a minha essência, de fato,
Olhando o meu avesso...
Além de pele, músculos e ossos
Aquele que está oculto, e escreve
O drama dos meus dias...
Esse sou eu...
Visível apenas de um ângulo diverso,
O meu próprio ângulo...

Cidade dos Anjos...


O Amor é, de início
Fascinação, espírito...
Imortal, porque irrealizado...
Para se tornar tangível,
Carne,
Deve dar-se a queda,
(Para unirem-se o Anjo e o Humano
Em perfeita sintonia...)
Mas, se a alegria do encontro
Mostra-se efêmera,
E o amor acaba em solidão, exílio,
Resta apenas a lembrança dourada
Do seu êxtase...
E a dor lancinante,
De suas feridas... Humanas !!!
(Ainda assim, Anjo, elevado as alturas...)

Vazio...


Tão cheio de mim...
Pleno de saberes...
Cumulado de dúvidas...
E vazio?

Cheio de carne, sangue, ossos,
Um fantoche perfeito
Animado por uma alma,
À tua imagem e semelhança,
E só?

Deus !!! Por que,
Da poeria das estrelas,
Criastes também essa enigmática
Sensação de vácuo?

Por que não se basta o homem,
A si mesmo?
Assim, escravo eu sou
Da busca de alguém
De quem deva eu também
Preencher o Abismo...

Vasto Mar


Aqui estou eu, a singrar
O vasto mar do tempo,
Em tua busca,
Ó mítica sereia,
Ainda que saiba que és somente
Ilusão,
E os teus cantares
Arrastam-nos ao fundo das águas...

Quisera eu, porém, pela vez primeira
Na vida,
(E a última na morte)
Mergulhado nesse vasto mar,
Ver teu semblante
Banhado pela luz e,
Ouvindo tua música dissonante
Afogar-me por contemplar tua beleza...

Assim é o amor, sublime e infame...
Potência onde os soluços de gozo e deleite,
Mesclam-se aos estertores
De um afogado...

sábado, 25 de agosto de 2007

O Baú dos Ossos...


“O Baú dos Ossos”... Fantástico produto
Da imaginação de um poeta...
Pois os baús, salvo muitas utilidades que tenham
Lembram a mim, um pouco ainda criança, tesouros!
E os ossos (não animados, mas soltos) projetam em mim,
Lamentavelmente adulto, envelhecendo,
A sombra hedionda da morte...
Mas nos baús também se guardam coisas antigas,
Fotos amarelecidas, velhas cartas e outros pertences,
A espera de serem encontrados,
Que resgatam, perenemente, as lembranças de quem já se foi...
E os esqueletos? Bem, os esqueletos nem sempre...
Falam do fim
Pois podem habitar entre os vivos,
Dentro de seus armários com “desing” moderno,
A esconder verdades inconvenientes e palpitantes...
(Que pretendem, ingênuas, manterem-se longe de olhos alheios...)

Duas Solidões...


Quando a minha solidão
Encontrou a tua,
Achou que, finalmente,
Acompanhada estava...
Acercou-se dela, afagou-lhe os cabelos,
E beijou-a longamente, selando sérias promessas... Encantada!
E, pela primeira vez, sentiu-se em paz...
Mas a tua solidão... ingrata!
Foi buscar, com outras cores,
Os mesmos quadros que devotamente eu lhe pintava...
E restou, comigo, novamente o nada...
Ingrata? Não... Talvez sensata...
Iludida, talvez, seja a solidão que me cabe:
Tentando preencher seus vazios
Com as lacunas alheias...
Quem sabe?

Poema Promíscuo...


Dediquei-te um poema,
Imaculado
Do qual pouco caso fizestes..
Então à outra, como um teste,
Dediquei o poema desprezado
E ela me recebeu em seu seios, inconteste... (!!!)
Usar o poema, então, tornou-se um vício,
E de poeta devotado,
Passei a espalhar um poema de pecado,
Em busca dos prazeres que não destes...
Até que um dia caiu, o poema,
Infectado
De um vírus que o faz disseminar-se,
Alucinado
Matando sua fome em corações cansados...
Poeta !!! Se a miséria da saudade te diverte,
E a vida ainda queres,
Preserva, então, teus versos !!!
Não compartilhes tuas intenções,
Nem te injetes alheios sentimentos !!!
Testa antes o sangue de tuas musas,
Pois o preço a pagar por um poema promíscuo
É deveras alto:
Monstros vorazes, nunca saciados, multiplicados,
Tomarão conta de ti, tuas dores,
Teus amores, teus enfados...
Até findares, consumido, definhado,
Pelas chagas dos teus sonhos encantados...

O Caderno do Avesso


Um caderno do avesso, do avesso escrito,
Para traduzir ao inverso,
Minha agonia em êxtase,
Minha solidão em compleitude,
Minhas dúvidas em (ao menos alguma) certeza...
Traduzir minha obscuridade em clareza, e
Minha amargura em paixão...
Se simples assim fosse,
Reescreveria uma a uma as rasuradas páginas
Da minha vida...
E não te deixaria partir, ou antes,
Encontraria-te antes ainda, e escreveria
Novos versos, de um amor plácido e constante
(Ao invés da intensa tempestade que precedeu a calmaria da tua ausência...)
A vida toda escrita de traz para diante,
Corrigindo os erros no sentido oposto...
O que foi lágrima, sorriso,
O que feriu, afago,
E mesmo o verme da solidão que me devora,
Reinventado, seria a plenitude de tua presença,
E o tempo perdido
Seria o encontrado...

A Fantasia das Musas


Fadado a perseguir-te eternamente
Maldita inspiração,
Busco a Musa que (lâmina afiada) me faça
Verter (o sangue) em versos, essa angústia amarga
Que transborda, triste, do que sou...

E, para cantar o amor,
(essa mítica sereia da qual só ouço o nome falar,
e da qual só vejo vultos)
Visto minhas quimeras com corpos e psiques emprestados,
Que por aí encontro... Por que busco!

Então não seria a ti que amo,
Mas a uma criação por mim composta?
Pois, para amar-te, dei-te as roupas, a fantasia
Dos meus delírios
Passando a louvar o que é meu, e em ti reflito...

Silencia, verdade! Cala-te, grito!
Não importa: ainda que eu invente, minta,
Seguirei a perseguir-te,
Ó tão sonhado alívio de minhas dores,
Contando um dia encontrar-te, ainda que sejas somente
O sublime Nada, e não existas, sequer,
No meu aniquilamento...

Dança Macabra...


O "são" é aquele que valsa
Com a Indesejada Dama da Noite,
Sob o pálido luar...
Ao final da valsa, apenas um beijo
E, só, deixa-a ficar...
"Não há pressa de te encontrar..."
O "são" escala os montes nevados
Para que se preservar?
Porém, diante do abismo
Não se arremessa, antes
Apenas deixa-se estar...
"Ainda não hoje... mas ganharei o ar...".
Contemplas, tu também, a face da morte, e vê:
De que outra forma te se saberias "são"???

Poema Suicída


Cansado de sua falta de rima
De seus versos tortos
E seus temas sempre sofridos
Naquela manhã de inverno
Botou um ponto final em si mesmo.
E aquela página amarelada
Agora jaz, esquecida,
Não pulsa mais tristeza
Não pulsa mais nada...
E os que julgaram seu ato?
Ora! Alguns com pena,
Outros felizes por estarem vivos
São todos aqueles que,
Ao lerem o poema triste
A qualquer momento podiam fechar o livro...
Não ele.
Era a Dor impressa com a tinta do
Desamparo
Nas páginas do esquecimento...
Agora jaz...

sexta-feira, 24 de agosto de 2007

Poema Bipolar


Um poema transtornado
Afetivamente bipolar
Às vezes maníaco,
Outras deprimido
Mas poema...
Seria eu um santo?
Há um halo sobre minha cabeça...
Haloperidol.
Ou estaria psicótico?
E cá estou, meio ácido, perdido na minha agressividade...
Valpróico. Prosaico...
Perdendo e ganhando a cada dia,
Fluoxetina.
A vida flui,
Flui o que se tinha, flui o que se perdeu...
Lítio. Li... Leio, ainda.
Li, em algum lugar,
Que Freud teria dito que " (...) no futuro
a química resolveria tudo (...)"...
E em outro lugar, não lembro,
Ser tudo placebo, e a crença a cura...
Se "o poeta é um fingidor
Que finge não ser sua
A dor que deveras sente" (seria isso?)
Quisera eu, demente, fingir não ser tudo verdade...
Mas se confessei os nomes, os crimes,
Ainda não cheguei na dose certa
Onde a mente se equilibra
E a incógnita que somos desperta...

(Estou enlouquecendo à velocidade do pensamento...)